Como amar Roderich Edelstein
2 Capítulo I
Notas iniciais
Capítulo I
Chegamos cedo a famosa – e cara – Academia Mundial, destinado a educação dos filhos de magnatas, empresários, políticos – em suma, quem tem muita grana. Estava quase vazio, exceto por um ou outro funcionário. Cumprimentamos o porteiro, grande amigo nosso. Após uma breve conversa sobre as nossas incríveis férias, seguimos ao enorme teatro do colégio, onde haveria as apresentações dos novos professores, bem como todo o corpo docente. O teatro assemelha-se àqueles famosos, com as cadeiras acolchoadas, cortinas vermelhas, um sistema de som e iluminação de última geração, incluindo telas de alta definição. É tanto luxo que chega a enjoar.
Assim, como a entrada, o teatro estava vazio. Ludwig e eu nos acomodamos em um bom lugar, onde tínhamos vista da porta de entrada. Fiquei o tempo todo virado para trás, com os joelhos no assento. Ninguém iria se incomodar, afinal, acostumaram com o meu jeitinho peculiar incrível de ser. Lud, entretanto, achava falta de educação da minha parte, e se limitava apenas a virar a cabeça para trás, de vez em quando, enquanto lia um livro em seu iPad.
É chato esperar, convenhamos. Faltava meia hora para a cerimônia de primeiro dia de aula começar. Alguns alunos, que já vi pelos corredores, já estavam se instalando, e com certeza, esperando por seus amigos. Os meus faziam questão de demorar o suficiente para todos os lugares ao meu redor estarem ocupados e eu não poder por a conversa em dia. As únicas obrigações deles são acordar cedo e se arrumar. É simples. A não ser que você seja...
Francis! Meu amigo de longos cabelos louros amarrados e admiráveis olhos azuis cruzou a porta, com os fones de seu iPod – certamente banhados a ouro, porque ele é o luxo em pessoa! – nos ouvidos, e carregando a mochila por um ombro, descendo lentamente as escadas, até onde estávamos.
– Bonjour, amigos! – ele nos cumprimentou, tirando os fones dourados – como vão nesta bela manhã?
– Bom dia, croissant amanhecido! – respondi – estou muito bem e impaciente. A galera continua no colégio? Até agora não vi ninguém.
– Recebi uma mensagem do Antônio, ele vem. Agora os outros... Não sei. Bom dia, Alemão!
– Oi – Ludwig não levantou os olhos das palavras digitalizadas. Pode parecer grosseiro, mas meu irmão é assim mesmo, reservado, frio e fechado, mas não difícil de lidar. Por trás dos músculos, existe uma pessoa um tanto adorável, mas tímida.
Meu amigo francês se ajeitou na poltrona ao lado da minha, conversando com alguém no Whatsapp, provavelmente alguma garota que ele ficou durante o verão. Para ele é fácil conquistar as garotas. Um charme aqui, uma conversa ali, um milk-shake em algum café caro e voi là: mais uma apaixonada aos seus pés.
Engraçado é que ele pega e não se apega, mas reclama da futilidade das meninas com quem fica. Bem, a maioria das garotas está numa vida financeira abaixo da nossa, então ele julga que todas o querem por interesse. Não chega ser uma mentira, já que as que se aproximam são filhas ou de concorrentes do seu pai, ou de empresas em crescimento. Na minha humilde opinião, ele enrola os pais delas, não as pobres desiludidas.
O próximo da turma a chegar foi Antônio, o espanhol tarado por tomates e excelente dançarino, principalmente o flamenco. A pele levemente dourada, olhos verde como esmeraldas, os cabelos castanhos macios e brilhantes chamam a atenção das estudantes, ainda mais por ele tocar violão de forma apaixonante. Não, não estou apaixonado por ele! Mas é que as notas que saem do instrumento são hipnotizantes.
Ao contrário do amigo francês, o espanhol não é namorador e apenas uma garota conseguiu roubar seu coração romântico, Lovina Vargas, uma italiana chata quando quer. Se jogando ao lado do croissant, Tônio estava animadíssimo, um pouco mais que estávamos acostumados.
– Buenos días, Galego! Alemão! Buenofó! – disse nossos apelidos atropeladamente.
– Bonnefoy. Buenofó é a sua mãe, aquela palhaça. – Francis corrigiu o sobrenome, apertando os olhos.
– Respeite a Sr.ª Carriedo, cierto? — o espanhol franziu os lábios.
Procurando apartar a briga, respondi ao bom dia do moreno:
– Bom dia, Tônio! E os tomates?
– Tudo cem por cento! Acho que vamos abrir uma fábrica no Brasil e Argentina – Tônio é jovem, mas já trabalha como secretário do pai na empresa da família. Uma grande fábrica de molhos, principalmente de tomates. Ele fornece os molhos para o restaurante – não cantina – do colégio.
As bochechas do meu amigo ganharam uma coloração avermelhada quando o mesmo dirigiu o olhar para a porta. Sua querida – e chata – italiana chegara, acompanhada pela irmã gêmea, Feliciana. Apesar de serem gêmeas, algumas características as diferenciam. Lovina usa o cabelo castanho escuro solto, com as ondas brilhantes bem definidas. Os olhos também são castanhos e intensos, que refletem sua personalidade forte e dominadora. É realmente muito bonita, mas seria mais ainda se sorrisse. Já a irmã tem os cabelos mais avermelhados, quase sempre presos num belo rabo de cavalo, ou uma trança, os olhos são doces como caramelo, assim como ela é. É animada, um pouco medrosa, mas tem um enorme coração e é bastante carinhosa.
As irmãs Vargas se juntaram ao nosso grupo. Lovina se sentou ao lado do espanhol babão, depois dele implorar por isso. Ela ficou bastante irritada, mas deixou passar. Feliciana chegou distribuindo seus bom dias com o gracioso sotaque italiano, mas estranhamente congelou quando meu irmão lhe deu um oi glacial. Ela bastante sensível, por isso magoa-se com facilidade.
– Uno beso, Lovi! Uno besito! – meu amigo pedia para a gêmea mais velha.
– Para de me chamar assim! É Lovina, idiota! NA! LO-VI-NA!
– Mas me dá um beijo?
Francis e eu rimos. Aquela cena era tão comum... Antônio pedindo beijos e Lovina negando, muito estressada.
Espere um momento. A cena a seguir nos deixou de boca aberta! Lovina BEIJOU Antônio, e lutando pela dominância do ato! Até Ludwig parou sua leitura para assistir a cena, estupefato. Feli passou a admirar a entrada, onde aparecia cada vez mais estudantes.
– Vocês... estão saindo? – Francis constatou o óbvio.
– Eu diria uma amizade colorida. A Lovi – a italiana o olhou com crueldade, por isso Tônio emendou – na ainda não quer assumir nada. Por enquanto. – a morena suspirou.
– Provavelmente quando você parar de me por num altar! Odeio isso!
– Mas Lovina... Há tantas garotas que querem estar no seu lugar! – Francis disse num tom morno.
– Pois que fiquem. Não pretendo ser deusa para ser adorada. Musa, até que vai. Mas não quero ser Vênus ou Afrodite. Muito obrigada – e cruzou os braços. Antônio fez uma expressão magoada e limitou-se a pousar a cabeça no ombro da amada.
Reparei que o teatro estava cada vez mais cheio, e mais conhecidos apareciam. Feli estava acenando para os irmãos americanos, Alfred e Matthew, que estavam ao lado de Ivan e Yao. Alfred estava esbanjando alegria, nos cumprimentou com um grande abraço apertado, e não para de falar do que vira nas férias. Matthew deu um bom dia mudo. Ivan e Yao foram menos espalhafatosos – bem menos – e cada um tomou assento. Timidamente, Kiku, nosso amigo nerd e japa, aproximou-se e se assentou ao lado de um Ludwig completamente alheio a tudo que estava acontecendo. A meia hora de espera acabou, quando as luzes se apagaram. Mas antes, uma última olhada para a elegantíssima porta dourada do teatro.
Quando eu o vi pela primeira vez.
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