Como amar Roderich Edelstein
34 Capítulo XXXIII
Notas iniciais
Capítulo XXXIII
As famílias Bismarck e Beilschmidt prezam por sempre chegarem no horário. Mas é claro que contratempos sempre acontecem, como primas que esquecem alguma maquiagem, primos que levantam praticamente na hora de sair e um etc. sem fim.
Otto e Maria von Bismarck (meu bisavô era muito fã do original, daí aproveitou a coincidência do sobrenome e batizou o filho com o nome. Mas é claro que não é exatamente o mesmo. Vocês entenderam!) são fazendeiros, e até a minha mãe ter casado, possuíam uma propriedade simples e modesta. Poucos celeiros e animais, mas tudo era muito bem cuidado. Após a filha ter se casado com um empresário que nadava em dinheiro, meus avós receberam uma bela quantia para investirem em suas terras. Vovô Otto ampliou as plantações, bem como as criações de vacas, cavalos, porcos, patos, galinhas, entre outros, enquanto a minha avó mandara reformar a casa-sede e as instalações, deixando tudo mais moderno e confortável. Além dos lucros das colheitas e da venda de animais, meus avós também alugam uma espécie de pousada, um pouco mais longe da casa deles, que serve para festas e eventos. Com isso, eles possuem uma vida relativamente tranquila, a não ser quando alguns netos resolvem desrespeitar o próprio corpo e acabam levando os ou as ficantes para lá. Isso deixa vovô Otto FURIOSO.
Além da piscina maravilhosa, da fazenda de cogumelos subterrânea e de algumas (mini) cachoeiras, havia um parquinho com balanço, escorregador e gira-gira, que meu avô mandou colocar quando eu nasci (por nada, priminhos). Meu avô adora cães, principalmente pastor alemão. O mais novo é um filhotinho chamado Bruce, que toda vez que chego pula nas minhas pernas. Imagino o quão grande ficará daqui alguns anos... Já a vovó ama gatos, e todos eles andam serelepes pela propriedade, e sempre vêm se aquecer no meu colo quando está frio.
***
Roddy e eu gostamos de trocar selinhos debaixo das árvores do colégio, e aqui em casa não foi diferente. Meus pais estão atarefados demais para ficar me vigiando, então, aproveitamos o frio e ficamos namorando, abraçadinhos, dando beijinhos carinhosos (quem vê essa cena não pode nem imaginar as nossas vorazes discussões musicais). Em certo momento, fomos aprofundando o beijo, e quanto mais fundo nos mergulhávamos, mais longe da razão estávamos. Eu sentia aquelas mãozinhas sedosas apertarem meus ombros, enquanto meus braços gentilmente enlaçavam a sua cinturinha. Roddy às vezes me lembrava duma fada, ou uma boneca, por causa de seu corpinho delicado. E isso já levou minha imaginação longe. Muitas vezes, bem no meio da aula. E era extremamente constrangedor, já que o tecido da calça era macio e eu sou... Bem... Bastante acima da média.
Meu namorado tem os lábios macios e doces (eu acho que ele usa brilho labial) e eu estava tão focado, tão apaixonado que nem percebi quando um casal de avós se aproximava. Quando isso aconteceu, era tarde demais para eu e Roddy inventarmos uma mentirinha sobre o porquê de estarmos ali.
– Gilbert?! — a voz da minha avó foi a primeira que ouvimos, fazendo com que nos separássemos na hora, e não consegui identificar se aquilo era surpresa, raiva ou qualquer outra coisa. Fiquei estático, bem como Roddy havia perdido todo e qualquer rubor que antes tinha.
– O que 'cê tá fazendo, menino?! — beijando um garoto, vô! — Seus pais... Leonie sabe dessa...?
– E-Então eu não 'tô doida... Gilbert... — Vovó parecia em choque, e estava um pouco envergonhada com a situação. Mas sua expressão mudou num piscar de olhos para uma que eu só via quando eu “ofendia” ela de algum jeito, claro que não diretamente. — Isso tá errado! Onde já se viu, dois homens se agarrando! Que vergonha! Ou melhor, pouca vergonha, né?! E debaixo do teto dos seus pais! Ah, mas 'cê vai ouvir! — ela veio até mim, e aquilo me lembrou os velhos tempos, quando eu estava prestes a apanhar quando comia doce antes da janta. E a palmada da vovó doía.
Ai, e o puxão de orelha também! Ela praticamente me levantara pela orelha, e sequer ligava para o que eu tentava dizer. Vovô olhava de mim para o Roddy, e a expressão dele me deixou... eu não sei ao certo como explicar, só sei que um nó formou na minha garganta na mesma hora. Ele estava com vergonha de mim.
– Como Leonie permite uma coisa dessas... Ah, deve ser o Reiner! Ele é um banana mesmo! — vovô Otto adorava o vô Fritz, eram grande amigos... Mas o meu pai... Ele odiava. Eu acho.
Virei — ou melhor, TENTEI virar para trás para ver o meu austríaco, e meu coração só quebrou tudo o que restava para quebrar por ver a expressão dele; Era pânico, era tristeza, era culpa... aqueles olhinhos lilases eram minha ruína, mas quando estavam marejados, eram minha destruição. Tentei chamá-lo, mas o puxão de orelha da vovó só me fazia pedir por favor para que ela parasse. E assim ela foi me levando até dentro de casa, sendo seguida pelo vovô Otto, que continuava a murmurar coisas bem... digamos, preconceituosas. E eu achando que o que aquela garota da festa de Halloween havia me dito doía.
– Leonie! Desça já aqui! Agora! — nunca tinha visto a vovó tão brava, nem quando meu primo quebrou o vaso de casamento dela.
– O que foi, mamãe? Aconteceu alguma- Gil? — Mutti desceu correndo, parecendo preocupada, mas depois a única coisa que transparecia no rosto dela era confusão. Vati veio logo atrás, ficando do mesmo jeito.
–Leonie, minha filha, como você pode deixar uma aberração dessas na sua casa?! — meu avô apontava para mim, e eu desejando que Rod não tivesse escutado. Mas, claro, a vida ama me pregar peças, e consegui ver ao longe, atrás da porta, meu pequeno ouvindo tudo.
– Isso é um absurdo, Leonie! Homem e homem é proibido! É sujo! Eu te ensinei isso! Você devia...
– Mamãe, chega! Por favor! — minha mãe desceu correndo as escadas e me puxou para si, livrando minha orelha dos dedos gordinhos — e muito fortes — da minha avó, trocando pelos dela, que faziam um carinho de leve ali. Eu nunca fiz tanta força para conter o choro. — Ele é meu filho, não é? E aqui é minha casa. Eu sou uma mulher, posso tomar minhas decisões!
– Mas isso é errado, Leonie!
– Errado onde, mamãe?! O Gil achou alguém que o ame e que ele ama! Nós não seguimos o “ame o próximo como ama a si mesmo”?!
– Mas não é assim que funciona!
– Então não funciona de nenhum jeito! Ora, mamãe, se a senhora acha isso um pecado, eu digo que atire a pedra quem nunca pecou! Eu amo o Gilbert pelo que ele é! Ele é meu filho, seu neto, e quem ele namora ou deixa de namorar não muda nada!
– Eu não aceito isso! — embora tudo que minha mãe dissesse me confortava, aquilo se sobressaía. — Você permite isso, Otto?
–Eu acho que isso é culpa do banana do Reiner! Se fosse mais rígido, talvez não tivessem o nome manchado!
– Se amar meu filho e aceitar quem ele é significa ter o nome manchado, sinto muito, Sr. e Sra. Bismark, mas isso não me incomoda. E rigidez não vai mudar o que meu filho realmente é, esse tipo de rigidez só traria infelicidade para o meu filho, e isso é a última coisa que alguém pode desejar para quem ama.
Preciso falar que eu já estava soluçando? Mas junto com os soluços, uma raiva acumulada subia. Estava cansado daquela briga. E ela precisava de um fim.
–Chega! Eu queria saber da senhora se por um acaso quando o Klaus deu uma festa cheia de prostitutas na SUA fazenda, fez o mesmo com ele. Sexo antes do casamento não é pecado? Fornicação? Prostituição? E o Vagner, que todo dia aparece com uma namorada em casa? Isso pode? A Valesca foi a primeira neta a transar, e eu sou o mais velho! Que porra de justiça é essa?! — Eu estava alteradíssimo. Nunca que falaria assim com meus avós, eu os amava, mas estava cansado daquele discurso. Não era exatamente a culpa deles. Foram criados pensando assim, e o isolamento contribuiu para isso. Nunca imaginariam que teriam um neto... diferente.
– Gilbert... — minha vó falou, já com um tom de voz menos estressado. Todos estavam boquiabertos, e a falta de comentários me deu a entender que não tinham mais o que falar e que eu podia sair dali. E foi isso que fiz. Não dei ouvidos para aquelas quatro vozes me chamando, não dei atenção para nada, só sai de casa e bati a porta, andando sem rumo.
Até que aquela mãozinha que eu estava acostumado a sentir em mim segurou meu braço, me parando. Virei para encontrar aqueles olhinhos inchados, mas que acalmavam aquela ira dentro de mim aos poucos, e somente o abracei forte, sendo retribuído do mesmo jeito, ouvindo ele fungar. Acho que aquela era uma das piores partes de tudo isso. Eu dava beijinhos leves no ombro dele, tentando me manter forte e não chorar também, mas meus sentidos não estavam focados só naquilo. Notei que meus pais e meus avós estavam saindo de casa, então decidi puxar Roddy correndo para os fundos da casa e entrar pela porta da cozinha que dava para o quintal, indo direto para a sala e, enfim, depois de toda aquela escadaria, para o meu quarto, trancando nós dois ali. Roddy estava sem fôlego e assustado. Preciso por ele para correr mais...
–Deixa que agora eles se resolvem... — fiz carinho, o abraçando — quer ver tevê até a hora do almoço? Mais parentes estão chegando... Roddy? — ele estava de cabeça baixa, e quando pensei em levantá-la, ele me abraçou mais forte e começou a chorar, mas o tipo de choro que ele só fazia quando estava muito mal. Ah, não... — Amor... Vai ficar tudo bem...
– É t-tudo...
– Se falar que a culpa é sua, eu vou te deixar sem bolo...
– M-Mas Gil... se não fosse por eu estar aqui...
– Eu não estaria melhor. Eu não teria me acalmado, quem sabe o que eu teria feito? — segurei o rosto dele, secando o cantinho dos olhos dele com os polegares. — Vai passar, amor... É só o choque da notícia...
– O c-choque da minha notícia me faz apanhar até hoje, Gil... E-Eu tenho medo... — Lembrar daquilo me machucava. Meu príncipe não merecia aquilo...
– Mas ninguém vai me bater ou te bater, nem vão afastar nós dois. Viu como meus pais me defenderam? Ou como um choque de realidade deixou o vovô e a vovó sem saber o que responder? Não acontece sempre! — beijei o narizinho arrebitado dele — Confia em mim, amor...
– E-Eu confio... — o choro dele ia parando, sobrando só o soluço. Decidi pará-lo com beijinhos e, pra variar, deu certo, principalmente quando eram nos lugares que Rod sentia cócegas — e isso é resumidamente em 95% dele. Ouvir a risada dele era, sem dúvida, o melhor remédio para o que quer que fosse.
–Quer assistir a algum filme? Deve ter no Netflix algum clássico...
– P-Pode ser... — ele esfregava o rosto de leve no meu peito. Parecia um gatinho! Coloquei em algum filme de nome bonitinho e assistimos até minha mãe chamar. Quer dizer, Roderich assistiu, enquanto eu ficava o observando.
Depois de um tempo, mamãe bateu à porta.
–Vovô Fritz chegou.
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