Como NÃO se apaixonar no colegial
2 Capítulo 1 - Eu estava ferrado
Notas iniciais
Eu estava prestes a beijar um menino que eu conhecera literalmente em uma fila do pão, quando o despertador tocou me fazendo levantar assustado e frustrado.
“Merda”, pensei, “Eu estava quase lá! ”.
Meu celular e o de mamãe estavam com os despertadores sincronizados. Eu mal tinha arrumado a cama quando ouvi a porta de seu quarto abrir. Ela estava indo à cozinha preparar um café especial de primeiro dia de aula na escola nova.
Tomei banho, escovei os dentes, me aprontei depressa e desci à cozinha mudando minha expressão de sério, para feliz instantaneamente. Eu queria que mamãe achasse que eu estava empolgado para ir à escola, e não saber que o filho ficara preocupado durante duas horas na noite passada, pensando se a escola toda riria da sua cara ou não.
Ela estava usando um roupão rosa e seus cabelos estavam amarrados num rabo de cavalo. Sua expressão era sonolenta, mas logo quando me viu, abriu um sorriso incentivador.
— Ansioso Nick? — Perguntou enquanto colocava os queijos e a geleia na mesa.
— Mais ansioso impossível! — Respondi mentalizando sobre a questão de querer descobrir se o garoto do banheiro cairia em minha sala.
— Não vai ser tão ruim assim...
Eu estava rindo interiormente para não chorar exteriormente.
— ... só vá até as pessoas, não espere que elas venham até você. — Disse passando a geleia no seu pão.
Passava em minha cabeça ilusões de que seria fácil simplesmente chegar às pessoas e me apresentar a elas.
“Isso com certeza vai ser tão fácil pra Gabriela... Espera aí, vamos ficar juntos! Quando ela for se apresentar vou me sentir mais à vontade e terminará tudo bem! Meu Deus, mas e se aquele menino contar para todos sobre o que aconteceu no banheiro? ”
— Filho, fico preocupada quando você fica muito tempo olhando para algum lugar sem fazer nada. Está tudo bem? — Perguntou levantando para lavar a mão melada de geleia na pia.
“Droga! Eu estava brizando de novo”.
— Não é nada mãe. Estou tentando lembrar se falta algum material na mochila.
— Ah sim. — Sorriu enquanto abria a torneira e espirrava água por todo lado.
— Droga! — Xingou. — Essa torneira ainda está quebrada.
— Achei que o último encanador que você chamou tinha consertado.
— Aquele cara não sabia o que estava fazendo, tenho que encontrar outro —, riu por causa de toda a situação.
Olhei para meu relógio de pulso, estava na hora de ir. Terminei de tomar o resto do leite com Nescau que tinha na xícara e dar a última mordida no pão com queijo.
— Tenho que ir. — Disse levantando para pegar a mochila em cima do sofá da sala.
— Vai com Deus! Boa sorte!
Eu estava quase saindo quando voltei correndo para a mesa da qual mamãe voltara a sentar e a beijei no rosto com carinho.
Ela deu um sorriso cativante, saí e fui na esquina pegar o ônibus que conhecidamente parava quase que na frente da escola.
***
Desci do ônibus e percebi o quanto aquela escola parecia muito menos assustadora no dia da matrícula, quando não havia quase nenhum aluno.
“Cadê a Gabriela? Vou me matar aqui! Quando será que vai passar um carro correndo para que eu possa me jogar na sua frente? ”.
A escola tinha como entrada um portão de mais ou menos oito metros de comprimento, logo a frente havia uma escada de cimento que terminava numa porta dupla transparente que dava para o corredor principal do prédio. Neste prédio ficava a secretaria, a biblioteca, o teatro e mais outras coisas. Nenhuma sala de aula ficava lá.
Parei e fiquei de pé na calçada, sem entrar pelo portão ainda, encarando os alunos conversando uns com os outros: alguns alegres, outros parecendo discutir e dois meninos que passaram esbarrando em outro parecendo ser de propósito.
— Aqui é o inferno. — Falei em voz alta sem perceber.
— Calma, é só uma escola! — Disse uma voz rindo debochando.
Me assustei e quando olhei para trás, vi que era a Gabriela.
— Caramba que susto eu levei. Não faz mais isso. — Ri para parecer que eu não tinha ficado incomodado.
— Faz muito tempo que você chegou aqui?
— Não faz muito não.
— Está com medo?
— Não, e você? — Respondi tentando parecer corajoso.
— Você não sabe fingir —, riu — Ah sei lá, não sei se estou com medo. Vamos ver no que vai dar!
Eu realmente queria ter o tipo de pensamento otimista que Gabriela tinha. De certa forma, seria mais fácil para ela, afinal, praticamente todos os jovens do meu bairro antigo conheciam Gabriela Monteiro.
Começamos a andar devagar inicialmente. Quando terminamos de subir todos os onze degraus, nosso andar pareceu aumentar de velocidade, provavelmente era por causa do nervosismo somado com o meu e o dela, sim, olhei para seu rosto e ela estava ligeiramente nervosa.
De todo o extenso corredor, parecia que eu e Gabriela éramos celebridades andando em algum tipo de desfile. Todos mantinham os olhos em nós, ou nela, mas prefiro acreditar que eram em nós mesmo.
Depois de andarmos um pouco pelo corredor, passando por todos aqueles olhos de animais famintos nos acompanhando, tudo que eu conseguia pensar era se eu veria o menino do banheiro e se ele me reconheceria, e então, minha cabeça começou a se preocupar se ele estava contando para todos.
“Meu Deus! Será que todos estão olhando para mim? Tipo, me imaginando caindo no banheiro? Aquelas duas meninas ali no celular com certeza estão mandando mensagens para todos da escola. Ai caramba! Será que estou preso num filme escolar americano? ”.
Olhei para Gabriela, ela passava encarando todo tipo de pessoa. Todos os meninos babavam ao olharem para ela, enquanto as meninas, bem, seguravam os vômitos quando olhavam para mim.
Passou um garoto de olhos azuis em nosso lado, ela piscou para ele.
— Você tá brincando né? — Sussurrei ironicamente procurando manter minha cabeça reta olhando para frente.
— Vamos aproveitar nossos primeiros minutos de fama! — Riu, enquanto acenava para dois meninos aleatórios parados em um armário logo a frente. O da esquerda até deixou seus livros caírem no chão.
Continuávamos andando e o corredor da morte, que eu havia nomeado em minha cabeça, não terminava de jeito algum, muito pelo contrário, a cada passo ele parecia se esticar infinitamente.
Finalmente, chegamos à porta dupla transparente que dava para o grande pátio.
Antes de abrirmos a porta, discretamente olhei para trás e percebi que quase todas as garotas nos olhavam com inveja, Gabriela era muito bonita, enquanto os garotos nos olhavam com suas bocas abertas.
“Caramba. Como eu queria ser desejado assim”, pensei.
Eu ainda não tinha achado o menino do banheiro. Talvez ele fosse apenas um visitante, provavelmente não era um aluno. As mesmas chances que existiam de ele estudar naquela escola, eram as mesmas de que ele estivesse apenas a visitando no dia da matrícula.
Quando saímos pela porta e finalmente paramos no pátio, quase ninguém nos percebeu chegar, mas quando começamos a andar, era como uma fileira de dominós caindo e derrubando o próximo, cada aluno, de um em um, parava o que estava fazendo e nos encarava.
— Estando com você do meu lado faz parecer tudo tão mais fácil —, comentei lançando um pequeno sorriso enquanto andávamos para o centro do pátio.
Gabriela riu.
— Olá, vocês são alunos novos? — Disse uma garota que pousou bruscamente em nossa frente com um sorriso que terminava em sua testa.
— Sim! — Respondeu Gabriela sorridente.
— Ah sim, claro. Vocês já sabem a sala de vocês?
— Não —, respondi procurando participar da conversa também.
— Vocês são do...?
— Primeiro ano, — Eu e Gabi respondemos juntos.
— Ah ok, perfeito, com certeza, sim, claro. — A garota com um estilo hippie e óculos grandes falou enquanto eu e Gabi nos olhávamos segurando o riso. — É só ir naquele prédio ali —, continuou apontando para o prédio da direita. — Lá no hall, vocês encontrarão um painel onde estarão coladas as listas das salas, basta vocês verem em qual os seus nomes estão.
— Muito obrigada! — Gabriela agradeceu sorridente.
A garota sorriu mais ainda e olhou para baixo.
— Ah, garoto, cuidado com os seus cadarços desamarrados! — Alertou.
Olhei para baixo para me certificar que estavam realmente desamarrados, e adivinha, estavam.
— Nossa, obrigado por me avisar! — Agradeci.
A garota sorriu e foi recepcionar outros novos alunos que estariam por vir.
Começamos a andar em direção ao nosso prédio.
— Você não vai amarrar? — Gabi perguntou preocupada.
— Relaxa, eu amarro quando chegar na sala —, respondi rindo.
— Então tá.
— Gostei da roupa dela, bem colorida e alegre —, comentei esperando que Gabriela concordasse.
— Ela é meio louquinha... gostei dela!
Estávamos a cada passo mais perto da entrada. Era tudo muito bonito e bem cuidado. O branco das paredes era branco mesmo, e não amarelado. Eu nunca tinha visto uma escola como aquela antes na vida.
Todos continuavam a olhar para nós. Eu já estava mais confiante e não ligando mais para todos aqueles olhares, eu me sentia importante, mesmo que no fundo eu soubesse que todos estavam encarando Gabriela.
Quando olhei rapidamente para trás, vi que o garoto de olho azul que Gabi havia piscado no corredor, estava nos perseguindo com a boca aberta.
“Será que se eu gostasse de meninas, eu acharia Gabriela tão bonita assim também? ”, imaginei.
Virei para frente para continuarmos andando para entrarmos no prédio.
O menino do banheiro já não mais me importava. Estava tudo indo bem que se algo acontecesse, eu não me importaria. Aquele dia seria inesquecível e eu conheceria muitos amigos dos quais eu levaria para o resto da vida. Pelo menos era o que eu esperava.
Entramos. O hall era até que grande, tinham vários bancos de madeira em seu centro. Logo a frente, haviam duas escadas largas que davam para os andares seguintes. As paredes eram revestidas com azulejos brancos e vermelhos. Nos arredores, os armários eram vermelhos e embutidos na parede. Logo perto das escadas, tinha uma lousa com rodas com bastante papéis colados, alguns alunos estavam parados os lendo.
Desta vez, os alunos que estavam lá nos olharam quando entramos, mas logo em seguida voltaram ao que estavam fazendo.
Começamos a andar em direção à lousa.
Naturalmente, olhei para os lados para avaliar o ambiente e ver as pessoas. Foi quando eu olhei para a direita e vi o menino do banheiro conversando com um grupo de amigos. Ele estava com a camiseta do uniforme por baixo de seu moletom preto com o logotipo da escola. Sua mochila azul estava apoiada em seu ombro esquerdo. Ele conversava sorridente.
“Merda”.
E então, ele olhou para mim.
“Ai, meu, Deus! ”.
O meu mundo parou. Eu estava rezando todas as orações das quais havia lembrado em minha cabeça para que ele não lembrasse do que tinha visto no último sábado. Ele foi a primeira pessoa que olhara especialmente para mim naquela manhã.
Ele lançou um sorriso discreto e então, balançou a cabeça enquanto retornava o olhar a seus amigos.
“Puta merda, ele lembrou”.
Eu estava perdido em meus pensamentos quando tropecei no maldito cadarço e cai no chão, só que desta vez, eu não havia caído de bunda, eu havia caído de quatro.
Lá estava eu, de quatro encarando o chão sem saber o que fazer. Rapidamente, fiquei de joelho e olhei em minha volta. Todos estavam sérios, eu realmente não estava acreditando o porquê de ninguém estar rindo.
Gabi chegou ao meu lado e me ajudou a levantar.
— Ai que merda —, Gabi sussurrou rindo baixo para mim.
— Eu sei né, — correspondi rindo também.
Procurei dar mais uma olhada em volta para me certificar de que ninguém estava rindo. Encontrei o garoto do banheiro e ele sorriu quando percebeu que olhei para ele. Era como se o menino estivesse me enviando uma mensagem telepática do tipo: “Você vive caindo sempre? ”.
Todos voltaram a fazer o que estavam fazendo como se nada tivesse acontecido. Olhei para trás e o garoto com olhos azuis estava rindo muito com seu grupo de amigos, eles olhavam para mim toda hora, provavelmente estavam fazendo piadas idiotas entre si. Pelo menos, os únicos que entendem as piadas idiotas, são os próprios idiotas.
Gabi percebeu que fiquei incomodado quando olhei para trás, e então, entendeu o que estava acontecendo.
— Parece que encontramos os babacas da escola! — Disse fazendo cara de nojo.
Acho que o garoto fechou a cara quando notou que ela olhou com desgosto para ele.
— No lugar deles eu estaria rindo também da situação, relaxa.
Continuamos a andar e chegamos na lousa. Começamos a procurar nossos nomes nas listas.
— Achei o meu! — Gabi disse entusiasmada —, Primeiro ano A, sala um.
Fiquei nervoso, eu queria muito que Gabriela Monteiro ficasse junto comigo.
Convenhamos, meu dia estava sendo um lixo. Fiquei dias pensando no que aconteceria se a escola toda descobrisse que eu tinha caído no banheiro, e então, eu simplesmente caio no hall principal daquele prédio. Estava tudo indo tão ruim que eu e Gabi nunca iríamos cair na mesma...
— Merda, — eu disse — Estamos na mesma sala!
Gabriela ficou entusiasmada, alegrou-se e em segundos havíamos esquecido do que tinha acontecido.
— Meu Deus, não acredito que vamos ficar juntos o ano inteiro! — Comentei animado e com esperança de que tudo ficasse melhor.
— Sim, eu sabia que tínhamos que ter fé! Nós não nos matriculamos na mesma escola à toa.
Nos abraçamos. Eu estava gostando bastante dos abraços de Gabi, sempre quis ter esse tipo de relação com ela. Muitos caras sonhavam em abraça-la e não podiam, e eu, bem, eu estava tendo esse privilégio.
— Esse ano quero fazer coisas loucas! Coisas que eu nunca tenha feito antes. Quero fazer esse ano valer a pena! — Gabriela disse enquanto terminava o abraço, ela estava determinada.
— Está bem então! — Sorri para apoiá-la e dar esperança para fazê-la continuar com a ideia.
Olhei ao redor e o garoto do banheiro não estava mais lá. Toda vez que eu pensava nele ou o via, eu sentia calafrios e frios na barriga.
Ele tinha cabelos pretos estendidos por um topete grande bagunçado. Seus olhos eram verdes misturados com castanho. Ele era magro e um pouco mais alto que eu. Aquele garoto parecia ser ligeiramente tímido, como aquelas pessoas que depois que você as conhece acabam sendo as melhores pessoas que você vê na vida. Olha, pensando bem... até que ele era bonitinho.
O sinal tocou. Gabi e eu começamos a subir as altas escadas. Ela estava focada procurando algo em sua bolsa quando o garoto de olhos azuis passou batendo seus ombros nos meus. Eu ignorei, ele provavelmente tinha perdido o equilíbrio ou simplesmente não tinha me visto.
“Será que o garoto do banheiro era da minha sala? ”, pensei.
Entramos na sala. Eu sentei na terceira carteira da fileira que era encostada na parede da porta da sala, Gabi sentou logo atrás.
A medida que os alunos iam entrando, eu ia procurando esperando o menino do banheiro entrar.
“Qual será o nome dele? Não sei porque, mas eu quero muito descobrir! ”.
Há dois dias atrás, eu estava torcendo para que ele não caísse na mesma sala que eu, e então, agora, eu estava triste caso ele não caísse nela.
De todos os males, o pior tinha acabado de entrar. Quando o garoto de olhos azuis entrou pela porta, senti um frio na barriga, mas este era diferente, era como se um suspiro de medo estivesse entrando através de minha nuca e percorrendo em todo meu corpo pela coluna. Ele sorria para várias garotas diferentes enquanto elas pareciam se derreter ao vê-lo.
Fiquei o encarando sem perceber. Ele estava indo em direção ao fundo da sala para se juntar com alguns garotos que conhecia. Quando ele chegou em uma carteira, ele tirou sua mochila das costas e ao coloca-la em cima da mesa, olhou para mim e soltou um sorriso malicioso ao sentar.
Gabi ainda estava procurando algo em sua mochila. Vários meninos da sala estavam olhando para ela. Provavelmente estavam procurando coragem para pedir seu número de celular.
— O que você está procurando? — Perguntei deixando escapar.
— Não estou encontrando o meu estojo.
— Caraca, você esqueceu logo o principal? — Ri para tentar fazê-la rir também.
Gabriela correspondeu o riso, acho que foi para eu não ficar sem graça.
— Posso te emprestar alguma caneta, sempre ando precavido.
— Nossa, obrigada mesmo! — Disse finalmente parando de revirar a mochila.
— Sempre que precisar de qualquer coisa, pode me pedir!
— Tudo bem.
Gabi colocou a mala no chão, colocou seus cadernos debaixo da mesa. Peguei uma caneta azul, uma preta e outra vermelha do meu estojo e coloquei em sua mesa. Enquanto o professor não chegava, começamos a jogar conversa fora.
***
A professora entrou, um pouco atrasada. Ela era magra e usava óculos grandes. Seus lábios eram finos e seu cabelo liso amarrado em coque. Usava um grande vestido amarelo com flores vermelhas. Sua rasteirinha era muito bonitinha.
Ela parou no meio da frente da sala, virou para todos os alunos e sorriu durante uns quinze segundos encarando cada um.
— Bem-vindos estudantes! — Saudou alegre.
Sua voz era muito linda. Era como se estivesse cantando uma melodia alegre em cada palavra que saía de sua boca.
— Espero que tenham um bom ano letivo!
“Acho que o meu não será muito bom não”, pensei.
— Meu nome é Alessandra, mas podem me chamar de Ali. Serei sua professora de Artes!
Ela parecia transmitir luz para as vidas escuras naquela sala, era como se não existisse tristeza em sua vida. Em seus olhos, uma luz de esperança brilhava forte e cada palavra que dizia, soava como um discurso de motivação.
— Que olhos azuis lindos! — Gabi sussurrou enquanto Ali explicava alguma coisa relacionada ao ano letivo na disciplina de Artes.
— Parece o azul do céu! — Falei com os olhos arregalados parecendo estar vendo um anjo, bem na minha frente.
Ali parecia ser um bom ouvido amigo. O modo de como falava com todos era como se estivesse falando com um amigo muito próximo. Ela me fazia ter confiança nela. Naquele momento, senti que seríamos grandes amigos algum dia.
— Bom —, a professora disse batendo as duas mãos uma na outra, como se tivesse batido uma palma sem querer. — Vamos fazer a chamada!
Ela andou até sua mesa, sentou em seu banco confortável, cruzou os tornozelos um no outro, pegou a lista de chamada e começou a citar os nomes.
Eu encarava todos que respondiam a chamada a fim de tentar memorizar seus nomes. Os alunos tinham bastante nomes variados, alguns comuns e outros que eu nunca tinha ouvido antes. Descobri que o garoto de olhos azuis se chamava Antoine.
Todos olharam para Gabriela quando ela respondeu a chamada. Ela parecia não se importar, mas também não parecia gostar.
Quando chegou minha vez, Antoine e alguns meninos começaram a rir entre si, aquilo me desconcentrou até ouvir pela segunda vez meu nome ser chamado, e então respondi.
Revirei os olhos e voltei a olhar para frente. Gabi pareceu se importar.
Percebi que a professora parou por alguns rápidos segundos, encarou os garotos por cima dos óculos, e então retornou à chamada.
Os meninos pararam de rir e Antoine olhou para mim sério. Quando percebi que eu estava o encarando, virei novamente para frente.
A professora finalizou a chamada, levantou de sua mesa como uma dama saindo de sua carruagem com cavalos brancos, e caminhou até a frente novamente.
— Vamos começar o ano mexendo com tinta? — Disse alegre. — Vamos para a sala de artes para que todos façam uma pintura representando suas férias de modo geral.
Alguns alunos, inclusive eu, pareceram ter gostado da proposta de atividade, enquanto outros, a acharam patética.
— Isso parece uma atividade de segunda série —, disse um aluno qualquer do fundo.
— Bem —, Ali disse com uma expressão pensante —, então esta atividade é totalmente adequada para alguns alunos desta sala —, concluiu sorrindo caminhando em direção da porta para abri-la.
Todos da sala se entreolharam não acreditando na resposta magnífica que a professora tinha dado.
Antoine fechou a cara, e em seguida, pareceu querer me matar.
Quase a metade da sala tinha saído quando eu e Gabriela nos levantamos a caminho da porta. Ali olhou discretamente para mim e piscou sorrindo. Sorri de volta.
Chegamos no segundo andar. Estávamos caminhando até a sala de Artes que ficava no fim do corredor, quando Antoine passou esbarrando em mim mais uma vez.
— Cuidado por onde anda —, debochou — Você pode acabar se machucando. — Terminou, e então piscou para Gabriela antes de virar para frente.
— Ele é intenso —, disse Gabriela — pena que é um completo idiota infantil.
Eu não sabia o que falar ou expressar, portanto não fiz nada.
— Se ele continuar fazendo esse tipo de coisa, podemos cuidar disso juntos, do meu jeito. — Gabriela falou olhando maliciosamente sorridente para mim.
Deixei escapar uma risada um pouco alta, mas depois tampei minha boca com as mãos.
Entramos na sala, seguimos as orientações de Ali, e começamos a pintar. No final, acabei desenhando um pato feio e triste.
***
Após a aula de matemática, a nossa segunda do dia com um professor que parecia estar bêbado, pegamos nossos lanches e fomos para o café da manhã. Confesso que senti um breve frio na barriga ao lembrar que talvez eu veria o garoto do banheiro novamente.
No hall do nosso prédio, tinham dois corredores: um para a direita e o outro para a esquerda. O da direita dava para os banheiros. O da esquerda levava ao refeitório, um ambiente grande com várias mesas e cadeiras para os alunos sentarem e lancharem. No final dele, tinha um balcão de cantina onde eram vendidos salgados assados e sucos de todos os sabores possíveis.
O refeitório estava cheio. Parte das seis salas de primeiro ano estava lá, o resto estava distribuído pelo hall, banheiros e pátio.
Finalmente, Gabi e eu encontramos uma mesa com quatro cadeiras para sentarmos e comermos nosso lanche.
— Que bom que o almoço e o lanche da tarde são servidos de graça —, comentei rindo enquanto desembrulhava o pão com queijo do papel alumínio.
Gabriela riu.
Comecei a observar todo o refeitório e nada de encontrar o garoto.
“Será que eu estou começando a gostar dele? ”, pensei, “Acho que não. Deve ser alguma paranoia minha”.
— Está procurando alguém? — Gabriela perguntou levando seu bolinho de chocolate à boca.
— Não —, respondi rindo tentando disfarçar. — Eu apenas estou vendo os alunos que verei durante o ano inteiro.
Gabi pareceu engolir a pior desculpa que eu dera na minha vida.
De repente, um garoto e uma garota, muito parecidos um com o outro, pararam do lado de nossa mesa. Ambos se vestiam praticamente iguais em relação aos acessórios. Eu nunca tinha visto duas pessoas com a postura mais ereta que a de eles dois.
— Podemos sentar aqui? — O garoto perguntou esperançoso.
— O refeitório está cheio, não tem lugar para sentar. — Completou a garota.
— Claro! — Gabi permitiu.
Ambos sentaram felizes.
— Eu sou a Lisa! — Disse a garota.
— E eu o Louis. — Concluiu o garoto.
— Vocês são irmãos? — Perguntei meio que já sabendo a resposta.
— Nossa, como você descobriu? — Lisa falou parecendo estar assustada.
Gabi e eu nos olhamos e rimos.
— Eu sou o Nicholas, e ela a Gabriela. — Eu nos apresentei enquanto Gabi mastigava o último pedaço do bolinho.
— Deixa eu adivinhar —, disse Louis. — Vocês são irmãos?
Gabi e eu rimos mais um pouco.
— Não, — Gabi respondeu. — Nós dois somos amigos... — Riu.
— Você não é bom nessas coisas Louis —, disse Lisa.
Era impossível parar de rir naquele momento. Ambos os irmãos nos olharam sem saber o que estava acontecendo, mas, de qualquer jeito, não pareciam se importar.
Toda a mesa ficou em silêncio, só era possível ouvir o barulho de todos os alunos conversando um com os outros. Eu retornei a procurar pelo menino do banheiro no refeitório, olhei para todos os lados, mas não o encontrei.
“Eu preciso saber o nome dele”, pensei.
Quando terminei de tomar meu suco, senti uma vontade enorme de ir no banheiro. Eu precisava correr ao até ele antes que mais uma catástrofe acontecesse naquele dia.
— Vou no banheiro! — Disse levantando da mesa.
Gabriela balançou a cabeça e me jogou um olhar do tipo: “Obrigada por me deixar sozinha com esses dois estranhos na mesa”.
Sorri agradecendo e andei rápido até os banheiros.
Cheguei. O banheiro parecia vazio e, desta vez, avaliei o chão para verificar se estava molhado.
Entrei numa cabine, abaixei a calça e comecei a mijar. Era como se eu estivesse liberando um peso enorme do qual eu carregara durante anos através do meu, bem, você sabe.
— Minha nossa senhora, que alívio! — Falei alto não me importando, pois, o banheiro estava vazio.
Eu estava quase terminando quando um som de descarga ecoou da cabine ao lado da minha.
“Merda! ”.
Se eu ganhasse um real cada vez que eu dissesse “merda” num dia, em uma semana eu estaria milionário.
Terminei, apertei a descarga e ouvi o barulho de torneira ligando.
“Vou sair, foda-se, meu dia não tem como ficar pior”.
Bem, ficou.
Quando saí da cabine, eu tivera um déjà-vu do último sábado, quando usei o banheiro do prédio principal no dia da matrícula.
Quem estava lavando as mãos era, nada mais, nada menos, que o próprio garoto do banheiro.
— Cuidado para não cair de novo hein! — Disse o garoto rindo enquanto colocava sabonete líquido em suas mãos.
Eu não consegui dizer nada, tudo que consegui fazer, foi pegar a faca que estava em meu bolso direito e passar em minha garganta, brincadeira, tudo que consegui fazer foi andar até a torneira do lado do menino.
— Você tem que prestar mais atenção por onde anda! — Riu.
— Eu costumo ser desastrado —, respondi rindo também para parecer simpático e alegre.
“Ai meu Deus, eu estava conversando com o Garoto do banheiro, não tinha como eu ficar mais feliz, mas, de qualquer modo, eu precisava descobrir o nome dele o mais rápido possível! ”.
Enquanto ele lavava as mãos, eu o encarava como se estivesse admirando uma obra-prima na parede de um museu na França. Eu estava com todas as minhas forças procurando coragem de algum lugar dentro de mim para pedir seu nome, mas eu não conseguia.
— O que você está achando da escola? — Perguntou enquanto enxaguava as mãos ensaboadas. Era claro vê-lo sorrindo.
“Aaaah! Ele está perguntando o que eu estou achando da escola!!!”
Por dentro, eu estava gritando, rindo, chorando e voando, mas por fora, eu estava, bem, não demonstrando nada.
— Bem, digamos que até agora não aconteceram coisas que me alegrassem. — Respondi com o rosto sério, como se aquela conversa não estivesse significando nada para mim.
— Ah sim. — Disse enquanto desligava a torneira e caminhava em direção aos papéis para se enxugar. Seu rosto agora estava sério.
“Ai meu Deus. Será que ele ficou chateado por eu ter ficado sério? Eu sabia que era uma péssima ideia parecer desinteressado. Mas e se ele quisesse ficar comigo? Mas e se ele gostasse de meninas? Nossa, quantas perguntas, acho que devo estar brizando de novo, como sempre”.
Eu não conseguia olhar para outro lugar a não ser para o Garoto do banheiro.
Quando ele jogou o papel no lixo, foi então que eu soube que eu realmente precisava pedir seu nome naquela hora ou nunca mais. Com as mãos molhadas e a pia quase transbordando de água por eu tê-la deixado ligada tempo demais, eu perguntei quando o garoto estava abrindo a porta para sair:
— Qual é o seu nome?
Ele sorriu, mas não era um sorriso nítido, apenas era possível perceber se alguém prestasse muita atenção, ele provavelmente tentara disfarçar.
— Pode me chamar de Etch.
“Etch? Isso é um nome ou um apelido? ”
Antes que eu pudesse tirar a dúvida, ele saiu. Desliguei finalmente a torneira, enxuguei as mãos e tudo que eu conseguia pensar era:
“Acho que eu estou gostando dele, mas ele com certeza gosta de meninas”.
Procurei esquecer o que tinha acontecido no banheiro, eu não podia me iludir logo no primeiro dia de aula, mas eu ainda estava querendo sair de lá pulando de alegria, e é claro que, eu nunca seria louco o suficiente para fazer isso.
Peguei o papel, enxuguei as mãos e retornei à mesa no refeitório. Gabi estava rindo bastante com os dois irmãos.
— Perdi alguma coisa? — Perguntei curioso.
— Você perdeu, não vai acreditar nas histórias que esses dois me contaram sobre eles! — Gabi disse quase que não conseguindo falar de tanto rir. — Eles roubaram as carteiras de quase todo mundo em uma festa que eles foram, e ninguém percebeu! Eles são ótimos espiões e ladrões. — Riu mais um pouco.
— Acredite, não perdi nada, muito pelo contrário, ganhei muito! — Comentei deixando escapar.
Finalmente Gabriela parou de rir e olhou para mim curiosa.
— Aconteceu alguma coisa?
Eu queria muito falar com ela sobre aquilo, eu confiava nela, mas se tratando do tipo de assunto, eu teria que esperar por mais alguns dias. Era angustiante não poder contar a ninguém meus sentimentos, como o calor que eu nunca havia sentido antes ao conversar com alguém.
— Não aconteceu nada. Agora, me contem mais sobre esses lances de espiões ladrões.
Todos pareceram acreditar, eu estava melhorando nas mentiras.
Gabriela riu quando retornou a olhar para eles. Daquele momento até o intervalo acabar, os dois irmãos continuaram contando histórias sobre eles.
Por fora, Lisa e Louis pareciam dois jovens incapazes de fazer algo errado, mas depois das histórias que ouvi, nunca mais julguei alguém pelas aparências”.
O sinal tocou e, naquele dia, eu não encontrei mais com Etch em lugar nenhum.
***
O último sinal do dia tocou. Juntei meus cadernos e livros em meus braços para que eu pudesse leva-los até meu armário, que por sinal, ficava no mesmo corredor que minha sala.
— Finalmente, três e dez da tarde! — Gabriela comentou enquanto saíamos da sala para irmos ao meu armário.
— Sim! Vai dar tempo de sobra para fazer a lição de casa de Biologia. — Ri.
— Que droga, primeiro dia de aula e já nos passam lição de casa para fazer. — Gabriela reclamou enquanto apoiava-se no armário ao lado do meu para me esperar guardar as coisas.
— É o ritmo do ensino médio, temos que nos acostumar. — Eu disse enquanto acompanhava Gabriela até o seu armário que ficava alguns metros longe do meu.
— Gostou do seu primeiro dia de aula? — Gabi perguntou enquanto guardava seu último caderno.
— Ah, o dia não começou muito bem, mas depois...
— Depois o que?
— É... depois, bem, o dia inteiro foi ruim. — Respondi tentando consertar o que eu havia começado a falar.
— Ah sim...
Ou eu estava realmente ficando bom com mentiras, ou Gabriela que fingia acreditar nelas.
— Bem, de qualquer forma, te vejo amanhã. Não esquece de trazer o estojo hein!
— É mesmo, me certificarei de não esquecer de novo. — Riu.
Fomos até a calçada, nos despedimos com beijos nas bochechas e cada um foi para um lado para pegar o ônibus.
***
Quando cheguei em casa, mamãe estava lavando a louça com a torneira consertada.
— Conseguiu encontrar alguém que consertasse a torneira? — Perguntei enquanto colocava a mochila em cima do sofá.
— O pai daquela menina lá —, respondeu tentando lembrar o nome — Gabriela, isso, Carlos, o pai da Gabriela que consertou para mim.
— Vocês andam conversando bastante um com o outro ultimamente? — Perguntei tentando arrancar respostas rápidas e objetivas.
— Não —, Riu — De onde você tirou essa ideia filho?
Ela estava mentindo.
— Não sei mãe, apenas me veio à cabeça —, respondi começando a subir as escadas.
— Ei, espera aí!
Desci e fui para o centro da sala. Dava para vê-la perfeitamente na cozinha que era logo à frente. A sala era dividida da cozinha por uma parede aberta, como uma cozinha americana.
— Como foi na escola? — Perguntou, novamente parecendo se importar.
— Foi legal.
Em conversas com mamãe, procuro ser bem objetivo ao responder esses tipos de perguntas.
— Fez amigos?
— Sim.
— Inimigos?
— Não, — menti enquanto mentalizava Antoine na cabeça.
— Então seu primeiro dia deve ter sido bem interessante. Eu lembro que quando eu estudava, os meus primeiros dias na escola sempre acabavam...
Enquanto ela falava, eu subia as escadas para chegar ao meu quarto. Ela deve ter ficado falando sozinha durante minutos.
Cheguei, tirei os sapatos, deitei na cama e não consegui pensar em mais nada além da conversa que tive com Etch. Era impossível não pensar em seu rosto, seus olhos, os movimentos que fazia com a boca enquanto falava e até mesmo de como eram aparentes as raízes de suas unhas.
“Até que ele é bonito”, pensei. “Ai meu Deus, ele é muito gato”.
Pelo menos era o que eu achava dele em minha cabeça. Se eu fosse uma garota, acredito que eu não o acharia tão bonito assim, mas algo nele me chamou a atenção, eu só queria saber o que era.
Vários pensamentos vieram, tais como: eu caindo no hall, Antoine implicando comigo e Etch sendo a minha primeira paixão naquela escola, ou talvez, na minha vida. Pena que provavelmente ele gostava de meninas.
Depois de muito tempo refletindo sobre todos estes assuntos, cheguei à seguinte conclusão: Se era uma coisa que eu estaria naquele ano, era ferrado.
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