Notas iniciais
30 de janeiro, sábado

Mamãe estava me abraçando enquanto estávamos sentados esperando sermos chamados para o atendimento. Eu estava prestes a me matricular em uma nova escola onde eu não conhecia exatamente ninguém.

Na noite passada, ela havia listado mil e um motivos para me incentivar a gostar e mergulhar profundamente na nova escola, disse que seria tudo novo e que é sempre bom ter novas amizades e sair da minha zona de conforto.

Nunca fui um menino que teve muitos amigos ou coisas assim; sempre fui o tipo de garoto fácil para ser motivo de piadas e afastar meninas, quer dizer, pelo menos era o que as pessoas esperavam que eu gostasse, mas a verdade é que eu estava me descobrindo e mulheres não eram o tipo de banquete do qual eu queria participar no momento.

Eu estava mergulhado profundamente em meus pensamentos quando de longe escutei meu nome, após duas horas finalmente havíamos sido chamados.

Levantamos e fomos até o balcão de atendimento no qual haviam duas mulheres: uma loira de cabelo liso e a outra ruiva pintada com cabelo cacheado, crespo e armado. A loira fez sinal para que sentássemos à sua frente.

— Bom dia! — Nos cumprimentou sorridente.

— Bom dia. — Mamãe respondeu educadamente.

— Nicholas Scheudfer, certo?

— Sim, é o meu filho! — Respondeu-a com o típico olhar de mãe do tipo: “Aqui está ele, olha que lindo, veio de mim, é meu”.

— Pode me entregar todos os documentos por favor?

Mamãe começou a revirar sua bolsa para encontrar seu RG, ela acabou se atrapalhando com a pasta que tinha praticamente todos os papéis necessários para a matrícula. Toda aquela demora me dera sede.

— Vou beber água. — Disse me levantando.

Ninguém prestou atenção em mim, na verdade, ninguém nunca prestou antes.

Sempre fui bom em me virar, encontrar lugares ou coisas sem precisar pedir informações a ninguém. Independência sempre foi meu ponto forte.

A secretaria da escola tinha a cor branca como tinta das paredes e madeira no chão. O local continha uma grande variação de plantas em vasos e tons de vermelho para combinar com as cores da instituição.

Andando até um breve corredor, encontrei o bebedouro; logo a frente estavam os banheiros, e no final do corredor, uma porta com alguns objetos de limpeza encostados nela.

As duas horas de espera foram suficientes para me fazer beber cinco copos cheios com água. Eu estava prestes a terminar de encher o sexto copo quando bateu uma vontade enorme de usar o banheiro.

Comecei a andar rapidamente em direção ao banheiro com o copo na mão, de repente aquele corredor pareceu duas vezes maior que o normal, por um instante pensei que o toilet havia se deslocado para mais adiante, mas foi então que percebi que era apenas a minha pressa para alcança-lo.

Finalmente entrei no banheiro. Vi um menino lavando as mãos em uma das torneiras das pias, ele notou minha entrada e automaticamente me viu pelo espelho. Naturalmente dei um sorriso discreto para não parecer mal-humorado e então escorreguei numa poça de água e cai como uma bola quando quica no chão. Toda aquela cena passou em minha cabeça como um vídeo em câmera lenta, foi constrangedor.

O menino correu para me ajudar a levantar. Demorei um pouco para entender tudo que estava acontecendo, foi estranho, rápido e devagar ao mesmo tempo. Eu provavelmente estava rindo para poder passar por toda aquela situação constrangedora.

— Você está bem? — O garoto com cabelos negros me perguntou rindo discretamente.

— Bem, poderia ter sido uma poça de mijo não é mesmo? — Respondi rindo ironicamente antes de perceber a merda que eu havia acabado de falar.

— Ok então! — Concluiu o garoto finalmente virando-se para sair rindo baixo, como se não tivesse acreditando que acabara de ver um desconhecido cair na sua frente em um banheiro escolar.

Eu estava de pé, no meio do banheiro, parado olhando para o nada, apenas tentando processar o que havia acontecido.

“Isso não pode se espalhar para o resto da escola”, pensei. “Eu mal cheguei aqui e já terei algum apelido maldoso? ”.

Milhões de pensamentos sobre o acontecimento e minha futura relação social naquela escola passaram pela minha cabeça. O que me restava era esperar que aquele garoto tivesse bom coração e que mantivesse aquilo como um segredo nosso.

Após dez minutos ali parado que para mim pareceram três minutos, finalmente usei o banheiro e sai para reencontrar com mamãe.

Quando cheguei na recepção, mamãe estava sentada nos bancos de espera mexendo no celular esperando que eu voltasse. Antes mesmo que eu pudesse me aproximar e avisar que havia voltado, ela levantou como se tivesse sentido que eu estava retornando e olhou para mim sorrindo.

“Ai meu Deus! Será que aquele menino contou para a minha mãe que cai no banheiro? ”. “Será que ela está sorrindo porque deve estar imaginando a cena do próprio filho escorregando? ”. “Pera aí, existe alguma possibilidade de ele saber que ela era a minha mãe e ter contado para ela? “.

Bloqueei meus pensamentos, afinal, nada de ruim poderia acontecer.

— Sua matrícula está feita!

O pior aconteceu. Não acreditava que em dois dias eu iria começar a ir para a escola nova. Desejei que tudo aquilo fosse um sonho, mas depois que me belisquei a fim de confirmar a teoria, percebi que de fato eu estava acordado.

“Será que aquele menino seria da minha sala? “. “Será que ele vai me reconhecer? “.

Tentei bloquear meus pensamentos novamente e sorri de volta para mamãe. Ela queria muito mudar de bairro para que pudéssemos recomeçar a vida depois que papai nos deixou. Eu queria deixa-la feliz, então desde o início me fingi interessado para a nova escola.

Estávamos a caminho da porta de saída quando de longe vi uma menina que me parecia familiar.

— Conheço aquela menina de algum lugar mãe! — Comentei direcionando meu olhar para a garota que tinha longos cabelos castanhos para que mamãe a avistasse.

— Não é a Gabriela? Filha dos nossos ex vizinhos?

A menina olhou para trás balançando seus cabelos como mulheres em comerciais de shampoos. A garota estava encarando algo atrás de mim, e foi então que ela me viu. Não sei direito a expressão que ela fez, mas acredito que foi tipo: “Nossa, não acredito que esse menino está aqui. ” Como se estivesse com nojo, constrangida ou algo do tipo.

Gabriela Monteiro era uma garota da mesma idade que eu, quinze anos. Ela era muito bonita, eu perdia as contas de quantos caras diferentes ela já beijara na vida, na verdade, não tinha nem como contar, nós nunca fomos de se falar, seria impossível haver alguma amizade entre nós dois.

“Merda”, pensei, “É ela! ”.

Eu e mamãe chegamos a ela, seu pai estava ao lado no celular. Ela se virou para a gente com um sorriso sem graça.

— Olá, Carlos, certo? — Mamãe cumprimentou o pai de Gabriela enquanto apertava sua mão. Ele parecia irritado por ter sido incomodado enquanto stalkeava mulheres solteiras no Facebook, pelo menos era o que eu achava engraçado imaginar sobre o que ele estava fazendo no celular.

— Helena? Nossa vizinha da fren... quero dizer, ex vizinha da frente, correto? — Respondeu devolvendo o aperto de mão com um sorriso educado no rosto.

Eu não conseguia parar de imaginar como deveria ser exaustivo cuidar de uma barba igual a dele.

— Nicholas? Nossa quanto tempo! — Gabriela me disse sorrindo.

“Ela lembrava meu nome? Talvez ela não tenha me olhado com cara feia. Talvez estivesse apenas escondendo o sorriso por ter me visto novamente”, pensei. “Não seja bobo Nick, garotas como elas nunca conversariam com garotos como você”.

Depois daquilo jurei que procuraria um psicólogo o mais rápido possível para cuidar daquelas vozes em minha cabeça.

— Faz muito tempo mesmo hein! — Correspondi a saudação sorrindo.

Ela retribuiu o sorriso. Eu não conseguia identificar se o sorriso era verdadeiro, educado, ou do tipo “ Meu deus, vamos acabar logo com isso quero ir embora”.

— O que estão fazendo aqui? — Mamãe perguntou não sabendo ao certo a qual dos dois direcionar a pergunta.

— Vou estudar aqui! — Gabriela respondeu rapidamente, — Eu e o meu pai estávamos dando uma volta pela escola para a conhecermos e decidimos parar para ler este mural de recados na parede. — Completou apontando para o painel logo atrás.

O barulho de notificação no celular de Carlos o fez vidrar novamente. Gabriela revirou os olhos.

— Você já conheceu a escola? — Gabriela nos perguntou educadamente.

— Ainda não, acho melhor conhecer depo...

— Ele adoraria! — Mamãe disse me interrompendo, — tenho que arrumar alguns documentos em minha bolsa, estão todos uma bagunça. Não me preocupo em esperar por vocês. — Sorriu.

Gabriela correspondeu sorrindo também.

— Então vamos!

Eu adoraria recusar, mas diante a situação, essa não era uma opção.

Eu estava achando tudo muito estranho, nós nunca fomos de conversar um com o outro. Gabriela tinha o costume de andar com garotos dos quais eu não gostava no meu antigo bairro e, consequentemente nós não nos falávamos. Sempre tive impressão que eles fizessem piadas sobre mim.

Gabriela estava muito bonita. Vestia uma regata preta com uma caveira centralizada, shorts jeans curtos e uma camisa de flanela vermelha amarrada na cintura. Acho que os tênis em seus pés eram da Vans.

Começamos a andar juntos pelo corredor que dava em direção ao pátio, acredito que Carlos nem notara que saímos dali. Mamãe com certeza acabaria ocupando seu tempo quando notasse.

— Gostei da sua camiseta. — Elogiou olhando em meus olhos, sorrindo, e depois retornando a encarar o caminho. — Gosto de patos.

“Justo a camiseta mais patética que eu tinha no guarda roupa”.

A escola tinha bastante semelhança a colégios que costumávamos ver em filmes americanos. O corredor do qual estávamos passando tinha vários armários embutidos na parede que era constituída por azulejos brancos e vermelhos.

Ao sair por uma porta dupla transparente, chegamos em um pátio aberto onde tinham várias árvores e bancos para lazer. Aos arredores do pátio, haviam três prédios de três andares: um logo após o pátio, um à direita e outro à esquerda.

— O prédio da direita é o nosso! — Disse Gabriela, — o direito é para os primeiros anos, o esquerdo para os segundos e o do meio para os terceiros.

— Me sinto no céu — Falei intrigado com a vista, me imaginando sentado em algum daqueles bancos lendo um livro qualquer.

Gabriela riu e começou a andar em direção a um banco. Acompanhei-a.

Quadras de esporte e biblioteca foram alguns dos lugares que ela deixou de me mostrar, mas de qualquer modo, eu acabaria os conhecendo uma hora ou outra.

Sentamos. Gabriela pareceu sentir-se livre de algo, respirou e expirou todo o ar fresco que conseguia. O silêncio era como um amigo íntimo naquele momento. Muitos pensamentos iam e vinham em minha cabeça, até que decidi quebrar o silêncio.

— Estamos bem? Quer dizer... somos amigos?

— O que? — Disse franzindo as sobrancelhas.

— Eu perguntei se estamos bem.

— Eu entendi isso, estou querendo dizer, tipo, por que não estaríamos bem? — Riu.

Parei por uns segundos receoso de como formular a frase seguinte.

— Não sei. Sempre tive a impressão de que você não gostasse de mim.

— Por quê?

Eu ri como estratégia de autodefesa do constrangimento que eu estava passando naquela situação.

— Não sei explicar.

— Não somos tão diferentes quanto pensa Nick.

— Posso te chamar de Gabi?

— Eu até prefiro. — Riu.

“Gabriela Monteiro acabara de me dizer que não éramos tão diferentes quanto eu pensava. Será que eu havia me deixado levar durante todo esse tempo por um estereótipo de menina popular que eu carregava na cabeça? ”, pensei mergulhando fundo em meus pensamentos. “Por que será que ela dissera aquilo para mim? Andara me observando enquanto eu não estava olhando? ”.

— No que está pensando? — Gabi perguntou.

— Durante todo esse tempo, eu pensei que você não gostava de mim.

— Como assim? Mas por quê?

— Como se fosse algo natural uma menina como você não poder falar com alguém como eu.

Ela riu como se estivesse debochando do meu raciocínio, não a culpo, se eu estivesse em seu lugar, eu riria daquilo também.

— Sempre quis ser sua amiga Nick, — disse mantendo a face séria — O problema é que as pessoas das quais sempre andei acabavam me impedindo indiretamente de falar com você, sempre tive vontade de conhecer você melhor.

“Por que ela parecia estar querendo ser minha amiga? Nunca nem nos falamos direito. Como ela me conhecia tão bem?

Gabriela estava me deixando emocionado, mas eu não iria chorar, parte de mim ainda desconfiava de que tudo aquilo fosse uma ilusão.

“Quantos anos eu perdera achando que ela não gostasse de mim. Quantas vezes a vi voltando chorando para casa e a deixei sozinha com seus problemas. Eu poderia ter a ajudado”.

Meus pensamentos estavam me condenando a uma prisão perpétua de culpa. Gabriela Monteiro parecia não ter a vida que o mundo achava que tinha. Descobri que ela não tinha ninguém a quem realmente pudesse confiar os seus segredos mais profundos.

— Serei muito grata por ser sua amiga! — Disse sorrindo.

Eu não tinha certeza se ela estava querendo chorar ou algo assim. Nunca fui bom em decifrar sentimentos alheios.

— Agora que vou estudar o dia todo aqui, longe daqueles falsos amigos, poderei ser quem realmente sou! — Continuou.

Se a verdadeira Gabriela Monteiro era aquela menina que estava se abrindo daquele jeito para mim, eu seria capaz de viver com ela pelo resto da minha vida.

— Sempre estarei aqui — Correspondi o sorriso. — Pena que não sabemos se seremos da mesma sala.

— Vamos ter fé! — Concluiu continuando a sorrir.

Nos inclinamos suavemente e nos abraçamos enquanto estávamos sentados. Aquele foi o abraço mais puro e sincero que eu tivera em toda a vida. Conseguia sentir seu coração bater devagar em meu peito, um batimento por segundo para ser exato.

Ao voltarmos para nossa posição original, ela esfregou os olhos como se estivesse enxugando lágrimas. Todo o seu rímel tinha borrado, mas preferi deixar que ela descobrisse isso sozinha.

— Acho melhor voltarmos, — Ela disse levantando-se rapidamente — eles devem estar cansados de esperar.

Levantei e fomos com os passos apertados até a entrada da escola. Congelamos parados no lugar quando encontramos Helena e Carlos conversando animados.

— Faziam séculos que eu não via meu pai rindo daquele jeito! — Gabi comentou surpresa. Ela com certeza não percebeu que estava de boca aberta.

— Faziam milênios que eu não via minha mãe conversar com alguém sem estar fumando algum cigarro.

Eles estavam tão distraídos enquanto riam e conversavam, que quando olharam para a gente ficaram sem graça no mesmo tempo.

Retornamos à caminhada e paramos na frente dos dois.

— Como foi o tour pela escola nova filho? — Mamãe perguntou rindo sem graça.

“Sobre o que será que eles estavam conversando? ”.

— E então filha, como foi? — Carlos perguntou forçando riso enquanto coçava a barba.

Gabi e eu nos olhamos e por mera empatia respondemos juntos:

— Foi legal.

Mamãe e Carlos entreolharam-se como se estivessem pensando: “Vamos embora enquanto a situação não piora”.

— Vamos Gabi! — Carlos apressou-se.

Gabriela se despediu de mim acenando e sorrindo enquanto descia as escadas que davam para a calçada.

“Eu acho que ganhei meu dia, ou até mesmo o meu ano. Meu sonho acabara de se realizar. Acho que virei amigo de Gabriela Monteiro”.

— Está com fome? — Mamãe perguntou.

— Estou!

— Vamos no Mc Donalds. Vi em um outdoor uma nova promoção muito interessante deles e eu sei que você gosta de ir lá.

— Tudo que eu preciso agora, é mesmo de um bom lanche.

— Está tudo bem filho? — Perguntou parecendo se importar, não sei se realmente estava.

— Está sim... agora vamos! Estou com muita fome.

Descemos a caminho do estacionamento onde estava nosso carro.

Tudo que passava em minha cabeça eram pensamentos como: “Será que essa amizade vai durar? Será que o menino do banheiro seria da minha sala? Será que ele contaria para algumas pessoas o que havia visto e, consequentemente em menos de horas a escola inteira ficaria a par do acontecimento? De algo eu tinha certeza: As respostas para todas as minhas perguntas, só a segunda-feira diria.