Como amar Roderich Edelstein
17 Capítulo XVI
Notas iniciais
Capítulo XVI
Roderich estava bêbado pelo sono e pelo analgésico; tive dificuldades ao leva-lo para o quarto. Ele estava muito deprimido e quieto. Bati à porta, chamando por meu irmão, que abriu sem demora. Deitamo-lo na cama, onde voltava ao sono. Lud queria entender o que houve, e lhe contei o que sabia. Ele ficou surpreso ao saber da queda, mas desconfiava.
– Ele não copiava nada em sala, e os exercícios custou a faze-los. Hoje é quinta... Ele foi pra casa no sábado. Deve ter aguentado a dor calado, coitado...
Olhei para o austríaco, com o coração sufocado.
– Não podemos deixa-lo assim... Está de uniforme, e ele nem jantou.
– O que está querendo dizer?
– Ele usa o quê para dormir? – questionei virando o rosto, para ele não perceber o cosplay de tomate que eu estava fazendo.
– Um... Pijama... E... Gilbert! Não vai despi-lo, ou vai?
– O quê que tem? Aposto que você faria o mesmo se a Feliciana estivesse na mesma situação.
– M-mas é diferente! – ele começou a adquirir os tons rosados.
– Diferente? Por quê? – amuei.
– Ah... – ele alisou os cabelos com os dedos – não foi isso que eu quis dizer, Gil... Você sabe, eu reagiria do mesmo jeito se fosse uma garota no lugar dele.
– Lud, é com a melhor das intenções! – repliquei, abrindo o armário. – Nossa! Por que o Kiku não dá um jeito nesse guarda-roupa do Rod? Eu mesmo terei que faze-lo! – olhei para o bolo de roupas, tentando achar algo que se parecesse com um pijama. Encontrei um conjunto de flanela azul-celeste, com bolinhas coloridas.
– Eu desconfio que ele goste da mesma fruta que eu – sussurrei, rindo baixo.
Voltei a Rod e ele ressonava tranquilamente. Provavelmente passou noites em claro por causa da dor. Lhe tirei os óculos, sapatos e as meias. Com ajuda de Lud, erguendo o corpo do moreno, tirei o colete e a gravata. Desabotoei a camisa lentamente, com cuidado para não acorda-lo, e tive dificuldade para passar a manga em cima do gesso. Observei o quanto era magro, as costelas bem aparentes. Quando meu irmão ergueu novamente o tronco dele, me chamou.
Eu não conseguia acreditar.
O que Lud me contava já era horrível. Aquela imagem que formava na minha cabeça não era nada comparada ao que eu via. Um caleidoscópio de cores aterrorizante manchavam as costas de Rod.
– L-lud... Isso é... Horrível... – deslizei a ponta dos meus dedos sobre os machucados, com cuidado. – não tem nenhum spray pra isso não?
– Devo ter... – ele tirou um frasco verde de seu organizado armário e me entregou. Tirei a tampa e logo usei o aerossol, aplicando moderadamente. As costas do garoto arquearam com o contato do conteúdo, mas ele não acordara. Vesti-lhe a blusa do pijama e o deitei novamente. Desabotoei a calça axadrezada, sob o olhar de Ludwig, se certificando que eu não acariciasse nada. Muito legal esse meu irmão, confia muito em mim.
Apesar da tentação, me concentrei para apenas vesti-lo. Sua pele era macia e morna. Os joelhos pareciam esfolados, e as coxas tinham manchas também, embora menos intensas. Vesti-lhe a bermuda, terminando assim de deixa-lo mais confortável durante o sono. O cobri com seu edredom verde-claro e o ajeitei melhor. Acariciei seus cabelos num afago, e, como a tentação falou mais alto, me atrevi a beijar-lhe a testa e a bochecha, e não me impedi de sussurrar ao austríaco o óbvio:
– Eu te amo, Roddy.
–x-
Hoje é uma sexta-feira que antecede a semana de provas, obrigando aos alunos a deixarem de lado os compromissos festivos e se dedicassem a estudar – ou revisar.
Apesar de estar preocupado com os problemas de Rod, consegui me aliviar ao saber que ele está sob meus cuidados. Agora posso ficar mais perto dele, oba! Mesmo ele sendo enjoado e muito chato, mas eu me acostumo.
Escolhi estudar no pátio da escola, na última mesa de pedra, a mais próxima do bosque. Queria respirar o ar puro enquanto resolvia cálculos. Até que estava conseguindo com facilidade, visto que meu cérebro é incrível!
Terminei uma folha de exercícios de geometria, passando para álgebra, quando me senti abraçado por trás. Um perfume adocicado e floral. Liz.
– Gil! Estudando muito?
– Sim – não mais, né?!
– Ótimo, quero seu boletim cheia de notas brilhantes!
– Liz, meu amor, para o boletim ficar brilhante, tinha que ter uma foto minha.
Ela riu.
– Faz tempo que não ficamos sozinhos, não? Sinto falta daquela época...
Oh...
– Liz, pode ser sincera comigo?
– Claro, Gil!
– Por que foi embora?
Ela me olhou hesitante. Forçou um sorriso, perguntou o por quê.
– Foi embora sem mais, nem menos. Não se sai de um colégio como este à toa. Não minta para mim.
– Gil... Você sabe... Meus pais preferiram que eu voltasse para a Hungria. Outro colégio fez propostas irrecusáveis, não tinha como eu não querer.
– Ah! Me diga se existe, na Hungria, um colégio melhor que este – apontei para o prédio — Acho que não. Qual foi o motivo?
– Colégio de freiras, meus pais acharam melhor que eu convivesse em um lugar mais puro... E lá tinha aulas especiais...
– Não consigo acreditar – olhei em seus olhos – eu sei quando você mente, e este é um caso.
Elas suspirou, derrotada.
– Me venceu. Eu estava na Áustria. Fui aceita num colégio especial para músicos – meu led interior começou a se iluminar. – e você sabe o quanto amo música.
– Sei – me lembrei de quando ela tocava harpa. Sim. HARPA. – e porque mentiu?
– Gil...
– Não precisa. Por que voltou? Cansou de lá?
– Eu não achava o ensino suficiente, por isso decidi voltar.
– Só? – arqueei uma sobrancelha.
– Gilbert, pra quê isso? Ainda gosta de mim? Eu não estou te reconhecendo.
– Em primeiro lugar, você me deve satisfação sim. Minha melhor amiga mente pra mim, mentiu durante anos, depois volta como se nada houvesse ocorrido, de sorrisos para todo canto. E não, não gosto de você mais.
– Está magoado?
– Imagina – sorri irônico, desejando vomitar o coração despedaçado no uniforme dela.
– Gil, eu sinto muito... As coisas não são simples assim.
– Nunca são – minha voz estava encharcada de sarcasmo.
– Eu sei que você vai compreender... Cedo ou tarde... – ela sorriu. Voltei aos números e letras daquelas equações.
– Talvez. Se puder me der licença, senhorita Hedervary. Ficaria muito agradecido. – ela suspirou e foi-se, sem proferir palavra. Quando se afastou muito, afundei a cabeça nos livros. Mais essa...
–x-
Acordei com uma dor de cabeça terrível no sábado, não parava de latejar. Tomei o café-da-manhã, que consistia em pão doce recheado com ovos e bacon canadense, e uma bela xícara de cappuccino com menta. Aliviou um pouco a dor, poderia ser fome. Um bom desjejum para quem dormiu mal. A nunca coisa que me deixou feliz era saber por meu irmão que Rod estava bem, tomando os medicamentos conforme a receita; só estava sem muito apetite. Portanto eu teria que dar um jeito de animar aquele violinista chato.
Decidi por estudar no quarto, com Lady Gaga – para esquecer os dissabores da tarde de ontem — cantando nos headphones, que eram decorados com ícones dela. Eu não saio com eles por aí, só quando uso o notebook. Resolvia exercícios de química online, quando Antônio me chamou a atenção.
– Visita para você, galego.
Pensei que fosse meu irmão, mas era Feliciana. Vinha toda empolgada, e não tardou em pular na minha cama.
– Gil! Dê uma lida! – ela me estendeu um papel dobrado, toda inquieta, com um sorriso largo nos lábios. Li o conteúdo escrito em letras dourados, muito bonita a letra. Me parecia familiar. Entretanto, o poema era um pouco mal escrito, mas soava sincero.
Olhei para a moça a minha frente, procurando entender o que significava. Ela me contou que recebera o poema junto a uma enorme cesta de flores, multicoloridas. Ela me perguntou, muito esperançosa, se eu acha que se tratava de Lud.
– Veja bem, Feli – doía-me contar a verdade para ela – a letra não é dele... E isso não é de seu feitio... Sinto muito.
Ela parecia muito decepcionada.
– Tudo bem... – sorriu forçado – foi bom enquanto durou. – e num suspirou, se despediu, arrastando-se.
Senti muito por ela, de verdade... Mas isso me deu uma ideia...
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