Como Vivem Os Anjos
12 É assustador?
— Foi ele, eu tenho certeza que foi ele.
— Não pode ter sido ele, Nick.
— Por que não? Ele sabe andar perfeitamente bem por essa sala.
— Ele é cego.
— Como eu disse, ele sabe andar…
— De nascença. Ele não sabe escrever.
— Ah…
A parede não mais branca, manchada pela tinta spray vermelha com as palavras “VOCÊS VÃO MORRER”, jazia em seu lugar, como uma prova do que acontecera, tão quieta que parecia estar zombando de quem a lia. Ethan Lemnsack e Nicholas Hentz miravam as palavras como se tentando extrair mais palavras delas.
— Aliás, como ele conseguiria tinta spray?
— Você olhou na mala dele?
— Olhei. E alguém tocou a campainha ontem à noite, ele não pode…
— Ok, eu entendi!
De repente, tudo ficou muito quieto. Nick sentiu um calafrio na espinha ao perceber o que aquelas palavras realmente significavam. Alguém havia entrado no apartamento a noite e escrito aquilo por algum motivo, e não parecia ser simplesmente uma pegadinha. Olhou para Ethan e percebeu que ele sentia a mesma coisa.
Lá fora, os raios de Sol passavam do alaranjado para o amarelo. Era quase cinco da manhã e o dia estava raiando, eles teriam que ir à escola em breve.
— Ethan, alguém entrou aqui.
— Eu sei.
Passaram um momento em silêncio até que Nick disse o que Ethan também sentia.
— Estou com medo.
— Também estou. Não conte isso a Lorenzo, ok? Não vamos à escola hoje.
Nick ficou feliz por alguns segundos, mas voltou a ficar apreensivo quando olhou para a parede de novo.
— E vou mandar trocar as fechaduras das portas.
Olhando para seu rosto que parecia feito de pedra, Nick refletiu sobre como o irmão parecia maduro naquela situação. Parecia ser muito mais velho do que realmente era. Despira a máscara de seu irmão mais velho e pusera a de seu responsável legal. E, no futuro, provavelmente, de Lorenzo. Perguntava-se se deveria ou não continuar fazendo birra para isso não acontecer.
— Vou limpar isso — Ethan disse por fim.
— Eu perdi o sono — Nick declarou. — Vou andar por aí.
— Não saia do prédio — Ethan aconselhou, sentindo-se subitamente apreensivo.
— Não vou — Nick prometeu. Saiu pela porta e sentiu outro calafrio. Atravessou o corredor e chamou o elevador. O pensamento de que quem quer que tivesse feito aquilo havia passado por aquele corredor o fez ofegar.
Enquanto esperava o elevador, olhou para trás, através do corredor para a porta de seu apartamento. Era um contraste bonito de se ver, atravessar aquela passagem cheia de nada para entrar num apartamento onde tudo acontecia… por um momento Nick relaxou…
… até que olhou para o canto da parede e viu a esfera negra que parecia lhe fitar de forma pavorosa.
— A câmera! — gritou, extasiado.
Pulou de volta ao apartamento e encontrou Ethan ajoelhado esfregando furiosamente a parede com palha de aço embebida em álcool. O que era a palavra “VOCÊS” agora não passava de uma mancha com um leve tom róseo que por mais que Ethan esfregasse, simplesmente não desaparecia.
— Acho que vou ter que pintar por cima. Argh, eu queria mesmo pintar essas paredes.
— A câmera — Nick declarou.
— Que câmera? — Ethan indagou, limpando o suor da testa com as costas da mão.
— A câmera do corredor.
— Há uma câmera no corredor?
— Sim, ela com certeza filmou quem entrou aqui. É impossível que alguém passe pelo corredor fora do campo de visão dela.
— Ah… Nick — Ethan levantou-se. — Aquela câmera não funciona. Aliás, quase nenhuma câmera dentro do prédio funciona. Elas só estão lá para que os moradores se sintam seguros. As que funcionam são para os que pagaram por isso.
Nicholas Hentz, que há poucos segundos estava exultante com sua descoberta, parecia prestes a ter um aneurisma cerebral.
— E POR QUE VOCÊ NÃO PAGOU?!
— Porque eu nunca pensei que um psicopata entraria aqui para nos ameaçar — ele respondeu calmamente, o que só pareceu enfurecer Nick ainda mais.
— E DEPOIS EU QUE SOU O INÚTIL?
O loiro bateu a porta da sala, tomando o elevador e descendo até o térreo, bufando. Olhou para a câmera da caixa metálica e murmurou:
— E você? Funciona?
No apartamento, Ethan suspirou e olhou para as palavras vermelhas.
— Ele só queria ser necessário. — Pegou a palha de aço e ia voltar ao trabalho quando uma voz fina e baixa ecoou, estalando em seus ouvidos como um chicote.
— Ethan? — Lorenzo chamou de seu quarto. Ethan o encontrou enrolado nos lençóis brancos dos pés ao pescoço. Daquele jeito, ele parecia muito menor do que realmente era.
— Desculpe se te acordamos. — Desejava de todo o coração que ele não tivesse ouvido nada sobre as palavras vermelhas. — Hoje não precisa ir à escola. — Lorenzo ainda não estava oficialmente registrado na Academia Alphonse Enoi, mas estava em período de testes. Como a escola não aceitava qualquer um, analisavam cada novo possível aluno minuciosamente em quesitos de comportamento, obediência à autoridade, sociabilidade e outras coisas mais. Não houvera problema com nenhum dos três aspectos, Lorenzo era quieto e taciturno como um gato, fazia o que os outros mandavam sem questionar e, apesar de não investir na sociabilidade, era gentil e cândido com quem tentava falar com ele. A maioria das outras crianças de sua sala gostou de Lorenzo e vice-e-versa. Até ensinou-lhe algumas palavras em italiano. Devido a isso, e com algumas voluptuosas doações feitas por Ethan, o ingresso de Lorenzo não seria difícil. — Pode voltar a dormir — disse acariciando seu cabelo preto.
Lorenzo se aconchegou para mais perto do irmão e sorriu de leve. Estava tão frio no quarto que Ethan se perguntou como o menino sequer estava arrepiado.
— Não acha que está frio demais? — perguntou.
— Gosto do frio — Lorenzo respondeu e fitou-o com aqueles olhos cinzas.
Ethan ficou ruborizado. Não sabia por que, mas sempre ficava assim quando o menor o olhava.
— Gosto de voi anche — ele completou. Ethan ficou ainda mais vermelho.
— Eu também gosto de você. — Abraçou o corpo pequeno por cima dos lençóis, sentindo-o retribuir. “Você parece com Nick quando era mais novo. Só que… diferente.” Não ousou pensar na palavra melhor. Levantou-se. — Agora volte a dormir. — Beijou-lhe a testa. — Boa noite. — Então percebeu que já era manhã.
— Buongiorno — Lore o corrigiu com um gracejo.
Ethan Lemnsack saiu do quarto e fechou a porta lentamente. Encostou-se na parede branca e olhou para cima, fechou os olhos e suspirou longamente.
“Que Deus não me permita gostar mais de Lorenzo Barcarolli do que de Nicholas Hentz.” Porque ninguém, ninguém podia gostar mais de Nick Hentz do que Ethan.
OoO
O laranja do Sol migrou para o amarelo e Nick sentiu o ar começar a esquentar. O pátio do prédio estava molhado, lavado pela chuva da noite anterior. As lajotas acinzentadas brilhavam sob a luz. As roseiras que o circundavam, embebedadas pela água, acumulavam orvalho entre suas pétalas que, com sob o reflexo do Sol, pareciam pequenas pedrinhas de diamantes perfeitamente esculpidas…
… até Nick sacudir um dos arbustos agressivamente, jorrando água para todos os lados.
“Todos nós vamos morrer e alguém vai dar um jeito de culpar o pobre Nicholas Hentz.”
— Odeio rosas — murmurou.
— Eu também — alguém murmurou atrás de si.
Nick pulou para trás de susto e caiu sentado no chão, não sem dar um grito fino demais durante, tão fino que se constrangeu. Olhou para o dono da voz, ou melhor, a dona. Era uma garota. Parecia ser mais velha que ele, embora mais nova que Ethan, e tinha quase a mesma altura que seu irmão mais velho. Olhos muito claros, uma mistura de verde e azul, estampavam um rosto redondo e branco, com o cabelo louro quase amarelo caindo graciosamente por seu pescoço e parando nos ombros. Ela… parecia um anjo.
— Desculpa — Nick disse, referindo-se a seu grito.
— Tudo bem — ela riu graciosamente. Nick percebeu que sua voz era mais fina que a dela e sentiu-se ainda mais constrangido. Estava numa posição ridícula, estatelado no chão. Ela estendeu-lhe a mão, coisa que Nick aceitou envergonhadamente. Sentia sua face vermelha. — Tudo bem com você?
Mais perto, pôde fitá-la mais profundamente. Seus olhos eram realmente lindos. Sentiu vontade de sorrir e então de chorar de desgosto por ela tê-lo visto daquela forma.
— S-sim. “Eu to gaguejando por falar com uma garota?! O quê?!” Qual seu nome? — perguntou por fim.
— Penelope Nevarnost. Você pode me chamar de… Penny. — O tempo que ela demorou para dizer o apelido foi tanto que Nick esperara algo mais surpreendente. — E você?
— “Ela sabe meu nome, sabe quem eu sou. Quem não sabe?” Nicholas Hentz.
Ela levantou as sobrancelhas e deu uma risadinha.
— Não posso te chamar de Nick?
— Não gosto que me chamem de Nick. — Era só meia mentira. Então fez a pergunta que o inquietava: — De onde você surgiu?
Penny riu novamente.
— Estava sentada num canto quando você chegou.
— A essa hora da manhã? — perguntou inquieto. Ela deu de ombros.
— Gosto de ver o Sol nascendo. E do cheiro dos arbustos molhados. — Penny fitou o horizonte pensadoramente, então voltou seu olhar a Nick e falou baixinho, como que numa confidência: — Menos das rosas.
Ele sentiu vontade de sorrir.
— E você, o que faz aqui a essa hora da manhã? — Penny perguntou.
— “Fugindo de um assassino.” Acordei de manhã e perdi o sono… — Deixou a frase morrer, como se estivesse implícito que não era sua intenção responder aquela pergunta.
Penny se deu por satisfeita.
— Você sempre morou aqui? — Nick perguntou. “Variante do ‘Você vem sempre aqui?’”
— Me mudei com a minha família há algum tempo para o apartamento abaixo do seu.
Nick assentiu, até que sentiu uma sensação estranha…
— Como sabe que seu apartamento é abaixo do meu?
Penny não se alterou, continuou sorrindo.
— Todo mundo sabe que Nicholas Hentz mora na cobertura.
— Ah, sim… — E então, aquela sensação de novo. — Se… se sabia quem eu era, por que perguntou meu nome?
— Por cortesia.
— Por cort… — começou a dizer, mas foi interrompido.
— Creio que tenho que ir, foi um prazer te conhecer. — Deu-lhe um selinho na bochecha que o fez corar e se arrepiar.
Nick observou-a entrando no hall e subindo até o penúltimo andar do prédio, logo abaixo do seu. Sentiu outro arrepio, mas achou que fosse por causa dela, e não por qualquer outra coisa.
“Ela é tão bonita. E se aquele beijo me fez ficar assim, imagina como ela é na cama.”
O pátio ficara deserto demais depois que Penny foi embora, a rua estava silenciosa e não era visto um único carro ou transeunte. Nick subiu de volta ao apartamento, encontrando Ethan ainda agachado junto à parede, esfregando-a furiosamente. Todas as letras haviam desaparecido, exceto pela última, R.
Nick o fez levantar-se e arrancou a palha de aço de sua mão.
— O que foi? — Ethan perguntou.
— Vamos pra cama.
— Ainda me falta uma letra e você ainda está no celibato.
— Disse que eu não posso transar com garotas, e você não é uma garota.
Por um instante, Ethan pareceu considerar a oferta. Depois balançou a cabeça, como se voltando à normalidade.
— Não.
Sem ouvi-lo, Nick tirou a camisa que usava e depois o calção, usando apenas uma cueca slip que era definitivamente muito pequena para ele. O tecido branco delineava seu membro meio ereto e marcava suas nádegas, coisa que sabia que Ethan adorava.
Fitou o desejo surgindo como umas fênix nos olhos pretos do irmão. “Agora, só preciso me aproveitar dela antes que vire cinzas.”
— Sabia que eu sempre quis fazer isso na cozinha? — comentou enquanto andava para o supracitado recinto, rebolando o mais provocativamente que podia. Achava que era um esforço patético, mas Ethan seguiu-o como uma ovelha. — Aqui. — Sentou-se em cima de uma bancada de mármore cinza e branco que servia de divisória entre cozinha em si e a mesa de café-da-manhã.
Quando Ethan se aproximou demais, Nick fisgou-o como um tubarão, envolveu seu pescoço com os braços e sua cintura com as pernas, deitando-se na bancada e forçando-o a se deitar também.
Por um momento, Ethan retribuiu sofregamente… até que separou-se violentamente, jogando o corpo para trás.
— Ah, pelo amor de Deus — Nick explodiu, sentando-se. — Não tem veneno na minha boca, pode me beijar.
— Se eu te beijar…
— Nós vamos acabar trepando, vamos sim. — Abaixou o tom de voz e o olhou inocentemente. — Você sabe que vai acontecer, de um jeito ou de outro… Ethanzinho.
A bancada era tão alta que as pernas de Nick balançavam. Seu movimento linear era um pequeno detalhe que hipnotizava Ethan. O vai-e-vem ligeiro, como um balé russo, enquanto o louro sentava-se nu sobre o mármore gelado, o atraia, o chamava… Aproximou-se cuidadosamente. Pôs as mãos nas coxas completamente lisas de Nicholas e encostou seus lábios nos dele. Sua ereção doía dentro de sua roupa íntima.
Nick começou a gemer. Os sons oriundos de seus lábios vermelhos como um morango que o tocavam delicadamente, e ao mesmo tempo agressivos, invadiam os ouvidos de Ethan com uma irrupção momentânea. O mais velho passou a apreciar aquilo. Fazer amor com Nick era melhor do que alguma vez já havia sido com Gabriel, e apesar de Ethan se sentir péssimo com isso, a doçura da voz do louro, o bater de seu coração, forte como um martelo, o sugar de seus lábios em sua pele, tudo o mantinha num estado de quase paralisia, fazendo-o entregar-se. Naquele momento, Ethan Lemnsack compreendeu por que as garotas gostavam tanto de Nick. Não era apenas a beleza, Nick sabia o que fazer.
Antes de poder terminar uma linha de raciocínio, o menor abocanhou o pescoço de Ethan, chupando-o de uma só vez. Ele gemeu, ou melhor, gritou, apenas para amaldiçoar-se depois e rezar para que Lorenzo não tivesse acordado. Mas o cheiro natural de Nick já impregnado em seu corpo era inebriante demais, entorpecia seus sentidos. Principalmente sua língua esguia que transpassava sua pele como uma navalha.
— Eu quero te chupar — Nick disse. Ethan também queria.
Ethan despiu-se com um quê de desespero. Com cuidado para não cair, subiu na bancada com o corpo invertido em relação ao do menor, segurando-se nas bordas como um gato. Era fisicamente impossível que ambos chupassem o outro simultaneamente, por isso apontou seu membro para a boca de Nick primeiro. Este o segurou com as duas mãos, masturbando-o suavemente até que se tornasse duro como pedra. Ethan explodiu quase no momento em que o menor o punha na boca, mas continuou chupando-o mesmo assim, engolindo o esperma que o irmão ejaculara.
O moreno meteu o pênis do irmão na boca, começando a descer seus lábios finos pela extensão do membro enquanto gemia, a língua a deslizar pela carne excitada.
Sem nem perceber, só com um grito de satisfação para lhe avisar, sentiu o jato de gozo empurrando a semente de Nick para sua garganta.
Ethan levantou-se e pulou para fora da bancada, posicionando-se entre as pernas de Nick. Abaixou-se, sem se ajoelhar totalmente, abriu-lhe e começou a passar a língua por seus testículos, descendo lentamente para ir de encontro a seu ânus. Afundou o rosto ali. Nick apoiou os pés nos ombros de Ethan. Masturbando-se novamente, este enfiou a língua em sua entrada, só aspirando o cheiro de sexo e o sabor que compenetrava sua boca.
— Oh, Deus… isso é tão bom — Nick gemeu, mordendo o lábio inferior.
Após sentir que o local já estava bastante lubrificado, levantou-se e olhou o corpo reluzente de suor estendido a sua frente sobre a bancada de mármore escuro. Os olhos negros de Nick estavam fechados e seus lábios entreabertos, permitindo sua respiração descompassada escapar por entre eles. Era uma visão linda. Nick parecia um anjo. Gostava de vê-lo assim, inocente, embora soubesse que a última coisa que Nicholas Hentz era, era inocente.
Ergueu suas duas pernas e as pôs em seus ombros. Apontou a glande de seu membro ainda duro para a entrada piscante de Nick e o pressionou lá, sem real intenção de penetrar. Começou a beijar seu pé esquerdo, envolvendo o mindinho com a língua, chupando-o, mordendo o dedo maior no pé direito, beijando desejosamente a sola de ambos. Ofegava enquanto o fazia.
Quando estava com os cinco dedos do pé na boca de Ethan, Nick começou a se masturbar novamente. Pôs-se a friccionar o pé direito no pênis do mais velho, ouvindo satisfeito os gemidos dele aumentarem de intensidade.
Ethan encostou sua glande na entrada de Nick e antes que pudesse começar a forçá-la para dentro, Nick agarrou sua cintura com as duas mãos e o puxou para si violentamente, fazendo-o enterrar-se dentro dele de uma só vez.
Era maravilhoso.
A sensação de seu membro apertado por aquela parede quente e aveludada era fantástica. Ethan sentiu uma corrente elétrica atravessando seu corpo, sentiu-se entorpecido e então um arrepio. Lentamente, recuou e então investiu contra Nick.
Não demorou muito para que começasse a estocá-lo com toda a violência que conseguia.
Depois de aproximadamente cinco minutos, tudo o que se ouvia na cozinha eram gemidos descontrolados, o choque de um corpo contra o outro, a fricção do corpo de Nick contra o mármore, palavras obscenas ditas e perdidas no calor do momento, e outras de amor e carinho que ficariam guardadas no coração de cada um para sempre. O corpo molhado de suor de Ethan estava colado ao de Nick quando atingiu sua próstata pela primeira vez, o que o fez fincar os dentes no pescoço do irmão mais velho, coisa que Ethan adorou, apesar da dor.
Uma, duas, mais três estocadas e desmanchou-se completamente dentro dele, no orgasmo mais maravilhoso de sua vida. Nick ejaculou em cima de si próprio, notou Ethan, quando saiu de cima dele.
Sentia suas pernas fracas. Sentou-se no chão frio da cozinha, as costas coladas à bancada. Nick sentou-se ao lado dele e apoiou a cabeça em seu ombro.
— Não foi a melhor, mas está entre as três melhores com certeza — Nick comentou e Ethan sentiu vontade de bater nele. Era incrível a capacidade que ele tinha de comentar a pior coisa no pior momento propositalmente apenas para ver a reação alheia, como num jogo mental doentio. Nick sorriu. — É brincadeira. — Aconchegou-se mais ao irmão. — Foi a melhor.
— Foi sim — admitiu Ethan. Sentia-se extasiado e completamente esgotado, como se toda a energia de seu corpo tivesse se esvaído. Nunca havia se sentido daquele jeito antes. Mas sabia que era muito bom. — Vou tomar um banho. — Levantou-se.
— Então é assim? — Nick indagou, ainda sentado, o cinismo impregnado em sua voz. — Te dou a melhor foda da sua vida e você me troca por um chuveiro quente? Estou terrivelmente indignado e humilhado, você…
— Pode vir comigo, se quiser.
— Ah, então tudo bem.
Ethan deu uma olhada em seu quarto para checar se Lorenzo continuava dormindo e suspirou de alívio ao ver que o menino mantinha os olhos fortemente fechados. Pegou suas roupas e as de Nick, que não se preocupara em recolhê-las, e entrou com ele no box. Abraçou o corpo pequeno que tanto amava enquanto sentia a água quente lavar os pecados de seu corpo. Tomar banho com Nicholas era uma coisa que beirava o engraçado, se não fosse tão trágico. Ele era tão desastrado que levava vários minutos para ensaboar todo o corpo e frequentemente esquecia se já havia passado shampoo ou não. Então passava uma segunda vez ou até mesmo uma terceira.
Quando saíram, a pele branca de ambos estava vermelha pelo calor.
Ethan deitou-se nu na cama de Nick e este se deitou em cima dele, abraçando-o. Compreendeu que ele se sentia feliz.
Abraçou-o de volta e cheirou seu cabelo recém-lavado.
— Você não sente ciúmes de mim? — Nick perguntou, sem olhar para ele, ainda com a cabeça recostada em seu peito.
— Sentir ciúmes de você me mataria — Ethan respondeu. — Você já ficou com mais pessoas do que eu vou ficar durante toda a minha vida.
Nick não respondeu nada. Então Ethan percebeu que o magoara.
— Quero dizer… — Puxou-o para si e o forçou a olhar em seus olhos. Nick não possuía nenhuma expressão. — Não com garotas. Mas… eu… eu fiquei sim com ciúmes quando descobri que você havia ido ao Corredor com Luca Granelli.
Uma menção de sorriso surgiu no rosto do louro.
— Eu sinto ciúmes de você o tempo todo. Quando garotas dão em cima de você, quando garotos dão em cima de você, sinto ciúmes de Gabriel, de Lorenzo, de Amy, sentia ciúmes de Oliver. Até mesmo dos nossos pais. — Ele voltou a recostar a cabeça em seu peito.
Ethan não sabia o que dizer. Durante todo aquele tempo, Nick nunca mencionara sentir ciúmes dele. Antes, Ethan pensava que ele sentia inveja do tempo que passava com Gabriel ou com Lorenzo, mas não ciúmes…
— Desculpe — murmurou.
— Pelo quê? — indagou. — Por viver sua vida? Não, não se desculpe, você não tem culpa de nada. Eu que sou o monstro aqui.
— Você não é um monstro — apressou-se em dizer, sentindo-se sinceramente indignado por ele. — Você…
— Ah, sou sim. Você fez questão de deixar isso bem claro. — Nick olhou para Ethan e o viu horrorizado, envergonhado e indignado ao mesmo tempo. Sorriu. — Quando jogou na minha cara que matei Oliver, pus o vídeo de uma menor de idade na internet, humilhei um garoto na frente de toda uma escola por motivos egoístas, disse a nosso meio-irmão que a mãe dele era uma puta… Não, não é só uma fase. Eu sou um monstro sim.
— Nicholas. — Ethan sentia-se sufocado.
— Eu sinto que ninguém gosta realmente de mim, sabia? — continuou Nick sem piedade. — Você consegue pensar em uma só pessoa que gostaria de mim não importando o que eu fizesse? Consegue pensar em alguém que me tem por amigo verdadeiro? Eu nunca consegui. Só em uma pessoa. Você. — Quando viu que os olhos pretos de Ethan estavam úmidos, abaixou a cabeça e também a voz. — E ultimamente você vem sendo exatamente a pessoa que me faz ver isso. Às vezes, eu duvido realmente se você ainda me ama do mesmo modo que amava há quatro meses, antes de tudo mudar…
Ethan o puxou para si e o abraçou fortemente. Nick retribuiu e fungou, deixando as lágrimas descerem.
— Antes de tudo mudar… — repetiu.
— Me desculpe, Nicholas… — Ethan sussurrou em seu ouvido, e então Nick sabia que ele também chorava. — Eu que tenho sido um monstro. Eu te amo tanto, eu amo você tanto, tanto…
— Quero passar mais tempo com você, só eu e você.
— Nós vamos… nós vamos.
Mais tarde naquela manhã, enquanto Ethan dormia profundamente e os raios de Sol montavam a tarde daquele dia, Nick repousava novamente a cabeça sobre seu peito nu. Sorriu.
“É incrível como Ethan é facilmente manipulável, uma lágrima aqui e outra ali… e tudo se ajeita… e tudo se ajeita…”
OoO
— Você vai ter que ficar com Lorenzo.
— Mas… por quê?
— Porque eu tenho aula a tarde hoje e não posso faltar.
— Mas…
— Nick… sem mas. Ele não pode ficar sozinho.
— E o que eu devo fazer com ele?
— Por que não vão a algum lugar juntos?
— Mas eu não vou saber o que falar com ele.
— Nick, por favor. Eu não posso faltar hoje. Me ajude nisso.
— Ah… ok.
— Já sei, vão ao shopping. Toma o meu cartão…
Quando Ethan Lemnsack partiu, Nicholas Hentz grunhiu de frustração. Aquilo ainda era parte do castigo que estava recebendo por ter feito o que fez com Luca Granelli, e mesmo depois da amaciada que dera em Ethan de manhã, as punições permaneceram inalienavelmente intocadas.
“Talvez Ethan não seja tão ingênuo quanto eu pensava. Que diabos, estou deixando de conhecer meu próprio irmão?”
Abriu a porta do quarto de Ethan e encontrou Lorenzo sentado na cama, quase que perfeitamente imóvel, exceto por suas mãos que manuseavam algo habilmente. Nick prendeu a respiração.
— O que é isso? — Lorenzo perguntou, enquanto deslizava os dedos finos pelo pequeno e quadrado pacote de camisinha. — Nunca vi nada assim… antes. — O inglês dele melhorara consideravelmente desde que começara a ir à escola.
Nick arrancou o pacote das mãos dele tão rápido que Lorenzo só seu deu conta quando o louro falou.
— Não é nada, esqueça que viu isso. Aliás… você ainda vai descobrir. Daqui a uns três anos, quem sabe, se for tão precoce quanto eu. Agora vista-se, nós vamos sair.
— Só… nós? — Por meio segundo, Nick notou uma apreensão em seus olhos. Certo, ele não tinha motivos pra não ficar apreensivo…
— Sim, só nós. Ethan está na escola. Ele tem aula de tarde, sabia? Não sei se quero chegar ao ensino médio. Estou esperando morrer antes. Agora vista-se.
— Preciso de ajuda.
— Ah… tá brincando.
— Só precisa pegar minhas roupas. Estão na… na… ahn, na…
— Na mala.
Nicholas pegou a mala de mão e a jogou em cima da cama, sacudindo-a e, junto com ela, Lorenzo. Abriu-a e contemplou suas roupas como quem visse um tesouro.
— Sabe em que ano estamos? — Nick perguntou.
Lorenzo franziu as sobrancelhas. Sem dúvida achara a pergunta tão idiota que não sabia se era sarcasmo ou não.
— Sì… Sim, em 2012.
— Então por que você se veste como se estivéssemos no século 19?
— Como… assim?
— Ah, quer saber? Vou comprar roupas novas pra você. Aqui, tome isso. — Escolheu a única calça que parecia relativamente casual e após perceber que ele só tinha camisas de manga comprida, escolheu a única que não tinha botões e então os entregou, junto com uma cueca. — E apresse-se.
Então saiu e bateu a porta.
Se Lorenzo percebeu seu descaso e até mesmo desprezo, não demonstrou. Permaneceu perfeitamente quieto e obediente durante todo o trajeto, desde a saída de seu quarto até a descida de elevador e o atravessar do pátio. Precisou segurar a mão de Nick para descer os degraus da fachada do prédio, embora soubesse que eram exatamente catorze, não queria correr o risco de tropeçar. Nick mal quis ouvir o que ele tinha a dizer e puxou-o pela mão degraus abaixo, até praticamente jogá-lo dentro do táxi.
Lorenzo não disse uma única palavra o caminho todo.
Seus sentidos foram despertados quando finalmente chegaram ao shopping. O contingente de pessoas indo e vindo, de vozes e tons, os sons dos sapatos chocando-se contra o chão, das compras feitas e risos dados, de conversas jogadas fora e choros de crianças o alegraram. Por algum motivo, desde que chegara àquele país, Lorenzo sentia mais vontade de sorrir e expressar emoções. Era como se estivesse sendo reprimido durante toda a sua vida e finalmente tendo espaço para se soltar.
Sua linha de pensamento foi interrompida quando Nick o puxou e começou a fazer caminho pelo shopping.
Nicholas entrou na primeira loja de departamentos que encontrou.
— Acho que você deveria usar uma bengala — ele comentou. — Todos os cegos que já vi usam bengala.
— Obrigado — Lorenzo disse.
Nick franziu as sobrancelhas.
— Pelo o quê?
— Por me chamar de cego.
Ele só ficou ainda mais confuso.
— Ahn?
— Todo mundo me chama de deficiente visual sempre. Devem achar que vão me ofender me chamando de cego. Mas não me ofendo. Me ofendo sendo chamado de deficiente visual.
Nick grunhiu. Seu único propósito em chamá-lo de cego era ofendê-lo.
— De nada. Ah, olha só. Bengalas.
Nick passou o olho por um mostruário e escolheu não só a única bengala que parecia corresponder à altura de Lorenzo, mas também a mais cara. Um cabo reto de madeira escura com a ponta revestida do que parecia ser metal banhado a ouro. Mas ela era tão cara que a manopla devia ser feita de ouro puro, em formato de T com a ponta retorcida artisticamente para baixo.
“Será mesmo que Ethan não sabia as consequências de me mandar para um shopping com um cartão de crédito e carta branca para usá-lo?”
Deu a bengala para Lorenzo, que a testou timidamente.
— E então? — indagou Nick.
— Ficou… ótima. — Lorenzo sorriu e seus olhos cinzentos pareceram sorrir também. Era como se a felicidade tivesse tomado forma e aquela era ela, o rosto da criança. Por um segundo, Nick quase se sentiu mal por estar sendo daquele jeito com ele. Mas foi só por um segundo.
— Ótimo, fica aí, eu vou pagá-la.
Arrancou o objeto das mãos dele e se afastou. Lorenzo sentiu-se temeroso por estar ali sozinho, onde não tinha consciência nenhuma de espaço. Pessoas passavam ao seu lado o tempo todo e uma até o empurrou. Quando Nick voltou, percebeu que ele demorara muito mais tempo do que deveria ter demorado.
— Agora eu vou te livrar dessas roupas ridículas. Vamos.
Nicholas atravessou o pátio do shopping andando tão rápido que ultrapassava aqueles que estavam de fato correndo, e puxava Lorenzo pela mão sem se importar com quem ele se chocava ou quem se chocava nele.
Parou apenas quando chegou a uma loja de roupas qualquer. Lorenzo arfava silenciosamente.
— Quantos anos você tem mesmo, seis?
— Oito.
— Parece ter seis. Se fosse um pouco menor, eu teria de ir à sessão para bebês. — Lorenzo ignorou o último comentário. — Fica aí enquanto eu escolho alguma coisa decente. Toma, segura minha mochila. — Enfiou-a nas mãos do menino e o deixou plantado entre cabides de roupas.
Lorenzo suspirou. Tentara permanecer calmo durante todo o tempo que passara com Nick, mas estava começando a perder a paciência. Não era idiota de não perceber que Nick não gostava dele, embora não pudesse entender exatamente por quê.
Estendeu a mão direita para o lado e tocou em algo macio. Percebeu que era uma camisa qualquer.
— Nicholas? — chamou-o. Ele não respondeu. Ouvia apenas o burburinho irritante e comum do shopping. Sorriu.
Puxou a camisa do cabide e logo a seguir o zíper da mochila de Nick. Enfiou-a lá dentro. Repetiu o processo com mais três peças de roupas até fechar a mochila novamente. Então esperou.
Nick voltou após cerca de dez minutos e fez Lorenzo experimentar o que achou que era cada peça de roupa daquela loja. E toda vez que dizia que gostava da textura de uma, Nick sempre dizia:
— Não ficou boa em você. Não mesmo.
E então pensava: “Então por que você a escolheu?” Mas não se atrevia a falar.
Quando finalmente deixaram a loja, Lorenzo deliciou-se por dentro ao ouvir o alarme do lugar ecoando.
— Com licença, senhor — ouviu uma voz desconhecida falando. Nick parou de andar e ele também.
— Ei, eu não sei por que o alarme tocou — Nick disse. — Eu paguei por tudo.
— Precisarei checar as sacolas, se não se importa — a voz disse. Provavelmente era um segurança.
— E eu por acaso tenho escolha? — Nick indagou irritado.
Era difícil não rir.
Ouviu o barulho de sacolas sendo remexidas e checadas, mas não era ali que deveriam procurar, não, ali não…
— Viu só? Não roubei nada — Nick declarou.
— Posso ver sua mochila? — o segurança perguntou.
— Claro que sim… olhe, não tem… — E, de repente, Nick parou de falar. Nesse momento, os músculos do rosto de Lorenzo doíam de seu esforço para não sorrir. — E-e-eu… não sei como isso foi parar aí! Eu juro, eu não… e-eu não coloquei isso aí!
Era hora do show.
— Fui eu — Lorenzo disse. Todas as vozes silenciaram-se e, de alguma forma, sabia que todos olhavam para ele. Ele tinha uma habilidade especial, conseguia chorar a hora que quisesse. Naquele momento, apenas umedeceu um pouco os olhos cegos. — Desculpe, não sabia que não podia fazer isso. — Então sorriu timidamente. — Se puder me perdoar… — Abaixou a cabeça e fungou.
Fez-se silêncio por um momento até que Nick falou.
— Viu só…? Peço que perdoe meu irmãozinho, às vezes ele não sabe o que faz…
— Bom — o segurança disse —, creio que, nesse caso, é entendível.
— Sim, sim, obrigado. — Nick enfiou as roupas sobressalentes nas mãos dele e puxou Lorenzo para longe dali, visivelmente constrangido demais para ficar. Devia ter havido dezenas de pessoas olhando quando o apito tocou.
Finalmente pararam um momento depois. Ainda era difícil não sorrir.
— Foi você mesmo? — Nick perguntou.
Lorenzo franziu as sobrancelhas.
— Claro que não. Eu sou cego. Como eu po… pode… poderia… como eu poderia fazer isso?
— Ah… — Nick murmurou. — Eu… não sei como isso aconteceu.
“Mas é tão óbvio que fui eu.”
— Por que você assumiu a culpa? — ele perguntou. Lorenzo deu de ombros.
— Eu gosto de você.
Nick ficou vermelho. Começou a sentir vergonha do modo como tratara Lorenzo o dia todo. Mesmo com aquilo, ele assumira a culpa de algo que não era culpa dele…
— “Eu realmente sou um monstro.” Bem… obrigado, então. E… desculpe.
— Pelo quê? — Inclinou a cabeça para a direita, a curiosidade estampada em sua face.
— “Você é tão ingênuo. É só uma criança, por que fui daquele jeito contigo?” Por ter sido um idiota com você… é, por isso mesmo. Ah, olha! Tem um Mc Donald’s ali, vamos almoçar.
Puxou Lorenzo pelo caminho todo e dessa vez, o menor percebeu com um sorriso no coração, Nick não corria.
OoO
O crepúsculo tomava o céu como uma fera domada, laranja e azul. As poucas nuvens tornavam-se negras à medida que o tempo passava e a noite chegava, reivindicando seu lugar de direito. O ar carregava uma atmosfera que misturava o frio ao odor do escapamento dos carros.
Nicholas Hentz abraçava o moletom branco com listras verdes que usava para se proteger contra o frio. A madeira do banco estava mais fria ainda e parecia penetrar em sua pele… O barulho dos grandes carvalhos daquele parque municipal enchia seus ouvidos, assim como os risos das crianças.
Havia um parquinho infantil bem a sua frente. Lorenzo Barcarolli estava sentado numa caixa de areia, parecendo ser mais novo do que ainda parecia, rindo e se divertindo com mais meia dúzia de crianças. Pela primeira vez desde que o vira, Nick o achava realmente como uma criança, e não como um jovem adulto.
As luzes alaranjadas dos postes de iluminação jorravam-se no parque.
Nick sentia algo, bem no fundo de seu peito, mas não sabia o que era.
Então percebeu que era felicidade.
— Qual foi a última vez que me senti feliz? — indagou pra si próprio, baixinho. — Ah, sim, hoje de manhã.
Olhou para o céu primariamente azul com o laranja do dia que se esvaia brilhando no horizonte e sentiu-se sonolento…
… então alguém sentou-se ao seu lado e, pela segunda vez naquele dia, pulou de susto.
Praguejando, o louro voltou a sentar-se.
— Olá — disse a pessoa.
Nick olhou para ele e a primeira coisa que pensou foi que estivesse olhando para Penny Nevarnost, até perceber que se tratava de um rosto masculino. Mas possuía a mesma cor de cabelo, apenas um corte diferente, curto nos lados e repicado em cima, o mesmo formato de rosto e os mesmos olhos. Estava vestido completamente de preto.
— Olá… — murmurou.
— E então — o garoto disse, indicando o parque. — Qual o seu?
Nick ficou confuso por alguns segundos até perceber que ele se referia às crianças.
— Ah, é… ali, o moreno baixinho, na caixa de areia. E o seu?
— A loirinha que está conversando com ele.
Nick olhou para Lorenzo e o viu rindo com uma garota da mesma idade que ele, sentada também na caixa de areia.
— É sua irmã? — Nick perguntou.
— Sim. E quanto ele?
— É meu meio… irmão.
O garoto franziu as sobrancelhas, mas não comentou nada.
— Qual seu nome? — ele perguntou.
— Nicholas Hentz. E o seu?
— Daniel Nevarnost… pode me chamar de Danny.
— Nevarnost? “Por isso que ele se parece tanto com Penny. Eles são gêmeos.”
— Sim — ele confirmou. — Ah, acho que você já conheceu minha irmã, não é? Ela me contou.
— Conheci, hoje de manhã… Se ela te contou, por que perguntou meu nome?
Uma centelha de hesitação passou pelos olhos claros de Danny antes de ele responder.
— Por cortesia.
— “Que família cortês.” Ah, sei. Qual o nome da sua irmã?
— Jill, e do seu?
— Lorenzo…
Continuaram conversando até toda a luz da tarde se extinguir e a noite chegar, enfim, silenciosa e escura. Não havia quase ninguém no parque quando Nick chamou Lorenzo de volta, dizendo que já era hora de ir.
— Por que você e Jill não pegam um táxi conosco? Nós moramos no mesmo prédio, afinal.
— Seria ótimo — Danny disse, mostrando uma fileira de dentes brancos. Nick se perguntou se Ethan se sentiria atraído por ele.
“Ele é quase tão bonito quanto eu, provavelmente sim.”
Tomaram os quatro um táxi para o prédio. Nick notou o quanto Lorenzo e Jill conversaram e que ele ficou perto dela o tempo todo.
“Que adorável, meu irmãozinho está crescendo… será que foi assim que Ethan se sentiu comigo? E como será que ele sabe que ela é bonita?”
O táxi parou em frente à faixada do prédio e Nick pagou com o cartão de Ethan. Subiram todos os 14 degraus e atravessaram o pátio. O elevador parou no penúltimo andar e Danny e Jill se despediram.
Quando Nick e Lorenzo finalmente chegaram a seu apartamento, encontraram Ethan lendo calmamente um livro, sentado no sofá. Quando os viu, sorriu.
— Como foi? — perguntou.
— Legal — Nick respondeu. — Lorenzo, vá tomar banho. Precisa de ajuda?
— Não, obrigado — Lorenzo disse. — Consigo me virar sozinho.
Ele tateou todo o caminho até o banheiro e então fechou a porta.
— Se deram bem, pelo visto, hein? — Ethan disse sorrindo.
— Sim, sim, claro. Toma seu cartão de volta.
— Quanto você gastou?
— Sei lá. O taxista que nos trouxe de volta disse que ele estava sem limite e então eu tive que pagar a diferença em dinheiro.
Ethan olhou fixamente para o irmão e então para o cartão de crédito em suas mãos.
— Como assim, “sem limite”? Esse cartão tem o limite de uns 15.000 dól… — Parou de falar e viu que Nick sorria.
— Já disse que comprei uma bengala pra ele? É linda, aliás. Só não é ajustável. É uma pena que ele vai perdê-la logo.
— Você… — Ethan se controlava para não gritar — gastou 15.000 dólares numa bengala que não vai durar sequer um ano?
— Não — respondeu alegremente. — Foram dois terços disso. Depois eu comprei umas roupas pra ele e aí nos esbaldamos numa daquelas estações de jogos onde você tem que praticamente hipotecar sua casa pra pagar a entrada. Mas você tinha razão, fez muito bem pra gente. Vou tomar banho.
Ethan teria apertado o pescoço de Nick se pudesse, mas pelo menos havia uma coisa boa naquilo tudo, pelo menos Nick e Lorenzo estavam se dando bem.
Ethan fez uma prece para que aquilo fosse um presságio, e não um momento passageiro.
OoO
Depois de colocar Jill na cama, Danny despencou no sofá da própria sala. Não havia quase nada nela, apenas o sofá e uma TV.
“Se era pra fingir que estamos morando aqui, pelo menos podíamos ter feito direito.”
Penelope Nevarnost surgiu do corredor e sentou-se ao lado dele.
— Você falou com ele? — ela indagou.
— Falei. Você sabia que eles têm um irmão mais novo? Como é que não sabíamos disso?
— Eu sabia. A mãe me contou hoje de manhã. Ela falou com Ethan outro dia e o viu. Lorenzo o nome dele, não é?
— É. Não me sinto bem fazendo isso… com ele.
Ela lhe deu um tapa no rosto.
— Ele pertence à família deles! É tão culpado quanto eles. Vai se acovardar agora?
— Não me chame de covarde quando você vai ter que ser a vadia daquele pirralho.
Ela ia lhe dar outro tapa, mas Danny segurou seu braço antes disso.
— Parem os dois já com isso! — A voz de Angie Nevarnost estalou como um chicote pela sala. — O que há com vocês? Por acaso se esqueceram do porquê de estarmos aqui?
Penny e Danny calaram-se. Angie vestia uma camisola de seda negra que delineava seu corpo magro, mas que mostrava as incontáveis marcas vermelhas que possuía por toda a extensão do corpo… assim como Penny. Todos de preto. Todos de luto.
— Desculpa — os dois falaram.
— Já fizeram o que deviam ter feito — Angie disse, o tom mais brando. — Agora a segunda parte. Dê-me a chave.
Danny tirou do bolso uma chave pequena que usara apenas uma vez, na noite anterior. Ou melhor, na madrugada daquele mesmo dia… e entregou-a à mãe.
Angie sentou-se entre os dois no sofá.
— Falta pouco, Daniel, Penelope. E então poderemos ir. — Abraçou os dois filhos, um com cada braço. — Eu amo vocês dois. E amanhã, amanhã… será comigo.
OoO
Tinha pouco tempo de vida.
Pietro descobrira da morte de Antonella pouco depois de entregar Lorenzo em segurança e se odiara quando percebeu que não estava surpreso. Cumprira a última missão que ela lhe dera, a de salvar seu filho. Lorenzo Barcarolli jamais poderia ter ficado com ela depois de saber o que sabia. Teria tido o mesmo destino. Mas não mais, ele estava seguro, longe, escondido. Quem descobriria aquela criança vivendo numa cidade pequena num país cujo idioma sequer falava? Não, ele estava seguro… assim esperava.
Foram esses seus pensamentos antes de ser ajoelhado e sentir a bala de chumbo atravessando seu crânio como se fosse manteiga.
Num minuto, todas as respostas da vida estavam claras em sua mente.
E, no outro, nada.
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