Como amar Roderich Edelstein
8 Capítulo VII
Notas iniciais
Capítulo VII
O café-da-manhã fora bastante agitado pelas conversas. Francis e Antônio punham certa húngara a par das novidades do colégio e de nossa turma. Os olhos verdes de Liz faiscaram de alegria ao saber que Antônio finalmente conseguiu conquistar (parte) do coração de Lovina. Feliciana, que antigamente seguia a mais velha por todo canto, estava de braço dado com ela, também contando sobre as fofocas das meninas.
Foi um momento comovente. O que antes era uma memória embaçada estava vivo e forte na minha frente. Ah... Quantas saudades eu senti de ter momentos como este! Apesar dos assuntos e alguns detalhes estarem diferentes, me lembrei da minha pré-adolescência, que eu pensava ser complicada, mas acreditava que depois tudo iria se acertar.
Como eu fui bobinho.
A cada dia que passa, sinto um punhal sendo lentamente enterrado no meu peito. Eu queria saber por que diabos minha vida amorosa não pode melhorar, ou ficar mais fácil de carregar.
Com a exceção do ano passado, os demais dezesseis anos da minha vida (ok, vamos tirar a primeira infância) foram um tormento. Bullying, coração quebrado, altos e baixos na escola... E nunca há previsão de melhora.
Depois de termos escovado os dentes e irmos para nossas salas, o professor de geografia decidiu que iríamos realizar um trabalho em grupo, na sala, valendo três pontos na média.
Eu naturalmente ia me reunir com o Francis e Antônio, mas tinha umas cinco meninas brigando pelo garoto louro. Algumas já vieram arrastando as mesas para fazer o trabalho comigo, e eu me sentia sufocado. Por causa da bagunça. O professor se estressou e decidiu por ele mesmo os grupos.
Desgraça pouca é bobagem. Apesar de um lado meu ficar feliz por fazer grupo com a Liz, o meu outro lado rogou pragas ao saber que eu faria grupo com a Liz E com o Mathias. Bem diziam quando tudo está ruim, pode piorar.
Juntamos nossas carteiras e eu sentia o clima ao redor tenso. Liz e Mathias não se conheciam e por isso não se comunicavam muito. E um não sabia que eu conhecia o outro. Um não sabia que eu já havia beijado o outro.
Meus músculos estavam tensos e meu coração estava acelerado; a respiração pesada estava aparente e eu não conseguia verbalizar nada. Mathias me olhava curioso e Liz tinha uma coloração preocupada no olhar. Tentei relaxar pensando nos pios do Gilbird.
– Bem, vamos começar? Qual o tema do trabalho? – sorri amarelo.
– Acho que é sobre cidades... Bem, temos que começar a criar uma cidade, que seria perfeita... Para todos. – a húngara respondeu
– Tipo um jogo. Bem, temos que usar nossa criatividade – o louro completou.
– Me parece meio socialista... – comentei
– Acho que não. Veja as regras: temos uma verba e vamos distribuir isso com educação, segurança, saúde...
– Um pouco complicado...
– Mas não entendi sobre ajudar o setor industrial... Meninos, vou tirar algumas dúvidas com o professor – Elizaveta levantou-se e foi em direção ao professor. O meu desconforto aumentou ainda mais quando Mathias tamborilava a caneta no tampo da mesa.
– Quanto tempo, não é? – o louro não levantara os olhos.
– Sim... E a banda? – mordi o lábio.
– Estamos procurando uma gravadora. Estamos com um projeto em mãos.
– Fico feliz. E o Lukas?
Mathias suspirou pesado.
– Estamos bem – baixou o tom. – Bem, Gilbert, sinto que lhe devo desculpas.
Encaramo-nos. Seu olhar me contava um remorso.
– Tudo bem... Eu já nem lembro disso. Só não sei por que seus amigos não interagem com os outros... Depois que entrou para a banda, até você parou de conversar com várias pessoas...
– É coisa deles mesmo. E o Lukas é superciumento... – ele me observou por um tempo – eu não sabia se você era...
– Eu acho que sou.
– E você sabe o quão isso acaba com nossa mente, não é?
– Sei – ele ainda parecia não estar satisfeito.
– Então me desculpe pelo beijo – meu caro, meu emocional está mais abalado, por favor, não faça as coisas piorarem.
– Não há motivos para se desculpar. Acabei descobrindo muita coisa depois daquilo, até mesmo quem eu era.
Ele sorriu.
– Então, está tudo bem?
– Sim – sorri de volta.
***
A aula a tarde terminou mais cedo que de costume. O dia estava lindo demais para se ficar trancado no quarto, ainda mais que hoje Luciano e Martín estiveram o dia inteiro trocando farpas sobre algum jogo. Isso significava que ambos iriam bater uma bola, para ver quem entendia mais de futebol. E isso era engraçado, pois sempre terminavam com ofensas e quase ataques físicos.
Levei Gilbird para respirar ar fresco e poder bater as asinhas com mais liberdade. Obviamente, meus fones e meu celular me acompanharam. Selecionei o álbum Born This Way para tocar, e fui desde o quarto até o campo cantarolando baixinho, sendo seguido por uma bolinha de penas amarelas.
Os versos que eu sempre cantei a mim mesmo, nunca fizeram tanto sentido quanto antes.
“Não se esconda em arrependimento
Apenas ame-se e você estará feito
Eu estou no caminho certo, baby
Eu nasci assim”
Eu nasci assim. Nasci? Eu me amo? E em que caminho estou?
A única pessoa que pode responder a essas perguntas sou eu mesmo. Eu nasci assim, lindo e incrível, eu me amo mais que qualquer outra pessoa poderia se amar e o meu caminho... Segue em direção a um mar roxo e traiçoeiro.
Gilbird piava enquanto eu cantava na arquibancada. Ele estava extremamente feliz por poder voar tão livremente. O jogo havia começado e os times escolhidos. Luciano acabara de dar um incrível drible num jogador adversário, o que fez os presentes aplaudirem. Martín estava irritado, o que deixava suas bochechas vermelhas.
Um russo alto e de cabelos bem parecidos com os meus sentou ao meu lado, acompanhado de um chinês carregado de balas de gelatina.
– Boa tarde, Gil! Que lindo o céu, não acha?
– Boa, Ivan... Queria uma dose agora... – pisquei um olho.
– Tch, bebida só nas festas. Os inspetores estão vigiando mais que nunca.
– Me contento então com um pacote dessas amoras. – alarguei o sorriso para o Yao, que me deu um pacotinho de doces na hora – obrigado!
– Por nada, aru! – respondeu, abrindo um pacote de tubinhos cítricos de tangerina e dividindo com Ivan.
O jogo continuava interessante, com provocações de Luciano e Martín, até que o moreno marcou um gol bonito!
– GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL! É DO BRASIL! – berrava Luci, tirando a camisa e rodando-a no ar. Martín fechou a cara com o exibicionismo do rival, ainda mais quando este mandou um beijo para a arquibancada, especialmente para uma garota de cabelos lisos e castanhos, de óculos. Ivan e Yao também comemoravam o gol, com gritos de entusiasmo. Gilbird deu um rasante no campo em comemoração. Também aplaudi meu amigo tupiniquim.
Depois de vestir novamente a roupa, Luciano voltou a correr atrás da bola, mas o argentino estava com o sangue fervendo e começou a jogar com mais vontade. Quase marca um gol, mas até um inspetor aparecer e dizer que era hora do jantar e não, não ia liberar o campo a noite.
Meu pássaro pousou no meu ombro, e fomos para o quarto. O coloquei em sua gaiola com um pouco de sementes e fui tomar banho. Para variar, filosofei um bocado debaixo do chuveiro. Eu deveria abrir meus horizontes, enterrar meu passado e tentar domar o mar roxo. Sim, a decisão certa a se fazer, eu concluí, ao fechar o chuveiro.
Saí de moletom e jeans, secando meus fios brancos na toalha macia e felpuda, quando vi Francis e Antônio com as mãos nos quadris, me fitando, sérios.
– Gilbert, precisamos conversar.
– E é coisa séria – o semblante do espanhol me fez tremer os joelhos.
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