Estávamos agora numa sala de estar. A rapariga do beco dormia no andar de cima, e eu ainda não conseguia acreditar que nada daquilo fosse verdade. Vicki continuava impassível sentada numa poltrona, o tal de Charles também não parecia muito incomodado e fazia desenhos de arranjos florestais. Tinha talento, eram realmente lindos. Seria esses tipos de arranjos, que as pessoas viam quando iam para o céu?

Queria fazer perguntas, mas não sabia quais devia fazer, nem mesmo se queria saber as respostas. Enquanto pensava no que faria Vicki soltou um suspiro alto.

– Nossa Gabriel, percebo que tenha sido um choque, mas pensei que conseguirias lidar melhor com tudo isto. A tua capacidade de raciocínio não melhorou muito, pois não?

Encarei-a seriamente, não gostava que ela ainda me pudesse criticar, ainda que estivesse claro que ela era muito mais poderosa que eu. Fiz menção de falar, mas voltei a calar-me. Bela atitude para um demónio, estava a ser mais covarde do que qualquer humano. Mas no fundo acho que temia ouvir a verdade sobre Vicki, porque ela era quase como uma segunda mãe para mim, afinal foi ela quem mais me ajudou, depois da morte da minha mãe. Charles começou a organizar os seus desenhos e veio sentar-se no sofá.

– Senta-te Gabriel.

Ainda que fosse uma frase claramente imperativa, a sua voz era tão doce e calma que aquilo pareceu o mais inocente dos pedidos. Ainda que um pouco desconfortável por ter um anjo a dar-me ordens, fiz o que ele mandou.

– Que tal começarmos por onde e que eu e a Vicki nos conhecemos? – propôs sorrindo.

Acenei e preparei-me para o que quer que fosse que eu iria ouvir.

– Não tenhas as esperanças muito altas, a história é bastante simples. A algumas décadas a minha brigada foi encarregada de capturar Vicki. Como todos os anjos, estava preocupado cm a missão, porque sabia que a tão temida Rainha Lúcifer, não ia se render nem com um exército no seu encalço. Ainda nem havia feito 3horas desde o inicio da missão, quando o nosso primeiro homem apareceu morto. Sabíamos que tinha sido ela, mas não conseguíamos encontra-la. Enquanto fazia a patrulha encontrei-a a dormir perto de um ribeiro. – Nesse momento fez uma pausa e olhou para Vicki, que tinha um pequeno sorriso no rosto. – Ela estava linda, quase angelical, não fossem as asas negras, que a rodeavam como dois braços. Num impulso inocente, toquei no seu rosto. E tenho que admitir que foi um dos piores erros que cometi na minha vida. Ela acordou e rosnou-me. Parecia um autêntico animal selvagem. Lutamos. Não é coisa de que me orgulhe, mas quase nos matamos um ao outro.

– Espera. – interrompi-o. – Estas a dizer-me que tu lutaste de igual para igual com a Vicki? É isso?

Dessa vez foi Vicki quem respondeu.

– O Charles é bastante forte, ainda que não pareça, Gabriel.

Olhei para aquele homem com gestos suaves e tentei imagina-lo lutar, ou ao menos com um pouco de sangue em si, mas não consegui imaginar nada.

– Continuando a história. Já nenhum de nós estava em condições de continuar a lutar, mas tu conheces a Vicki. Ela tentou ir para além dos seus limites e quase deu a sua vida por isso. Defendi-me como pude e udo ficou negro. Não sei quanto tempo permanecemos inconscientes, mas quando acordei Vicki ainda estava debilitada. Cuidei dos meus ferimentos e logo a seguir dediquei-me aos cuidados das feridas dela. Pretendia estabiliza-la para depois captura-la, mas não resultou. Aos poucos fiquem encantado, com aquela demónio, que tentara matar. Tratei dela até ela estabilizar, mas quando ela acordou não foi muito agradável. Quase me acertou com uma dose mortalidade poder. Já alguma vez tentaste explicar uma coisa enquanto lutas e tentas não ser morto, nem matar ninguém? É bastante complicado.

…….

Notas finais
Espero que gostem