Como amar Roderich Edelstein
6 Capítulo V
Notas iniciais
Capítulo V
Eu tinha dez anos quando entrei na Academia Mundial. Comecei a ler as primeiras letras em casa, quando meu pai contratou professores particulares. Quando comecei a tomar noção das coisas, fui enviado ao primário.
Me lembro como se fosse a pouco tempo. Um criado me acompanhava, com uma expressão indiferente. Eu era bem mais baixo que agora e naquela época, ainda conseguia ver alguma magia nas coisas. “Estou em Hogwarts” dizia a mim mesmo.
Eu acreditava que haveriam crianças legais, com quem eu pudesse brincar e engatar amizades. Quem sabe uma garota bonita para ser minha primeira namoradinha? Eu acreditava piamente que o mundo era justo e perfeito (senão, o que estou fazendo aqui?) até atravessar as portas da minha sala de aula.
Com dez anos, ou se é inocente, ou ignorante, e até mesmo os dois. Eu já tinha conhecimento que eu era um pouco diferente das outras crianças; Era branco demais, sensível demais, olhos vermelhos demais. Vinte pares de olhos me fitavam com curiosidade enquanto a professora me pedia para me apresentar. Apesar do receio, dirigi um sorriso à turma e sem balbuciar, exclamei:
– Eu sou o Gilbert, o incrível! – gerei risada em alguns, outros me olhavam com desdém.
Me sentei numa carteira mais ao fundo. A maioria das crianças já se conhecia, um ou outro era novato. Apesar de demonstrar confiança, no fundo eu sabia que era uma máscara de proteção. Apesar de todos ali terem o mesmo status social, a maioria me olhava com nojo. Não sabia qual era o meu defeito. Eu era diferente? Todos ali eram de etnias diferentes, de várias etnias, e se tratavam muito bem. Achavam que albinismo era uma doença contagiosa? Uma doença letal?
Passou-se semanas e ninguém vinha falar comigo. Eu lanchava sozinho, passava o intervalo sozinho, e sobrevivia o internato com meu irmão, sozinho (nessa época era permitido que irmãos ficassem no mesmo quarto), até que um dia, a professora solicitou um trabalho em sala, formado por duplas. Eu não esperava que alguém me chamasse, nem me dei ao trabalho de chamar qualquer um que seja.
Por algum milagre, a educadora fez um sorteio, assim, ninguém se sentiria rejeitado. Meu nome demorou a sair, e quando saiu, foi junto a de uma menina chamada Elizabeta Herdervary. Aparentemente não se parecia com uma garota; tinha um jeito um pouco agressivo, se comportava como um garoto e só andava com meninos. Apesar de tudo, ela parecia uma esmeralda antes de ser lapidada. Era bonita, ou pelo menos, bonitinha.
Ela arrastou a carteira com má vontade para perto da minha. Eu devo ter rezado quinze terços no intervalo de tempo. “Ela vai me bater, ela vai me bater...”
– Oi. – ela disse secamente.
– O-oi.
Numa expressão entediada, sentou-se ao meu lado. Pegou a folha de comando do trabalho que a professora entregava, e escreveu seu nome com uma caligrafia horrorosa e malfeita. Parecia estar bastante insatisfeita. Empurrou a folha para minha mesa. Enquanto eu tentava não fazer uma letra tão feia quanto a dela, a garota soltou os cabelos, alisou-os com os dedos e os amarrou de novo.
Começamos a resolver o trabalho, um pouco monotonamente. Duplas ao nosso redor soltavam risadinhas baixas. A garota olhava ao redor e continuava enojada. Não falava coisas aleatórias, apesar de ter a fama de conversadeira.
Um fina ponta de mágoa tocava meu coração. Resolvi abrir o jogo.
– Por que ninguém gosta de mim? – mordi meu lábio.
Elizabeta levantou os olhos do exercício e me encarou, indiferente.
– Você é metido. Seu nariz é muito empinado.
Minha incrível pessoa se surpreendeu ao ouvir palavras sendo proferidas como que cuspidas.
– E-eu não... Nunca fiz nada demais...
– Olha, você chegou já se achando porque é um Beilschmidt, não conversa com ninguém, e se acha o especial porque tem olhos vermelhos.
– O-o quê? Nada disso...! Minha família detesta se achar superior, não converso com ninguém justamente porque ninguém se aproxima, e tenho olhos vermelhos por... Por falhas genéticas.
Um brilho de remorso surgiu nos olhos verdes da húngara. Ela refletiu durante alguns minutos e pediu desculpas. Para compensar o preconceito, ela me comprou uma casquinha de chocolate num dos intervalos. Começamos a trocar palavras, discutir preferências em desenhos animados, ou músicas, ou brincadeiras. Ficamos amigos rapidamente e fui apresentado a um amigo dela, Antônio, um espanhol divertido. Este tinha um amigo chamado Francis, o francês precoce. Fiquei amigo deles também e eram os meus melhores – e únicos – amigos.
O tempo passou e chegamos à puberdade. Elizabeta passava mais tempo com as garotas da sala do que com a gente. Notamos algumas mudanças físicas: ela deixou o cabelo crescer, maquiava-se de leve e usava roupas mais justa, delineando o corpo que começava tomar as formas de mulher.
Junto com tudo isso veio os hormônios. As bochechas e as axilas começavam a coçar, o uso de desodorante era praticamente obrigatório, espinhas nasciam nos rostos magicamente, e meninas começavam a flertar com rapazes mais velhos, enquanto nós tentávamos conquista-las.
Mesmo a contragosto, posso dizer que eu era um pré-adolescente feio. Meus braços e pernas eram bem finos, meu rosto não acompanhou o desenvolvimento do corpo, e eu não tinha um gosto musical definido. Mas de vez em quando, eu recebia uma cartinha de alguma admiradora.
Foi nessa época que o assunto sobre virgindade bucal era quase cem por cento encontrado nas conversas da minha sala. As meninas costumavam dar risadinhas e suspiros por meninos de oitavo e nono ano, dois anos mais velhos que elas! Enquanto os meninos se contentavam com a limitação entre o sexto e sétimo ano.
Mas quem deu o primeiro beijo entre todos ali foi o Francis. Diziam que ele ficou com uma garota do sétimo ano, atrás da quadra, matando uma aula de desenho geométrico; bem, realmente ele não compareceu nessa aula, então já dava para acreditar.
Meu primeiro beijo só aconteceu no ano seguinte. Quase todo mundo já havia trocado beijos na minha classe, e coincidentemente, a única garota que estava disponível era Elizabeta. Francis jurava de pés juntos que ela gostava de mim, pelo menos era o que parecia. Ele me convenceu a tentar pedir um beijo, enquanto o amigo espanhol jogava indiretas nada sutis para ela se abrir.
Não foi uma coisa completamente desastrosa. Não sei se ela beijava bem, porque não tinha experiências para saber. Nem sei se eu me saí bem, mas eu gostei da experiência. Durante uns meses, demos mais alguns beijos e nos cumprimentávamos com selinhos. Tudo teria sido muito bonito se ela não tivesse que sair do colégio.
– Não sei por que meus pais querem assim – ela me disse, antes de se despedir.
Péssimo ano para ela voltar.
***
Fingi que não tinha a visto. Puxei um assunto qualquer com o brasileiro que estava ao meu lado. Com o canto do olho, vi Roderich e Elizabeta se cumprimentarem formalmente. “Droga, já se conhecem”.
– Então Galego, não sei te dizer se rola umas bebidas mais caprichadas não... Espero que tenha uma caipirinha, juro à Nossa Senhora de Aparecida que não bebo mais que uma do... Tá tudo bem, cara?
– Hum...? Sim, está – sorri forçadamente – Kesesese, também precisava de um mínimo de dose de álcool hoje.
– Daria tudo para uma bicada na vodca do Ivan, cara. Mas ele dá? Não. Ele insiste em me dizer que sou menor, mas desde que eu o conheço, ele está sempre com uma garrafa escondida. Isso faz anos! – deu ênfase nos “anos”.
– Beber umas pra ficar ligeiro, é? – Alfred riu – tão dizendo que trouxeram umas garrafas de Bacardi. Nada confirmado – o americano piscou. – Só não quero que o Matt ponha uma gota na boca, ou estou perdido.
– Nem o Arthur. Ele fica outro quando bebe – Luciano deu uma gargalhada, lembrando da última vez em que o inglês ficou bêbado – Ou você terá que aguentar um hálito delicioso de cachaça no seu nariz – Alfred ficou vermelho quando o sul americano insinuou o quase beijo dos loiros.
– Nem me fale. Tive que aguentar a manha dele, além da ressaca pesada que ele ficou. E ele dormia no meu quarto...
Luciano ria de se dobrar. Um cara extremamente divertido, e topa todo o tipo de festa sem pensar. A única coisa chata nele é que por mais que não seja por maldade, vê relações homo afetivas como uma coisa engraçada. Apesar de ficar bem sem graça quando dizem que ele e Martín formariam um belo casal na pista de dança.
O diretor pediu silêncio e começou a fazer um breve agradecimento.
– Bem, antes do jantar ser servido, anunciaremos os trios e em que quartos vão ficar. Analisamos os convívios tanto em sala quanto nos intervalos, e acredito que fizemos o melhor possível. Alguns irmãos estarão juntos por motivo de praticidade, mas apenas aqueles que estão no ensino médio. Os alunos chamados deverão vir aqui na frente pegar as chaves. Bem, vamos começar.
Os primeiros nomes chamados foram dos alunos do sexto ano. Dos nomes ditos, só reconheci os do irmão de Arthur, Peter e de Raivis, primo do Ivan. Ficaram no mesmo quarto e tenho quase certeza que é porque são umas crianças fofas.
Um ou outro nome eu reconhecia. Até que chegou no ensino médio. Alguns da minha mesa começavam a se levantar. Luciano, Martín, Feliciana, Lovina... Eis que ouço o precioso nome de Roderich.
– Roderich Edelstein, Ludwig Beilschmidt e Kiku Honda.
Droga, não ficamos no mesmo quarto, mas pelo menos meu irmão e meu amigo poderiam ficar de olho nele.
O garoto de olhos intensos estava sentado na mesma mesa que eu, só que distante. Não havia notado sua presença por eu estar entretido num papo com o brasileiro. Procurei Elizabeta, e a húngara estava sentada a algumas mesas, e sorria para o moreno.
Me senti enciumado. Será que já namoravam? Minhas chances diminuíram. Havia uma pequena probabilidade de eu conseguir um beijo de Roderich. Agora eu já tinha certeza quase que absoluta de erguer a bandeira branca.
Mas lembrei de que sou incrível e que eu não desistiria tão fácil assim. Luciano sempre dizia que “brasileiro que é brasileiro não desiste nunca! Mesmo quando está tudo na ‘pindaíba’”. Apesar de eu ser alemão, decidi aplicar esta frase na minha vida. E se ele forem parentes? E se forem apenas amigos?
Falando em Luciano, este ficou inquieto desde que ouviu o nome do japonês. Será que nutria alguma coisa por ele? A resposta veio junto ao japa baixinho.
– É Kiku Honda porque é japonês! Se fosse coreano seria Kiku Hyundai! – e a mesa toda riu. O moreno dos olhos oblíquos o fitou e riu baixinho.
Em seguida, meu nome foi chamado, acompanhado de Francis e Antônio. Eu deveria saber...
O jantar estava realmente delicioso. Uma deliciosa carne ao molho madeira, com arroz de alho e salada de macarrão (para o surto das gêmeas), fora ainda umas porções que circulavam com os garçons. Bebemos refrigerante e sucos gelados, e não conseguimos nenhuma bebida. Ivan misturou vodca ao suco de abacaxi com hortelã e me deixou experimentar, sob o olhar reprovador de Ludwig. Como não me altero fácil, não havia problema. Só me senti um pouco culpado quando olhos lilases faiscavam em minha direção.
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