Como Vivem Os Anjos
18 Nos Braços Dos Anjos
Angie conhecera Ned Nevarnost quando ainda estava na faculdade de engenharia. A princípio, ele era tudo o que ela realmente, o que qualquer uma, desejava. Era bonito, simpático, atencioso e amoroso. Ela deixou a faculdade para casar-se com ele.
Então eles tiveram Leanne, de olhos tanto azuis quanto verdes, como um mar costeiro ao meio-dia. Apesar de Leanne ser uma criança doente, nascera com epilepsia e tinha espasmos frequentes e violentos, tanto Ned quanto Angie amaram-na desde a primeira vez que a viram, loura como o sol, deslizar coxas da mãe afora aos berros. Começou a tomar os remédios aos seis anos.
Depois, tiveram Daniel e Penelope, que vieram ao mundo ao mesmo tempo, como mais um presente divino.
Um dia, quando menos esperava, Angie viu, horrorizada, o rosto da menina, que na época tinha apenas dez anos, começar a inchar e se deformar. A pele parecia estar desintegrando-se.
Os gritos de agonia de Leanne ainda ressoavam em sua cabeça à noite.
Ela entrou em coma e a Kruger-Vorheel indenizou-os em vários milhões de dólares. Eles não tiveram sequer a decência de escrever algo menos genérico, ao invés disso, mandaram exatamente a mesma carta a todos os que sofreram consequências graças a trocas de malotes no setor farmacêutico.
Foi mais ou menos nessa época que Ned começou a bater em Angie.
Começou com um tapa no rosto. Depois que alguém comentou o hematoma, ele passou a fazê-lo nas costas. Os flagelamentos eram às vezes tão fortes que Angie passava dias sem se levantar da cama. Quando Danny e Penny fizeram dez anos, passou a fazer neles também. Naquela época, eles eram tão parecidos fisicamente com Leanne quanto tinham o direito de ser.
E quando Mary Alice Hentz morreu num acidente de avião, Ned decidiu também terminar o serviço nos filhos dela.
Depois que Ethan e Nicholas Lemnsack Hentz foram apresentados ao mundo, foi fácil enviar a carta. Foi fácil alugar o apartamento abaixo do deles. Foi fácil furtar a chave de um deles e fazer uma cópia. Foi fácil entrar lá na calada da noite e escrever aquilo na parede deles, e depois envenenar a comida com arsênico. A presença de Lorenzo fora um contratempo, mas nada que não se pudesse arrumar. Não foi tão fácil mandar Danny e Penny para Paris para fazer o que tinham que fazer, mas Angie o fez. Tudo por Ned.
O mesmo Ned que flagelava os filhos dela e depois literalmente jogava sal nas feridas, porque nunca conseguiu superar o que houve a primeira filha.
Ele decidira que tudo terminaria no dia da feira de história.
A primeira visita de Angie foi a uma loja de equipamentos elétricos. Depois, foi a uma loja de tintas e finalmente a um supermercado, onde comprou apenas seis lâmpadas pequenas. O resto do equipamento aguardava-a em casa, em duas caixas lacradas, onde uma guardava quatro granadas de mão militares e a segunda, equipamentos de solda.
Trabalhando devagar e com cautela, Angie cortou a parte superior da primeira granada, depois pintou-a da mesma cor que as lâmpadas. A segunda providência foi remover o explosivo da granada e substituí-lo por explosivo sísmico. Assim que ficou pronto, acrescentou chumbo e estilhaços metálicos. Então quebrou uma lâmpada na mesa, preservando o filamento e a base. Levou menos de um minuto para soldar o filamento a um detonador ativado eletronicamente. A providência final foi inserir o filamento numa gelatina, a fim de mantê-lo instável, e inserir na granada pintada. Quando Angie acabou, o artefato parecia uma lâmpada comum.
Então fez o mesmo nas outras lâmpadas.
Pelo menos não havia se esquecido de tudo o que aprendera na faculdade de engenharia.
Ethan Lemnsack mandara trocar a fechadura, mas era um modelo antigo, uma brincadeira de criança. Depois que se encontrou sozinha no recinto escuro, foi simples substituir as lâmpadas do lustre.
Quando saiu da casa dos Lemnsack Hentz, Angie imaginou como Mary Alice Hentz receberia a notícia de que os filhos estavam mortos, se ainda estivesse viva. Não conseguiu sorrir.
OoO
O sinal indicando o fim das aulas tocou estridente, carregando uma aura cheia de alívio. Ethan levantou-se da carteira e saiu da sala, enfrentando os corredores desertos e escuros, com pouquíssimos outros alunos. Estava estranhamente frio demais, e começava a se amaldiçoar de não ter trazido casaco. Olhou no relógio. Já eram quase seis horas. Esperava que Nick estivesse em casa. Precisava desculpar-se e conversar com ele, e então decidiriam o que fazer em relação aos Nevarnost.
Estava muito escuro e perigoso para que fosse andando, de forma que tomou um táxi. Os taxistas sempre olhavam-no torto quando dizia que só queria ir até a outra esquina, mas aceitavam seu dinheiro com um ligeiro grunhido ligeiramente incompreensível.
Saiu do carro amarelo e subiu a fachada do prédio. Havia um caminhão de mudanças estacionado em frente ao edifício, junto com outro carro preto desconhecido. Pensou que, quando completasse a maioridade, presentear-se-ia com um carro.
Atravessou o pátio e o hall, tomou o elevador, subindo ao vigésimo terceiro andar do prédio, como já fizera outras milhares de vezes. Mas era diferente sem Nick.
Atravessou o corredor branco.
Pensou em como estava cansado.
Abriu a porta do apartamento.
A sala estava escura e vazia.
Jogou a mochila no chão. Agora entendia por que Nick sempre fazia isso.
Encostou o dedo no interruptor.
E então sentiu uma dor terrível e tudo ficou branco.
E só pensou em Nick.
E em mais nada, mais nada.
OoO
Se fosse possível que ele suasse mais, se desfaria em água. O carro parecia nunca estar indo depressa o suficiente, mesmo ultrapassando semáforos e cortando outros carros.
Nick fazia um esforço titânico para não irromper em lágrimas, mas era difícil demais. Ainda faltavam uns bons dez quilômetros para chegar em casa e a cada segundo que se passava, mais provável se tornava que Ethan já tivesse chegado em casa. Ele sempre saía seis horas em ponto e chegava em casa em menos de dez minutos se fosse andando e em menos de dois se fosse de táxi. Olhou no relógio. Eram 06h05min.
Não tenha pego um táxi, por favor, não tenha, não tenha pego um táxi. Eu te imploro.
Deixara Lorenzo na casa de Luca Granelli porque, seja lá o que acontecesse na casa deles, não queria que a criança visse. Não o deixara sequer saber por que haviam ido pra lá, pra começar. Enquanto torturava Danny Nevarnost, Lore estava no imenso salão de jogos da mansão.
Por que é que deixara o celular em casa?
Sem seu consentimento, as lágrimas começaram a descer de seu rosto. Antes de deixar Danny trancado nos confins da casa de Luca, deixara-lhe um ultimato.
— Se acontecer alguma coisa ao meu irmão, eu juro que volto aqui e termino em você o serviço que seu pai começou.
Luca limpou-lhe o rosto com um pano branco.
— Nick, não vai acontecer nada a ele, eu juro a você — ele disse, e então virou-se para o motorista e berrou-lhe algo em italiano. Nick teve a leve impressão de que o carro começou a andar um pouco mais rápido, se é que isso era possível.
Olhou para o menor e beijou-o nos lábios. Luca afastou-se um milímetro e então deitou-se sobre Nick, enfiou a língua em sua boca e separou-se apenas quando ambos necessitavam de ar.
— Eu… quero você, Nick… — ele murmurou ao pé do ouvido do louro. Podia sentir sua ereção entre suas pernas. Seus olhos tempestuosos estavam cheios de medo e desejo. — Eu o amo.
Nick deu-lhe um selinho e então um beijo na bochecha.
— Se sairmos disso vivos, prometo que te levo pra cama. — Voltou a beijá-lo, com mais força dessa vez. Apertou-o contra si pela cintura. — Eu também o amo. — Da minha maneira.
O carro freou abruptamente e Nick e Luca foram jogados para o chão. Levantaram-se, gemendo. Quando Nick percebeu que se encontravam do lado de fora do prédio, pulou do carro. Olhou para cima, o coração quase pulando da caixa torácica. A cobertura estava intacta.
Talvez ele tenha vindo andando. Talvez ainda dê tempo.
Correu como nunca fachada acima, atravessou o pátio e o hall. Pegou o elevador apenas para se arrepender no momento em que as portas fecharam-se, pensando que se fosse pelas escadas, chegaria mais rápido. Morto de cansaço, mas rápido.
Chegou ao corredor do apartamento. Se tivesse explodido alguma bomba capaz de matar alguém, com certeza teria destruído a porta.
Atravessou o corredor.
A porta não estava trancada.
Abriu-a.
E perdeu os sentidos.
OoO
Estava tudo escuro e apertado. Era como se algo o impedisse de se mover, não importava que movimento fizesse. Estava tonto, não sentia as pernas e os braços. Compreendeu que estavam dormentes. Sombras se moviam a sua volta, falando muito baixo, como se isso o impedisse de ouvir. Mas estava enjoado e ouvir o que diziam era a última coisa que queria.
Tentou se levantar quando descobriu que estava deitado. Deitado no chão, frio e cruel. Os pés começaram a formigar, assim como os pulsos. Lorenzo contorceu-se em agonia. Os segundos pareciam durar mil anos.
Tentou se lembrar das última coisas que vira. Estava no ginásio da Academia Alphonse Enoi, na feira de história de Nick. Ethan estava com ele. Falara com aquele garoto que falava italiano. Depois Nick saíra para pegar alguma coisa e então dera algumas voltas com Ethan. Reencontrou Jill e ficou conversando com ela, alegremente. Ela era uma graça. Uma confusão começou no ginásio que provavelmente envolvia uma garota nua e tudo o que lembrava eram empurrões, pisoteamentos, gritos, risadas de escárnio, mais empurrões, agressões e xingamentos… chamara pelo irmão mais velho, mas ele não respondera. Alguém o levou de volta a sua sala, onde ficou o resto da manhã, quando Nick foi buscá-lo. Sabia que Ethan teria aula de tarde naquele dia, por isso teria de ir pra casa com o louro. Mas Nick dissera que iriam à casa do garoto que falava italiano, cujo nome era Luca. Ficara lá praticamente a tarde inteira, divertindo-se naquele imenso salão de jogos.
Depois, lembrava-se apenas de alguém pressionando algo muito parecido com um pano molhado em seu nariz. Antes de perder os sentidos, sentiu-o queimando.
Eles se esqueceram de mim, pensou. Ethan e Nick, eles se esqueceram de mim. Todos eles se esqueceram de mim, meus irmãos, o pai que nunca conheci, até minha mãe, que me abandonou sem me explicar por quê. Contra sua vontade, sentiu lágrimas quentes e gordas umidificarem-lhe os olhos. Foi só aí que percebeu que estava usando uma venda. Que tipo de idiota colocar-lhe-ia uma venda nos olhos?
O formigamento nas pernas e braços tornara-se insuportável. Gritou.
Ouviu uma voz ríspida falando. Tinha um sotaque italiano tão forte que era difícil compreendê-lo.
— Cale a boca, moleque insuportável. — Ele o esbofeteou.
— Largue-o — murmurou uma voz mais fina, por trás da voz ríspida. Falava melhor que o outro, mas ainda assim tinha um resquício de sotaque. Por que eles simplesmente não falavam italiano? — Ele é uma criança, o que pensa que ele vai fazer se soltá-lo?
Alguém desatou as amarras, provavelmente o da voz fina. Lorenzo esfregou os pulsos e os tornozelos, sentindo o formigamento se dissipar. Também tirou a venda, mas não fez diferença.
— Onde eu estou? — perguntou debilmente. Não esperava que eles respondessem, e não responderam.
— Cale-se. — Puseram-no numa cadeira e amarraram suas mãos à parte de trás desta, mais brandamente dessa vez. A voz pareceu se dirigir a outra pessoa. — O Líder Supremo está para chegar, imbecil. Se perceber que você o machucou, seu corpo vai rolar Alto Cruzeiro abaixo.
Lorenzo sabia que Alto Cruzeiro era o nome do rio que atravessava a floresta de Middleland.
— O filho da puta quer matá-lo com as próprias mãos.
As vozes deixaram-no e Lorenzo percebeu que desligaram a luz do quarto. Mesmo sendo cego, não queria ficar sozinho ali no escuro. Estava muito quente. Suor pingava-lhe da testa e aquela sala tinha um cheiro repugnante. Era pequena, pelo visto. O eco das vozes era curto. Tentou se soltar da cadeira, mas as amarras prendiam-no e a cadeira era muito pesada para ele se levantar com ela.
Pareceram-se passar anos até que outra pessoa entrou na sala.
— Hm, bom te ver novamente, Lorenzo.
Lorenzo sentiu seu coração falhar uma batida. Aquela voz, aquela voz tenra, quase um murmúrio, tão baixa que o obrigava a prestar atenção. Aquela voz cavernosa e rasgada, grave e desinteressada, levemente cruel, quase um rosnado.
— Eu conheço você — murmurou.
— Também é bom ver que manteve a inteligência depois da morte de sua mãe. — Ele bagunçou-lhe os cabelos do mesmo modo que Nick fazia. Lorenzo sentiu cada pelo de seu corpo eriçar-se.
— V-você… eu me lembro de você. Você ia a minha casa conversar com minha mãe. Falavam em inglês, mas eu sempre entendia tudo o que diziam.
— Eu sempre soube que você entendia. Antonella não foi tão esperta em deduzir isso, mas ela nunca teve algo na cabeça que não fosse uma obsessão doentia por você. Se tivesse, não estaria morta.
Lorenzo sentiu que ia chorar de novo. Então era verdade. Sua mãe estava morta. De algum modo, sempre soubera disso, depois que chegara naquele país, era como se a aura dela tivesse se apagado do mundo. Não o teria abandonado se não tivesse realmente necessidade disso.
— Também me lembro do seu nome — falou Lorenzo. — Enzo. Enzo Granelli.
Ele pareceu rir, mas era mais um grunhido do que uma risada.
— Tão pequeno, e tão esperto. Desagrada-me ter que matá-lo. — Lorenzo engoliu em seco. Arregalou os olhos.
— Por quê? — Era uma pergunta estúpida, mas não tinha outro jeito. Enzo Granelli não se deu ao trabalho de responder, mas Lorenzo sabia que o fitava.
— Antonella era chefe-segunda da máfia italiana. — Aquilo o pegou de surpresa.
— Não é verdade — murmurou, rangendo os dentes, sentindo a raiva crescer dentro de si.
— Não seja estúpido, é verdade. Era uma ladra, assassinada e traidora.
— Não é verdade! — gritou, descontrolando-se. Sua mãe estava morta, não precisava que ninguém falasse mal dela. — Ela trabalhava para o governo italiano, eu… eu sei disso. — Granelli não se exaltou. Ele entendeu errado, ela não era da máfia… exatamente. — Minha mãe era espiã do governo italiano. Era estava infiltrada na máfia para destruí-la. Eu a ouvi conversando isso com Pietro uma vez. Ela… foi assassinada. E ela não era traidora.
— Pelo menos a última parte é mentira.
— Tudo é verdade! — Por que ele insistia naquilo?
— Antonella era uma traidora, traidora do próprio país. Gastou toda a herança que Charles Lemnsack deixou a você, de modo que decidiu roubar da própria organização que administrava e então fugir do país, deserdar. Quase 200 milhões de dólares. Mandaria você para cá e o buscaria de volta depois que as coisas se acalmassem. Ela poderia ter sido presa pelo governo italiano por procurar ganho pessoal numa missão instituída a ela. Pessoalmente, eu a teria enforcado eu mesmo. Ela me enganou — admitiu Granelli —, mas foi estúpida o suficiente para não apagar todos os rastros do que fez. Quando descobri, mandei queimar a villa em que vocês moravam. Ela foi assassinada no hotel em que se escondeu, pouco tempo depois de você ter ido embora.
— Isso… — Lorenzo gaguejou, algumas coisas ali faziam sentido, mas não compreendia tudo — não é verdade. Não… Não é. Isso é mentira.
— Certa vez, delatou minha localização para alguns inimigos meus e eles queimaram minha villa e assassinaram minha esposa e outros familiares, e quase fizeram o mesmo com meu filho.
Lorenzo não sabia o que dizer.
— Se ela me mandou aqui para me esconder, como me achou?
— Luca teve a sorte de conhecer seu irmão mais velho.
— Luca? — indagou, desolado. — Seu filho é Luca? — Devia ter percebido, afinal, ele falava italiano…
— Antonella mandou-o para cá para ser escondido, mas não esperava que Ethan e Nicholas Lemnsack Hentz fossem revelados ao mundo. Depois que tornaram-se famosos, até você começou a aparecer em capas de revistas. Depois disso, foi simples esperar até ter a melhor oportunidade de colocar as mãos em você.
Aquilo era tão ridículo que Lorenzo não sabia se ria ou chorava. Sentiu as amarras serem desfeitas, logo antes de algo frio ser jogado em seu colo.
— Isso é um revólver — falou Granelli. — Está carregado, e estou bem na sua frente. Mate-me, se quiser. Eu matei Antonella, matei cada um dos parentes dela, bem como ela fez com os meus. Termine o trabalho e estará livre.
Lorenzo manuseou o artefato de ferro. Era pesado e cruel ao toque, e precisava das duas mãos para erguê-lo. Não duvidava de que ele estivesse realmente carregado. Poderia realmente fazê-lo, terminar o trabalho e viver sua vida.
Mas não era idiota. Se atirasse no Líder Supremo da máfia italiana, poderia esperar por tudo, exceto por sair dali vivo.
Jogou o revólver no chão com desprezo.
— Não. Não sou como você.
Enzo Granelli pigarreou.
— E, pelo visto, nem como sua mãe. Você teve sua chance, sabe demais para que eu o deixe viver. Mas não morrerá sozinho. Assim que seu irmão regressar, o matarei também. Na sua frente.
OoO
Ele estava à beira de um abismo, cuja queda estendia-se até a eternidade, e o céu era branco como leite, e nada havia, senão dor e latejar. Era muito frio, ou muito quente, e tudo era branco. Esse era o pior, a brancura daquele lugar escondia sua natureza sombria e suja. Camadas e mais camadas de brancura e sujeira por todo canto, por todo lugar, onde o tempo não passava, e ao mesmo tempo não parava.
Os olhos nada viam senão uma coisa turva e brilhante, loura como o sol, que com o passar do tempo começou a tomar forma, e uma forma demoníaca.
O último Leão Dourado gemeu. Não conseguia se mexer. Suas mãos estavam presas por uma corda que pinicava. Acabou percebendo que estava deitado no chão da sala de estar de casa, e a luz estava apagada. A luz alaranjada de velas iluminava como substituinte.
Olha ali, pensou ele, debilmente, aquela mancha ali naquele canto, de quando eu transei com Ethan e acabei ejaculando ali, e ele não conseguiu limpar. Pensar nisso fazia-o sentir-se vivo, e ele precisava sentir-se vivo. Ethan está morto. Eu tenho certeza disso.
A pancada que deram em sua nuca o cegou de dor e o fez desmaiar, se tivessem feito o mesmo em Ethan, deveriam ter feito forte demais. Ele estava deitado ao seu lado, inconsciente. Os lábios finos levemente entreabertos, os olhos negros como ônix fechados. Parecia estar dormindo. Poderia estar dormindo sim, dormindo para sempre.
Gotas quentes molharam seu rosto. Nick não sabia de onde vinham, mas sabia que eram salgadas.
— Vocês me causaram um tremendo problema — disse Ned Nevarnost. Pelo tom de voz que usou, poderia estar perguntando pelo tempo. — Por que é que vocês são tão difíceis de matar?
Angie Nevarnost permanecia impassível, sentada dignamente numa das cadeiras da sala de estar. Ethan escolhera aquela cadeira, recordou-se Nick, e eu escolhi a cor. Sorriu. Não fazia sentido sorrir, mas ia morrer mesmo, então por que não?
Penny não se encontrava, mas Nick não ligava, não mais.
Ned virou-se para Angie e a esbofeteou.
— Deveria ter terminado com isso mais cedo — falou sem alterar o tom de voz. Angie limitou-se a tocar a ponta dos dedos no lugar marcado, que se avermelhava. Um hematoma logo se formaria ali, certamente.
Nick olhou para o rosto triangular da mulher e imaginou quantas mais feridas ela guardava nas costas.
— Sabe, eu tenho Danny trancado num quarto escuro num lugar bem longe daqui — Nick falou calmamente. Naquele momento, perguntou-se onde diabos Luca poderia estar. Talvez tenha chamado a polícia, mas, pelo que vira em Ned Nevarnost, ele preferiria explodir todos eles ali do que ser preso.
Como se não tivesse ouvido, Ned continuou falando.
— A ideia da bomba no lustre foi uma estupidez, mas é claro, não foi ideia minha. Não sei como três pessoas poderiam chegar juntas no mesmo lugar e acender a luz ao mesmo tempo. — Angie continuava impassível. Parecia estar usando uma máscara. Ned pegou um dispositivo metálico e retangular, que mais parecia uma caixa, com um botão em cima. — Quando eu apertar esse botão, o dispositivo acionará as lâmpadas e a bomba explodirá. Talvez me agradeça. Poderá ver sua mãe mais cedo.
Duvido muito que eu vá para o lugar em que ela está, Nick pensou. Serei trancado nas profundezas do inferno, onde poderei foder com meu irmão por toda a eternidade.
Ned Nevarnost abriu a porta do apartamento e fez um sinal para Angie segui-lo.
— Vá na frente — ela disse, com um leve sorriso. — Quero checar mais uma vez as granadas para ver se estão em ordem. Se alguma deixar de explodir, a polícia perceberá que não foi um simples vazamento de gás.
Ned assentiu.
Quando ele fechou a porta, Angie contou dez segundos, levantou-se da cadeira e acendeu o interruptor.
Nick gritou. Gritou mesmo ao vê-la pressionando seus belos dedos no objeto. Por um segundo, tudo pareceu ficar branco e podia jurar que ouviu uma explosão monstruosa retalhar seu corpo e jogar os restos nas paredes sob fuligem e cinzas.
Mas não aconteceu. As luzes simplesmente se acenderam.
— O-O quê? — Nick murmurou, com lágrimas nos olhos. — O que aconteceu? Onde está a bomba?
— Tirei-a dali — disse Angie. Ajoelhou-se perto de Ethan e, com uma faca pequena, cortou as cordas que prendiam seus pulsos. Pôs as pontas de dois dedos em certo lugar de sua garganta. — Ele ficará bem. — Aproximou-se de Nick, que se retraiu ao ver a faca, mas deixou-a encostar o gume nas cordas. Então, antes de cortá-las, ela o fitou. — Prometa que devolverá meu filho vivo e prometo que nunca mais ouvirá falar do meu sobrenome novamente.
Nick não estava apto a questioná-la.
— Prometo.
Ela cortou as cordas. Pousou a faca pequena no chão.
— Se a bomba não está aqui — Nick continuou falando —, onde está?
Angie sorriu.
— Diga aos meus filhos que eu os amo, Nicholas. Diga apenas isso.
E saiu.
Ethan começou a se remexer onde estava. Levou as mãos à nuca e gritou de dor.
— Pare de se mexer, seu imbecil. — Nick aproximou-se do irmão e só então se deu conta de que ele estava vivo. Ele estava vivo. — Santo Deus. — Abraçou Ethan com força. Ele anda usava o uniforme da escola, que cheirava a suor e a seu cheiro natural. Era delicioso. — Ethan, pare de se mexer! — Tocou na parte de trás de sua cabeça com suavidade, estava levemente inchada. Os olhos negros do irmão fitaram-no com confusão, ele lambeu os lábios e tentou falar algo, mas Nick enfiou a língua em sua boca. Desejava unir-se a ele, mas não era hora.
— O que aconteceu? — ele arquejou quando Nick começou a beijar seu rosto.
— Tudo aconteceu. Mas não se preocupe, você está salvo. — Nick fitou a porta do apartamento. — Eu só preciso descobrir por quê.
Enfiou a faca de Angie no bolso e deixou Ethan no apartamento, descendo as escadas do prédio de quatro em quatro degraus, por vezes quase tropeçando. Estava ensopado de suor quando chegou ao térreo. Na fachada do prédio, um caminhão de mudanças e um carro preto estacionados do outro lado da rua.
Nick viu Angie e Ned Nevarnost dentro do carro. Ele estava no banco de motorista e ela, no de passageiros. Angie inclinou-se para o marido e o beijou, então olhou para Nick através da janela transparente e sorriu aquele sorriso angelical. Ned olhou para ele e esbugalhou os olhos. Foi aí que Angie fez um sinal de adeus, e foi nesse momento que ela apertou o botão do dispositivo, Nick percebeu.
Porque o carro explodiu.
A combustão das granadas sugou o automóvel para seu interior e as chamas amarelas da morte espalharam-se violentamente, estilhaçando os vidros e arrebentando a carcaça. A explosão foi tão forte que o carro foi erguido do chão e Nick, jogado pra trás, caindo de costas no cimento do pátio.
Ergueu-se num pulo e aproximou-se da fogueira infernal. A explosão havia pego dois outros carros, estraçalhando seus vidros e quebrando os faróis. Algumas pessoas aproximavam-se também, observando, horrorizadas, o fogo consumir o automóvel. Alguém devia ter ligado para o corpo de bombeiros, pois um caminhão logo chegou. Nick imaginou como reagiriam ao encontrar os corpos carbonizados.
Lentamente, afastou-se do fogaréu e olhou para o negrume da noite, com um nó na garganta. Estava ofegante e suas mãos tremiam violentamente.
O céu é tão bonito, pensou, lutando contra a vontade de chorar. Qual foi a última vez que eu olhei as estrelas? Parecem pequenos pontinhos costurados em pano negro.
Subiu o elevador em silêncio. O ar estava pesado, ainda conseguia sentir o cheiro da fuligem e vida indo-se embora. Angie se sacrificara pelos filhos dela. Sacrificara-se por Nick e Ethan. Matara-se e matara Ned para que ninguém mais morresse, e agora ardia em chamas lá em baixo, presa entre escombros metálicos retorcidos e derretidos…
Deu-se por si parando no vigésimo segundo andar. Não fazia a mínima ideia de qual apartamento era dos Nevarnost, de modo que tentou primeiro o do corredor esquerdo. A porta estava aberta e a sala, vazia.
Penny Nevarnost estava recostada na varanda, olhando a vista do outro lado do prédio. Isso era bom. Não devia ver o que acontecia na rua oposta.
Nicholas atravessou a sala vazia em silêncio absoluto. Tinha certeza de que Penny sabia que ele se encontrava ali. Sem falar com ela, recostou-se na varanda e olhou a vista. Milhares de pontinhos brilhantes piscavam pululantes. Olhou para seu rosto.
Ela sabe, compreendeu. E Danny não.
— Jill está dormindo, sabe — ela murmurou. — Minha mãe disse a ela que teria que sair numa viagem. — Deu uma risada sem alegria. — Pergunto-me como contarei a ela que ela não vai voltar.
Nick pegou sua mão.
— Como vocês ficarão?
— Nós temos uma tia. Ficaremos bem, não se preocupe. — Fitou profundamente seus olhos negros. — Minha mãe ficou sendo uma refém de meu pai por mais de vinte anos, Nicholas. Ela… está livre. Depois de todo esse tempo… está livre.
Penny virou o rosto e Nick percebeu que queria chorar. Puxou-a para si e aninhou-a em seu pescoço. O cheiro do cabelo dela inebriou seu nariz.
Beijou-a…
… mas ela afastou-o de si.
— Leanne morreu hoje, sabia? — Seus olhos enchiam-se aos poucos de lágrimas. — Ela faria vinte e dois anos mês que vem. — Nick tirou uma mecha de cabelo loiro da frente de seus olhos. — Não posso, Nicholas — ela disse, mas seus lábios estavam semiabertos e seus olhos denunciavam sua vontade. — Eu… eu tenho muito o que fazer. Tenho que cuidar da minha irmã. E do meu irmão. Eu… não posso. Deixe-me.
Penny virou o rosto. Nick deu um passo para trás e então a deixou.
Foi encontrar Ethan sentado no sofá da sala, com uma bolsa de gelo na nuca, fazendo uma careta de dor. Fitou o irmão surpreso quando ele entrou. Nick então percebeu que estava coberto de fuligem.
— O-O que aconteceu? — Ethan indagou. Fez menção de se levantar, mas o menor sentou-se a seu lado. — Eu ouvi uma explosão.
Nick começou a falar. Seu objetivo era falar apenas da explosão, mas de repente as coisas escorregaram de sua boca e quando se viu, estava falando de tudo, desde sua ida em casa naquela manhã e do real motivo dela, do dossiê, da carta, da tortura de Danny, da bomba que supostamente devia estar no lustre, do desespero que sentiu ao ir para casa para impedi-lo de morrer, do que aconteceu ao chegar nela, de Angie, de Ned, da explosão, da fuligem, de Penny, de Jill, de Leanne, e do fogo, do fogo, do fogo, cruel e balançante, sugando a vida dos pais deles…
Parou quando percebeu-se soluçando tão forte que não conseguia mais falar. Sua voz estava embargada e seus olhos, úmidos. Agora lágrimas desciam de verdade por seu rosto e o sujavam ainda mais do que já estava.
Ethan passou os polegares por suas bochechas e maçãs do rosto.
— Acalme-se, pequeno. — Puxou o irmão para si. Nick aninhou-se em seus braços como um bebê. Há quanto tempo ele não chorava daquele jeito? Parecia uma criança. Ele era uma criança. Era sua criança. — Tudo já passou. Tudo. — Beijou-o nos lábios e sentiu o calor característico surgindo dentro dele. — Eu o quero. — O louro correspondeu ao beijo. De repente, Ethan lembrou-se de algo. — Onde está Lorenzo?
Parecia que havia se passado mil anos desde que vira Lorenzo pela última vez.
— Na casa de Luca. Ele está a salvo.
— Quero-o aqui. Depois disso… de tudo… oh, eu sou responsável por vocês, Nick. É meu dever cuidar de vocês.
Nick sorriu e o beijou na bochecha.
— Eu posso ser o último Leão Dourado, mas você é o primeiro e o único Leão Negro…
OoO
O carro movia-se silenciosamente enquanto trafegava pelas ruas cheias de trânsito. O percurso demorara mais antes de adentrarem o condomínio Jardim de Ouro. Nick ainda estava coberto de fuligem, mas Lorenzo não perceberia, desde que não tocasse nele. Ethan não falara nada desde que saíra do apartamento e a fogueira humana do outro lado da rua reluzira nas poças negras em seus olhos. Luca também estava igualmente abalado.
— Quando vi você correndo para dentro do prédio, decidi ficar do lado de fora para o caso de alguma coisa ocorrer — ele havia lhe dito. — Eu te vi saindo antes… antes de o carro explodir. Mas você parecia tão perturbado que achei que era melhor não falar com você. Fui jogado pra trás na explosão.
Nick também fora, e havia se machucado, mas não queria falar sobre aquilo. O sorriso de anjo de Angie ainda estava marcado em sua mente, e só queria apagar aquela visão perturbadora.
Precisava de um banho para lavar a sujeira e a tristeza do corpo.
O carro parou entre a fonte de mármore branco cheia de cupidos e a fachada da mansão, sustentada por quatro colossais colunas gregas, da mesma cor que o mármore da fonte. Nick havia decorado o trajeto até o salão de jogos e o quarto onde trancara Danny, mas nem seu atento olhar ao caminho deixou de notar a considerável atração de Ethan por aquele lugar.
Talvez a gente possa morar aqui. Eu, Ethan e Lorenzo. Poderíamos nos afastar daquele lugar um pouco. Quando ele completasse a maioridade e tivesse idade pra dirigir. Ano que vem. Sim, não está tão longe…
Quando chegaram à sala de jogos, não viu Lorenzo de cara. Mas o lugar era muito grande e ele poderia estar em qualquer lugar. Gritou seu nome. Nada. Gritou de novo. Silêncio. Começou a se sentir desconfortável.
— Talvez ele tenha ido a outro lugar — Luca falou, mas sua voz denunciava o que pensava. — Não se preocupe, essa casa não é tão grande assim. Vamos achá-lo.
Nick decidiu ir procurá-lo sozinho. Poderia se perder sim, mas um tempo consigo mesmo era tudo o que precisava. Aquela casa tinha uma infinidade tão grande de quartos e corredores inúteis que era engraçado pensar que aquele era só o térreo. Ainda havia mais quatro andares.
Passou perto do armário que dava no labirinto por baixo da mansão. E se Lorenzo tivesse entrado lá e caído naquele buraco? Quando tentou abrir a porta, estava trancada. Passou pela biblioteca e gritou seu nome. Nada.
A piscina, pensou com um temor. Não sabia se Lorenzo sabia nadar, e ele poderia ter escorregado e caído nela.
Ela ficava num jardim interno cheio de árvores com flores roxas e rosas brancas, que dava uma sensação agradável de tranquilidade. Um pequeno labirinto ornamental o decorava, junto com um banco de descanso. O lugar era aberto e havia alguns postes de iluminação, que estavam desligados. Alguns passarinhos bebiam água num chafariz. A piscina permanecia vazia, quase negra na escuridão. Gritou o nome do irmão mais novo. Não ouviu resposta.
O desconforto voltou quando não conseguiu mais encontrar Luca e Ethan. Voltou à sala principal e não havia ninguém lá. Talvez eles tivessem ido ao segundo andar.
Atravessou mais alguns corredores e quartos até que deu um encontrão em alguém, mas não era nem Luca, nem Ethan, muito menos Lorenzo. Era Primeiro, na verdade, um dos guarda-costas de Luca. Ou talvez fosse Segundo. Já havia desassociado os nomes com as aparências.
Não, é Primeiro. Ele tem as sobrancelhas meio calvas nas pontas.
Sabia que ele não falava seu idioma, mas bem que podia tentar.
— Ei, eu to procurando meu irmão. É aquele garoto que veio comigo e com Luca para cá mais cedo. Baixinho, cabelos pretos, com sotaque italiano. Cego.
Primeiro olhou-o como que confuso, mas então a compreensão espalhou-se por seu rosto, sorriu e assentiu. Murmurou algo em italiano e seguiu adiante.
Nick encarou aquilo como um “Siga-me” e o seguiu.
Deu-se por si no quarto andar da mansão. Poderia Lorenzo ter subido tudo aquilo a sua procura? Pensar naquilo entristecia-o. Deveria tê-lo levado consigo e o deixado no carro com Luca, mas tinha medo de mais de que pudesse se machucar e estava tão atarantado que mal conseguia pensar.
Que estúpido eu fui.
Ao chegarem ao lado mais ao sul da casa, Nick deu-se com uma porta alta, de ferro puro, grossa como um tronco de árvore, cinza e ameaçadora. Se Lorenzo alguma vez tivesse força para abrir aquilo, então ele não se chamava Nicholas Antonella Lemnsack Hentz, de jeito nenhum.
Antes de poder falar qualquer coisa, Primeiro enfiou uma chave do comprimento de uma garrafa de refrigerante na fechadura e girou-a. A tranca abriu-se pesadamente e aos gritos. Com mãos do tamanho de pratos e duras como rocha, Primeiro puxou a porta para abrir-se. O ruído de seu arrastar era monstruoso.
Lá dentro, estava escuro como breu.
Nick foi empurrado para dentro da sala e então alguém o segurou por trás e tapou sua boca. A porta de ferro foi fechando-se devagar, trancando-o naquela escuridão.
Não. De novo não.
Puseram uma corda em seus pulsos e apertaram, mas a dor que sentiu não seria muito diferente de se tivessem cortado suas mãos fora com um machado. A corda pinicava horrivelmente e ele não via nada.
Sentaram-no numa cadeira e prenderam seus pulsos novamente ao móvel com novas cordas. Ainda não via nada. Pensou em gritar ou se debater, mas provavelmente dariam um tapa para que se aquietasse e não estava mais suportando tapas.
As luzes acenderam.
Viu-se numa sala de cimento malcheirosa não muito diferente da que havia trancado Danny Nevarnost. A diferença é que era maior e havia uma porta cinza na parede oposta à porta de ferro, e essa mesma parede era parcialmente coberta de espelhos. Luzes fortes pendiam do teto, cegando-o momentaneamente. Enquanto sua visão normalizava, Nick viu manchas vermelhas e secas no chão. Sangue foi a primeira palavra que lhe veio a mente.
Depois, viu Ethan, Luca e Lorenzo. E Enzo Granelli.
Aqueles cruéis olhos cor de gelo tão parecidos e ao mesmo tempo tão diferentes dos de Luca ainda atormentavam-lhe.
Atormentava-lhe ainda mais o fato de que Granelli carregava uma pistola preta metálica calmamente enquanto fumava um charuto. O fedor da fumaça empesteava a sala. Havia outra pistola cinza jogada no chão, perto de onde Lorenzo estava preso. Ele estava preso, e da mesma forma que Nick. Ethan também, mas tinha uma mordaça na boca, e tentava se libertar. Luca estava livre, ao lado do pai, reto como uma estátua e com o rosto pálido como leite.
Ele sabe o que está acontecendo aqui, pensou. Mas não está gostando.
Não tinha nada a perder.
— Bom vê-lo novamente, senhor Granelli — disse alegremente a Enzo Granelli enquanto ele metia outra bala no tambor da pistola. Nick contou três. A partir de hoje, odeio o número três. Talvez eu e Ethan devêssemos adotar outra criança. — Está especialmente radiante hoje.
Granelli olhou-o com aqueles olhos sem cor.
Está tentando me intimidar.
— Três balas — Nick continuou tagarelando. — Que número, hein. Mas há quatro possíveis pessoas nessa sala que o senhor possa matar. Já que vai cometer um infanticídio, por que não aproveita e promove também assassinato de parentes? Vai pro inferno mesmo.
Luca olhou-o com olhos de quem diz “Não faça isso.”
— Conte a eles, Lorenzo — Granelli falou, com uma voz perigosamente macia. — Conte a eles por que estão morrendo por causa de sua mãe.
Lorenzo olhou para Granelli sem nada ver, depois olhou para onde julgava ter vindo a voz de Nick e contou, com a voz trêmula e desinteressada. Nick percebeu que ele mesmo não acreditava no que dizia, mas tudo fazia tanto sentido quanto era possível fazer.
— Então vamos morrer por causa de Antonella? — Nick indagou, surpreso. — Sabia que Antonella é meu segundo nome? É um nome bonito. Se algum dia eu tiver uma filha, pretendo chamá-la de Antonella. Soa bem. Antonella. Antonella. Antonella.
— Cale-se — rosnou Granelli.
Ele a amava, Nick percebeu. Mas não gosta de se lembrar dela. Quando se ajeitou no banco, sentiu algo no bolso, algo pontudo e afiado.
A faca de Angie.
Começou a mexer suas mãos, mas estavam muito bem amarradas. Teria de ganhar tempo.
— Lore, como era sua mãe? Isso é, aparentemente? Fala pra mim. — Conseguia sentir parte da ponta projetando-se para fora do bolso.
— A pele dela era macia — Lorenzo murmurou, olhando para baixo. — Tinha um queixo delicado, maçãs do rosto proeminentes.
— Cale-se — Enzo Granelli disse. Lorenzo o fez.
— Continue falando — Nick disse, desesperando-se. Metade da lâmina estava para fora do bolso.
— Os olhos dela não eram nem separados, nem juntos demais. O nariz era fino, um pouco arrebitado.
Nick recordou algo que Ethan lhe dissera uma vez. Quando amamos alguém, os maiores detalhes dessa pessoa parecem ser os menos importantes, enquanto os menores, os mais. Detalhes menores como… o formato do nariz ou das sobrancelhas… o modo como tal pessoa ri…
— Eu falei para calar-se — repetiu ele, mas sua voz estava levemente, tenuamente, quase imperceptivelmente, mais branda. Nick notou que Luca percebeu o que ele estava fazendo. Fez um sinal para que ele se aproximasse.
— Continue.
— As sobrancelhas eram finas, com cerca de dois dedos de espaço entre elas. O cabelo dela era tão macio… e comprido. E ela nunca gostava de usar maquiagem. Ou vestir vestidos ou saltos.
— A risada — Nick falou. O cabo da faca já aparecera. — Fale da risada dela.
— Era tão… gostosa de ouvir — Lorenzo murmurou. Falava com uma paixão tão convincente. — Era longa, ressonante, como as notas de um piano, parecia que mexia com a gente, lá no fundo, e aquecia o coração.
A faca estava inteira fora de seu bolso. Começou a cortas as cordas dos pulsos.
— Assim com seu abraço — Lorenzo continuou falando, sem piedade. Luca aproximava-se sutilmente de Nick, mas Enzo Granelli mantinha os olhos firmemente parados na criança. Nick olhou para Ethan. Ele está liberto, o louro percebeu. Ethan conseguira se soltar. Teria de ser rápido. — Quando me embalava em seus braços, eu me sentia protegido. Como se nada de mal pudesse me acontecer. Seguro e… feliz.
A corda se partira. Luca estava praticamente em frente a Nick, que saltou da cadeira e envolveu o braço no pescoço do menor. A faca estava firmemente apontada para sua garganta.
— Largue a pistola — silvou, entre dentes. — Ou eu mato seu filho.
Enzo Granelli não se alterou.
— Não tem coragem de fazer isso.
— A vida dele me vale tanto quando a vida de Antonella Barcarolli. — Era divertido ver as quase imperceptíveis mudanças de expressão no rosto de Granelli quando falava o nome dela. Lentamente, ele pôs a arma no chão. — Ethan, liberte Lorenzo.
Ethan se levantou da cadeira devagar. Estava claro que ele também não acreditava que Nick teria coragem de enfiar aquela faca no pescoço de Luca. Na verdade, Nick esperava que isso não fosse necessário. Não queria matá-lo, muito menos queria que ele morresse virgem.
Quando as cordas caíram dos pulsos de Lorenzo, este se levantou e, para a surpresa de todos, pegou a pistola cinza que estava caída perto de sua cadeira. Manuseou-a entre os dedos.
— Lorenzo, largue isso — Nick falou. — Está tudo bem, nós vamos ficar bem. Não precisa disso. Largue.
— Nós vamos — concordou a criança. — Nós vamos. Minha mãe não vai. Você a matou. — Fitou Granelli.
Nick sentiu a bílis subir à garganta.
— Eu disse para largar a arma. — Tentou engrossar a voz, mas ela era tão naturalmente fina que tudo o que conseguiu foi um fiapo de desespero. Nunca desejou tanto que Ethan falasse algo. A autoridade estava naturalmente presente na voz dele, não da de Nick. Tinha tanta capacidade de intimidar alguém quanto tinha de matar Luca. Ethan tem razão. Poder é poder, e eu não o tenho.
— Você não é igual a sua mãe, Lorenzo — Enzo Granelli disse. Poderia ele estar com medo? — Sabe disso. Você mesmo me contou.
— Quer saber de uma coisa, senhor Granelli? — ele falou. — Acho que eu sou sim. — Nicholas parou de respirar. Ele vai atirar.
Pelo visto, Enzo Granelli percebeu a mesma coisa. Deixou cair o charuto da boca, que chocou-se contra chão com um baque surdo.
Não!
Nick atirou Luca para o lado e jogou-se para Lorenzo.
Tão rápido quanto a eminência de morte o permitia, Granelli puxou a arma do chão, apontou-a e atirou.
Lorenzo ergueu a pesada pistola com as duas mãos, apontou-a e atirou.
Naquele dia, naquela sala, duas, não uma, mas duas balas voaram pelos ares ao mesmo tempo e atingiram duas, não uma, mas duas pessoas.
Enzo Granelli foi atirado contra a parede de vidro, que se estraçalhou com o impacto.
Nicholas Hentz sentiu seu peito explodindo numa chuva de sangue rubro antes de ser atirado contra a parede de cimento. Podia jurar que sua cabeça tinha implodido quando esta atingiu o cimento. Caiu de joelhos e então de costas. Doía, doía tanto, mas não tanto quanto a terrível ironia da coisa.
Depois de escapar da morte hoje, é assim que eu vou morrer?
O mundo começava a se apagar acima dele. Sua visão estava turva, pensar era difícil, respirar era impossível. Um líquido grosso e quente com gosto de ferro amontoava-se em sua boca. Em breve, engasgaria. Pensou conseguir visualizar Ethan em cima dele, ajoelhado, com sangue entre os dedos e lágrimas nos olhos, mas não sabia bem se era realidade ou alucinação.
— Não chore — Nick disse, num sussurro lamuriante. Tossiu sangue. — Você é… o primeiro e o único Leão Negro… você tem que cuidar de mim. Não pode chorar. Cuide de mim.
— Vou levá-lo ao hospital — ouviu-o dizendo.
— Leve — murmurou, sorrindo. Não conseguia mais respirar. A bala atingiu meus pulmões. — A qualquer um, a qualquer hospital, menos ao Saint Roese.
Então suspirou, virou a cabeça para o lado e tudo escureceu.
Notas finais
E eu dou o crédito da descrição da montagem da bomba ao livro Um Capricho dos Deuses, de Sidney Sheldon, porque foi de lá que eu tirei. :3
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