Como Vivem Os Anjos
17 Leões Dourados
Notas iniciais
O ar frio de Paris havia sido substituído pelo quente e seco de Middleland, que atravessava o meio do verão. As flores desabrochavam e por todos os lados sentia-se seu perfume e ouvia-se o burburinho irritado das pessoas queixando-se do calor. Muitos mudavam-se para Castellobranco naquela época do ano, já que a cidade encontrava-se no meio das férias escolares. Estavam no início de julho e as aulas de Nicholas já haviam voltado.
— Onze matérias? — Ethan dissera, estupefato, no final do mês anterior. — Como você pode ficar de recuperação em onze matérias?
— Acontece que eu não consegui a média necessária para passar — Nick respondera calmamente. Haviam acabado de sair da escola e estavam fazendo o trajeto para casa a pé. Era muito cedo e Lorenzo acompanhava-os. Ethan passara em todas as matérias, obviamente. Nick decidira partir para a ignorância logo de cara. — Me pergunto o que é que você vai fazer durante duas semanas em que eu não vou estar em casa pra te satisfazer.
— Como assim, satisfazer? — Lorenzo perguntara inocentemente.
Ethan bufou.
— Não é nada.
O menino fez um som muito parecido com um gemido de frustração. Nick sorriu. Se alguém jogava bem aquele jogo de influências, esse alguém era ele.
Depois de ouvir o sermão de Ethan (na verdade, Nick mandara a mente para bem longe durante o resto do trajeto, então não ouvira praticamente nada, mas tinha absoluta certeza de que estava proibido de sair de casa, jogar futebol ou qualquer outro esporte que pensasse em praticar, ir a festas ou sair com os amigos), chegaram ao prédio e subiram os catorze degraus da fachada, atravessaram o portão, o pátio, o hall e então pegaram o elevador. Quando chegaram ao apartamento, Ethan disse:
— Eu devia te castrar de uma vez.
— Faça — Nick respondeu, mordendo o lábio inferior. Quando ficaram a sós na sala, completou: — Mas me ame uma última vez. — E começou a se despir.
— Ponha a roupa — o mais velho murmurou.
— Não. Tiro se eu quiser. E ninguém pode me impedir.
Porém, antes de fazê-lo, Ethan segurou graciosamente suas mãos.
— Calma. Vamos ter muito tempo pra isso antes.
— O último Leão Dourado não tem muita paciência. — Desde o dia em que Ethan contara a ele como eram chamados os magnatas da Família Hentz, Nick não parava de se autoproclamar como o último Leão Dourado.
— O último Leão Dourado ficou em onze matérias e o irmão dele pretende fazê-lo recuperar-se. — Antes de Nick poder abrir a boca, interrompeu-o. — Você sabe jogar esse jogo muito bem, mas, dessa vez, não vai manipular ninguém.
— Eu não vou sair de casa, se é isso que…
— Não é disso que estou falando.
Nick franziu as sobrancelhas. E então compreendeu.
— Fala de Lorenzo? — Deu de ombros, sorrindo. — Você o trouxe pra cá, como um jovem adulto. Eu o transformei numa criança. E a culpa é minha se ele gosta mais de mim do que de você? Inteligência é poder, mano.
Ethan sorriu penetrantemente e então fitou o irmão com aqueles olhos escuros e negros, tão profundos como duas poças de petróleo.
— Poder é poder, Nick Hentz.
Um som longo e agudo ressoou pelo apartamento enquanto um irmão matava o outro com o olhar. Vinha do quarto de Lorenzo. Ethan logo percebeu que eram notas aleatórias e que não tinham nenhuma simetria, pois não era uma música, mas apenas um amontoado de notas tocadas ocasionalmente de forma a compor uma melodia verdadeira.
Quando Lorenzo tocava, parecia que o mundo inteiro sumia ao seu redor e ele entrava num universo pertencente a ele e só ele. E normalmente fechava os olhos, mas quando abria, via-se apenas uma paixão e calor que ninguém nunca vira em ninguém. Seus olhos mortos tomavam vida e abriam-se.
— Ele é tão talentoso — Nick murmurou. — Vamos fazer dinheiro com ele.
— Nicholas.
— Que foi? Ele já tem 90 milhões de dólares, por que não um pouco mais?
Ethan revirou os olhos.
— Tenho que sair. Quando eu voltar, vou fazer você engolir cada número daquele livro de matemática que você nunca abriu. E você vai gostar.
OoO
Ethan Lemnsack nunca vira o rosto dele. Usava sempre um sobretudo preto muito grande para si, mas dava para perceber que tinha porte médio, chegando a ser quase baixo. O chapéu marrom claro impedia-o de ver a cor de seu cabelo, mas sabia que era curto. Usava sempre luvas pretas, mas percebia-se que era branco.
Sentia-se meio patético em encontrá-lo às espreitas sempre que precisava, ou melhor, sempre que ele podia encontrá-lo, mas era necessário. O preço era incrivelmente bom para alguém que nunca fazia perguntas.
Estava no parque municipal, onde as árvores tremeluziam agressivamente verdes e o sol rugia lá em cima. Estava tão quente que a rua parecia ondular a sua vista. A madeira do banquinho fervia, mas Ethan não se importou quando se sentou. Era o local marcado.
Ele chegou com seu sobretudo marrom. Devia estar cozinhando lá dentro. Ethan usava um casaco puramente por necessidade.
Nunca ouvira sua voz, mas não era realmente necessário.
— Trouxe? — Ethan indagou, olhando para o lado oposto, como se não estivesse realmente conversando com ele.
Ele tirou um envelope de papel-pardo de dentro do sobretudo e o deslizou rápida e discretamente pela madeira do banco. Ethan tirou outro envelope, muito mais grosso, de dentro do próprio casaco e fez o mesmo gesto. Ele então soltou um grunhido gutural e incompreensível, se levantou, e se afastou.
Ethan abriu o dossiê que tinha nas mãos.
Era um relatório. A primeira página continha o endereço de todas as lojas de tintas, ou que vendiam tinta spray, e de pesticidas, em Middleland, listados em ordem de tamanho da loja. Eram cerca de cinquenta e nove itens. Da segunda a vigésima primeira página havia um resumo detalhado por demais de cada compra de tinta spray ou pesticidas que continham arsênico feita em cada loja nos últimos dois meses. E na última página havia uma fotografia em preto e branco que a ocupava quase toda. Uma mulher loira, saindo de um supermercado, com um carregamento de tinta spray e pesticida grande demais para uma pessoa normal.
Ethan se levantou do banco, perturbado, e percebeu que suava copiosamente. Não sabia se era pelo calor, ou por qualquer outra coisa.
OoO
— Você consegue, Nick…
— Não, Ethan, eu não consigo! Santo Deus, você não entende que eu simplesmente não consigo decorar isso?
— Não é questão de decorar, é questão de aprender.
— Todo mundo me diz isso, mas ninguém me ensina a aprender.
— Você não aprende porque não quer.
— Pelo menos isso é verdade.
A luz de velas tremeluzia da cor do fogo nas paredes escuras quando o vento entrava pela porta aberta da varanda. Sombras fantasmagóricas dançavam por todo lado, era como se estivessem cercados. Sobre a mesa, uma dezena de papeis dos mais variados tipos, além de livros mais grossos que o antebraço de Nick. Havia um castiçal dourado com espaço para três velas, que estavam acesas. As luzes estavam apagadas.
Ethan insistira naquele clima, embora Nick não soubesse por quê. Estavam naquela mesa havia duas horas, a noite reinava lá fora e o vento manso que invadia o apartamento estava estranhamente frio. Nick observava a luz laranja dançar nos óculos e no rosto de Ethan, dando-lhe uma aparência macabra. Ele estava macabro desde quando voltara de sua saída de tarde. Falava pouco e apenas quando necessário, enquanto olhava penetrantemente Nick fazer cálculos exaustivos. Seus olhos negros por trás das lentes estavam muito longe dali.
— Eu também acho que decorar fórmulas matemáticas é uma estupidez — Ethan declarou, falando tão baixo que era quase uma lamúria. — Quando tiver que fazer a prova, bem, cole. Eu faço isso, às vezes.
Nick sorriu meigamente.
— Quanto amor. Meu irmão nerd me ensinando a colar. Como quiser, maninho.
— Nick, olhe pra mim.
Ele já estava olhando.
— Não para o meu rosto, para o meu corpo… para as minhas roupas.
— Estou olhando… o que tem elas?
— Conte-as, leãozinho.
Ethan usava uma bermuda listrada em branco e roxo, uma camiseta de manga curta branca, e por cima desta, uma aberta na frente, desabotoada, preta.
— Ahn… três?
— Não. A bermuda, a camisa e a camiseta contam três. As sandálias contam mais dois. Cinco. Olhe, estou usando dois anéis nos dedos. — Um deles era o de rubi e ouro branco cujo gêmeo estava com Gabriel. O outro era de aço. — Sete. Mais o colar que nós dois temos, oito. Com os óculos, contam nove. E a roupa de baixo, dez. Estou usando dez peças de roupa.
— Aonde quer chegar?
Ethan puxou, do outro lado da mesa, um bloco de papeis e o pôs na frente do irmão, que se lamentou ao ver a quantidade de questões.
— Tem cem questões aí. A cada dez questões que você acertar, eu tiro uma peça de roupa.
Nick não percebeu, e Ethan também não, já que seu rosto estava banhado nas luzes laranja das velas, mas enrubesceu.
— E é melhor aproveitar, porque é todo o sexo que você vai conseguir até suas provas de recuperação. — Ethan recostou-se na cadeira, entrelaçou os dedos por trás da cabeça e, pela primeira vez naquela noite sombria, sorriu. — Manda ver.
Não se surpreendeu com a rapidez com que a mente de Nicholas trabalhou naquelas cem questões. O louro não aparentou estar cansado, não reclamou da dor nas costas, não perdeu a atenção, durante uma hora inteira tudo o que se ouvia era o rabiscar de lápis no papel, durante uma hora inteira Ethan ficou a observar Nick passando de folha para folha como um relâmpago. Quando fechou os olhos para relaxar, ele suspirou de alívio:
— Terminei. Pelos sete infernos, terminei. Eu devia ser canonizado.
— Deixe-me ver. — Repôs os óculos e passou o olho pelas questões. — Eu disse que só me despiria com cada dez questões que você acertasse, não disse?
— Disse. Eu sou um gênio, não sou?
— Acertou as dez primeiras.
Nick exprimiu um gritinho de alegria quando viu o irmão tirar um dos anéis. E reprimiu outro quando o viu tirar o segundo. Depois, a camisa desabotoada se foi. Cinco minutos após isso, as duas sandálias jaziam jogadas num canto escuro da sala. Então o colar e a camisa. Depois a bermuda.
Quando Ethan tirou a cueca, Nick quase pulou da cadeira para meter o membro semiereto na boca.
— Calma lá, você só acertou noventa questões.
Ele ainda usava os óculos.
Seus olhos deslizavam dinamicamente pelo papel branco como cobras pela terra, absorvendo cada número, cada sinal, cada maldito sinal. Depois de uma espera que parecera interminável, Ethan sorriu de canto de boca. Tirou os óculos.
— Você conseguiu. Venha pegar seu prêmio.
Foi arrancado da cadeira e jogado violentamente no sofá, caindo de costas. Nick subiu engatinhando por seu peito e deitou-se em cima dele, aconchegando-se e ronronando como um gato. Começou a pressionar seu quadril contra o de Ethan, os dois falos já eretos.
— É tão gostoso — Nick gemeu, deitado sobre o peito do maior. — Seu sabor, seu cheiro. — Deslizou-se para baixo e segurou seu sexo com os dedos compridos, fechando-os em volta da carne excitada. — Você todo. — E enfiou-o na boca.
Sua cabeça loura subia e descia à medida que seus lábios rosados engoliam o membro e sua língua resvalava sobre ele. Ethan estava com metade do corpo para fora do sofá, e Nick entre suas pernas, ajoelhado, gemendo e se masturbando.
Abriu as pernas do irmão e enfiou um dedo em sua abertura. Não pretendia penetrá-lo, mas era gostoso perturbá-lo com a ideia de que sim. Aliás, Ethan estava extasiado demais para contestar. Tentava conter os gemidos, mas era impossível. Nick conseguia meter todo seu pênis na boca, numa sucção absurdamente forte, sem engasgar.
Quando sentiu que ia ejacular, Ethan graciosamente separou-o de si. Puxou o corpo louro para si e o abraçou fortemente, como apenas com o irmão conseguia fazer. Apertou suas nádegas com as mãos até deixar as marcas de seus dedos na carne macia, então fez o mesmo nas coxas. Deitou Nick de costas, deitando-se por cima dele logo depois. O louro abraçou-o como uma criança, permitindo-o enfiar o rosto em seu pescoço e provar seu cheiro e seu sabor. Ethan deu chupões e mordiscou a pele marcada, sem nunca parar de pressionar o membro contra o mais novo.
Ajeitou-se entre suas pernas e pôs-se a resvalar a glande na abertura de Nick.
— Oh, Ethan… — sussurrou-lhe ao ouvido. A mão do maior encontrou-se entre suas pernas e começou a estimular o membro. — Isso, me toque. — Quando sentiu um dedo invadindo-o, soltou um gemido que mal era um sussurro. — Sim, aí. Mais fundo, sim, sim, aí, maninho, oh… — Contorceu-se quando sentiu o segundo dedo. — Sim, oh, Ethan, você, eu desejo você, só você. — Ethan tirou-lhe os dois dedos e enfiou a cabeça entre suas pernas, pondo-se a lubrificar a entrada com saliva. — Oh, isso, me molhe, me deixe molhado. Quero você dentro de mim, quero você, só você, só você, só você…
Quando Ethan entrou no irmão de uma vez só, suas pernas abraçaram-lhe e tornaram-se fortes como aço. As unhas de Nick enterraram-se em suas costas e ele retorceu-se tão violentamente que Ethan teve que abraçá-lo mais forte ainda para controlar os espasmos. Uma vez que começou a estocar, o louro começou a arrastar as unhas fincadas em sua pele para baixo. Ethan gemeu de dor e também de prazer. Outra estocada, e outra e mais outra, e gemidos, e suspiros, e carícias, e amores, e de repente estocava-o com tanta força quanto conseguia, em parte porque era maravilhoso, em parte porque queria acabar logo. Nick o estava dilacerando.
Quando ejaculou, sentiu que podia morrer feliz.
Por uma dúzia de segundos ficaram ali, unidos como um só, suados e exaustos, em paz. Seus desejos eram tão fortes e incontroláveis quanto a maré do mar e mesmo quando esta os cobriam, permaneciam lá, duros, frios e implacáveis. Queriam apenas ficar ali, um dentro do outro, como uma só alma, amando-se implicitamente, como devia ser.
Mas Ethan separou-se de Nick e ficaram apenas abraçados, sob a luz de velas.
Nick fitou o irmão.
— Me ama?
E Ethan respondeu.
— Te amo.
OoO
Aquela roupa pinicava.
A camisa vermelha com aquelas coisas douradas nos ombros e aqueles botões dourados que a fechava pinicava. Mas não tanto quanto aquele chapéu enormemente largo, preto com detalhes dourados. Seu cabelo louro parecia feito de palha por baixo do tecido grosseiro da peça e Nick não parava de coçar a cabeça. Sentia-se ridículo e fofo ao mesmo tempo.
A sua frente, um pandemônio mais ou menos organizado.
O ginásio da Academia Alphonse Enoi era uma estrutura retangular gigantesca com três andares de arquibancadas em seus extremos esquerdo e direito, e um espaço vazio enorme em seu meio. Possuía quatro portões de acesso, mas havia túneis por baixo das arquibancadas que serviam de depósito. Nick sabia disso. Perdera a conta de quantos boquetes já havia recebido nesses túneis.
Barracas por todo lado. Barracas simples e outras produzidas. E alunos. Alunos fantasiados.
Quem foi o imbecil que teve a grande ideia de fazer uma feira de história?
Não sabia quem teve a ideia, mas sabia quem o obrigara a participar.
— Do jeito que suas notas de história estão, você não pensa mesmo em desperdiçar a chance de praticamente dobrá-la, pensa? — Ethan perguntara isso com um tom irônico tão grande que Nick teve que se controlar pra não pular em cima dele e enterrar as unhas em seu rosto. Ele provavelmente gostaria.
E agora, estava lá. Numa barraca relativamente produzida cujo tema era o Império Napoleônico. Fantasiado de Napoleão.
— Está com vergonha? — perguntou Luca Granelli. Ele próprio tinha motivo para se envergonhar. Estava no mesmo grupo de Nick e também estava fantasiado, embora o louro não soubesse exatamente do quê. Mas usava uma calça doendo de branca, uma camisa de manga comprida preta com as mangas azuis sobre uma camiseta branca, e por cima da camisa, uma faixa azul que atravessava todo o peito, do ombro esquerdo à parte direita do quadril, e que combinava com seus olhos sem cor. Também usava uma daquelas ombreiras douradas.
— Alguma vez Nicholas Hentz teve vergonha de algo? — Sua vista estendia-se até o outro lado do ginásio, onde pais e mães ajudavam os filhos a montarem as barracas. Por algum motivo, sentiu-se triste. Mas não devia tanto, Luca tinha pai, e estava sozinho, assim como ele.
— Tem razão. — Luca se aproximou e colocou o braço em volta dos ombros dele, como se lesse seus pensamentos. Mecanicamente, Nick encostou a cabeça na dele, mas foi atrapalhado pelo chapéu. — Você está fofo.
— Obrigado. Mas me sinto ridículo. Em breve chegará o intervalo e a escola toda virá ver os pirralhos se humilhando por causa de notas. Sabia que Ethan fez praticamente todo o texto que temos que falar? Ele também me obrigou a decorar cada vírgula. Eu consegui.
— Eu sei — Luca disse. — A fantasia é a única coisa que incomoda.
— Isso também foi ideia dele, sabia? Quando ele estava no oitavo ano, também teve essa feira. O grupo dele tinha umas dez pessoas, mas ele organizou absolutamente tudo sozinho e todos tiraram dez. Aquele grande idiota. — Sua voz estava impregnada de uma doçura venenosa. — E ele fez exatamente a mesma coisa de novo conosco.
— Você tem sorte de tê-lo como irmão.
— Eu tenho. Ele faz meus deveres de casa desde que eu saiba como manipulá-lo para que ele faça isso. Na verdade, faz praticamente tudo o que eu peço. É só eu saber convencê-lo. — E deixou a frase pairando no ar. Não sabia se Luca percebera o que é que tinha de fazer para convencê-lo, desde o dia em que praticamente contara a ele sobre sua relação incestuosa com o irmão, nunca mais voltaram a comentar tal coisa.
Ele não pareceu perceber.
— Sorte sua. Você é inteligente.
— Não. Sou esperto.
Andrie Sarkosian aproximou-se da barraca e entrou na tenda. Ela era do grupo deles e desde que havia perdido a virgindade com Nick na semana anterior, andava perseguindo o louro de forma tão discreta que ele só percebeu quando ela quase se ajoelhou para ser do grupo deles. Usava um vestido de seda cor de vinho com uma facha preta amarrada à cintura. O cabelo castanho caía ondulado pelos ombros claros, contrastando com os olhos azuis.
Havia uma mancha cor de vinho na parte de baixo do vestido, que por ser da mesma cor do tecido, camuflava-se bem, mas não tanto a ponto de Nick não perceber.
— Quem fez isso? — perguntou.
— Arianne Crane — ela respondeu. — Eu passei perto da tenda dela e ela “sem querer” — Andrie realmente fez o sinal das aspas com os dedos — derrubou um copo de suco de uva em mim. Eles o estão usando para fingir que é vinho.
Eu transei com Arianne Crane ainda ontem. Que garota insuportável. Além de péssima na cama. Mas não posso culpá-la. Quem deixaria de sentir ciúmes de mim?
Aproximou-se de Andrie e segurou seu rosto delicadamente com uma das mãos.
— Não se preocupe. Ainda vou dar um jeito nela. — E a beijou na bochecha.
Quando ela se afastou, Luca sussurrou-lhe:
— Por que a trata dessa maneira se você mesmo já disse que não quer nada com ela?
— É um hobby. Partir o coração de garotinhas para que elas descubram que a vida não é um conto de fadas. Dói um pouco e a maioria nutre ódios enormes de mim, mas, no final, todas acabam perdoando o pobre Nick. — E transando com ele de novo.
A tenda de Arianne Crane era uma belíssima construção retangular com paredes de pano decoradas em vermelho e dourado, um toldo cor de creme fazia-se de teto, com quatro pilares de alumínio servindo de baluarte. Ela estava vestida com um vestido de seda cor de creme tão transparente que quase não fazia diferença entre estar vestida e estar nua.
Pelo menos está usando sutiã.
Nick aproximou-se. Arianne tinha um rosto de pantera, com maçãs do rosto acentuadas e olhos cos de âmbar puxados, da mesma cor que o cabelo liso, e era agressivamente sexy, de alguma forma. Usava delineador nos olhos numa tentativa ínfima de imitar uma egípcia.
Quando viu Nick, sorriu.
— Meu amorzinho. — Pôs os braços em volta do pescoço dele e o beijou nos lábios, quase se abaixando pra isso. Nick envolveu-lhe a cintura e a apertou contra si.
— Sabe, eu não consegui parar de pensar em você desde ontem — Nick disse, com enormes olhos negros. — Eu quero você de novo. — Sutilmente, desceu uma das mãos para a bunda dela.
Arianne sorriu. Era mais nova do que Nick, e ainda assim era quase da altura de Ethan.
— Eu sabia que você ia se cansar logo dessas pirralhas e ia procurar algo mais… experiente. — Silvou como um gato, o que combinou com seus olhos felinos.
Nick lambeu os lábios. Andrie Sarkosian era mais velha que ela. Segurou a bunda de Arianne as duas mãos e depois voltou-as à cintura.
— Você é tudo o que eu quero. No intervalo, está bem?
— Como quiser.
À medida que o tempo passava e cada tenda ficava cada vez mais produzida, Nick ficava cada vez mais nervoso.
— Não sei por que me sinto assim — disse a Luca. — To com uma sensação estranha dentro de mim desde que acordei… como se eu soubesse que algo muito ruim fosse acontecer hoje, sabe?
— Uma vez, senti a mesma coisa… — ele murmurou — quando eu ainda morava na Itália. Eu morava com meu pai e minha mãe numa villa. Tinha uns seis anos quando acordei no meio da noite por uns funcionários do meu pai. Não me lembro do que falavam, mas me vestiram às pressas e me enfiaram numa passagem secreta que havia por baixo da casa e que dava numa colina desolada. Meu pai estava lá, mas minha mãe, não. Entramos num avião bimotor e partimos para o porto da cidade, onde pegamos um navio para cá. Depois eu descobri que alguns inimigos do meu pai haviam invadido a villa e assassinado minha mãe. Queimaram todo o lugar. Nunca mais tive essa sensação depois disso. — Luca fungou. — Também nunca mais voltei à Itália.
Nick ficou olhando para o menino enquanto falava. Parecia Lorenzo, o rosto de pedra completamente despido de emoções, os olhos de tão azuis quase brancos fitando o nada. Era um relato deprimente.
— Eu sinto muito por isso — foi tudo o que conseguiu dizer. Palavras vazias que de nada serviriam.
— Obrigado. Não me importo com isso. Não mais.
O sinal indicando o intervalo tocou. Aos poucos, alunos de todas as idades começaram a invadir o ginásio para xeretar as tendas. A feira era uma linha do tempo, os temas iam desde os primórdios da humanidade até a Guerra Fria. Algumas pessoas vieram à tenda de Nick e este desempenhou seu papel perfeitamente bem, falando mecanicamente o que Ethan obrigara-lhe a repetir em frente ao espelho mil e uma vezes até que decorasse. Luca e Andrie falavam logo após ele, respectivamente.
Então Ethan apareceu, com um sorriso adorável, segurando a mão de Lorenzo.
Nick não sabia se o estrangulava por ter dado a ideia das fantasias ou se o amava por ter escrito o texto inteiro.
— Meu Deus, você está uma gracinha com essa roupa — ele disse. Estava provocando-o. — Com as ombreiras e o chapéu, parece uma cópia perfeita de Napoleão. Quem teve essa ideia?
— Não tente ser sarcástico, isso não te serve. Lorenzo. — Bagunçou os cabelos pretos do irmão, que riu infantilmente.
Luca se aproximou.
— Ciao, Lorenzo — falou em italiano. Ele arregalou os olhos cinza.
— Parli italiano? — perguntou. Ainda tinha sotaque quando falava, de modo que sua língua quase latejava de excitação ao usar sua língua natal.
— Sì, sono italiano — Luca respondeu, parecendo quase tão confortável quanto o menor.
Este desatou a falar coisas que logo se tornaram incompreensíveis tanto a Nick quanto a Ethan, porém, Luca parecia entender perfeitamente e quando Lore se calou, deu uma risada e respondeu no mesmo idioma. Os dois riram cumplicemente.
— Quanto amor entre vocês dois — Nick falou. — Mas, Luca, você vai precisar me cobrir por um tempo.
— Por quê?
— Preciso ir pra casa pegar outro vestido para Andrie. Eu deveria ter trazido, mas esqueci.
— Você não devia sair — Ethan repreendeu-o.
— O intervalo hoje dura quase uma hora e nossa casa é a menos de um quilômetro daqui. Tenho certeza que nossa nota será reduzida se virem que ela tem uma mancha do tamanho da sua cabeça no vestido. — Não era verdade, mas precisava ir pra casa de qualquer jeito. Tinha que pegar camisinhas se queria convencer Arianne Crane a fazer o que tinha planejado fazer.
Ethan ia abrir a boca para reclamar de novo, mas Nick já estava tirando a fantasia. Usava roupas normais por baixo.
— Se aquieta, mamãe, vá ver as outras tendas que quando você menos esperar, seu leãozinho já vai ter voltado, para a alegria de todos.
Ethan enrubesceu. Lorenzo riu. Luca não fez nada, absolutamente nada.
Atravessou o ginásio, esbarrando propositalmente em várias garotas e parando para cumprimentar algumas outras com um beijo no rosto. A tenda de Arianne estava apresentando o império egípcio e algumas garotas faziam uma tentativa tão desajeitada da dança do ventre que Cleópatra devia estar se revirando no túmulo.
Quando se aproximou de uma das saídas, o viu.
— Nicholas — ele cumprimentou-o com um sorriso cinicamente educado.
— O que você está fazendo aqui? — indagou, sentindo a raiva crescer dentro de si.
— Jill estuda aqui, não é uma coincidência? — respondeu Danny.
Eles nos perseguem por todo lugar. Para onde quer que eu olhe, vejo suas cabeças loiras e sorrisos cínicos nos vigiando.
— Sim. Uma enorme coincidência. Saia da minha frente. — Empurrou-o bruscamente para poder passar, mas Danny pôs-se de volta no mesmo lugar com a mesma brutalidade.
— Oras, tenha calma. Por que tanto estresse? Está um dia lindo. E ele vai acabar ainda melhor.
E ele vai acabar em sangue se eu continuar olhando para a sua cara.
— Não adianta ir procurar meu irmão — Nick avisou. — Seu rostinho bonito já o seduziu uma dúzia de vezes, mas isso foi na França. — Aproximou-se do garoto com rosto de porcelana. — Se você tentar seduzi-lo de novo, eu mato você. Está ouvindo, ou será que não tem nada por baixo desses lindos cabelos loiros? Eu vou matar você.
O sorriso de Danny morreu. Suas sobrancelhas franziram-se levemente.
— Não me importo com suas ameaças, não enquanto você e Ethan continuarem a viver na escuridão. Tenha cuidado. — E partiu, misturando-se no contingente de alunos do ginásio.
Nick murmurou um palavrão e saiu da escola.
O dia realmente estava bonito, embora um pouco quente demais. O céu sem uma nuvem sequer estendia-se como seda até o infinito e os raios do sol acariciavam seu cabelo como os dedos de uma mulher. Apertou o passou e logo chegou ao apartamento, suando. Subiu o elevador, sentindo um desespero crescente dentro de si, sem saber por quê.
Abriu a porta do apartamento e se enfiou em seu quarto. O vestido sobressalente de Andrie estava lá.
Não me importo com suas ameaças, não enquanto você e Ethan continuarem a viver na escuridão.
O que ele quisera dizer com aquilo?
Sua caixa de camisinhas estava vazia, de modo que teria de roubar algumas de Ethan. Ele as guardava na estante, num livro que na verdade era uma caixa, junto com a única foto existente de Oliver Castanelli. Procurou-a dando batidinhas na lateral dos livros e quando ouviu o som oco, soube que era aquela. Abriu-a. Dentro, havia uma dúzia de camisinhas, a foto de Oliver, e um envelope de papel-pardo.
Nick estremeceu.
Isso nunca estivera aqui antes.
Abriu-o.
A primeira página continha vários nomes e endereços que Nick não compreendia. Por mais de vinte páginas houve apenas nomes e números, números pequenos, com nomes ainda menores. Nada que valesse a pena olhar. Foi na última página que a viu. Com aquele rosto triangular e angelical, aqueles olhos multicoloridos e aquele cabelo loiro que não apareciam porque a foto era em preto e branco, alta e esbelta. Angie Nevarnost segurava sacas e mais sacas de pesticidas. E havia tinta spray também.
Nick largou o papel pardo e a caixa, perturbado, e chocou-se violentamente contra a estante. Alguns livros caíram, assim como alguns papeis e envelopes, e, de um deles, seu conteúdo esparramou-se pelo chão.
Uma foto de uma adolescente loira deitada de olhos fechados numa cama de hospital. O rosto dela, completamente deformado e a pele, queimada. E uma frase, uma frase. Suas drogas fizeram isso. Vou matá-los.
Por algum motivo, Nick lera aquilo com a voz de Danny Nevarnost.
Está um dia lindo. E ele vai acabar ainda melhor.
Não me importo com suas ameaças, não enquanto você e Ethan continuarem a viver na escuridão. Tenha cuidado.
Tenha cuidado.
Tenha cuidado.
Tenha cuidado.
E eles vestiam preto, todos eles, sempre, sempre, e sempre. E agora Nick sabia por quê.
Eles estão de luto. Estão todos de luto.
Tremendo, caiu de joelhos, e chorou.
OoO
Nick está estranhamente quieto desde que voltou de casa, Ethan pensou. Pelo menos ele não havia esquecido o vestido de Andrie.
Mas não fez mais nada. Recolocou a fantasia e ficou lá, parado no seu lugar, falando as palavras que devia falar, que tinha que falar, para quem quisesse ouvir. Certamente tirariam uma nota alta, altíssima, tinham que tirar.
E Danny Nevarnost estava ali. Evitara-o o intervalo inteiro, mas quando Lorenzo e Jill deram-se um encontrão e começaram a conversar, foi impossível. Não queria afastá-lo dela, parecia gostar dela de verdade… e Nick, de Penny. E ele mesmo, de Danny.
Eles seduziram-nos todos. E nem percebemos isso.
O louro ficara com aquele estúpido e adorável sorriso o tempo todo em que tentara puxar assunto com Ethan. E, vez ou outra, esbarrava o corpo no dele propositalmente. O maior tivera que sentar para disfarçar a ereção que se formara. Desejava-o sim, mas não o queria. Olhar para o rosto de Gabriel era difícil demais desde que voltara de Paris, especialmente quando este o abraçara carinhosamente, beijara-o na bochecha e dissera-lhe que lhe amava e que sentira saudades, ainda no aeroporto. Ethan não pode fazer nada senão abraçá-lo de volta.
A culpa consumia-o. Mas estava decidido a não contar ao menor. Não conseguiria vê-lo machucado, especialmente se o culpado fosse ele.
Estava quase na hora do intervalo acabar quando viu Nick saindo discretamente de sua tenda e entrando em outra cujo tema devia ser o império egípcio, pelo visto comandada por uma garota alta com olhos de gato que tinha uma leve impressão de que conhecia. A tenda fechou-se.
Ah, não. Agora me lembro daquela garota. Nick dormiu com ela ontem.
Foi aí que a tenda se abriu. A garota estava lá, sozinha, e nua.
E Nick, do seu lado, com um sorriso leve no rosto, como um anjo dourado. Não, como um leão dourado.
— O que… você fez? — indagou, gaguejando.
— Mais ou menos a mesma coisa que fiz com Luca. A diferença é que essa garota mereceu.
Foi aí que a confusão começou. As pessoas começaram a se amontoar em volta da tenda, algumas apontavam e riam, outras tentaram entrar lá.
— Você tem alguma ideia de que aquela garota pode…
— Ser estuprada? Tenho. Por isso não roubei as roupas dela.
Os funcionários da escola começaram a tentar afastar os alunos da tenda de Arianne Crane, mas a multidão era grande demais. Todos queriam vê-la.
— Eu não acredito que você fez isso. De novo.
— Pode me castigar. Mas, antes, por que foi que você não me contou sobre o dossiê?
Ethan olhou para ele.
— Sobre… o quê?
— Sobre a merda do dossiê que entregava os Nevarnost!
Uma voz no autofalante informou aos alunos que eles deviam voltar às suas salas naquele momento. Era como esperar que um peixe saísse do mar apenas mandando-o fazer isso.
— Como você o descobriu?
— Você o escondeu no mesmo lugar onde guarda as camisinhas, idiota. A propósito, saiba que a maioria das camisinhas de sabor é de má qualidade.
— Eu não queria te entregar naquele momento… — Ethan parecia tão perturbado quando tinha o direito de ficar — não queria te preocupar.
— Me preocupar?! — Nick puxou o irmão pelo cangote da camisa e deu-lhe um tapa no rosto. A sensação era tão boa que sentiu que podia fazer pra sempre. — Seu imbecil! Faz duas semanas que você recebeu aquilo, até quando achava que eu não iria me preocupar?!
Largou-o com repugnância. Estava com raiva demais de Ethan para contar-lhe que somara dois mais dois. Se ele queria esconder algo de Nick, então Nick faria o mesmo.
— Volte para a sua aula. Espero que não seja assassinado no caminho. — E o deixou.
Procurou por Luca e o achou meio paralisado na tenda deles.
— Sem comentários sobre aquela garota — Nick disse. — Preciso de você.
Ele pareceu deixar seu transe e prestar atenção no louro.
— Para quê?
— Seus guarda-costas são bem obedientes, não são?
— São. Fazem tudo o que eu peço.
— Tudo mesmo?
— Sim. Aonde quer chegar, garoto dourado?
Nick sorriu.
OoO
A coisa boa de Luca Granelli morar em uma casa tão grande, é que gritos dificilmente seriam ouvidos do lado de fora.
Dissera-lhe que o quarto fora outrora um depósito, mas qualquer quesito de humanidade que havia lá, há muito fora retirado. Agora, não passava de uma caixa de cimento com um ralo no canto e correntes pendendo no teto.
— Quando nos mudamos para cá, pessoas eram torturadas aqui para que fossem extraídas informações — Luca contara, parecendo divertido. — Gosto de pensar que as almas delas ainda vagam por aqui.
Divertido era o fato de que há muito que não se havia pessoas naquelas correntes. Até aquele momento.
Nick não sabia o nome dos três guarda-costas de Luca, de modo que os chamava de Primeiro, Segundo e Terceiro. Sabia apenas que eles ajudaram a capturar Danny Nevarnost.
Fora fácil. No fim da manhã, quando o garoto ainda estava na Academia Alphonse Enoi para levar Jill para casa, Nick abordara-o alegremente. Dissera-lhe que Ethan estava esperando por ele no Corredor e Danny, ao invés de desconfiar, realmente foi ao Corredor. Só que era Primeiro quem estava lá. Ou Segundo, eles eram muito parecidos. Deram algo ao louro que o fez dormir imediatamente (Nick suspeitava que fosse clorofórmio) e então saíram pelo portão lateral da escola, no qual o Corredor dava, puseram-no num carro e o levaram a Jardim de Ouro. Nick levou Jill para casa sob o pretexto de que Danny havia pedido isso. Ela acreditou.
Agora, ele estava ali, lentamente voltando à consciência.
Sua primeira reação foi entrar em pânico ao ver as correntes em volta de seus pulsos muito pálidos, machucando-os.
— Oi, bebê — cumprimentou Nick, alegremente.
— Isso… — arquejou Danny. Ainda sentia-se tonto — é sequestro. Eu vou crucificá-lo.
— Quer falar de crucificação? Vai ter que sair daqui vivo.
Seus olhos encheram-se de medo ao ver o aspecto da sala em que estava. Uma luz oscilante pendia do teto, muito fraca.
— Que… Deus me ajude…
— Que Deus te ajude? — ele repetiu, parecendo muito surpreso. — Que eu te ajude! Eu, Nicholas Hentz! O último leão dourado.
— O-o que você quer? — indagou debilmente.
— O que eu quero? — Nick falou inocentemente. — Quero muitas coisas. Quero que você tire essa expressão cínica da sua cara, pra começar.
Danny cuspiu aos seus pés.
— Vá pro inferno.
Nick sorriu. Olhou para Segundo e Terceiro.
— Segurem-no. — Eles o fizeram. Danny tentou se debater, mas era como uma truta tentando escapar de dois ursos. — Cortem a garganta dele. — Abafou um grito quando Terceiro encostou uma lâmina em sua garganta pálida, sentindo as lágrimas teimarem em descer de seus olhos. — Oh, esperem! — Eles pararam e Nick riu. — Mudei de ideia. Dê-me aqui esse canivete.
Terceiro entregou-lhe a lâmina afiada, sem soltar Danny, que arquejava e lutava para não chorar.
— Lembra-se do que me disse hoje de manhã? — Nick perguntou. — “Tenha cuidado”. Acho que é você quem devia ter cuidado comigo, loirinho. — Aproximou-se do rosto dele até ficarem tão próximos que podiam se beijar. — Fala pra mim. Qual era o nome dela?
Danny continuava arfando.
— De quem?
— Você sabe de quem eu falo. Da garota que tomou os remédios errados graças ao erro feito na empresa da minha mãe. A irmã de vocês.
Ele baixou a cabeça e quando a levantou, Nick percebeu que havia soltado as lágrimas, que agora desciam lentas e secas por seu rosto.
— Leanne. O nome dela é Leanne.
— “É”? Ela ainda está viva?
Danny assentiu.
— Está em coma. No hospital Saint Roese.
Foi nesse hospital que Ethan ficou quando teve o colapso nervoso.
— Por isso que querem nos matar? — Nick perguntou. Danny virou a cara, sem querer responder. — Estou com uma lâmina no seu pescoço, acho melhor você não me desagradar.
— N-não sou eu… não sou eu quem quero isso. — Ele fungou. — É… é…
— Sua mãe?
— Não. Meu pai.
Aquilo realmente pegou Nick de surpresa. Já vira Ned Nevarnost algumas vezes e depois da surpresa inicial de descobrir que Danny e Penny tinham um pai, achara-o incrivelmente bem educado e atencioso. Podia jurar que era Angie quem havia maquinado todo aquele plano.
— Ele… — Danny balbuciou — foi ele quem nos obrigou a fazer isso. A nos mudarmos para aquele apartamento. A escrever aquilo na parede. A envenenar a comida. Até…
— Obrigou até a própria filha e dormir comigo e você com Ethan?
Nick não acreditava no que ele dizia.
— Olhe… olha nas minhas costas — ele disse. Segundo e Terceiro o soltaram. Danny levantou a camisa molhada de suor. E então Nick viu. Cicatrizes de aspecto horrível cobriam toda a pele exposta, algumas pareciam marcas de queimaduras, outras pareciam que haviam sido feitas com lâminas. Havia alguns hematomas recentes. — Penny também tem isso. E minha mãe. Ele nos fez isso. A culpa sempre foi dele, Nicholas… — As correntes impediram-no de cair de joelhos, cortando seus pulsos, mas ele não parecia ligar.
Nicholas fez um sinal ao Primeiro e ele o desacorrentou. Ajoelhou-se.
— Foi isso o que você quis me dizer mais cedo? “Tenha cuidado”?
Nunca, desde que o conhecera, Danny parecera tão perturbado quanto naquele momento.
— N-não… onde… onde está Ethan? Que horas são lá fora? Há alguém na sua casa?
Aquelas perguntas não faziam sentido.
— Ethan está na escola. São quase seis horas da noite. Não, não há ninguém.
Danny arregalou os olhos. Passou a balbuciar coisas incompreensíveis, mas estava embaraçado demais para falar.
— S-sua casa… na sua casa, no seu apartamento…
— O que tem? O que tem lá?
E então ele falou.
— No lustre. Da sala. Há uma bomba lá. Quando Ethan ligar o interruptor, ela vai explodir. Ele pretende matar todos vocês.
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