Júlia:

Horas depois.

Duas e quarenta e cinco da tarde. Eu estava em um táxi, indo pra casa de Fred. Encostei a cabeça na janela, pensando na nossa briga de mais cedo.

Olhei pro céu.

Não sei qual era a dele com a história do Mike. Tudo bem que esse aí não era lá um exemplo de garoto, vivia se metendo em encrencas... Mas não precisava tanto! Eu não preciso de olhares tortos vindos dele, já não bastava do colégio inteiro?

Mas na real, pra mim, Fred era uma incógnita. Eu nunca sabia o que tinha por trás de suas ações. Na verdade, sempre desconfiei delas. Desde aquela vontade súbita de ser meu amigo até sua perseguição babaca pelo Mike.

O táxi parou, me acordando do pequeno transe. Paguei o motorista e saí logo. Dei-me de cara com uma casa grande e bonita, de dois andares. Senti meu coração disparar em sinal de puro nervosismo. Aonde eu fui me meter?

Passei pelo jardim de grama queimada e um pouco suja. Havia latinhas de cerveja em alguns lugares e gnomos bizarros. A varanda tinha um piso de madeira escura, com parapeito branco, combinando com a pintura da casa. Vi bitucas enfeitando as plantas e dei um leve riso. Então quer dizer que eles eram chegados num cigarro, além de Fred? To começando a gostar desses amiguinhos! A porta era também de madeira, só que escura. Respirei fundo.

Antes de apertar a campainha, senti o coração palpitar. Estalei os dedos nervosa e engoli em seco. Ajeitei meu cardigã preto. O rabo de cavalo no alto da cabeça mostrava o quanto fui preguiçosa e desleixada por deixá-lo torto. E... Merda! Por que não me arrumei mais um pouquinho? Mas, não, Júlia! Você tinha que vir com um dos piores cardigãs e o cabelo preso desse jeito!

Palmas.

Ótimo, virei a minha mãe.

Apertei a campainha e juro que, quando ouvi o barulho, me deu dor de barriga. Joguei meu corpo pra frente e pra trás esperando alguém abrir a merda da porta. Vi a maçaneta girar e num impulso, andei pra trás. E então, a porta se abriu por completo.

– O Fred? – quase que minha voz não saiu quando vi um garoto só de samba-canção xadrez. Ele tinha uma cara sonolenta e coçava os olhos. Sua cara amassada e o cabelo bagunçado me fizeram abrir um sorrisinho.

– Pô, Bia! Eu já disse que não é pra atender a porta desse jeito! Vai que é a tia da torta! – uma voz saiu do interior da casa. O tal Bia ia responder quando percebeu quem era. O menino sonolento arregalou os olhos e em seguida engoliu em seco. Vi pavor em sua feição. Claro, Júlia Torres, a devil girl na sua porta, é muita informação pra uma pobre criança, eu entendo. Mano, esperar um contato é chato! Fala alguma coisa!

Mesmo assim, Bia ainda me olhava sem acreditar que eu estava lá. Eu já tava ficando incomodada, sabe?

– Po-de e-entrar. – Bia falou gaguejando, me olhando de cima a baixo. Se ele não se importava por estar só de cueca, é agora que ele não liga mesmo!

Cocei minha nuca com vergonha, mas mesmo assim fui entrando.

– Obrigada. – falei simpática. Pus minha bolsa preta nas costas e depois tentei, idiotamente, ajeitar o cabelo. Eu tenho problemas com cabelo, argh!

Bia ainda vigiava meus passos. Percebi que meu All Star azul sujava o piso com um pouco de barro, mas não me importei. O dono da voz anterior estava escorado no corrimão da escada, também me olhando. Ele estava com uma calça jeans folgada e sem camisa. Os garotos dessa casa só vivem assim? Será que Fred vai aparecer assim também?

Dançinha da vitória interna.

Ok, parei.

– Fique à vontade. Eu sou o Bia e aquele ali é o Harry. – Bia (que agora tentava ser normalzinho) apontou pro outro seminu. Então, esse é Harry, o tocador de bateria. Hum, sinto que ele ta querendo seduzir escorado nessa parada. Ele fez um sinal com a cabeça e o respondi assim também. As pessoas daqui falam pouco ou é só impressão?

Voltando ao meu drama...

O problema todo naqueles minutos chatos era que os garotos não paravam de me olhar, me analisar. Eu sei, é estranho. A menina mais bizarra da escola na casa dos populares. Mano, a vida é cheia de coisas novas! Acordem!

– Senta aí, o Fred ta tomando banho. Ele costuma demorar! Tem mania de pensar que é uma menina. Se acostume. – ele, de uma hora pra outra, falou de um jeito simpático e educado. Estranhei um pouco, mas mesmo assim abri um sorriso ao ver o modo com que Bia falava do amigo.

– Ok. – sentei no sofá preto de couro.

–É, dude, fica à vontade. Bia, chega mais! – Harry chamou Bia pra entrar pela porta que ficava do outro lado da sala, me deixando sozinha.

Ótimo, sozinha numa casa de pessoas suspeitas, nas quais não confio nem a pau e eu aqui, balançando os dedos nas pernas e olhando pra aquele mundo que não era meu. TV enorme, móveis bonitos, de ótima qualidade. PS3 instalado, pronto pra ser usado, um divã de couro preto também e um...

– Mano, eu não acredito que a miss Murder ta na nossa sala! MEDO! E se ela trouxe alguma faca, arma ou um soco inglês? Estamos correndo perigo! – ouvi a voz do <>querido e simpático Bia saindo do cômodo, que agora imagino ser a cozinha.

– Eu já to com o número da polícia na discagem rápida caso ela faça alguma coisa. Um homem preparado vale por dez! – uma nova voz falou.

– PSIU! Querem que ela escute? Mas que merda! Calem a boca e finjam que são educados pelo menos uma vez na vida! – Harry falou como se desse uma bronca.

Perdeu, eu já escutei.

Eu quero ir pra casa!

Fred:

– Like a virgin touched for the very first time. Like a virgin…!– cantarolei em frente ao espelho do banheiro, passando o pós-barba – Like a virg... AI PORRA! – dei um grito quando a parada ardeu na minha bochecha que parecia bunda de bebê.

Segurei a toalha que estava prestes a cair e dei um nó forte. Saí do banheiro com aquela fumaça quente vindo junto. Olhei pro corredor sem sinal de ninguém. Dei uma corridinha até o meu quarto. Entrei e tranquei logo.

A roupa já estava escolhida.

Eu juro, não sou gay.

Eu só escolhi a camisa por um motivo: jogada de marketing pra conquistar a minha querida aposta.

Se ela queria que eu fosse diferente, então vai me ter diferente. Mas calma, veja bem, tudo pra conquistá-la. FredericoFrederico nunca ia mudar por garota nenhuma.

Coloquei minha blusa, calça jeans escura, par de chinelos. Entupi-me de perfume, me admirei no espelho e logo em seguida, baguncei o cabelo. Arrumei um pouco pro lado e pronto. Tava lindo!

Desci as escadas e vi uma menina acanhada, de cardigã preto, sentada no sofá da minha casa. Ela estava olhando pra frente, fixando o nada ou apreciando a minha TV.

– Já está pensando em mim? A gente acabou de se ver na escola. – sussurrei em seu ouvido, a fazendo arrepiar. Dei um leve sorriso, satisfeito. Ela deu uma risada claramente forçada.

– Fred, você seria o último em quem eu pensaria! – outch! Essa menina é difícil! Eu aqui, todo charmoso, e ela dando resposta desse nível? Fala sério.

Então vamos pro plano B.

Passei na frente de ju, que viu a minha blusa. Sentei ao seu lado quase rindo da cara surpresa dela. A camisa era uma antiga que eu tinha jogada por aí, dos Sex Pistols, a banda favorita dela.

– Gostei da camisa. Resolveu virar homem e desistir das golas “v”? – e mais uma vez, Júlia soltou sua doçura em mim, me alfinetando porque eu fui umas poucas vezes (mentira, muitas vezes) pro colégio com esse tipo de camisa. As meninas adoram, cara!

– Vamos dizer que estou voltando aos velhos hábitos. – o que não deixava de ser verdade, mesmo que mínima. Essa camisa era de um passado conturbado. – Pronta pra ensaiar? – perguntei.

– Claro, vim pra cá pra fazer isso.

– Não esqueça que veio também conhecer meus amigos. – falei com um sorriso e logo ju olhou pra baixo – O que foi? Eles te trataram mal? – perguntei preocupado. Quando o assunto era Júlia Torres, meus amigos costumavam ser mais ridículos que o normal.

– Eles não fizeram nada, foram até simpáticos se quer saber... – não me convenci.

– Tem certeza disso?

– Tenho! E por que você demorou tanto? Porra, esperei que nem uma tonta! – e lá estava ela mudando de assunto. Fugindo como sempre.

Arqueei a sobrancelha, desconfiado, e ju fez uma carinha inocente, como se tivesse mesmo falando a verdade.

– Sabe como é, visitas importantes merecem esse tempo de preparo e dedicação. – falei sentindo que estava corado, como se tivesse falando uma verdade que não assumia nem pra mim mesmo.

– Ih, tá corado! – ela apontou pra mim – Que bonitinho... – fez bico.

Eu fiquei com cara de merda.

Cadê a minha virilidade?

– Para de ser retardada! To corado coisa nenhuma! Eu... – tenho que fugir dessa situação – Eu vou chamar os caras pra você conhecê-los melhor. Davi, Harry, Bia! Venham aqui!

A porta da cozinha foi aberta e meus melhores amigos saíram de lá, um atrás do outro. Bia estava de cueca, Davi comia pão vestido com uma regata do Thundercats preta e um calção velho, e Harry estava sem camisa.

– Porra, Bia! Ainda de cueca? A gente tem visita! – apontei pra Júlia que ria.

– Ah, mano! Eu só posso ficar de boa assim em casa! Você entende, não é Júlia? – ele se jogou no sofá. Pra quem tinha medinho dela, até que ta se sentindo bem.

– Claro! Não precisam mudar por minha causa... Se vocês soubessem das coisas que eu já vi... – ela deu uma risadinha nervosa e não sei se gostei desse comentário.

– Como assim as coisas que você já viu? – perguntei sério. Ela fez uma cara confusa. – Fala aí, ju, suas experiências. Queremos saber, conta pra gente. – os meninos ficaram com cara de idiotas, não sabendo o que falar. Na realidade, quem queria saber das coisas era eu.

– Licença. – ela me puxou pelo braço pra um canto perto da escada – Você pode parar com isso?

– Parar com o que? – ela olhava nos meus olhos, com uma expressão brava no rosto.

– Com essa merda que você acabou de fazer. Assim, os seus amigos vão me achar mais louca do que já acham! Que eu só faço doideiras e vivo loucamente. Então pare com isso!

– E pra você é tão importante o que os meus amigos pensam? – agora eu queria saber. – Logo pra você, ju? Por quê? – ela passou de brava pra nervosa e já não olhava diretamente pros meus olhos.

Passou a mão na testa.

– Olha, eu não quero causar má impressão pros seus amigos idiotas, entendeu? Eu quero ser sociável, agradável. Eles não precisam saber das coisas que passei, eu só falei aquilo pro garoto se sentir à vontade na minha presença. – ela falou rápido, olhando de minuto em minuto pra trás, pra ver se alguns dos meus amigos nos via.

Rolei os olhos. Essa menina é complicada demais.

– Cara, relaxa! Eles não são monstros, não julgam pessoas.

– Não julgam pessoas? – ela ficou indignada.

– Ta, beleza, a gente julgava até te conhecer. – ju me olhou surpresa – Mas agora é diferente, dá um crédito. – ela olhou mais uma vez os meninos e riu quando Davi levou um pedala do Bia.

– Até que eles são engraçados.

– Você vai gostar deles, é sério. Vem. – e quem puxou dessa vez fui eu. Levei-a até onde os guys estavam. Harry estava ligando o PS3 e os outros estavam conversando sobre alguma música nossa.

Expliquei pra Davi e Bia – depois de muita conversa – que seria um passo muito importante convidar Júlia pra nossa casa. A mina tinha que se sentir bem vinda. Eles acharam que era uma má ideia, mas tentei convencê-los que seria preciso, senão, adeus cem libras e adeus NOITADA NO STRIPPER. É, o Fredzinho aqui chantageando fácil! Se eles não me ajudarem nessa empreitada, eu não os levaria num bar de strip onde as crianças nunca foram.

– Com essa interrupção... – dei um olhar torto pra ju – Não deu pra fazer uma apresentação correta. Então, Júlia, esses são os meus amigos Harry, Davi e Bia. – Harry deu pausa no jogo pra dar um tchau e os outros pararam de falar.

– Não é a famosa baterista? Ouvimos coisas boas de você. – fiz uma cara, tipo, não força, mas Davi já tinha feito a merda.Júlia aparentemente não ligou.

– Meus tempos de baterista já acabaram, hoje em dia nem toco mais. – ela tava com vergonha, que bonitinha.

– Eu só quero ver, dona ju, você tocando! – eu disse.

– Assim você me deixa nervosa, poxa. E com que bateria eu vou tocar? Não to vendo nenhum instrumento por aqui. – ela deu uma geral na sala – É lá em cima?

– Não. Nós ensaiamos no subsolo. – ju arqueou a sobrancelha.

– Fred, você vai mostrar o Subsolo pra ela? – Davi perguntou um pouco chateado. Na verdade, o Subsolo era o estúdio (que nada, era meio que um quartinho) onde a gente ensaiava. Ali era o nosso forte, saca? De onde saíam as músicas do Mcfly. E oDavi tinha ciuminho.

– O que é o Subsolo? – Havia curiosidade em seu rosto – Me conta. Me conta!

– É o nosso porão. Fizemos um pequeno estúdio lá. É genial!

– Vocês têm um estúdio? – os seus olhos brilharam e a empolgação foi contagiante.

– Temos! Lá é irado, tem uma atmosfera boa. – Harry falou num tom meio gay e todos nós rimos.

– Ai, me mostra! Por favor! Adoro essas coisas...

– Leva ela logo, Fred. – Bia disse.

Júlia:

Ok, para tudo! Os caras tinham o seu próprio estúdio em casa?

Olhinhos brilhando.

Meu sonho é ter um estúdio em casa e passar o resto dos meus dias tocando bateria sem ninguém pra me dizer o quão alto o som está, sem ter uma mãe mala me tesourando.

Com um estúdio em casa, eu estava feita.

Fred e os três meninos, que agora tinham se socializado, me levaram para o tal Subsolo.

O porão tinha uma escada longa e uma escuridão que me deixava com medo. Fred foi na frente e eu atrás, seguida por Bia, Harry e Davi. Fred puxou um cordãozinho pra acender a luz. Fiquei curiosa pro que veria, e o tão irado era... Uma merda.

O irado deles era um quartinho com paredes descascadas, que tinha um sofá velho, fios por toda parte, amplificadores enferrujados e seus instrumentos com um pouco de poeira.

Harry suspirou.

– É aqui que a mágica acontece... – falou num tom sonhador, sentando no sofá porcamente manchado.

– To vendo. – falei. Andei, dando uma geral no quartinho estranho e sujo. Os garotos me viam com olhares curiosos pra saber qual seria meu próximo movimento. Vi um caderno de capa amarelada em cima de um dos amplificadores. Peguei sem pedir permissão e o abri sem saber de quem era. Havia uma folha solta.

“And she blew my mind

And I wish that she was mine

And I said ‘hey wait up 'cause I'm off to speak to her’

And my friends said ‘You'll never get her, you'll never gonna get that girl.

But I didn't care…”

Fred, no mesmo instante, puxou o caderno de minhas mãos. Sem entender, esperei uma resposta para aquilo.

– Hum... O caderno é meu. – ele falou nervoso. – Escrevo besteiras, coisas sem importância. – gesticulou com a mão nervosamente.

– Engraçado, a maioria das coisas sem importância que você escreve nesse caderno são as melhores e as principais músicas da nossa banda.

Fred:

MUITO OBRIGADO, Davi seuputo!

Agora Júlia vai pensar que sou um fresco que escreve coisas bobas e sentimentais. Valeu!

– Nossa Fred, gostei mesmo disso. Não sabia que tu compunhas também, achei que só tocava. – ela falou sincera. – Nunca pensei que seria capaz de escrever coisas assim.

Ela me elogiou? Preciso fazer uma ligação pra Deus e agradecer por esse milagre!

O irônico disso era que Júlia não sabia que justamente o trecho que ela lera era sobre ela.

– Obrigado, eu escrevo o que vem do fundo da minh...

– Mano, a bateria é irada! – Júlia deu um grito me interrompendo, justo na hora que eu ia destacar meu talento, ao olhar a bateria de Harry.

– Quer tocar? – Hazz mister-educado perguntou, curioso no que aquilo ia dar.

– Posso? – ela ficou acanhada. Afinal, não era todo dia que ela estava no estúdio dos quatro caras mais lindos, populares e pegadores do centro educacional Westshefild.

Ok, exagerei. Mas só na parte do centro educacional.

– Vai lá. – Harry falou, incentivando-a a sentar no baquinho da bateria. Ele só queria ver se ju tinha mesmo jeito pra coisa, se sabia mesmo tocar.

– Beleza então. – e finalmente Júlia sentou-se.

– Só quero ver essa mina fazendo merda. – Bia sussurrou no meu ouvido.

ju arregaçou as mangas de seu cardigã, tirou algumas mechas de cabelo que caíam sobre os olhos, pegou as baquetas e fez a contagem. Começou a tocar e todos nós ficamos impressionados com tal habilidade.

PUTA MERDA! A menina sabia mesmo tocar bateria.

Ela simplesmente nos deixou de queixo caído tocando a base de Highway To Hell do AC/CD.

Ela tocava muito bem AC/DC!

Vai se foder!

– O que foi? – Júlia perguntou, parando de tocar, sem entender nossas caras de espanto. Parecia que ela tocava todos os dias. – Eu sei, faz tempo que não pratico... – ela fez uma carinha triste. Se fazia tempo que não praticava, imagina quando o fazia?

– Mano, você toca MUITO pra uma menina!

– Pra uma menina? – ela perguntou um pouco ofendida. – Só porque sou uma menina quer dizer que não posso tocar bem? – falou séria.

– Er, entenda... – Hazz pareceu nervoso – A gente não vê muita menina tocando bateria tão bem assim como você. – ele coçou a nuca, como se quisesse admitir pra ele mesmo que Júlia tocava muito bem, e quem sabe até melhor que ele.

Vi Júlia na defensiva, pronta pra atacar Harry com palavras caso ele falasse mais alguma coisa. Olhei pra ela firmemente, como se dissesse pra que abaixasse a aguarda. Ela entendeu.

– Bom, é verdade. Isso é resultado de muito tempo de prática. Se quiser, posso te ensinar alguns truques. – ela falou timidamente.

– Claro! Por que não? Quando quiser, dude! – Judd pareceu animado com a proposta, finalmente as coisas estavam indo pro caminho certo.

– Caralho, Júlia! Nunca imaginei você assim, tocando tão bem! – Davi disse logo em seguida – Foda.

– É verdade, subiu no meu conceito! – e depois Bia.

– Eu toco razoavelmente bem, tem gente melhor que eu! Como disse, é só prática. – ela deu um sorriso de lado, com vergonha, e me olhou com curiosidade pra saber minha opinião.

Eu me senti orgulhoso. Em Júlia, eu via uma pessoa totalmente diferente do meu mundinho fechado e babaca. Ela era simplesmente contrária a tudo que eu conhecia, tudo que eu era acostumado. Passando poucos dias com ela, vi que sou muito medíocre. E lá estava ela, rindo com meus amigos. E pensava que essa tarde seria um desastre, que Davi, Bia e Harry seriam grossos e/ou teriam mais medo dela do que o normal. Tava errado. Júlia veio – certo que no começo tava meio acanhada – e mudou o jogo, como sempre fazia.

A menina era daquelas que, por fora, você enxerga uma coisa, e quando conhece um pouco melhor, já estava rindo junto dela mesmo sem saber o que ela disse. Uma das qualidades de Júlia Torres: contagiante.

– Você foi... Incrível. – tentei não deixar sair meus pensamentos naquela hora e aposto que tava com uma cara enorme de bobo.

– Obrigada. – ela sorriu com os olhos.COM OS OLHOS! A menina estava sentada no banquinho e me olhava com intensidade, e ainda por cima, sorria com os olhos.

Assim você me mata!

– Vamos jogar alguma coisa no PS3 enquanto eles ensaiam. – Harry deu uma olhada suspeita nos meus outros amigos que logo entenderam sua mensagem subliminar.

Os caras subiram, me deixando sozinho com ela. Fiquei nervoso, parecia que nunca tinha ficado com uma menina sozinho num quarto. Ainda sem falar nada, peguei minha guitarra que estava escorada em um dos amplificadores e posicionei a correia em meu ombro. Pluguei a guitarra ao amplificador, o liguei e vi ju se ajeitando pra começar a tocar também.

– Pronta pro rock’n’roll?

– Já nasci pronta.

E os primeiros acordes de The Masterplan começaram a ecoa