Como Vivem Os Anjos
13 Caminho Direto Para Lugar Nenhum
O grito de centenas de adolescentes enchia os ouvidos de Ethan Lemnsack juntamente com o sinal de saída da escola. Dando um grande suspiro de alívio (por algum motivo, a escola ultimamente havia estado irritantemente pesada), arrumou suas coisas e desceu para o térreo da Alphonse Enoi. Lorenzo estava numa parte diferenciada da escola, destinada apenas a crianças com menos de 12 anos, e naquele dia havia pedido a Nick para buscá-lo. Sentou-se no banco de madeira perto do Espaço e decidiu esperar por Gabriel quando Amy Bellafonte sentou-se a seu lado.
Ethan sorriu e a beijou na bochecha.
— Como vai? — ela cumprimentou.
— Não saberia dizer — disse Ethan. Sua vida andava um turbilhão de sentimentos bons e ruins.
— Sou toda ouvidos.
— Bom… primeiro, uma coisa boa é que Nick e Lorenzo estão se dando bem por motivos que desconheço. Acho que eles são mais parecidos do que aparentam. Mesmo sem querer, Nick acabou gostando dele.
Ela sorriu.
— Ele é amável.
— Nick ou Lorenzo?
— Você sabe.
Ethan assentiu.
— A parte ruim é que… — Aproximou-se dela, como que para segredar-lhe algo — outro dia, eu acordei de madrugada com a campainha tocando. Quando acendi a luz, alguém havia escrito algo na parede da sala com tinta vermelha. Dizia… Vocês vão morrer.
Amy franziu as sobrancelhas. Ficou inexpressiva por um segundo, parecendo pensativa. Falou tentando manter a calma.
— Tem ideia de quem fez isso?
Ethan balançou a cabeça.
— Não tenho. E não posso chamar a polícia porque a mídia com certeza saberá disso, e eu sinto que já temos publicidade demais em cima de nós.
— Sabe… eu conheço alguém. Eu creio que ele seja uma espécie de detetive, embora não possa dizer exatamente isso. Ele… não faz perguntas. Eu creio que ele possa te ajudar nisso de alguma forma.
— Tem certeza? — Ethan hesitou por um segundo. Mas então lembrou-se das palavras. De alguma forma, era como se exalassem uma força negativa. Machucava-os. Ameaçavam-nos. — Como entro em contato com ele?
Amy pegou um papel e escreveu um número de telefone. Entregou-o a Ethan.
— Obrigado. — Voltou os olhos para ela. — Você cortou o cabelo?
Ela riu e acariciou seu cabelo escuro levemente.
— Você foi o único a notar.
Ethan sorriu de leve. Era claro que ela era apaixonada por ele, qualquer um podia ver isso. As pupilas de seus olhos azuis dilatavam-se toda vez que ele se aproximava. Estava acostumado com aquilo, acontecia o mesmo com Gabriel. Mas… ele não podia fazer nada. Não podia corresponder. Não da mesma forma que ela.
Viu, ao longe, Nick chegando com Lorenzo. A criança tentava acompanhar o ritmo do loiro, mas estava praticamente sendo arrastada. Fez uma anotação mental de não deixar mais Nick buscar Lorenzo. Gabriel seguia-os silenciosamente.
— Tenho que ir agora — ele disse à Amy. — Até.
— Até — ela respondeu.
OoO
— Eu posso fazer meu top de 5 segundos com você? — A voz dele era tenra e cavernosa, acariciavam seus ouvidos como uma luva.
— O que é isso, exatamente…? — indagou, meio temeroso.
— Eu te mostro. Se aproxime.
Tocou o rosto louro e branco com ternura. Suas mãos frias seguraram sua nuca firmemente e logo tornaram-se quentes. Encostou seus lábios finos no nariz perfeito, beijando-o letargicamente. Depois estalou um selinho em sua bochecha direita e então na esquerda. Beijou-lhe as têmporas quando sentiu o corpo dele relaxando.
— Gostou? — perguntou Lorenzo.
Nicholas estava entorpecido.
— Sim — admitiu.
Olhou para a revista que segurava em mãos. Estampava uma foto em boa resolução dele e de Lorenzo andando calmamente no shopping. Lorenzo claramente usava a bengala para se locomover, enquanto Nick puxava sua mão. Apesar disso, aparentemente ninguém havia percebido que Lore era cego.
Ethan tem razão. Pessoas que leem revistas de fofocas são estúpidas. Mas eu to um gato nessa foto.
A matéria nada mais fazia do que especular sobre quem Lorenzo seria.
E fazem isso estupendamente bem com mil palavras.
O cheiro da tarde já invadia o quarto de Nick, onde dividia a cama com o meio-irmão. Lore estava deitado de barriga pra cima, com a cabeça pendendo da beira, coisa que curiosamente toda criança gosta de fazer. Nick estava exatamente na mesma posição. Ethan estava no quarto dele, provavelmente fazendo a cama ranger com Gabriel.
Acho que Ethan não vai querer que Lorenzo perca a virgindade tão cedo. Eu perdi e olha só o que me tornei. Riu mentalmente. Quanto será que é uma prostituta?
Teve seus pensamentos interrompidos quando Ethan irrompeu no quarto. Usava um roupão branco, parte de seu peito estava desnudo.
— Oi, Ethan — disse Lorenzo, brincando com a ponta dos dedos em frente a seus olhos que nada viam.
— Como sabia que era eu e não Gabriel? — ele perguntou.
— O modo como você abre a porta. Conheço o de todo mundo.
— E agora todos conhecem você — Nick disse. Pegou a revista e jogou-a no chão. Ela deslizou e parou nos pés de Ethan, que a pegou.
— Acho que vou precisar a começar a usar óculos o tempo todo. — Afastou a revista para focalizar a imagem e apertou os olhos. Não demonstrou surpresa com o que viu. — Que adorável. Vocês estão lindos nessa foto.
— Fizemos mais uma subcelebridade — Nick disse. — Os idiotas nem se deram conta de que ele é cego.
— Não me surpreende. Venha aqui, preciso falar com você.
Nick e Ethan deixaram o quarto e foram para a sala. A parede cujas palavras haviam sido escritas nada mais levava de seu fardo a não ser uma mancha enorme e cor de rosa… e um pedaço vazio de parede que havia sido arrancado.
— Eu acho que achei um jeito de descobrir quem escreveu aquilo — Ethan declarou.
— Como?
— Eu contratei… uma espécie de… acho que podemos dizer detetive. Ele pegou amostras da tinta.
— Por isso que arrancou a parede? Aliás, quem é ele? É o que matou…
— Não, não é — o maior apressou-se em dizer, massageando a testa. — De qualquer forma…
— Como pegar amostras de tinta vai ajudá-lo a descobrir quem foi?
Ethan não saberia dizer se Nick estaria interrompendo-o de propósito.
— Aquilo foi escrito com tinta spray. Analisar a tinta vai ajudá-lo a descobrir qual o tipo de tinta spray usada.
— Ah, então depois ele vai checar todas as vendas desse tipo de tinta num raio de quilômetros?
— Sim. Se não percebeu, vai demorar um pouco.
— Até lá, estaremos mortos. Já trocou a fechadura?
— Ainda não…
— Droga, Ethan. É uma coisa muito mais fácil do que procurar um detetive que não faz perguntas.
Às vezes ele o irritava tanto.
— Pare com isso.
— Só estou brincando. Me convidaram pra ir numa festa hoje à noite, posso?
Ethan começou a sentir o início de uma dor de cabeça. Era incrível a capacidade que Nick tinha de fazer isso.
— De quem?
— Amber Selnvan.
— Essa… não é aquela garota que deu aquela festa que foi parada por uma batida policial?
— É sim. Ela me fez um boquete ontem. Eu parecia estar no céu.
— Não, não pode.
O sorriso eternamente cínico de Nick desmoronou até que se tornasse uma tórrida face indignada. Parecia que a reposta de Ethan não era óbvia.
— Mas… por quê?!
— Porque se você for, você vai beber, e eu não quero que você beba, vai transar com todo mundo e você ainda está de castigo.
— Quer que eu traga Luca Granelli aqui pra ele dizer a você que não guarda mágoa?
— Mas eu guardo, maninho. — Quando Ethan fez menção de se levantar, Nick o puxou violentamente para baixo.
— Eu quero ir!
— Mas… não… vai.
— Meu Deus, como você me irrita. — Virou o rosto louro para o corredor e gritou: — Lorenzo!
— Pra que o está chamando?
— Pra ver o que ele acha dessa situação.
Lorenzo chegou à sala usando a bengala para se orientar. Andava mais rápido assim do que usando apenas as mãos. Nick fitou seu rosto corado e percebeu uma coisa… ele estava corado. Quando viu Lorenzo pela primeira vez, sua pele parecia porcelana de tão branca.
— Sim? — ele disse.
— Sente-se aqui. — Nick deu tapinhas no assento do sofá ao seu lado, de modo que ficaria entre ele e Ethan.
Lorenzo sentou-se com a elegância de um lorde.
— Então — Nick começou. — Eu fiz uma coisa terrível com uma pessoa por motivos piores ainda, então Ethan me deixou de castigo e agora eu quero ir a uma festa e ele não me deixa. O que acha disso? — indagou alegremente.
O menor franziu as sobrancelhas.
— O que você fez?
Nicholas olhou nos olhos pretos de Ethan e viu lá escrito. Não.
— Humilhei uma pessoa.
— Como?
Voltou a fitar o irmão. Não se atreva.
— Bom… havia muitas garotas que gostavam dele, e eu queria que elas gostassem de mim. Então eu o humilhei pra que elas gostassem de mim.
Lorenzo não se deu por satisfeito.
— O humilhou… como?
— Precisa mesmo saber disso?
— Sim.
Os olhos de Ethan permaneciam impassíveis. Diga e eu te mato.
— Expus um segredo dele.
— Qual?
— Ahá! — De repente, era como se Nick tivesse todas as respostas da vida ali, na frente dele. — É segredo. Não posso contar.
Lorenzo franziu as sobrancelhas, pensou um pouco e então deu de ombros.
Crianças. É só saber lidar com elas.
— Tá certo. Como Ethan pode te deixar de castigo se ele não é seu pai?
Nick deu um risinho de desgosto.
— Não faço ideia. Bem, de qualquer jeito, o garoto já me perdoou pelo que eu fiz. Mas ainda to de castigo.
— Não faz sentido pra mim.
Aí está.
— Lorenzo — disse Ethan —, o garoto tendo-o perdoado ou não, o que ele fez foi errado.
— Mas… — Lorenzo parecia confuso — se o garoto o perdoou, não foi tão errado assim.
Nick olhou triunfante para Ethan. O rosto dele estava vermelho. Odiava ser contrariado, mesmo que por uma criança de oito anos. Principalmente quando estava errado.
— É… acho que sim — murmurou Ethan, baixando a cabeça.
— Então, posso ir? — Nick sorriu lindamente, mas seus olhos eram zombeteiros. — Não acha que devo poder ir, Lore?
— Acho — ele respondeu.
— Ótimo, então vá. — Aproximou-se do ouvido do irmão e sussurrou: — É bom que não engravide ninguém.
— Você me ofende, mano. Posso beber?
— Não. Lorenzo, volte pro quarto. — Ele foi. — Não quero ver você em encrencas.
— Não se preocupe, só vou dançar um pouco e comer algumas vadias. Afinal, você não conseguiria viver sem mim.
Ethan sentiu sua cabeça lentamente começando a latejar.
— Volte pro quarto.
— Tá bom, volte a comer o Gabriel. Posso beber?
— Não.
Bebeu mesmo assim. Quando chegou à mansão de Amber Selnvan àquela noite, a primeira coisa que fizeram foi enfiar um copo com um líquido escuro que exalava um cheiro repugnantemente amargo em sua mão. Nick entornou o uísque de uma só vez.
— O que tem aqui? — perguntou a alguém.
— Uísque e energético.
— Ener… gético?! — Um arrepio percorreu seu corpo.
Eu já tenho hiperatividade, não preciso de algo que me torne ainda mais agitado.
As luzes estroboscópicas jorravam-se no lugar com suas línguas multicoloridas refletindo a fumaça artificial. Uma música insuportavelmente alta batucava os tímpanos de Nick numa frequência tão rápida que ele mal podia identificar que tipo de música era. Por todo lado via adolescentes bebendo e se beijando. Um casal estava tão concentrado em tentar engolir a língua um do outro que a garota nem percebeu quando Nick passou a mão na bunda dela.
O energético pelo visto estava fazendo efeito. Sentiu uma vontade súbita de tomar mais. E tomou. E de novo. E de novo. E então tomou algo que tinha gosto de vodka, mas era amarelo. E de novo. E de novo. Não vomitou nem quando tomou um copo de aguardente de uma só vez.
De repente, o lugar parecia abafado demais. Tirou a camisa e se jogou na pista de dança. E gemeu quando sentiu outros corpos em contato com o seu. Alguém lhe dera uma pílula de algo que deixara tudo mais colorido. As luzes que provinham do teto pareciam tomar forma e dançar sobre ele, acariciando-o, incitando-o. Havia uma fumaça com um cheiro esquisito rodeando todo o local, e certamente não era fumaça artificial. Algumas pessoas derramavam cuidadosamente um pó branco em folhas de papel e então o inalavam. Não experimentou isso, mas achou que devia ser muito bom.
Não se lembrava de como fora parar no quarto de Amber Selnvan, mas se lembrava da sensação da boca nela no seu pau e também de que ela tinha seios do tamanho do universo ou até maiores. Quando Amber penetrou-se e começou a cavalgar em cima dele, Nick lembrou-se repentinamente que não havia posto camisinha. Mas não importava, era tão apertado e quente dentro dela que quando chegou ao orgasmo, milhares de cores explodiram a sua frente e Nicholas Hentz agarrou-se ao corpo nu e suado dela e o apertou contra si. E a última coisa que se lembrava daquela noite, a última mesmo, foi de ter gritado o nome do irmão quando ejaculou.
OoO
Era duas horas da manhã quando Ethan ouviu batidas à porta.
Foi atender de roupão e encontrou Nicholas Hentz sorrindo com dentes brancos como se nada estivesse de errado no mundo. E, ao seu lado, inconfundível como a morte, um policial.
— E então… — tentou desconversar, mas Nick brincava com os próprios dedos com olhos vidrados e fazia barulhos irritantes com a língua — houve outra batida policial?
— Houve sim — disse o policial. — Ele é seu irmão? Onde estão seus pais?
— Ahhhh… estão mortos! — respondeu Nick, e então começou a rir histericamente. Olhou para Ethan e arregalou seus olhos pretos, como se tivesse acabado de perceber que ele estava ali. — Ethan! Quando chegou aqui? — Deu um passo para frente e o abraçou ternamente, pondo os dois braços em volta de seu pescoço. Ethan envolveu sua cintura com o braço esquerdo por impulso.
— Eu sou o responsável legal dele — respondeu, sentindo-se muito estúpido. Olhou para Nick. — O que você tomou?
— Ahh… sei lá — A voz dele passava de aguda e irritantemente fina para cavernosa. — Só sei que você devia experimentar. É maravilhoso! — Soltou-se do irmão e passou a esfregar o rosto lentamente no roupão dele. — Meu Deus, isso é tão macio!
— Bem… obrigado por tê-lo trazido, senhor — Ethan disse, constrangido. Era mais do que óbvio que Nick não havia ingerido apenas álcool. — Eu… prometo que isso não vai acontecer de novo.
O policial mostrou-se cortês.
— Tudo bem. Ele foi o de menos, houve três overdoses naquela festa. No fim, todos acabam ingerindo algo que não devem. Mas em casos como o dele, deixamos passar.
É, eu quero ver se a imprensa vai deixar passar. Deus, que ele não tenha engravidado ninguém.
Quando ele foi embora, Nick ainda se acariciava em seu roupão. Passou a beijá-lo e então subiu ao rosto de Ethan. Deu-lhe um selinho.
— Isso é tão bom — murmurou ele, com olhos enormes e úmidos. — Por que não fazemos todo dia?
Ethan sorriu e recostou sua cabeça loura em seu ombro. Nick voltou a deslizar seu rosto cândido pelo algodão branco e macio.
— É… é macio — Ethan sussurrou. — Aproveite, porque amanhã vou transformar sua vida num inferno, meu amorzinho…
OoO
— Ah… ah, meu Deus. Eu to morrendo.
Nicholas estava no banheiro de seu quarto, ajoelhado em frente à privada. Quando a ânsia o atacou de novo, fez o máximo possível de drama até vomitar de novo. Gemeu. Alto.
Ele vai vir me acalentar ou não? Não sei como ainda to vomitando, não tenho nada no estômago.
Vomitou de novo. Apertou a descarga e levantou, trêmulo, até a pia. Enxaguou a boca e voltou à cama, jogando-se pesadamente nela. Seu cérebro parecia estar solto dentro de sua cabeça e a luz parecia queimar-lhe os olhos, como se inflamasse a chama que pulsava dentro dela. As venezianas estavam violentamente fechadas.
Nick se enrolou nos lençóis brancos e chutou os travesseiros para fora da cama.
Aquele viado tá de brincadeira comigo. É sério que ele vai me deixar aqui?
Gritou. O mais alto que pôde, até ficar sem voz, até sua pele ficar vermelha. Quando perdeu o fôlego, sua dor de cabeça tornou-se numa magnífica enxaqueca.
Ethan abriu a porta do quarto e colocou metade do corpo lá dentro.
— Chamou? — indagou elegantemente.
— Estou morrendo. Acelere o processo, por favor.
— Não está morrendo. — Ethan deu a volta na cama e abriu as venezianas bruscamente. A repentina entrada de luz no quarto fez Nick gritar de dor e cobrir a cabeça com os lençóis. Amaldiçoava-se de ter chutado os travesseiros para o chão. — Seu corpo está apenas respondendo à sua desobediência.
— Vai se foder, Ethan… eu não mereço isso.
— À sua desobediência e ao ecstasy que você tomou.
— Aquilo era ecstasy? Eu já estava me acostumando em chamar de pílulas da alegria, e não está muito longe de ser verdade. Feche a porcaria das venezianas!
Ethan não fechou. Sentou-se na beira da cama e deslizou a mão para baixo dos lençóis, acariciando o cabelo loiro. Nick relaxou um pouco o corpo tenso.
— Houve uma batida policial na casa dela, sabia?
— Ahh… é? De quem era a festa mesmo?
— Amber Selnvan.
— Ah, sim… Deus, ela era tão gostosa. Acho que não usei camisinha.
Nick sentiu a mão de Ethan parar de acariciar seu cabelo e, por um segundo, temeu que ele fosse estrangulá-lo, o que não era muito improvável.
— Como é que é? — A voz dele estava perigosamente calma.
— Não se preocupe. O lugar onde eu enfiei não permite a ela engravidar.
— Nicholas! — Ethan levou uma mão à testa. — Do jeito que aquela garota é, é capaz de ela recolher o esperma e introduzir em si mesma!
— Duvido que ela encontre o meu. Ela deve ter transando com meia centena de pessoas.
— Aquilo foi uma festa ou uma orgia?
— Depende de em qual cômodo você estava. Se era na sala, era uma orgia, se era num quarto, você se sentia em Roma antiga.
— E você deve ter contraído meia centena de DSTs.
Nick riu de desgosto.
— Eu nunca teria uma DST. Tem tanta coisa ruim dentro de mim que eu provavelmente mataria o vírus. Que é que você tinha na cabeça quando me deixou ir pra lá?
— Lorenzo.
— E você foi dar ouvidos a uma criança de 8 anos?
— Não, fui dar ouvidos a uma criança de 13.
— Vou fazer 14 semana que vem.
E faria. Ethan fazia aniversário exatamente uma semana depois que Nick. Não sabia que dia Lorenzo completava ano.
— O que vai me dar de presente? — Nick indagou.
— Com tudo o que você tem feito, devia esperar que eu não tire.
— O que você vai me dar de presente? — desafiou.
— Que tal uma vasectomia?
— Que tal um ménage com você e a Amy?
— Que tal uma castração? Metade dos meus problemas sumiria assim.
— Se você pedir, tenho certeza que ela aceitará.
Ethan se levantou e fechou as venezianas. Recolheu os travesseiros jogados no chão e os ajeitou em cima da cama, onde Nick lentamente repousou a cabeça. Tirou dois comprimidos de bolso e os colocou em cima da mesinha, junto com um copo d’água. Pôs a mão em sua testa.
— Engula os comprimidos e então durma. Quando acordar, o enjoo terá passado. — Beijou-o.
Deixou o quarto e suspirou. Não havia ficado com raiva de Nick porque sabia que ele beberia de um jeito ou de outro, mesmo se não quisesse. Só tinha a agradecer que o policial não o tivesse levado para a delegacia, e sim para casa. Alguém provavelmente venderia a informação de que ele estava na casa e que havia tomado ecstasy, embora ninguém pudesse provar nada. Nick com certeza negaria. E Ethan duvidava de que alguém fosse duvidar dele.
E ainda precisava pensar no que dar a Nick de aniversário.
O que aquele menino não tem?
Passou pelo corredor e foi à sala. Abriu a varanda e contemplou a vista. Ao longe, bem ao longe, conseguia ver a floresta que cercava Middleland. O ar estava fresco e agradável, gostava da quentura dos raios de sol que chocavam-se contra si com atrevimento.
Talvez eu devesse dar um carro a ele. Por que não? Ah, sim, ele tentaria dirigir quando ninguém estivesse olhando e imediatamente o bateria.
O barulho dos carros empesteava o ar como um parasita, mas Ethan descobrira-se apreciando-o. Nunca conseguiria morar longe daquilo, daquele stress, do barulho da cidade, da fumaça da poluição, do trânsito… gostava daquilo. Mas talvez pudessem mudar de ambiente um pouco. O que Nick havia dito? Que gostaria de passar mais tempo junto de Ethan… era possível, logo entrariam nas férias de meio de ano e tinham um mês para fazerem algo juntos.
Eu tenho um mês, Nick tem duas semanas. Se ele não ficar de recuperação, eu devo ser heterossexual.
E então, a ideia surgiu em sua cabeça.
Foi até seu quarto, onde encontrou Lorenzo lendo um livro escrito em braile. O volume era incrivelmente fino e, pelo visto, tinha poucas palavras, mas Lorenzo passava os dedos pelos pontos salientes com uma lentidão e paciência assustadoras.
Entrou no quarto sorrateiramente, na ponta dos pés, mas logo no momento em que pisou no chão do recinto, Lorenzo falou:
— Ethan.
Ele sentou-se ao lado dele, na beirada da cama.
— Nunca entendi por que o inventor do braile não fez as letras no formato das letras normais.
Lorenzo olhou para o irmão e sorriu.
— Nunca soube ler isso direito. É muito difícil.
Ethan segurou seu rosto com ternura e beijou-lhe a testa.
— Sabia que seus olhos são lindos? Eles são cinzas.
— Obrigado. Mas sabe… eu não faço ideia do que é “cor”. Nunca entendi direito. Dizem que eu vejo tudo em preto. Não sei o que isso significa.
— Quando alguém coloca uma luz perto dos seus olhos, você não percebe nenhuma mudança?
— Bem… acho que sim. Não sei explicar.
— Não precisa. O que acha de viajar?
— De novo?
Ethan notou a expressão hesitante em sua face, e até uma centelha de medo incrustrada bem no fundo. Quando conheceu Lorenzo, seu rosto parecia feito de pedra, era tão sombrio e frio. Agora, uma coloração corada tingira-o e seus olhos encheram-se de alegria. Ele virara uma criança, como devia ser.
— Não vamos viajar para ficar lá. Vamos viajar por lazer.
— Ah… tudo bem. Quando?
— Daqui a umas duas semanas, provavelmente. Quando é seu aniversário?
— Que dia é hoje? — ele perguntou. Ethan respondeu. — Ah… então é em uma semana.
Ethan piscou, estupefato.
— Daqui a… exatamente uma semana?
— Sim.
Lorenzo fazia aniversário no mesmo dia que Nick. Quando ele nascera, Nick devia estar fazendo cinco anos de idade. Ethan tinha apenas sete anos, mas se lembrava desse aniversário dele. Foi o único em que seu pai não aparecera. Dissera-se que estava na Itália. Pelo visto, realmente estava.
Oh, Nick vai odiá-lo de novo quando descobrir isso.
— Você faz aniversário no mesmo dia que Nick.
Ele deu de ombros.
— Você não costuma comemorar seu aniversário? — Ethan perguntou.
Lorenzo balançou a cabeça, parecendo confuso.
— Por que eu devia? É só um dia normal.
Meu Deus, o que Antonella fez com essa criança?
— Nós comemoramos — ponderou. — Não é apenas um dia normal. Você pode ganhar presentes.
— Posso? — Os olhos dele brilharam de excitação. — Mesmo?
— Sim — Ethan sorriu, mesmo que ele não pudesse ver.
Lorenzo pensou um pouco, os olhos imóveis. Franziu as sobrancelhas.
— Mas não há nada que eu quero.
— Por isso pensei que podíamos viajar. Meu aniversário é uma semana depois do seu e de Nick. A viagem seria o presente de nós três.
Ele voltou a sorrir.
— Que ótimo.
OoO
A noite caía chuvosa e fria quando Ethan pôs Nick a par de seus planos.
Nicholas estava sentado na cama, enrolado até o pescoço numa colcha cinzenta, com o cabelo louro caindo por cima da testa suada. Vez ou outra, tossia. Ele não estava doente de verdade, fazia aquilo apenas para chamar a atenção de Ethan, que fingia acreditar nele. Dessa forma, o abraçava por cima da colcha, aspirando o perfume de seu cabelo.
Você é tão irritantemente perfeito. Por que eu não consigo não gostar de você em absolutamente todos os aspectos?
— E para onde iríamos? — Nicholas Hentz perguntou.
— Não sei. Que tal Paris?
— Vamos à Itália, seria ótimo.
— Duvido que Lorenzo queira ir pra lá. Vamos à Paris.
— Que tal a Coréia do Norte? — Ele tossiu exageradamente alto. — Ou Cuba?
— Está decidido, vamos à Paris. Sabia que você faz aniversário no mesmo dia que Lorenzo?
— Quantos anos eu tinha quando ele nasceu?
— Cinco.
Nick ficou um pouco em silêncio. Como Ethan não conseguia ver seu rosto, não podia decifrar o que ele pensava. Só esperava que não voltasse a odiar Lorenzo.
— Certo. Vamos transar, to com vontade.
— Você não estava doente? — indagou sarcasticamente.
— Sexo cura tudo.
— Menos ninfomania…
— Isso mesmo.
— Agora não. Vou procurar o hotel mais caro que há em Paris.
— Certifique-se de que a diária é de pelo menos 15.000 dólares.
— Claro, afinal, quem pode, pode…
OoO
A fumaça de cigarro esvoaçava das bocas cheias de bigodes até chocar-se contra o teto da sala mal iluminada, dissipando-se e deixando na sala um cheiro repugnante. Das seis pessoas ali, ninguém se importava.
Uma tela gigantesca fixada à parede mostrava um homem, ou a sombra dele, sentado elegantemente numa poltrona de cor indecifrável, fumando um charuto. Sabia-se que era grisalho e branco, mas nada além disso. Afinal, ele era o líder supremo e os meros mortais naquela sala, apenas agentes menores.
Ele foi bem direto quanto a seus desejos. A voz do líder supremo era modificada eletronicamente até ficar com um tom robótico e computadorizado. Falava italiano fluente, embora com um leve sotaque inglês.
— Quero-o morto e o dinheiro que ela tomou também. — Ele era tão específico em especificar que ela havia tomado o dinheiro, assim, sem mais nem menos, como se os agentes fossem incapazes de cuidar dele.
— Ele sumiu — ponderou um deles, um baixo e gordo, o único que não fumava. — E o dinheiro está no nome dele.
— Aliás, ele é menor de idade — comentou outro, tomando cuidado para manter o tom baixo. — Não poderia transferir o dinheiro para ninguém… nem que quisesse.
— Teríamos que esperar até que ele se tornasse maior de idade… — disse outro.
— … e isso ainda demorará muito… dez anos… — outro completou.
O líder supremo permaneceu calado. Nenhum deles podia ver sua face, e muitos imaginavam se sairiam vivos daquela sala.
Quando ele tirou o charuto da boca, todos se deram conta de que estavam por um fio.
O líder supremo falou lenta e pausadamente.
— Eu não quero saber sobre o que incompetentes como vocês acham sobre a maldita burocracia do mundo. Não faz diferença se ele pode tocar no dinheiro ou não, eu vou fazê-lo poder. Ele sabe. Ele ouviu. Deus sabe a quem contará. — O líder supremo recostou-se a cadeira e pareceu confortável. — Mas, se o fizer, eu não cairei. Vocês sim. E suas famílias também.
Os agentes engoliram em seco.
— Achem-no. Matem-no. Retalhem o corpo e façam questão de que ninguém nunca o encontre. Isso é trabalho de inferiores.
A tela desligou-se abruptamente e os agentes encontraram-se perdidos no breu. A lâmpada oscilava tanto que praticamente não servia. Lentamente, cada um levantou-se da mesa e saiu da sala, mecanicamente, em intervalos regulares.
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