Como Roubar Um Coração
3 Capitulo 3
Notas iniciais
Olhei para aquela rapariga que corria. Se quisesse nunca conseguiria fugir de mim, mas ela merecia uma recompensa por conseguir surpreender-me. Ainda podia sentir o sabor da sua alma nos meus lábios, e quase me arrependi de a ter deixado ir. Um sabor único, uma alma difícil de encontrar. O melhor seria voltar, antes que mudasse de ideias.
***
Gabriel abriu as asa e subiu até onde a vista não alcança. Os anjos vivem num mundo paralelo ao dos humanos, só que sendo tão cegos para as coisas realmente importantes eles não conseguem ver esse mundo paralelo.
A casa de Gabriel era toda preta, mas dotada de uma beleza sombria. Um espaço que lhe permitia uma certa liberdade. Gabriel entrou na cozinha e abriu uma lata de bebida energética, os anjos precisavam de bebidas energéticas, ou será força do habito? Ou talvez, ele simplesmente gostasse do sabor da bebida. Ainda que não voasse os seus passos eram tão elegantes e gentis, que ele mais parecia planar. A única centelha de cor que se encontrava naquela casa parecia ser o porta retratos que relaxava na mesa de centro da sala. Uma linda mulher sorria com umas asas cinzentas abertas, uma imagem que relembrava liberdade. Gabriel olhou para a fotografia, mas logo desviou a sua atenção para rádio, a sua expressão agora era ainda mais sombria. O CD que tocava era desconhecido, as melodias eram calmas, embriagantes e faziam lembrar o desabrochar de uma rosa negra. A melodia das almas que choram, si era isso que parecia... Gabriel também tocava, ainda só que muito raramente. Ali com os olhos fechados a relaxar no sofá, todo aquele aspecto sombrio desaparecia, agora a sua beleza era ainda mais estonteante, tentem imaginar a personificação da perfeição tornar-se ainda mais perfeita. Era possível existir algo assim? Enquanto o CD tocava o corpo de Gabriel foi relaxando até ele adormecer. Como vocês sabem guardar um segredo irei contar-lhes, a autora das melodias era a mesma pessoa da foto, mãe de Gabriel.
A mesma mulher que foi morta a sua frente, enquanto lhe implorava para não se tornar o que ele é hoje. Mas qualquer fechar-se-ia se visse o que ele viu, quem somos nós para julgar?
A melodia mudou abruptamente e tornou-se vermelha como sangue a escorrer. Na face de um Gabriel adormecido viram-se duas lágrimas a escorrer. A imagem de uma anjo que sofre....
***
Outra rapariga com o coração partido, pergunto-me porquê? Deveria tentar ajudá-la mas tenho que admitir que os meus pensamentos estão ocupados pela imagem de Gabriel. Quem será ele de verdade? Porque será que tinha alma tão negra? Parece loucura mas queria poder abraça-lo e consola-lo, a maior parte das pessoas só precisa de uma amostra de amor para sarar. A rapariga esta agora a chorar nos braços de uma ruiva que parece ser da sua idade, mas memo que chore tanto, o seu coração já começou a sarar. Pergunto-me quem abraçaria Gabriel da mesma forma. Quase imperceptível uma melodia paira no ar, faz lembrar uma rosa negra a desabrochar, de onde será que vem.... Quem, tocaria uma melodia tão triste? De certa forma fiquei ali parada no meio da rua atenta a melodia, que mudou e agora parecia sangue, uma dor que ninguém conseguiria aguentar. Com lágrimas a escorrer pelo meu rosto caminhei para casa, uma melodia assim vinha de uma alma despedaçada e sem salvação. O céu também começou a chorar, pois nesse momento uma chuva branda começou a cair.
– Uma melodia que chega aos anjos.... — declarei sem pensar.
***
Pergunto-me o porquê de sermos tão cegos, como podemos não ver o que esta bem a nossa frente? Porque quebramos corações? Porquê que os anjos choram por uma melodia, tocada a anos atrás por uma pessoa que já morreu? Porquê tantas interrogações e nenhuma resposta?
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