Notas iniciais
Hey, coisas mais fofinhas e algodônicas

Capítulo XIV

– Ô Galego... O que houve? – Antônio me perguntava, ao me ver deitado na cama, todo coberto pelo edredom peludo vermelho.

– Nada não... Só não quero sair desse quentinho nunca mais.

– Foi sim, me conta, albino sabor baunilha!

– Quê?! Mudou de lado, cara?

– Não... Mas... Fala, Gil! Você é tão incrível!

– Não estou mais me sentindo incrível. Me deixa em paz, por favor. Quero o mínimo de sossego.

Houve um silêncio. Eu estava deitado há quase duas horas que me pareceram dias. Ainda estava triste por meu irmão não falar comigo. Nenhuma mensagem, nenhum aviso por terceiros, nada, nada. E ainda tinha Roderich, que estava com uma mancha esquisita no braço, o que me deixava angustiado. As italianas também estavam preocupadas, visto que os modos do austríaco tinham mudado bastante em sala.

Não mais que de repente, sinto um tapa sendo dado na minha nádega esquerda.

– Ai, cacete! Que droga foi essa, Antônio?! Vou contar pra Lovina!!

– Não fui eu! – respondeu risonho – foi o Francis.

– Levanta, Branco de Neve! – o louro chamou.

– Não quero... – resmunguei.

– Tudo bem... Roderich, o Gil não quer falar com você!

– O quê?! – levantei num pulo – Cadê?!

– Você caiu! – o espanhol gargalhou – que trouxa...

– E você lá é bruxo de Hogwarts para me chamar de trouxa? – fiquei irritado. – agora me deixa voltar para a cidade felpuda – tentei me cobrir, mas Francis impediu.

– Vamos lá, Gil... Deixa de tristeza, vamos correr ao ar livre, comer batata frita e tomar aquela cervejinha trincando de gelada!

– Não quero.

– Pra isso acontecer você deve estar mal mesmo, né? – a voz de Francis soou tristonha.

– Tô mal pra caralho. Quero o Lud. Só isso.

– Calma, Gil... Uma hora ele vem falar com você? Ele não disse que ia pensar?

– Estou me arrependendo de ter contado...

– E se ele soubesse por outra pessoa, não seria pior? Você fez a sua parte.

– Vai que ele contou ao Roderich? Deve ser por isso que ele foi tão frio comigo...

– Acho que não, Gil... – o espanhol se aproximou. – seu irmão é muito cabeça, ele não iria contar nada.

Suspirei.

– Eu não sei de mais nada... Só quero dormir por uns três meses... Quando tudo se resolver, eu acordo.

– E vai deixar de ouvir a Lady Gaga? Tomar cerveja? Comprar várias balas de goma em formato de unicórnio que você tanto gosta? Não, Gilbert! Ânimo, cara!

– Já disse que não! Vão embora, por favor...

Eles desistiram e saíram, apagando a luz. Eu sei que só queriam ajudar, mas também quero ficar sozinho. Embolei-me na coberta, desejando um minuto de paz.

Durou realmente só um minuto.

Sinto meu corpo sendo erguido da cama, com meu edredom felpudo, tentei me debater ao notar que estava sendo carregado para fora do quarto. Meu Senhor! Estão me sequestrando!! Gritei, mas minha voz foi abafada pelo cobertor. Desisti e me deixei ser carregado. Entretanto, a caminhada não durou muito e fui gentilmente colocado em algo macio, provavelmente uma cama. Me desenrolei daquela vermelhidão, para logo encarar meus sequestrador.

Assim que me vi livre das cobertas, a primeira coisa que meus rubis viram foram ametistas que brilhavam curiosamente. Não, impossível. Roderich é menor e mais fraco que eu, nunca que me carregaria... Aliás, ele estava em sua cama, oposta a qual eu me encontrava, deitado e lendo um livro. Se estou no quarto de Roderich, então quem me trouxe foi...

– Gil? – Lud me chamou, com a voz um pouco confusa. Desvencilhei o olhar que trocava com o austríaco para encarar meu irmão. Ele parecia abatido, e cansado. Mordi meu lábio.

– Roderich, poderia nos dar a licença? – O moreno concordou confuso e saiu. Kiku deveria estar jogando no quarto de Alfred.

– Antônio e Francis me contaram do seu estado, Gil... – Lud fitava o chão, sentando-se na beirada da cama – não sabia que ficaria tão abalado assim... – me enrolei com meu companheiro felpudo.

– Um tanto egoísta da sua parte dizer isso – sibilei – me ignora por três dias e acha que não ficaria magoado por meu adorado irmão me dizer aquilo? – senti meus olhos marejarem.

– Gil... Convenhamos... É muita coisa nova na minha cabeça, tente me entender... Eu usei esses três dias para pensar; folheei nosso álbum de fotos, relembrei tantas coisas... Eu te considerava um herói, quando você dormia sem precisar deixar o abajur de tomada aceso, quando assistia filmes de terror e passava a noite todo tranquilo...

– Considerava? – minha voz saiu um pouco chorosa, mais do que eu queria.

– Calma, Gil... Pensei muito mesmo nesses dias e percebi que enfrentar barreiras e preconceitos te faz mais ainda um herói pra mim. Eu precisava de um tempo para aceitar, ou melhor dizendo, conciliar o que você disse com o que eu sabia sobre você. No final das contas, não mudou em nada, Gil. Você continua sendo o meu irmão mais velho, meu exemplo e meu herói. – ele me encarava, sorrindo, o que era raro. E o sorriso dele era tão bonito...

Eu não segurava as lágrimas mais. Elas pareciam ter vida própria e deslizavam pelo meu rosto. Eu não enxergava nada além de um borrão. O soluço travado há dias na minha garganta se soltou e comecei a chorar. Era uma mistura de sentimentos, não sabendo que estava a sentir agora. Abracei meu irmão apertado, molhando sua camiseta, mas ele nem parecia se importar. Chorei por um bom tempo até sentir meu corpo cansar. Adormeci gradativamente.

–x-

Duas semanas se passaram desde o ocorrido. Contei a Lud que estava gostando de seu colega de quarto, o que o deixou surpreso. Questionado por Tônio, Lud não sabia nos informar se Roderich era gay ou não, mas o achava extremamente bagunçado, sem senso de direção e um pouco folgado. Mas estimava muito seu violino, sempre o limpando antes de dormir. Quando estava no quarto, ficava sempre acompanhado de um livro clássico, ou estudava tanto as matérias do colégio, quanto partituras.

– A única coisa estranha que notei é que quando ele fica o final de semana fora, ele aparece machucado. Quando temos educação física na piscina, ele nunca entra, e são diversos os ferimentos. Hematomas, arranhões, vergões... Ele alega que caiu da escada, mas sempre? Até que faz um pouco de sentido...

– Não sei... – redargui – eu sugeri que ele fosse à enfermaria, mas ele me dispensou numa grosseria...

– Fora que ele fica quietinho na sala. Quando passa o final de semana aqui, ele fica tão contente! Fica tocando direto quarenta e oito horas! Exagero, mas é verdade.

– Aposto que é por que o Gil está por perto – Francis brincou.

– Não sei, meus caros... Estou preocupado com aquele garoto... Lud, tente descobrir alguma coisa, tudo bem? Quero muito ajuda-lo, e farei o possível.

– Que bonitinho!! Gil está apaixonado! – Tônio apertou uma de minhas bochechas.

– Okay, bruder. Estarei atento a tudo. Vou convencer a Kiku a observar, visto que ele nota os mínimos detalhes.

– Seria mais fácil fuçarmos os perfis dele. – Francis sugeriu.

– Nem adianta. Ele não posta muita coisa. Já tentei e nem as páginas ajudaram...

– Nenhuma página de orgulho gay? – Antônio questionou.

– Nem eu curto! Não há motivos para me orgulhar. Sou um ser humano normal, ser albino é incomum, mas é natural. Eu não seria nem superior nem inferior pela minha opção sexual, é só uma escolha. Só me orgulho de ser Little Monster, aí sim.

– Mas ser Little Monster não é sinônimo de ser gay?

– Não, Tônio – apertei os olhos – é sinônimo de amar a si mesmo. Isso é motivo de orgulho!

–x-

Uma aula normal de trigonometria no segundo ano do ensino médio. Os estudantes copiavam sonolentamente os números, cálculos e afins do quadro. Luciano e Martín estavam sentados juntos, mas tinha um motivo. Ouviam um jogo de futebol que estava acontecendo naquele instante. Se seguravam para não xingar o juiz, nem o bandeirinha ou gritar gol. Roderich estava muito compenetrado, assim como Kiku e Ludwig. Matthew estava ouvindo em um fone a música Famous Last Words, música da sua banda favorita, infelizmente terminada, My Chemical Romance. Lovina Vargas trocava mensagens via whatsapp com o namorado, com muitos emojis de beijos e corações. Feliciana só se perdia nos fios dourados e claros do alemão.

Seria uma aula normal, se uma inspetora não surgisse questionando se aquela era a sala onde estudava a italianinha. Quando foi confirmado, ela chamou por alguém, um funcionário, que carregava uma cesta cheia de rosas dos mais variados tons, do branco ao pérola, do rosa ao escarlate. Feliciana ficou vermelha, e todos ficaram impressionados, até mesmo o jovem Edelstein.

A cesta vinha acompanhada de uma carta, de papel próprio e, em dourado, estava escrito com letras bordadíssimas, na língua materna da jovem:

“Das flores que pintavas na infância

Nunca esqueci a lembrança

De seu sorriso de criança.

Há boatos que artistas beijam e sonham colorido,

Eu nunca experimentei isso

Mas sonho noite e dia com o momento

Em que findará o tormento

E eu possa experimentar teus lindos lábios

Sem culpa, sem nada

E ter o prazer de te chamar

De minha namorada”

Feliciana releu aquele poema – não era nenhum soneto de Vinícius de Moraes, seu poeta favorito, mas era tão puro e tão lindo que nem notou isso – no mínimo dezessete vezes. Ela não cabia em si de tanta felicidade. Fez carinho nas rosas e não conseguia se concentrar na aula. Sentia o perfume doce e abrira um sorriso lindo e tão sincero, que deixou um louro admirado.

Notas finais
Quero agradecer aos reviews lindos que tenho recebido. Responderei os do último capítulo junto com os deste. E VAI BRASIL!!!