Como Roubar Um Coração
6 Capitulo 6
Notas iniciais
Charles e Vicky 30 anos atrás.
Naquela clareira reinava a destruição, os indícios da luta entre os dois anjos era obvia. Troncos caídos, sangue espalhado, e no meio daquela destruição jaziam dois corpos. Ainda que cobertos de sangue aqueles dois seres eram dotados de uma beleza estonteante. Aquela imagem parecia surreal no meio de tanto silêncio e destruição. Uma bela mulher que respirava com dificuldade coberta de inúmeras feridas profundas, com roupas rasgadas e com o cabelo ruivo parecendo queimar sobre o seu rosto branco. O cabelo não era simplesmente ruivo, era como um topázio imperial, com o movimento suave do vento os eu cabelos iam ondulando parecendo mesmo uma chama viva. Isto tornava aquela mulher assustadora, como se soubéssemos que ela nos poderia matar a qualquer momento ainda que ela estivesse inconsciente. Um homem igualmente ferido, com as roupas rasgadas, tão belo como a mulher que estava inconsciente ao seu lado, mas com os cabelos pretos como uma noite sem luar pinho e um tom de pele igualmente claro. Passaram-se horas sem que aquele cenário se alterasse. Até que o homem se começou a mexer, os movimentos eram lentos e pareciam dolorosos. Com uma serie de movimentos conseguiu sentar-se e finalmente olhou à sua volta. O seu olhar demorou-se naquela mulher que agora respirava mais regularmente. O rosto do homem passou de dor, a duvida. De duvida a incerteza. De incerteza a raiva. Varias emoções trespassaram o seu rosto. Até que muito delicadamente, ele acariciou o rosto da mulher. Tocou-a tão delicadamente como se a acarinhasse com uma pena, contornou cada traço do seu rosto, e pôs-se de pé. Caminhou meio da clareira, arrancou um pedaço de relva e começou a murmurar algo inteligível. Por fim voltou para junto do copo da mulher e colocou aquelas ervas nas feridas que pareciam mais profundas. O seu corpo reagiu e com um grito abriu os olhos. Os movimentos seguintes foram muito rápidos mas, num piscar de olhos estavam os dois a lutar novamente, golpes rápidos que não conseguiriam ser vistos por olhos humanos.
O anjo ruivo deferia golpes raivosos mas extremamente cautelosos. Era uma autentica maquina de matar. O anjo com cabelos pretos defendia-se dos golpes, sem tentar ataca-la uma único vez.
– Para!!!!!! — Gritou-lhe o anjo de cabelos negros. — Deixa-me explicar.
O anjo de cabelos ruivos apenas hesitou um milésimo de segundo, mas voltou a golpear, e desta vez o golpe acertou o seu adversário. Jurou sangue da ferida que acabara de ser aberta, um, pequeno rugido acompanhou o sangue que saia da ferida.
– Porque haveria de o fazer? — Perguntou-lhe o anjo ruivo. — quanto mais depressa te matar ti, mais depressa me vejo livre dos outros que vieram contigo.
Mais movimentos e golpes raivosos. Estavam os dois mais lentos, por causa dos ferimentos, mas nenhum deles parecia disposto a desistir. Por um golpe de sorte o anjo ruivo tropeça depois de se desviar de um golpe. Caiu de costas e antes que se pudesse levantar o anjo de cabelos negros prendeu-lhe os braços e as pernas.
– Para! — pediu-lhe ais uma vez. O rosto do anjo ruivo estava coberto de raiva, mas o anjo de cabelos negros era forte, e o seu aperto era firme.
O anjo de cabelos negros sabia que não iria conseguir aguentar tanto tempo naquela posição favorável, por isso começou a falar rapidamente.
– Não te quero prender, por favor acredita.
A expressão no rosto do outro anjo não mudou.
– Pensei que os anjos ao serviço de Deus não podiam mentir.
–Não podemos. Eu não estou a mentir. Eu ia prender-te, mas... — o seu rosto ficou vermelho e hesitante.
– Mas? Acabou-se a capacidade de mentira? Solta-me e prometo que te mato rápido.
– Mas apaixonei-me pela pessoa que tinha que matar. — gritou-lhe, olhando-a nos olhos.
A surpresa passou pelo rosto do anjo ruivo, mas mesmo assim recusou-se a aceitar aquilo que lhe estavam a dizer.
– Um golpe baixo, querido. -falou-lhe como se cuspisse as palavras.
– Não é um golpe. Eu não sei explicar o que aconteceu. Eu ia prender-te mas tu estavas tão linda e depois eu fiquei sem saber o que fazer, mas....
O anjo ruivo estava confuso, mas a verdade é que acreditava nele. Não só porque, no seu intimo ,precisava de alguém que a amasse, mas porque via nos olhos daquele anjo que tudo era verdade. O anjo de cabelos negros soltou-a. Talvez tenha sido um erro ou não. Mas a verdade é que foi a vez do anjo ruivo lhe prender os movimentos da mesma maneira que ele tinha feito com ela.
– Mesmo que tudo o que dizes for verdade, o que achas que um demónio como eu pode fazer? Vou continuar a ser caçada como um animal.
– Talvez se te renderes...
– Render? Sabes quantas pessoas matei? Vou ser morta, mesmo que me renda.
Por alguns segundos nenhum dos dois falou. Apenas se encaravam.
– Então fugimos. — disse o anjo de cabelos negros. — Não vou deixar que te magoem, sei como apagar o nosso rasto. Para o mundo estaremos mortos. Podemos começar outra vez juntos.
O aperto do anjo ruivo afrouxou e o anjo de cabelos negros conseguiu soltar os braços. Ela olhava para aquele anjo que lhe falava tão delicadamente e com tanta certeza. Ele devagar prendeu-a num abraço. Ficaram assim, abraçados, até que o sol se deitou. Ela havia chorado. Não se sabe bem o porquê. Mas foi assim que o amor este dois começou a crescer. Durante horas que passaram, abraçados um ao outro.
Já estavam longe do alcance de qualquer anjo, quando o anjo ruivo parou.
– O que se passa Vicky?
– Sabes aquilo que estas a deixar para trás? O que estas a arriscar? — ela tinha uma expressão de dor no rosto. Como se sofresse ao dizer aquilo.
Charles aproximou-se dela e tocou o seu rosto.
– Sei. Mas não importa.
– Nunca mais vais poder voltar para céu.
– Abandonei tudo o que conhecia por ti. Abandonei a minha fé para te manter a salvo. Já não me interessa se posso ou não voltar para o céu, porque agora és tudo o que tenho.
Ali no meio do nada, depois daquelas palavras deram o seu primeiro beijo. Dois anjos que negaram todo aquilo que lhes foi ensinado. Mas será que poderiam fugir da realidade para sempre?
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