Como amar Roderich Edelstein
7 Capítulo VI
Notas iniciais
Capítulo VI
Os primeiros raios de sol atravessaram os transparentes vidros da janela, deixando as cortinas levemente amareladas e iluminadas, anunciando o amanhecer. O silêncio do quarto era quebrado por respirações leves dos meus colegas que dormiam tranquilamente. Aos poucos, o sol ia subindo lentamente, e eu curtia os poucos momentos de tranquilidade antes de me arrumar para mais um dia de aula.
Apesar de a costumeira preguiça tomar conta dos corpos dos jovens, especialmente às segundas-feiras, o meu corpo resolveu que não, hoje não. Acordei por volta das cinco horas, sozinho, depois de uma noite sem sonhos. Por mais que tentasse, não consegui dormir de novo, então me contentei em esperar o sol nascer. Estava frio demais para observar a chegada da manhã pela janela. Arrastando os cobertores, afastei um pouco as cortinas e voltei mais que depressa para minha cama.
O final de semana fora usado para arrumar os quartos. Tivemos que limpá-lo por conta própria (eu disse em algum momento que a vida está fácil pra alguém?), guardar as roupas nos respectivos armários. Fiquei tentado a distribuir os meus pôsteres pelo quarto, mas me contentei em colá-los na parede a qual encostei minha cama.
Cada um tinha sua cama, seu armário e um criado-mudo. Uma escrivaninha larga, com três cadeiras giratórias ficava a um canto. Francis queria ir o quanto antes a cidade para comprar luminárias, abajures, enfim, queria decorar e iluminar nosso quarto. Antônio concordou, enquanto espalhava pelo seu canto do quarto, pôsteres do Barcelona, bem como fotos dele e de Lovina, no verão.
Depois do espanhol e eu termos terminados de colar nossos pôsteres e de termos gastado quase três rolos de fita crepe, Francis distraidamente comentou que tinha vontade de pintar o quarto (o que era permitido). Tônio e eu olhamos, respectivamente para os craques do time e para as Lady Gagas. Voltamos nosso olhar para o francês e dissemos em uníssono:
– Desde que podemos colar tudo de volta, por mim, tudo bem!
A gaiola dourada do Gilbird foi presa à parede, no meio de tantas Gagas. Minha Les Paul foi encostada com o braço apoiado num pôster que dizia “você nasceu assim, baby!”.
A primeira coisa que vi quando abri meus olhos foram essas palavras. “Nasci assim” refleti durante um bom tempo. Minha mente vagava nas lembranças de mais ou menos há três anos.
Quando Liz me deixou.
Quando descobri que eu também me atraía por rapazes.
Durante a puberdade, você não tem muita noção do que se está fazendo. Você só percebe que fez alguma coisa idiota quando nota que levou às últimas consequências.
Foi o que aconteceu comigo.
Quando Liz partiu, fiquei bastante chateado. Comecei a ponderar se eu gostava dela de verdade e eu acreditei piamente que sim. Pensei em manter contato, para, quem sabe, até começarmos um namoro de verdade, mas algo me dizia que era melhor não. Descobri alguns meses depois que ela foi enviada para um colégio interno só para meninas, para evitar que ela tenha caso com alguém. Bem, já podemos imaginar quem seria esse alguém. Com os olhos molhados de mágoas, lá foi eu tentar esquecer o coração na gaveta.
Não durou muito. Antônio e Francis não paravam de falar sobre seus corações. Um não parava de listar as garotas que queria ficar, enquanto outro contava sobre uma garota que conhecera. Eu até pediria para que parassem de falar sobre essas coisas, mas preferi apenas ouvir e deixar pra lá. O incrível eu com certeza acharia alguém tão incrível quanto eu.
Dizem que quando menos a gente espera, aparece alguém. E para a minha surpresa, no ano em que Liz saiu, entrou um garoto do meu ano, um dinamarquês sorridente chamado Mathias Køhler. Tinha os cabelos louros espetados e olhos azuis brilhantes. Era bonito, devo admitir. Conversava com todos, mas não demonstrava ainda amizade com ninguém.
Depois de uns meses, ele começou a passar os intervalos comigo. Assim como eu, gostava de Tokio Hotel. Trocávamos musicas, de vez em quando até compúnhamos algumas melodias, entramos para a aula de guitarra que o colégio ofereceu como extra. Ficamos muito próximos, e por pouco, quase deixei meus amigos de lado. Eles teriam notado se não estivessem muito ocupados com seus próprios problemas.
Mathias me abraçava sem pudores, e gostava de mexer nas minhas madeixas, dizendo que eram como fios congelados de água prateada. Não sei se era a carência, ou a falta da Liz, mas me entreguei às novas emoções. Eu tinha a plena consciência de que era errado, em vários sentidos, mas eu me sentia só; Veja bem: tantas pessoas ao meu redor falando de sentimentos e eu achava que era desprezado. Eu levaria isso até o fim.
Numa tarde livre, Mathias e eu decidimos treinar guitarra no meio da floresta. Levamos nossos instrumentos e um amplificador. Tocamos muito, entre risadas e piadas. Em dado momento, enquanto descansávamos, Mathias começou a filosofar sobre os sentimentos na música. Meu coração começara a palpitar quando ele falou sobre o amor; “muitas vezes, pode-se transmitir o sentimento pelas notas, não pela letra” ele sussurrou se aproximando. Meu coração batera o gongo e avisou ao resto do corpo o que aconteceria. A razão saiu de mim e aceitei aquele beijo. Era diferente do de Elizabeta, um pouco mais selvagem, mais radical, mais... errado. E por ser errado, era delicioso!
O despertador de Antônio me fez acordar para a vida. Fui para o banho, relembrando o porque que não deu certo. Mathias começou a se envolver com uns caras que eu não tinha contato, eram todos louros e pareciam frios. Mantinham distância do restante dos colegas e conseguiam parecer mais metidos do que eu. Algum tempo depois, um Gilbird azul me contou que eles queriam formar uma banda e convidaram somente Mathias. Afastamo-nos naturalmente, e eu consegui superar o fato de até hoje ele estar envolvido com o baixista, Lukas Bondevik (ele esbanjava antipatia).
Fiz forças para relaxar com a água quente que descia pelo meu corpo. Tentei superar o fato que Liz estava de volta, que tem um tal de Roderich, que está tentando me afogar apenas com seus olhos. Porque nada é fácil para mim?
– Eu também gostaria de tomar banho, Gil! Vai demorar muito? – Francis socava a porta. Desliguei o chuveiro e saí enrolado na toalha. O francês soltou palavras de baixo calão na língua natal e começou seu banho. Antônio suspirava enquanto arrumava a cama, olhando para as fotos na parede. Não me importei com sua presença e me sequei ali mesmo. Após terminar de me vestir, pus um pouco de alpiste para o Gilbird, que ainda dormia. É bem preguiçoso para um passarinho.
Quando ficamos prontos, descemos para tomar nosso café-da-manhã. Roderich estava lá acompanhado de Lud e Kiku. Nenhum dos três demonstrava qualquer reação.
Meu irmão me cumprimentou um pouco sonolento. Respondi e acenei para Kiku e para Roderich, mas olhando diretamente para o dono dos olhos de ametista, entretanto, ele nem levantou o olhar da xícara de chá. Apenas murmurou um bom dia, e olhe lá.
– Nossa, Gil! Como você mudou!
Oh, não. Essa voz, não!
Elizabeta me abraçou por trás, me pegando totalmente desprevenido.
– Você acha, é? – respondi controlando a minha respiração.
– Você cresceu! Está mais bonito! Anda conquistando muitas garotas, não é?
Falta total de sensibilidade por parte dela.
– Você também está mais bonita, Liz. – Ela me soltou e nos encaramos; de fato, ela conseguia ficar mais bonita cada dia mais! Droga, meu coração deve ser masoquista.
Roderich nos olhava com certa curiosidade. Não ousei olhar em seus olhos diretamente, mas sentia que ele começara a intensificar o seu olhar. Será que ele gosta da Liz?
Fale com o autor