Como amar Roderich Edelstein
3 Capítulo II
Notas iniciais
Capítulo II
A cerimônia durou uma hora e meia, entre as apresentações dos professores e um vídeo de vinte minutos fazendo marketing da escola, fora a animação em 3D do campus do colégio.
Eu seria um anfitrião muito mal educado se não apresentasse minha querida instituição a vocês. Pois bem, ocupando um quarteirão, o colégio é enorme. Cercado por um jardim enorme, florido e muito bem cuidado, e uma floresta ao fundo, o prédio principal ficava perto da estrada, com uma bela estradinha de tijolos da cor da areia, que levava do portão à porta principal. No lado direito, ficam as piscinas olímpicas e as quadras, mais o ginásio. No lado esquerdo, fica o teatro e um pouco mais para trás, os dormitórios. Oh, não mencionei que o colégio é interno? Pois é. Como abriga alunos do mundo todo, filhos dos magnatas, empresários e políticos, é natural que tenhamos que dormir aqui. Além do mais, temos aulas de mais de cinco línguas, como nossa língua natal e dos países mais importantes (os que estão no G-8, por exemplo). Normalmente nos “mudamos” uma semana depois do início das aulas, quando nos adaptamos e tudo o mais.
Saímos do teatro em direção as nossas salas, atravessando um corredor aberto, com direito a brisa matutina, que estava fresca e perfumada pelas flores próximas. O saguão, forrado com um carpete fofo, abafava nossos passos. A escadaria que conduzia a ala do ensino médio, dourada e polida, estava lá. Com saudades das conversas dos alunos que transitavam por ela. Subi na companhia de meus amigos, e ainda se aproximaram Luciano e Martín, sul-americanos. O primeiro é brasileiro e o segundo é argentino. São melhores amigos até uma bola estar entre eles. Brigam pelo passe da redonda, proferindo palavrões nas línguas respectivas. Mas são grandes amigos nossos, principalmente Luciano, que se dá bem com todo mundo.
Cheguei aos corredores procurando pela sala do terceiro ano. Francis, Antônio, Alfred, Ivan e Yao seriam meus colegas. Lud, Feli, Lovina, Luciano, Martín, Matthew e Kiku, o japa, no segundo ano. Me despedi do meu irmão quando entrou na sala e bem, vi uma figura bastante peculiar. Sentado numa das carteiras do fundão, um rapaz de cabelos castanhos, jogados levemente para o lado, pele clara e aparentemente macia, mas seu rosto estava numa expressão grave, lendo alguma coisa que estava numa pasta. Ele mexia os lábios quase num tremor. Os óculos de aro fino e quadrados, acentuavam ainda mais o semblante sério. Apesar de tudo, era bonito. Ou bonitinho.
Parecia concentradíssimo, e isso me deixou encabulado. Bem, ele é novato e não sei muito sobre ele, mas ele exalava um ar de... Superioridade.
Isso se confirmou quando ele se virou para a porta, e pelo ângulo do nariz, estava um pouco desgostoso com o que via. Não consegui ver a cor de seus olhos, pois a luz da sala fazia reflexo sobre as lentes, mas pude sentir seu olhar cravado sobre meu incrível eu; Achei aquilo estranhíssimo e resolvi ir para minha classe. Depois resolveria aquilo.
***
Tivemos duas aulas de Biologia e uma de Geografia, antes do intervalo. Héracles, meu colega grego, dormiu durante metade das aulas, e fez um grande esforço para ficar alerta nos últimos minutos da aula.
As aulas seriam verdadeiramente tediosas se não fosse por uma pequena discussão entre Francis e nosso amigo inglês, Arthur. A professora explicava sobre o sistema digestivo, quando meu amigo francês ergueu a mão e alfinetou Arthie, dizendo que a comida que este fazia não conseguiria estimular as glândulas salivares de ninguém, e se engolissem, é capaz de travar no esôfago.
O inglês, que não era nenhum exemplo de paciência, ficou vermelho de raiva e agrediu verbalmente Francis, com várias palavras de baixo calão. E completou dizendo que poderia não cozinhar bem, mas ao menos sabia manter fidelidade com alguém.
Foi o que bastou para Francis querer quase se engalfinhar ali mesmo na sala, no meio da aula. Estavam prestes a partir para a luta física, quando o controle remoto do Datashow voou sobre suas cabeças. A professora convidou-os a visitarem a coordenação pela primeira vez no ano letivo, ficando por lá durante um bom tempo. Era costume de eles brigarem bastante em sala.
Só os vi novamente no intervalo. Desci as escadas sozinho, com fones no ouvido, me deliciando ao ouvir G.U.Y., da Lady Gaga. Com as mãos no bolso e cantarolando baixinho, cheguei ao restaurante. A entrada era um corredor de vidro, onde dava para ver o jardim. Havia inúmeras mesas espalhadas por todo o salão, mesas grandes e forradas. Já poderia sentir o cheirinho do lanche. Deliciosos rolinhos de vários sabores. Conferi no cardápio luminoso da entrada; além dos rolinhos, beberíamos suco de frutas vermelhas.
Encostado numa pilastra perto de uma grande mesa, Antônio estava dividindo o fone com Lovina. Meu amigo envolvia a cintura da amada com um dos braços, a outra mão no bolso. Eles fitavam o nada, até meu incrível eu aparecer.
– E que tal a aula, Lovina? – tirei um dos fones.
– Mesma coisa de sempre. A voz do Batatão engrossou, ou é impressão minha? – Batatão é como minha querida amiga chamava meu adorado irmão.
– Acho que sim, não reparei muito – cocei a nuca – falando nele, onde ele está?
– Pegar o lanche. – o espanhol respondeu – estamos esperando a galera dar as caras.
Não demorou muito até Lud aparecer com bandejas para mim e para si. Sentamos a mesa, enquanto o casal ia pegar a própria comida. Francis e Arthur também acenaram, se dirigindo a bancada. Vash, amigo de Lud, muito quieto, mas não por isso não irritado, juntou-se a mesa, com sua irmã mais nova, a adorável Lilly. Matthew e Alfred surgiram logo após, seguidos por Ivan, com sua irmã caçula Natasha, Yao, Kiku, Martín e Luciano. Os brigões sentaram um pouco depois. O casal tomate ressurgiu junto com Feli, que antes estava alegre, e congelou ao sentar-se ao lado de Lud. Deve estar magoada pelo que aconteceu mais cedo.
Lanchamos discutindo sobre as aulas, e a briga foi motivo de piada, como de costume. Também comentamos sobe nossas férias. Luciano era um dos mais empolgados. Passou as férias de verão no inverno do Brasil. E ainda sim estava com a pele mais dourada que de costume. Frequentara festas regadas a samba de raiz e a bossa-nova. Entusiasmado, até ensinou Feli a dançar a famosíssima música “Garota de Ipanema”. Luci tem ginga e uma bela voz. Entoava tão docemente que ficamos encantados quando ele cantava:
– Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num doce balanço
A caminho do mar...
A italiana mais nova sorria alegremente, tentando acompanhar os passos do amigo. Martín dizia que tango era melhor, enquanto Antônio perguntava se Lovina aceitava dançar flamenco.
Estávamos no pátio do jardim lateral, com outros alunos. Um pouco alheio a tudo, decidi procurar com o olhar a figura estranha que vi mais cedo. Examinei a todos que por ali transitavam e não encontrei o novato.
Na volta as classes, regressei sozinho, novamente. Passei em frente a sala do meu irmão, quando vi o garoto sentado, sozinho na sala, lendo algumas resmas soltas. Fiquei tentado a perguntar se ele estava bem, mas me segurei. Alguns alunos entrava, na sala, conversando e fazendo barulho, chamando a atenção do jovem, que levantou os olhos dos papeis em direção a porta.
Ah, os olhos... Me pegaram como a onda de um mar revolto, de tão intensos e lilases que eram. Eram curiosos e de cor tão profunda, tão diferente, tão incrível, que fiquei abismado. Me prendi na fúria daqueles olhos.
E tive certeza que nunca mais sairia daquele oceano.
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