4ª Lição: Conseguiu ficar a sós com ela?Não se afobe.

ATENÇÃO:

O melhor truque está no olhar, antes mesmo da conversa. Uma olhada retribuída pode despertar muita coisa. Garotas gostam de olhares significativos.

E por favor, tente agir naturalmente, sem parecer engraçadinho e que quer a todo custo ficar com ela.

Júlia:

Minhas baquetas bateram nos pratos, mostrando que a música estava sendo finalizada. Estávamos ensaiando por três horas, eu já não agüentava mais! Meus braços doíam, minha perna direita estava cansada de tanto bater no bumbo. O último acorde foi feito e Fred finalizou com a sua voz. E te digo, que voz! Eu sabia que ele tinha uma bandinha chechelenta, mas não que ele cantava bem. Me surpreendi!

– Wow! – Fredgritou – Show! Um dos melhores ensaios que eu fiz.

– Não fala isso, seus amigos vão ficar com ciúmes. – peguei minha toalhinha roxa que tinha levado. Enxuguei a testa e o pescoço ao som da risada deliciosa de Fred.

– Eles sabem que sou deles, é uma sina minha. – tirou seu cabelo suado da testa, o fazendo ficar em pé molhado. Supus que ele fizera de propósito.

– Tá gatinho. – falei rindo.

– To gatinho? Meu bem, eu sou gatinho. – ele falou com seu ar de superior e eu ri mais ainda.

– Se acha demais, cuidado! Nem todas caem no seu charminho barato.

– É verdade. Nem todas! Uma, por exemplo, foge do meu charme, to ficando preocupado. – deu um olhar perigoso pra mim. Oi? Isso foi uma indireta? Tentei voltar a respirar e falei:

– To com fome! – Se aquele menino estava dando (na real) em cima de mim, eu tinha que saber fingir que não tava gostando ou coisa parecida.

Ele fez cara de desentendido e seguiu com a vida. Ainda bem.

– Dude! Nem fale, também to com uma puta fome. Vamos pra cozinha. – e foi aí que Fred tirou a correia da guitarra, deixando-a ao lado de um dos amplificadores. Saí do banquinho, colocando as baquetas em cima dele.

Fred:

Essa menina do capeta (tava com saudade de chamá-la assim ) tem o que na cabeça? Eu todo fácil, jogando uma indireta pra ela e ela – podendo se aproveitar – diz que ta com fome? FOME?

Porra, não sei mais o que eu faço, viu!

Chegamos à cozinha. ju sentou em uma das cadeiras da mesa. Abri a geladeira, pensando na cortada sem noção que ela me deu. Tava tudo certo. Estávamos sozinhos, no maior clima, e ela estraga tudo? Que merda é essa? Eu to achando, sinceramente, que os meus dotes como pegador estão falhando. Mas não vou desistir, vou mentalizar que acontece!

– E aí, vai querer o que? – perguntei quebrando o maldito gelo.

– Qualquer coisa. – ela respondeu sem olhar pra mim, brincando com o cabelo. Ótimo, sou menos importante que o cabelo.

– Qualquer coisa não tem, a gente não comprou. – ela sorriu de lado.

– Muito engraçado. – ju me olhou. – Mas e aí, vai dizer o que tem pra hoje ou ta difícil? – e dessa vez quem riu fui eu.

– Ta bom! Olha, a gente tem pizza de calabresa congelada, macarrão com algum molho estranho e um bolo de chocolate da Mary ali na bancada. Ta afim de quê? – fechei a porta da geladeira e encostei-me a ela, esperando uma resposta.

– Hum... A gente pode começar com a pizza e terminar com o bolo que me parece terrivelmente gostoso. – parecia uma criança falando.

– Então temos aqui uma menina que come muito! Gostei! – pela primeira vez vi uma garota comer de verdade! Tipo, eu saía com meninas que pareciam insetos, só comiam coisas verdes e estranhas. ju riu do meu comentário e se ajeitou na cadeira.

– Vou colocar no microondas, ta? – ela assentiu. Coloquei a pizza lá dentro e um pensamento me veio à cabeça. Eu nunca, em situação alguma, tive uma garota sentada na minha cozinha. Pior de tudo, eu colocando comida pra ela. Em todos os meus “relacionamentos”, eu não dava espaço (leia-se: oportunidade) pra nenhuma garota aqui em casa. Falar com os meus amigos? Só nas festas e no colégio. Vir na minha casa? Só pra transar. Tocar no Subsolo e ainda por cima na bateria do Harry? Coisa impensável! Mas logo Júlia, que era uma das pessoas mais improváveis, estava fazendo isso (claro, sem a parta da transa, infelizmente) sem ao menos ter me dado um beijo,um abraço ou um mísero selinho.

Ou aquela aposta realmente tava me deixando obsessivo, ou aquela situação tava me mudando por completo.

Percebi que eu estava mirando o nada, com cara de bobo.

– Fred? Fred? – ju estalava os dedos à minha frente. – A pizza ta pronta! – saí do transe, assentindo e indo tirar a pizza de lá. – Hum, ta com um cheirinho tão bom... – e lá vem ela falando como criança de novo.

– Nem me fala, com a fome que eu to, podia comer umas três dessas!

– E os meninos, onde estão?

– Devem estar dormindo... Eles fazem isso o dia todo, ou jogam vídeo game.

– Que vida emocionante vocês têm. – parti uma fatia pra ela e outra pra mim. Peguei a Coca que estava na geladeira e servi . Sentei à sua frente e começamos a comer.

Júlia me contou algumas coisas de sua vida. Eu fiquei impressionado com as “baladinhas” que ela vai e com o tipo de pessoa que ela anda. Beleza, eu já tinha uma ideia de como era a sua vida, mas ouvindo-a falar, fiquei mais assustado ainda.

As minhas festas não eram iguais às dela, mas não vou mentir, sempre rolava umas paradas ilícitas. Era normal fumar um baseado de vez em quando e aparecer umas pílulas em nossa mesa. Porém, era raro quando os guys e eu nos drogávamos loucamente. O problema, de fato, era bebida e cigarros. Tirando isso, tava tranqüilo. Claro que já experimentamos algumas coisas, mas não somos chegados nisso. Já Júlia...

– Aí, a casa ficava em cima de uma colina. Ao redor dela, havia grama e uma vegetação estranha. – ela tava no seu segundo pedaço de bolo. Eu me pergunto, Deus, como essa menina tem um corpo desse? Como? – Eu já tinha tomado algumas... E tava totalmente bêbada, fora o beck que tinha fumado. – ela falou com vergonha. – Já era de manhã, acho que cinco ou seis horas, e meus amigos decidiram ir embora. Todos loucos, resolveram descer a colina. E eu, toda animada, quis imitar. Pensei “se eles podem, eu também posso!” Errado! Tirei meus sapatos e fui descendo. Eu não imaginava que a porra da grama tava molhada, meu pé escorregou e eu fui rolando até o meu amigo que tava sentando perto de uma pedra. Eu só ouvia risadas e os loucos gritando “Júlia! Cuidado!” Eu tava de vestido! DE VESTIDO! Foi um dos maiores micos da minha vida! – eu comecei a rir loucamente da cara dela. A menina tinha rolado de uma colina inteira? Por que eu não tava lá?A merda era que ela tava de vestido, outra visão que deixei de ter.

E foi aí que ouvi System of a Down. E na moral, to começando a odiar essa banda.

Júlia:

– Pera aí. – eu fui pegar o celular no bolso enquanto Fred ria da minha cara por causa de uma das minhas peripécias. – Oi,Cris! Não, ainda estou aqui. Estamos comendo. Eu sei. Eu falei pra ele que ia demorar. Não, não vi nenhuma mensagem dele. – procurei um relógio. Eram sete da noite – Ta de carro? Pronto, vamos fazer o seguinte, venha me buscar que daqui vamos encontrar o Mike, ta certo? Sabe aonde é a casa do Fred, né? Ok, beijo! – ela desligou e quando fui voltar a falar, vi Fred com uma cara amarrada.

– Algum problema? – eu disse num tom desafiador. Cara feia, pra mim, é só pra quem é mal comido.

– Comigo? Não. – disse sarcástico. – Acho dignas as suas ligações, elas sempre atrapalham uma coisa legal. – engoli em seco. Uma coisa legal? Então passar o tempo comigo, rindo de mim e junto a mim é uma coisa legal?

Chora.

– Me desculpe, eu tive que atender... Havia marcado de encontrar as meninas e o...

– Mike. É, eu sei. – Fred passou a mão no cabelo. Aonde esse garoto queria chegar? – Júlia, olha, eu não sou ninguém pra dizer com quem você deve sair, mas eu acho que esse Mike não é bom pra você.

– Você não o conhece, e ta ficando chata essa perseguição. – bati o celular na mesa e me levantei. – Porra, Fred. Eu conheci os seus amigos, nem falei mal deles e quando é pra falar dos meus, você é assim. Grosso e incompreensivo. Mike tem problemas, assim como eu.

– Eu só acho que você deveria ter cuidado com ele. Não confio no Mike, desculpa. – sua expressão me pegou de surpresa. Seus olhos agora mostravam uma pessoa que eu não conhecia: Fred protetor.

Mas ele não podia ter uma batalha ganha por causa de uns olharezinhos.

– Julgar sem conhecer faz bem a linha da sua galera. Se você não entende meus amigos, não me entende. – dei minha palavra final e me levantei. Fui indo pra porta quando alguém a abriu.

– Tem umas doidas buzinando na porta de casa. – Davi entrou com uma cara de sono.

– Essas doidas são minha amigas. – sem titubear, saí da cozinha.

Fred:

Amiguinhas inconvenientes essas, hein?

– O que foi cara, rolou algum estresse? – Davi perguntou com cara de cuzão, nem respondi. Fui atrás da endiabrada.

Ela já estava na calçada, indo até o carro com três meninas. Mesmo de costas, pude perceber que seu corpo estava rígido, tenso. A conversa com ela não foi das melhores. Toda vez que o nome Mike surge, termina assim, ela de um lado e eu do outro. Com raiva e chateados.

Merda. Eu tinha que mudar essa situação.

– ju! – ouvi minha voz sair do nada. Porra, Fred, a menina virou o rosto! Agora pensa em alguma coisa pra falar, espertão. – Er, você quer, eu não sei... – cocei a nuca – Jogar vídeo game? – O QUE? Você podendo falar alguma coisa útil e me solta um “jogar vídeo game”? Se MATE!

– Não sei se você percebeu, mas minhas amigas estão aqui. Vieram me buscar. – e lá foi ela em direção ao carro.

– Elas podem vir também. Claro, se quiserem. – ótimo, convidei a trupe da morte para se juntar conosco. O que eu não faço por ela?

– Vocês querem, meninas? – ouvi ju perguntar às amigas. Elas se entreolharam e uma falou:

– Mas e o Mike? – manda o Mike pra puta que o pariu! Parei.

– Ela manda uma mensagem depois, avisando. O Mike não vai morrer por causa disso, gente! – não sei quem é você, mas já gostei!

– Eu só fico se vocês ficarem. – outra falou.

– Então ta. A gente joga um pouquinho. – ju falou e depois esperou as suas amigas saírem do carro.

Elas nem eram tão bizarras assim. Só um pouco.

Uma delas usava um vestido vermelho e maquiagem forte. A outra tinha coturnos e uma calça jeans skinny. Só uma que era a mais, digamos assim, menininha. Usava um diadema azul, short boyfriend, All Star branco e blusa de algum desenho que agora eu não me recordo.

As meninas abraçaram Júlia (que sorria idiotamente linda), e vieram até mim rapidamente. Dei um sorriso amigável, mas ainda intimidado.

– Oi, eu sou o Fred, prazer. – beijei uma a uma.

– Cris, mas me chama de Cris.

– Sophia.

– Bia.

– Fiquem à vontade. – abri porta e as meninas entraram. Júlia foi a última.

Ela me puxou, em um ato espontâneo, abriu um sorriso e sussurrou no meu ouvido:

– Obrigada. – fechei meus olhos, sentido uma vibração. Eu não havia entendido.

– Pelo que?

Fiquei todo bobo pelo beijo na bochecha. Vira macho, Frederico! Honre o sobrenome que você carrega, porra!

Os guys desceram de seus aposentos. O primeiro a perceber algo estranho na sala foi Bia. O menino, que agora (graças a Deus) estava com um short folgado e blusa, fez uma cara confusa.

– Que merda é essa? Seminário das bruxas? – ele sussurrou vendo as meninas sentadas no sofá.

–Você pode, por favor, calar a boca? Com elas aqui, eu tenho mais tempo de chegar ao resultado satisfatório. – nessa hora, Harry também havia chego e me ouviu.

– Elas são estranhas. – ele disse ao ver as garotas falando sobre um show de rock progressivo ou alguma coisa parecida. – Muito estranhas.

– Conte alguma novidade. – Davi também falou. – Olha, eu sei que tu tem que ficar com ela, mas mano, ta foda!

– E aí, Fred? A gente vai jogar ou não? – uma delas perguntou.

– Claro, espera aí.

– Ah, cara! O Subsolo eu entendo, vocês precisaram ensaiar. Mas o nosso PS? Aí é covardia! – Bia quase batia a cabeça na parede.

– Oh, drama queen, parou? Nós fazemos social e depois fingimos que essa noite nunca existiu. Eu vou pegar a Júlia, e não as amigas.

– Harry, seu idiota, por que foi inventar isso? Estamos perdidos. Se acontecer alguma coisa, liguem pra minha mãe e expliquem! Ela processará essas freaks, vocês e o resto do mundo!

– Bia, seu nome deve ser Maria do Bairro. Drama do caralho. Eu não sei se você lembra, mas POR SUA CAUSA eu fiz isso! Mesmo elas sendo as misses rockers, continuam meninas, então temos que ser simpáticos. – Harry, ao falar isso, foi até onde elas estavam – Oi, meu nome é Harry, sou amigo do Fred.

– Harry, essas são Cris, Bia e Sophia. Vamos jogar o que?

– Olha aí, meninas que jogam? Por que eu não fico surpreso? Vocês jogam o que?

– Cara, a gente costuma jogar FIFA nos tempos livres. – a Sophia falou.

– FIFA? – Bia todo interessadinho entrou na conversa. – Nós amamos FIFA, eu sou o melhor jogador daqui. – ele estufou o peito.

E nós três rimos.

– Bia,desde quando você é bom no PS? – eu falei. – Na verdade, quem joga fácil aqui sou eu. – os meus amigos riram.

– Ah tá! – Davi disse.

– Eu não sei quem é o macho alfa no PS. Estamos aqui pra jogar, quem vai? – Bia falou de um jeito bravinho e engraçado.

– Desafiou! Vai Fred, você não é bom! – Bia disse.

– Vou mesmo e ainda digo mais, quem perder vira uma dose de vodka! – e todos gritaram.

– Ta ficando interessante! – ju disse se ajeitando no sofá – Sou a próxima.

Júlia:

Resultado: Davi bêbado, Cris rindo muito, gritinhos avulsos, Fred querendo revanche, Harry com a garrafa debaixo do braço,Bia rindo pela queda de Davi quando foi pro banheiro, Sophia quase dormindo e eu jogada no tapete felpudo.

– Vamos brincar de alguma coisa... – Davi disse com voz engraçada – De Verdade ou Conseqüência?

– Puta que pariu, você ta em que série? Quarta? – Bia bateu em sua testa.

– JÁ SEI! – Harry, que estava esparramado no chão, levantou seu tronco ficando sentado. – Nós podíamos brincar de Gato Mia, só que com todo mundo nu! – os meninos riram. Davi fez high five com ele por conta da sua ideia “genial”.

– Aí não seria mais Gato Mia e sim Gato Orgia, Harry. – eu ri da minha piadinha infame.

– Boa! – Bia falou e todos riram.

– Podemos jogar Eu nunca! – Fred falou.

– Finalmente, uma decisão. – Harry colocou a vodka no meio da roda.

– Quem começa? – Sophia perguntou.

– Eu. – Davi se ajeitou e sentou. – Eu nunca transei na praia. – logo em seguida os quatro, sim, os quatro beberam.

– Vão ser desse naipe? MEDO! – falei rindo.

– Eu nunca dei beijo triplo – Bia disse não bebendo nada. Fred, Harry, Davi e eu bebemos. Fred me olhou com cara de dúvida.

– Balada tensa. – eu disse simplesmente. Quem ia falar era Fred.,br> — Eu nunca fumei maconha. – e todos, sem exceção, beberam.

– Agora sou eu! – Cris falava – Eu nunca caguei na escola! – riu tanto que chorou além de beber, claro.

– Momentos terríveis. – Harry falou e bebeu.

– Então compartilhamos do mesmo mal. – aí ela riu mais.

– Eca. Quero nem saber como foram esses momentos. Já posso continuar? – perguntei – Eu nunca traí. – não bebi.

– Ah, Júlia, assim não tem graça! – Davi falou – Tem que ser perverso!

– Já falei! Quem fez, bebe! – Fred bebeu. Eu meio que sabia que ele ia beber. Bia também bebeu.

E assim foi até chegar num ponto critico.

– Eu nunca me interessei por ninguém que está aqui. – Harry disse, dando um sorriso malicioso. Fiquei tensa na hora. E aí? Eu bebia e me sujava ou mentia? E se ele (vocês sabem quem) bebesse? E se não bebesse?

E agora?

Ouvi um som surdo de copo batendo no carpete.

Era o de Fred. Mas houve outro, o da Cris.

Hã? Ela tava afim de quem?

Quando eu ia tomar o meu, fiquei com medo de ouvir perguntas sobre de quem seria essa tal pessoa da sala que eu estava interessada. Mas se não perguntaram nem pra Fred e nem pra Cris, por que perguntariam a mim?

Levantei o copo, morrendo de medo. Todos me olharam, apreensivos. Sob olhares das minhas amigas e dos amigos de Fred, meu copo já estava na altura de rosto. Frederico, ao meu lado, não tirou os olhos de mim.

Engoli em seco pensando no que fazer. Até uma das minhas amigas tinha bebido, assumindo que tava querendo pegar alguém dali...

– Preciso ir ao banheiro. – falei sem pensar. Todos suspiraram em decepção.

– Fred, mostra o banheiro pra ela. – ouvi Bia falando. – Mas o daqui de baixo não, o de cima. – me levantei na mesma hora e podia jurar que Bia piscara pra Fred.

Fred:

Duas opções: ou a mina arregou ou NÃO QUER MESMO FICAR COMIGO!

Mano, eu sou tão repulsivo, feio, tosco, paga de gostoso, ridículo e sem moral alguma pra pegar essa menina?

Eu não entendo! Já peguei as mais gostosas daquele colégio, e pra pegar ju é todo esse drama? WTF? Não agüento mais, tenho que fazer alguma coisa. Preciso beijar essa garota logo senão, não sei mais o que faço nessa vida.

A piscada do Bia estava clara. Era pra agir nesse espaço de tempo. Só não sei como e tinha medo de levar uma tapa na cara ou um chute no saco caso tentasse alguma coisa ousada.

Subi as escadas com Júlia atrás de mim. Não falei nada durante o percurso, e nem queria, tava puto demais. Júlia não era a fodona? Por que na hora de mostrar isso, não bebeu? Eu mostrei, bebi, quase me matei pra dizer que tava louco pra ficar com ela! Merda.

– É aqui. – falei com a voz séria demais. Estávamos em frente à porta do banheiro. O hall estava escuro. Eu estava tenso e ela mal olhava nos meus olhos.

– Obrigada. Se quiser descer...

– Não precisa, eu espero. – a interrompi sem ânimo.

– Ok. – e finalmente, a princesa das trevas entrou no banheiro. No exato momento em que a porta se fechou, encostei-me à parede, colocando as mãos nos joelhos.

Eu estava cansado.

Cansado de tentar a todo custo ficar com ela. Nunca tinha ido tão longe ao ponto de fazer uma detenção por uma menina. Na verdade, nunca precisei disso.

Pensando sobre toda essa merda, tive uma ideia. Ia ser aqui e agora. Chega de fugas, de conversas tensas. Agora era pra valer. Eu vou pegar naturalmente. Não vou fazer gracejos e nem bancar o conquistador barato. Quero ser sutil e natural.

Ouvi a porta ser destrancada. Nervoso, me levantei, ficando na mesma posição e no mesmo lugar que estava antes dela se trancar no banheiro. Ela saiu e senti que sua maquiagem um pouco pesada estava borrada. Seus olhos estavam vermelhos. Será que ela havia chorado? Queria perguntar, mas ficaria pra outra hora.

Ela deu um sorrisinho simpático e andou em direção à escada. Vi minha chance indo embora. Sem falar nada, puxei seu braço.Júlia me olhou assustada, mas não falou nada. Prensei-a na parede, juntando meu corpo ao dela. Coloquei o braço ao redor de sua cintura, apertando-a com a mão. Minha outra mão foi em direção à sua nuca e depois ao seu cabelo, o puxando pra baixo e inclinando um pouco sua cabeça, me fazendo ter uma visão perfeita de seu pescoço.

Lancei um olhar que dizia a ela que essa era a hora da verdade. E se ela me matasse depois, eu não teria medo. Ao contrário do que imaginava, Júlia não fez nada, ficou paradinha – um pouco assustada.

Puxei mais um pouco os seus cabelos.

– Agora você vai ver. – fixei meus olhos nos dela, juntando mais os nossos corpos. Fechei meus olhos e fui beijando seu pescoço, sua bochecha, até chegar à parte que eu mais queria.

Primeiro, comecei a dar selinhos em sua boca. Fui delicado em todo o movimento pra não assustá-la mais. Tirei as mãos de onde estavam, as colocando em seu rosto. Afastei-me um pouco e sem querer, abri um dos olhos. Quase rindo, vi Júlia fazendo um biquinho de olhos fechados. Olhei mais uma vez e sem pensar duas vezes, fui direto beijá-la do jeito que eu queria desde que vi sua boca rosada no corredor dos Losers.

Passei minha língua em seus lábios, implorando por permissão pra entrar. Júlia a abriu sem nenhuma hesitação. Nossas línguas pareciam intimas e descaradamente à vontade uma com a outra. Mordi seu lábio inferior.

ju colocou os braços em meu pescoço, fazendo carinho em minha nuca. Sorri por dentro com esse feito e pensei: “olha, é bruta, mas sabe fazer carinho”. Aí cara, me deu mais vontade de abraçá-la. Foi o que fiz. Apertei meus braços contra o corpo da menina, a fazendo arfar. ju roçou as unhas em minhas costas, fazendo minha pele se arrepiar. Parecia tão bom, tão gostoso, tão forte, tão intenso...

Um minuto depois, do nada, Júlia parou de me beijar.

Abri os olhos, confuso. Ela tava com a boca vermelha, e respirando rapidamente. Passou suas mãos nos cabelos, os ajeitando e me empurrou. ME EMPURROU com força.

– Nunca. Nunca mais na sua vida faça isso. – desnorteada, saiu da minha frente sem dizer mais nada. Desceu as escadas com pressa, me deixando no escuro sozinho e extasiado.

– Garotas, a gente pode ir? AGORA? – ouvi Júlia falando nervosa e depois de alguns minutos só houve uma batida de porta e todo aquele barulho de gente conversando (que eu não tinha prestado atenção enquanto estava aqui em cima) havia cessado.

Sentei no chão, rindo como idiota. Aquilo não sairia facilmente da minha cabeça.