Como amar Roderich Edelstein
10 Capítulo IX
Notas iniciais
Capítulo IX
Mãos gordinhas tentavam alcançar os potes de tinta que estavam na última prateleira. Aquelas cores vibrantes e variadas eram essenciais para a obra-prima da dona daquelas mãozinhas, que tentava, em vão, pegá-las.
Feliciana tinha oito anos de idade e estudava na mesma sala que sua irmã gêmea, Lovina. Era aula de artes e todos estavam livres para pintar o que quisessem. A pequena italiana queria pintar uma tela com belas flores, mas as tintas mais bonitas estavam lá em cima, inalcançáveis.
A sala toda estava ocupada, seja fazendo arte com tintas, canetinhas e lápis de cor ou fazendo bagunça, jogando bolas de papel uns nos outros. Ninguém prestava atenção na menor da sala. Lovina estava ocupada demais desenhando tomates de todas as cores.
Ninguém, exceto um lourinho. Desde que o mesmo entrara naquele colégio, não tirava os olhos dela. Era tão pequenininha, tão bochechuda, tão quietinha, tão amável, que era impossível que o pequeno Ludwig não a olhasse com ternura.
E era tanta a ternura que sentia que não parava de admirá-la. Eram tão pequenos, mas dizem que nessa idade o amor é enorme.
Feliciana desistiu das tintas e voltou para seu lugar, entristecida. Abaixou a cabecinha entre os braços e seus olhos começaram a lagrimar. Observador, Ludwig deixou a vergonha de lado e começou a subir as prateleiras. Com esforço, pegou as tintas, colocou-as numa caixa e tentou descer. Um passo em falso e ele poderia quebrar o braço, a perna ou coisas piores. Cuidadosamente, desceu devagar, pisando com firmeza, até chegar ao chão. Os demais colegas pararam suas atividades e passaram a observar as ações do louro. Ludwig dirigiu-se a mesa da italiana e depositou a caixa com as tintas. O baque fez Feliciana erguer a cabeça, com os olhinhos marejados. Abriu um sorriso enorme e sincero ao ver as lindas tintas. Ludwig fez um esboço de sorriso e saiu, com as bochechas coradas.
“Que gentil” a pequena pensara.
***
Sábado de sol e a piscina estava convidativa. Pagamos aula de manhã por causa de um pequeno acidente envolvendo um inglês, um francês e uma forma de cupcakes. Eu também não entendi a confusão até agora, mas tenho que saldar pela briga alheia.
As aulas passaram monotonamente. Alguns professores começaram a anunciar datas de provas e contra a minha vontade, decidi me aplicar mais. Não que eu queira impressionar alguém, mas como é meu último ano...
Falando em alguém, tenho passado a observar Roderich. Ou ele está na companhia do meu irmão ou de Elizaveta, e quando eu o via acompanhado dela, meu cérebro formigava e meus dentes rangiam. Eu bem que disfarçava, mas não aguentava muito tempo e ia embora.
A exceção desses dois, Roderich não conversava com ninguém e preferia pouca companhia; quando tinha mais pessoas na roda, ele isolava-se num livro, geralmente grosso e com capa gasta pelo tempo e pelos dedos de outras pessoas. Eu queria puxar algum assunto com ele, mas só de pensar nessa possibilidade meu estômago revirava.
Alguns colegas estavam comentando que a piscina seria liberada, uma ótima notícia, afinal, estava tão calor que tirei a gravata, o colete, e estava com os dois botões de cima da camisa abertos. O ar-condicionado não ajudava muito, e a voz do professor de química parecia dez vezes mais chata, os minutos se arrastando e minha paciência se esgotando. Eu não tenho muita alternativa, mas graças aos céus, era a última aula.
Para matar o tédio durante os 15 minutos que restavam, saquei meu celular do bolso e o escondi no estojo, de modo que eu pudesse digitar. Aproveitando o fundão e o professor sonolento, me conectei rapidamente ao Facebook, esperando encontrar Roderich online. Fazia um bom tempo que não conversávamos virtualmente. Para minha alegria, ele estava. Um sorrisinho de contentamento surgiu em meu rosto, mas por poucos segundos. Quando comecei a digitar um oi, um bip alertou sobre a saída dele. Justo na hora que tomo coragem...
Contentei-me a ver as fotos dele. Eram poucas e simples. Ele não gostava muito de selfies e a maioria das fotos era de paisagens, aparentemente na Áustria. As poucas que ele tinha era com uns 3 amigos, todos segurando instrumentos de música clássica. Parecia mesmo com o estilo dele. Ele tinha um sorriso tímido, mas seus olhos brilhavam de orgulho, certamente pelo violino que exibia nas mãos.
Salvei as fotos, para poder admirar aquele rostinho fofo sempre. Eu não sei se dava graças por ele tirar fotos só com rapazes ou se sentia um pouco de ciúme. Bem, eu não sei como ele se define, e as poucas coisas que ele curte não ajudam em muita coisa.
Bateu o sinal! Senti até um alívio ao ouvir os cadernos sendo fechados com alegria. Alguns colegas estavam com motoristas esperando lá fora, enquanto outros, como eu, iriam passar o final de semana aqui.
Uma maioria esmagadora prefere ir para alguma cidade vizinha, ficar em hotéis, ver a família em casa ou ir a baladas. Quem vem de muito longe, como Alfred, Matthew, Luciano, Martín, Kiku, Yao, Ivan, enfim, a maioria que veio do novo continente ou da Ásia prefere usar do colégio um clube.
Durante os dois dias de descanso o colégio libera as piscinas, as quadras, a lanchonete funciona até altas horas da noite, oferecendo deliciosos drinks sem álcool e batidas de frutas, a academia, que abriram no ano retrasado pode ser utilizada em período integral, em suma, praticamente um hotel. A única desvantagem é que as refeições são geralmente sobras da semana.
Eu e Lud damos certa preferência para ficar aqui; meu motivo é para estar com os amigos, aproveitando a água maravilhosamente fresca da piscina, dar um passeio no bosque, para colher frutas com as meninas e ficar até tarde, sob a luz da Lua, ouvindo os maravilhosos acordes de Antônio no violão, comendo doces de gelatina, sempre providenciados pelo chinês, e bebericando vodca ou cerveja, que um russo parrudo contrabandeava pra gente. Já meu irmão aproveita para ficar na academia, cuidando dos músculos. Já não bastasse ser louro de olhos azuis, inteligente e aplicado, mas também um maromba, fazendo muitas meninas babarem.
Guardei meus materiais na mochila e levantei num pulo. Passei a mão na testa e esta estava uma bica de suor. Como não estava com muita fome, decidi que do quarto iria imediatamente para a piscina, onde os outros estavam.
Saí em disparada, suando ainda mais. Passei em frente a uma janela que refletia meu estado deplorável: cabelos grudados no rosto, de tanto suor, desalinhados e com pareciam sebosos, embora tivesse lavado ontem, pareciam estar sujos desde o ano passado. As olheiras, que começaram a aparecer no meu rosto devido as noites mal dormidas por causa de pensamentos infelizes, pareciam mais profundas por conta da sonolência, a pele parecia uma garrafa de azeite... Não que eu me importasse muito em estar cem por cento perfeito, mas eu não gostaria de ver o Roder...
DROGA! Ele acaba de virar o corredor. Sorte que estava distraído com sua costumeira pasta portfólio. Aproveitei-me disso e virei para outro corredor. Eu demoraria um pouco mais para chegar aos quartos, mas não correria o risco de um candidato a pretendente ver só o bagaço da minha perfeição.
Atropelando outros alunos, finalmente cheguei ao quarto. Francis e Antônio já haviam descido para almoçar. Desabotoei a camisa enquanto abria a porta. Me despi durante o trajeto até o banheiro, colocando a ducha na bolinha branca, que significava água extremamente gelada.
O alívio imediato do contato do gelo me fez sorri automaticamente. Era só uma ducha rápida, coisa de cinco minutos. Assim que acabei, vesti meu calção de banho, uma camisa leve e sandálias de couro que comprei quando fui ao Brasil. Tirei meu passarinho da gaiola para que pudesse voar enquanto eu ficasse aproveitando o sábado. Levei meu protetor solar fator 100 e os óculos escuros, já que minha pele e olhos são sensíveis, por algum motivo, além do celular.
Gilbird pousou na minha cabeça, com preguiça de voar devido ao calor. Fui cantarolando Summerboy, pedindo as forças divinas para que Roderich aparecesse na piscina, apesar de eu não estar muito confiante quanto a isso.
Meus amigos já se apoderavam da piscina. Antônio ignorava o calor e estava agarrado à amiga colorida; os latinos, além de Lu e Martín, estava Miguel, um uruguaio que lembrava um pouco o argentino, Julio, o boliviano, Manuel, o chileno, Catalina, a colombiana e Maria, a venezuelana. Estavam se divertindo jogando polo aquático, a exceção do brasileiro, que estava beijando – creio que o termo certo seria devorando – a garota que havia dedicado o gol no começo da semana. Fiquei impressionado, mas quem estava mais ainda era um louro francês.
– Veja só, todo mundo se arranjando, e a gente aqui.
– Todo mundo quem? – redargui – só vejo dois casais. E detalhe pro argentino meio emburrado ali.
– Ele nunca me enganou. Se bem que acho difícil acreditar que o Lu corte para outro lado.
– Ele nunca deu bandeira. Mas e eu?
– Você é little monster. Só não desconfiei por causa da Liz.
Sentei na cadeira ao lado dele, debaixo da sombra das árvores, à beira da piscina.
– Voe, Gilbird – soltei minha bolinha de penas no ar, que saiu piando pelas árvores – Acho que fiquei com a Liz sobre pressão. Nem sabia se eu gostava dela. Ela gostava de mim?
Francis ficou em silêncio por um tempo. Parecia pensativo, atrás das lentes escuras de seus óculos Dolce & Gabanna.
– Sinceramente? Na época eu achava que sim, mas hoje não tenho muita certeza. Talvez fosse uma paixonite rápida, mas de qualquer forma, sabia que não iria passar disso.
– Por que? – meus olhos se estreitaram, mas não tive o efeito desejado em Francis, por conta do Ray Ban na frente deles.
– Ela gostava de alguém na época, mas parece que levou um fora. Meio que te usou, Gil.
Meu queixo caiu. Não, não era possível.
– E como sabe disso?
– Não é certeza... Por favor, não faça coisas só por saber de boatos. Nem confirmei, mas acredito que ela não seria capaz de fazer uma coisa dessas.
– Eu não ficaria surpreso... – meus olhos marejaram – mas tudo bem, já deixei o passado no pretérito e é hora de seguir em frente! – o louro sorriu.
– Isso aí! Vou pegar uma batida. Vai de quê?
– Piña colada. Pra combinar comigo.
– Certo – ele levantou-se.
Em poucos minutos, lá estava o francês com as bebidas. Ele escolheu para si uma bebida chamada Dulce Rosa, muito doce e muito rosa. Após brindarmos nossa solteirice, demos grandes goles nas bebidas geladas. Comi um sanduíche natural, e aproveitei o sol ameno para passar o bloqueador solar e cair na água fria. Gilbird pousou na borda, molhando de vez em quando a cabecinha amarela, pra se libertar do calor.
Eu observava os amigos latinos competindo nado, Ivan sentado numa espreguiçadeira, tomando alguma bebida escondida num saco de papel, os asiáticos apostando quem ficava mais tempo no fundo (Kiku ganhava a maioria das vezes), Alfred e Matthew estavam na quadra ao lado, jogando tênis, para depois se juntarem a nós, Lovina e Antônio trocavam beijos rápidos, enquanto Luciano beijava a garota – ainda descobrirei o nome dela – de forma mais quente. A única pessoa que parecia não estar muito empolgada era a italiana mais nova. Resolvi abordá-la.
– Feli, porque não está aproveitando este incrível dia?
– Hum? – estava vagando em pensamentos – Eu estou, só estou pegando um pouco de sol.
– Sol, né? Na sombra? – apertei os olhos. Ela ficou com a bochechas coradas, mas antes que pudesse responder, ela levantou o olhar e seu rosto ficou roxo. Segui onde seus olhos fitavam e vi a figura musculosa do meu irmão, trajando uma bermuda preta com detalhes vermelhos.
– Oi, Lud! – Acenei pra ele, que devolveu meu cumprimento com um aceno. Ele seguiu em direção a ducha, ligando-a. Acabara de sair da academia e veio nadar.
Feliciana estava muda, paralisada, o rostinho vermelho e o coração batendo tão forte, que achei que estivesse com problema. Quando meu irmão entrou na piscina, com todo aquele porte atlético, ela perdeu o ar e se encolheu.
Uma luzinha começou a picar no meu cérebro.
– FELICIANA! Você gosta do Lu... – antes que eu pudesse completar a frase, a italiana que julgávamos fraca e indefesa me deu um caldo. Afundou minha cabeça sem dó nem piedade, e quase me ESQUECEU EMBAIXO D’ÁGUA, se não fosse Antônio me socorrer.
– Que besteira você falou, Gilbert?! – Ouvi a voz do meu irmão ainda mais grossa que o normal.
– Que eu saiba, nenhuma! – cuspi toda a água que havia entrado na minha boca.
– Senhorita Vargas, caso meu irmão tenha dito alguma coisa, perdoe-o. Ele geralmente não tem freios na língua.
– EI! Não ofende!
Ele me olhou de modo que congelei. A italiana estava absurdamente nervosa, se encolheu mais ainda. Lovina foi em direção a ela, mas não antes de me dar um cascudo na cabeça.
Ai, ai.
Garotas são tão complicadas!
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