Como amar Roderich Edelstein
29 Capítulo XXVIII
Notas iniciais
Capítulo XXVIII
Às sete horas da noite no domingo eu já me encontrava no meu dormitório, jogado na minha cama, com um sorriso pateta nos lábios, imaginando coisas.
Coisas totalmente ligadas ao Roderich.
Eu tinha urgência em tê-lo em meus braços. Por mais que às vezes ele me provoque — e com toda a certeza ele gostava disso – eu definitivamente o amava. E necessitava que ele escutasse isso, e mais ainda, que ele sentia o mesmo por mim. Uma agonia doce me dominava, e o pequeno Edelstein já era o dono da minha cabeça. Estar verdadeiramente apaixonado é uma das melhores sensações. Mas o que eu sinto pelo Rod vai além de um fogo momentâneo. Escavando um pouco os sentimentos, posso encontrar um amor puro que começa a brotar, como a nascente de um rio. Frágil e calmo, límpido e fresco. E cabia ao incrível Gilbert saber conduzir esse rio ao mar lilás, e com que ele desemboque do mesmo jeito que nasceu, com afluentes igualmente puros.
Eu sentia que esse rio estaria grande e ansioso por chegar ao mar. Mas eu não sabia o caminho certo. Eu precisava de um mapa e uma bússola para chegar ao meu destino.
E por sorte, eu tenho. Mesmo que seja um mapa meio rasgado e uma bússola meio zureta.
Francis e Tônio perguntaram como foi com meu pai, a situação do dente e me contaram o que ocorrera no fim de semana. Nada muito novo, só o Martín e o Luciano que caíram na piscina e agora estão de cama.
Fiquei receoso de perguntar o que achavam de eu pedir o Roderich em namoro agora. Afinal. O espanhol estava na mesma situação que eu e Francis corria de namoro. Ainda acanhado, pedi a opinião de ambos. Tônio disse os prós e o francês, os contras. Pesando em uma balança imaginária, namorar Roderich tinha suas vantagens: mesmo sendo um chato, era bom receber carinho e trocar beijos, além de poder ajudá-lo num momento tão difícil. Os contras não me preocupavam muito, pois eram apenas medo de um solteiro convicto e pegador.
–x-
Aproveitei o intervalo para visitar a biblioteca. Queria me inspirar em alguma coisa, em algum livro, para fazer uma declaração no mínimo decente. Lanchei rapidamente e corri para o local, atropelando quase seis alunos.
Entrei discretamente, pois não queria levar mais uma bronca da Sra. Kampmann. Havia poucos alunos lá, e o único conhecido meu era Arthur.
Arthur é conhecido pelas péssimas notas em culinária, aula que tínhamos até o quinto ano. Mas em compensação, tirava as notas mais altas em literatura e em redação, era fã aficionado de Harry Potter e ainda escrevia um livro, sabe-se lá sobre o quê. Como ele tinha um vasto conhecimento sobre todos os mais variados tipos de livros, me dirigi até a mesa onde ele digitava em um notebook. Senti um leve medo, afinal, eu era melhor amigo do arquirrival dele.
Bom, mas antes não era assim. Francis e Arthur eram melhores amigos no primário. Mas como tem coisas que não duram para sempre, eles simplesmente pararam de se falar de um dia para o outro. Anos mais tarde, era fácil vê-los discutindo por qualquer motivo. Enquanto o louro de olhos azuis provocava por brincadeira, o de olhos verdes levava para o lado pessoal, e às vezes, notávamos um brilho magoado nos olhos dele.
Hoje em dia ele anda com o Alfred, Matthew, mas mesmo assim, ele parecia infeliz.
Sentei-me, ao que ele levantou os olhos rapidamente do teclado, voltando a digitar freneticamente.
Me senti um tanto ignorado.
– Bom dia, Kirkland!
– Seja breve.
Wow, que falta faz a classe elegante inglesa!
– Conhece algum livro em que tenha... Sei lá... Sentimentos verdadeiros?
Ele deixou os dedos suspenso sobre o tecado. Após algum tempo, olhou em meus olhos e disse:
– Seu amigo Francis deve saber.
– M-mas é urgente! Preciso ler o quanto antes!
Arthur suspirara. Levantara-se da cadeira, caminhando sem pressa até a seção infantil, tirando da prateleira envernizada, um livro relativamente fino e branco. Entregou-me, ainda proferiu: “há mais amor, sentimento e reflexão nessas páginas que no resto dessa sala”.
O livro era “O Pequeno Príncipe”.
–x-
Li a obra durante o almoço. Achei lindo por sinal. Mas o que mais me chamara a atenção era quando o Principezinho encontra a Raposa. Me coloquei no lugar dele e Roddy como o belo animal ruivo. De fato, combinava. O lourinho conquistara o coração de um animal que é livre por natureza. Claro que a Raposa queria ser cativada – isto é, criar laços. Basicamente o que eu fiz: cativei minha raposinha chata e mimada, que acabou me ensinando que se eu “sempre aparecer as quatro, desde as três ele estará me esperando”. Ou mais ou menos isso.
O que quer dizer que, pelo menos, um já cativou ao outro. E criar laços fortes permite que você tenha um relacionamento duradouro. Bem, basicamente é para isso que nós existimos?
–x-
A última aula fora vaga para o ensino médio. Aproveitei a oportunidade e enviei uma mensagem para Roderich, para nos encontrarmos no topo da escola, como naquele dia onde nós demos nosso segundo beijo. Romântico, não?
Fui para o local e esperei pouco tempo. A famosa, clichê, mas ainda assim, importante mensagem “precisamos conversar” faz um efeito enorme no interlocutor. Roderich subiu apressado, esbaforido, e para evitar que eu o olhasse, daquela forma deselegante, ele apenas sentou-se encostado as minhas costas. Bom, isso facilitaria um pouco.
– Pois bem – ele arfava. Não deve ser muito acostumado a correr e escalar – sobre o que vamos falar?
– Bom... Eu acho que estava na hora... De falarmos sobre a gente.
Ele suspirou. Senti ele se encolher um pouco. Depois de um tempo, com a voz trêmula, começou a falar:
– T-tem razão. Ultimamente me pego pensando em você... No começo achava que era nada, uma brincadeira, mas... Não consigo não sorrir ao pensar em você...
TÊM NOÇÃO O QUANTO EU QUIS SALTITAR FEITO UMA GAZELA ALBINA?!
– E-eu posso dizer a mesma coisa. Eu sinto que criei um laço bem forte com você – saca só a intertextualidade — mesmo que a gente pareça distante... Sei lá. – procurei a mão dele, logo entrelaçando nossos dedos – é quase uma necessidade te ter ao meu lado.
– Se fossemos distantes, não moraríamos na cabeça um do outro...
– De fato.
Passamos mais um tempo em silêncio. Fazia frio, e sinto que assim como eu, ele ansiava pelo calor de nossos beijos.
– Roderich?
– Ja?
– Se eu te pedisse em namoro, você aceitaria?
Senti sua mão tremer. Mais silêncio.
–Tenho medo do meu padrasto descobrir, Gilbert...
Agora eu fiquei bem triste.
– M-mas... se isso for um pedido, eu aceito. Se parar com a ideia do livro.
Corei tanto que meu cabelo deve ter ficado ruivo!
– Prefiro alterar o título para... “Como amar Roderich Edelstein”.
Ele riu baixo, se levantando e sentando em meu colo.
– Prefiro assim. – e sorriu, não daqueles sorrisos leves que dava, mas um sorriso sincero, mostrando todos os seus dentinhos, inclusive os da frente, que eram um pouquinho tortos – um charme!
E nos beijamos, até a noite cair, e procurarmos por mais calor em nossos cobertores.
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