O despertador tocou escandalosamente ao meu lado, eu ergui minha mão e o calei com um tapa, resmunguei algumas reclamações e me sentei na cama. Era dia de prova, ótimo, matemática realmente era agradável, eu pensei sarcástico.
Faltavam poucos minutos pra aula começar, pousei minha mochila na minha cadeira e me sentei, voltando meu olhar pra janela que dava para a entrada. Eu a vi chegar, o carro do irmão dela, Kuchiki Byakuya, foi estacionado e em seguida os dois saíram do mesmo.
Ela sorriu para o irmão por algo que ele dissera, e eu tive a impressão de que ele lançou um olhar na minha direção segundos antes. Ela o abraçou carinhosamente pelo braço e seguiram juntos para suas salas. Eu suspirei, imaginando a mim mesmo no lugar dele, sentindo-a tão perto de mim, sorrindo pra mim e encostando sua cabeça em meu ombro. Eu reprimi minha imaginação quando ela atravessou a porta da sala após se despedir do irmão, ela sorria e como sempre começou a distribuir “bons dias” pra todos, inclusive pra mim, eu corei, baixando a cabeça, ela estava do outro lado da sala e eu mordi o lábio inferior e me agarrei à cadeira ou do contrário eu sairia correndo dali.
— Fala, laranja verde. – alguém falou ao meu lado –
— Fala abacaxi vermelho. – eu repliquei debochadamente pra Renji que acabara de sentar-se ao meu lado –
— Essa foi boa. – ele remsungou pensativo – E então? – ele voltou sua atenção pra mim – Ta pensando nela de novo?
— Não. – eu menti –
— Sabe, eu te entendo, ela até que é bem gata. – ele murmurou a olhando ao longe –
Eu franzi minhas sobrancelhas e me controlei.
— Cala a boca. – resmunguei entre dentes –

- To zuando contigo Ichigo, não encana. Mas ela é gata sim... – ele parou de falar ao ver minha mandíbula se contrair – Parei, parei. – ele riu descontraído – Se você pensar em bater em todo garoto que disser que ela é bonita vai precisar mais que duas mãos.
Eu suspirei e passei minhas mãos pelos cabelos.
— Eu sou um imbecil. Ela nunca vai me notar e eu nunca vou conseguir fazer ela me notar.
— Força, Ichigo. Basta confiar em si mesmo.
— Me ensina isso que eu tento, ok? – eu murmurei –
O intervalo chegou e logo os alunos começaram a sair em grupos da sala. Rukia permaneceu em sua cadeira até Byakuya surgir na porta, trazendo uma maleta onde provavelmente havia o lanche dos dois, Rukia ergueu o rosto pra ele e impressionantemente sua expressão mudou. Talvez seja por eu saber de cor suas expressões faciais, mas eu já havia notado, não importava quão séria, triste ou chateada Rukia estivesse, quando Byakuya aparecia, a única expressão que permanecia no rosto dela enquanto estavam juntos era felicidade. Rukia sorriu lindamente pra ele e se levantou de um salto, como eu era o único na sala, ela virou-se pra mim e acenou, dizendo um “até mais” e rapidamente foi em direção a Byakuya. Eu corei, mas permaneci olhando-os, Rukia abraçou Byakuya e ele murmurou algo em seu ouvido, a fazendo soltar uma leve risada, em seguida ambos ficaram lado a lado, eu sorri involuntariamente ao vê-la sorrir pra ele, e desejei que ela não tivesse visto aquilo. Rukia me lançou um último olhar, sorriu e em seguida ambos saíram do meu campo de visão.
Meu Deus, como ela conseguia ser tão perfeita? O que ela quis dizer com aquele “ate mais”? Não importa o que seja. E mesmo que aquele sorriso não tenha sido pra mim, vê-la sorrir daquela forma só me enchia ainda mais de alegria. No começo pensei que essa minha admiração por ela era a típica paixonite jovem, mas agora, mais do que nunca eu sabia que a amava e eu também sabia que mais difícil que vencer o irmão dela, seria vencer a mim mesmo.

O dia transcorreu normalmente, e pra minha felicidade e alívio, as questões da prova de matemática foram simples e fáceis de resolver, acho que tiro uma nota aceitável.
Chegou o fim da última aula, quase todos começaram a guardar desajeitados seus livros e logo saíram apressadamente, trocando comemorações por mais um dia de aula acabar. Eu cocei a cabeça sem levantá-la, peguei meus livros e carreguei-os nas mãos mesmo, sem me preocupar em guarda-los na minha mochila que eu acabara de colocar sobre o ombro. Estava tão distraído que acabei tropeçando e irritantemente meus livros foram ao chão, espalhando-se pelo piso da sala. Eu cerrei os dentes impaciente, me xingando por não ter guardado os livros na mochila, eu me abaixei e tirei a mochila dos ombros, a abrindo em seguida, comecei a pegar livro por livro, até ver meu livro de matemática ser pego por uma delicada mão clara e aparentemente frágil. Eu fiquei estático e aos poucos comecei a erguer o rosto, até encará-la diretamente, tremi levemente, era Rukia, ela estava abaixada a minha frente e oferecia o livro a mim enquanto mostrava-me o mais belo sorriso que eu já vira. Eu respirei fundo, não, desta vez eu não fugiria, ela estava ali, me ajudando, e pela primeira vez eu percebi que eu nunca estivera tão perto dela como agora, somente alguns centímetros nos separando. O motivo? Quando ela chegava a uns quatro metros perto de mim eu saia correndo, quando ela acenava pra mim, com esses quatro metros nos separando, eu corria. E quando eu corria na direção dela, quando não havia outra direção pra seguir, eu passava tão velozmente ao seu lado que nem ao menos sabia o aroma de seu perfume.
Mas agora eu sabia e era maravilhoso. Eu peguei o livro que ela me oferecia e gruni quase inaldivelmente quando vi minha mão tremer, ela pegou o último livro que estava no chão e depois que eu o guardei, nos levantamos no mesmo momento. Maldição, o que ela deve estar pensando? Que eu sou um destrambelhado. Que eu sou um desequilibrado por sair correndo sempre que ela aparece.

- Obrigado. – eu murmurei e fiquei surpreso por minha voz ter saído –
— Não foi nada. – ela falou docemente –
A voz dela...de tão perto, que sonoridade perfeita, eu quase fechei os olhos para apreciar o som melhor, mas me conti.
— Pensei...que fosse o último a ficar. – eu murmurei engolindo em seco –
— Eu não estava com pressa, então estava guardando meus livros com calma. Quando eu estava quase virando o corredor, vi seus livros caírem, então vim te ajudar a pega-los. – ela respondeu calmamente –
— Claro...então é isso... – eu corei e olhei pro lado, ótimo, ela me achava um desastrado -
— Ichigo...
Ela falou meu nome. Isso é idiotice, ela fala meu nome todo dia, claro que é somente quando ela diz o diário: “Bom dia, Ichigo”. E em seguida eu saio correndo ou baixo a cabeça. Mas agora...era diferente.
Eu a olhei, a encorajando a continuar, como se eu tivesse alguma coragem, pensei sarcástico
— Desculpe perguntar, mas...você tem algo contra mim?
Eu me surpreendi um pouco. Algo contra ela? Eu quase gargalhei. Ela era doida? Ela é a primeira e única garota que me faz tremer, eu sou completamente apaixonado por ela e ela me pergunta se eu não gosto dela?
— E por que...acha isso?