Como Roubar Um Coração
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Outra noite.. Mais uma vez observo tudo cá de cima, à espera da presa perfeita. É tão fácil fazer com que um humano sucumba à minha presença. Basta apenas um olhar, e eles iludem-se com aquilo que os seus corações não podem entender. Admito que a maior parte desta facilidade provém dos meus olhos. Como eles são? Inicialmente era tão negros como a minha alma, sendo eu uma anjo da noite, um demónio sedutor esta cor não me favorecia. Deixem-me deixar claro uma coisa eu simplesmente não aceito ser chamado é de anjo negro. Os humanos são tão patéticos que não conseguem entender que usando apenas as suas palavras, não conseguiriam descrever o quão escura é a minha alma, ou simplesmente uma pena das minhas asas. Enfim... é melhor não começarmos a falar das coisas patéticas que os humanos fazem ou dizem, se assim fosse demoraria um século inteiro e não sei se chegava. Voltemos a razão dos meus olhos, o porquê de eles serem assim. A razão também é muito simples, roubei raios de luar que ao misturarem-se com a minha alma deram-lhe uma coloração prata. Acho que assim já posso dizer quem sou. Sou demónio que devora almas, que se deleita com gritos de desespero e que ama o vazio da solidão. Encanto presas com corações despedaçados, sonhos destruídos e aquelas cuja alma, se tornou negra. Sou temido por outros demónios, porque sou assassino implacável, tenho aparência de um anjo da luz, mas nunca antes ninguém viu besta tão indomável quanto eu. Resumindo. Sou belo e letal, anjo que anseia pela morte e consome almas. O meu nome?
Sou.....
***
Voltei a olhar na direção da rapariga de cabelos loiro morango que chorava, quase imperceptivelmente no comboio. Ela era linda, os olhos cor de amêndoa estavam vermelhos, mas outrora com certeza teriam sido razão para fazer coroações palpitar. Os cabelos estavam despenteados, uma pena, davam-lhe um ar de desespero.
" E não é assim, que o coração dela está", pensei, " Desesperado".
Custava-me vê-la assim, queria chegar-me a ela e dizer-lhe que tudo iria correr bem, mas tenho a certeza que não iria resultar. Primeiro, porque eu claramente não sabia o que lhe tinha acontecido. A julgar pela média dos problemas adolescentes este devia ser amoroso. Segundo, porque se o fizesse ela, provavelmente expulsar-me-ia com palavras menos amistosas. Acreditem, já me aconteceu antes. E terceira, mas não menos importante é que nem eu mesma sabia como lhe dizer que eu conseguia ver uma centelha de amor eterno no seu coração. Um amor que iria estar com ela para sempre. O mais provável é que me achasse maluca.
Suspirei e tentei concentrar-me noutra coisa. Pelo canto do olho vi a rapariga levantar-se, provavelmente sairia na próxima paragem. Antes mesmo que me desse conta comecei a segui-la. Ainda que o meu bom senso gritasse que isso era uma má ideia. Talvez ela pensasse que eu era uma pedófila. Por momentos o meu cérebro pensou se realmente existiria um feminino para pedófilo, mas obriguei-o a concentrar-se. Ouvi outro pedaço do coração da rapariga a partir-se, o som era dilacerante, quase me obrigava a tapar os ouvidos. Estremeci de dor.
Era noite, e podia apostar que, uma semana era o mínimo que ia receber de castigo por desaparecer até tão tarde e não dar noticias. Sabia que devia voltar, mas não ia conseguir afastar-me daquela rapariga. Era como se uma força a impedisse de seguir em frente. E estava cada vez pior.
Alguns passos mais à frente reparei que ela tinha parado. Algo pairava sobre ela. Pairava? como seria possível? Era um rapaz, acho. Não, não podia ser um rapaz, ele tinha asas? Confusa e com medo do que poderia vir a acontecer a rapariga de cabelos loiro morango gritei a primeira coisa que me veio à cabeça:
- Pedófilo, socorro. — Admito que tenho muito a agradecer à minha estupidez.
Os dois olharam na minha direção, o rapaz parecia surpreendido, já a rapariga parecia aliviada. Aquele rapaz, não rapaz, começou a caminhar na minha direcção e tenho que admitir. Ele era lindo, um verdadeiro Deus da beleza. Quando ele já estava suficientemente afastado da rapariga de cabelos loiro morango, gritei-lhe:
- Corre. — , ela correu, mas o rapaz nem ligou começou a caminhar para mim, com uns olhos prata a cintilar. Prata??
Forcei o meu corpo a dar meia volta e comecei a correr o mais rápido que podia. Ainda nem tinha dado 20passos quando sentia algo frio envolver-me o corpo. Pensei em gritar, mas o grito ficou preso na minha garganta.
- Interessante...- ouvi-o sussurrar.
Ele soltou-me eu encarei-o. Era absolutamente belo, mas a sua alma era tão... como dizer? Não havia palavras que a pudessem descrever.
- Como te chamas? — perguntei-lhe.
Mas que raio estava eu a fazer? Devia fugir, gritar, mas não ficava ali, em frente a um rapaz, não rapaz que tinha a alma tão negra que nenhuma palavra o podia descrever e perguntava-lhe o seu nome. Devia consultar um psiquiatra. Se saísse dali viva.
Ele ergueu uma sobrancelha, o que o deixou ainda mais deslumbrante e respondeu:
- Pensava que era o pedófilo.
Senti-me corar e só queria desaparecer, mas mantive compostura.
- Ela parecia estar incomodada. -defendi-me. Ele gargalhou um pouco e voltou a sussurrar:
- Interessante.
Ok, ele era maluco. E segundo o manual das regras de sobrevivência, inventado por mim, eu devia fugir de malucos.
- Como te chamas? — voltei a perguntar.
Bem, se morreria ali, mas valia levar alguma informação.
- Chamo-me....
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