Elisabeta não se surpreendeu quando Charlote apareceu no jornal dias depois. Na verdade, ela ansiava pela visita da amiga. Era final de expediente e elas poderiam ir conversando até o cortiço. Charlote gostava de conversar com Elisabeta, seu pai a prendia bastante em São Paulo e ela aproveitava as ausências dele para ver Elisa e também Josephine. A diferença é que enquanto a nova amiga era misteriosa, Elisabeta era transparente.

Quando Elisa contou no cortiço o que houve, Camilo ficou chocado e disse que procuraria o amigo assim que sua mãe retornasse ao Vale. Mas Charlote avisou que Lorde Williamson exigiu a presença de Darcy imediatamente no Vale do Café.

Elisa, eu espero não estar incomodando, na verdade eu gostaria de ter vindo antes, mas meu pai estava aqui e demandou muito de mim. E de Darcy. Charlote falava enquanto elas seguiam para uma confeitaria. Charlote dizia que Archiebald intimou Darcy a ir para o Vale com ele, para ver a ferrovia. Ela resolveu ficar em São Paulo e gostaria de saber como a amiga estava.

Surpresa. Elisabeta respondeu calmamente enquanto tomava um chá. Não teve coragem de contar a amiga como chorou por ele não reconhecê-la, ou o quanto seu coração parecia se rasgar inteiro ao encontrar Darcy como se nada houvesse existido entre eles. — Nem em minhas suposições mais cruéis imaginei que ele perderia a memória e não se lembraria de mim, da gente.

Ele quer almoçar conosco para lhe devolver o caderno de anotações. Charlote piscou para ela.

Charlote, eu não acho que seja uma boa ideia. Na verdade, eu nem preciso daquele caderno, eu e Cosme estamos investigando as denúncias de qualquer jeito. Além do mais, se eu estivesse no lugar de Darcy, ao me lembrar de tudo, ficaria decepcionada com as pessoas que forçaram nossa convivência. Elisabeta tentou explicar a Charlote que não seria justo, mas a irmã de Darcy dizia que o médico era contra contar a Darcy o que ocorrera, mas não de permitir que ele revesse as pessoas e lugares. Talvez isso ativasse algum neurônio e as memórias voltariam.

Para Elisabeta a solução era ela não procurar Darcy, se algum dia ele recuperasse as memórias, quem sabe, eles conversariam. Ela ficou sabendo que os Williamson estavam pensando em não continuar a construção da ferrovia. Xavier estava incomodando Julieta quanto as fazendas de Café e havia um certo impasse no Vale, eram as palavras de seu pai. Seria o fim, para ela e para Darcy. Ele a havia esquecido, literalmente. E mesmo que se lembrasse, o último momento deles havia sido feio e cruel. Era realmente para esquecer.

Elisabeta também, se pudesse, escolheria esquecer que sequer o conheceu um dia. Estranho que mesmo pensando assim seus olhos se enchiam de água. Maldito sentimento que aparecia sem avisar, ela se dizia. Darcy longe sem dar notícias não saia de seus pensamentos, Darcy por perto, desmemoriado, também não. Mesmo com interações breves ela ainda podia se lembrar de como ele faz bem a ela, seus olhos carinhosos, o sorriso verdadeiro. Ela, nem se quisesse, não conseguiria esquecê-lo. Os beijos, os abraços, até as discussões. Ela gostava das lembranças, mesmo que doessem agora.

Darcy voltou do Vale do Café para São Paulo com múltiplos sentimentos. Seu pai mais atrapalhava, que ajudava, na administração da ferrovia, o que o deixava irritado. E ele se viu deixando a obra a cargo de Vicente para trazer o Lorde de volta a capital.

O Vale não o fez relembrar nada de concreto. Seus sonhos de desespero ficaram mais nítidos, algo que ele identificava como uma explosão, discussões, raiva, até uma calça masculina rasgada. O vermelho dos seus sonhos também se intensificou, inundava seus sonhos como uma enchente, era uma nuvem, ou uma nevoa, que sempre o envolvia. Então ele notou uma evolução, o vermelho começou a aparecer para salvá-lo dos perigos. Ele queria se apegar a este fato, mas tudo o confundia e então surgiam dores de cabeça, como se ele forçasse uma parte de sua cabeça que não queria ser incomodada. Talvez ele realmente precisasse procurar o psiquiatra indicado pelo médico da capital.

Algumas pessoas do Vale foram vê-lo na ferrovia, Dona Agatha, Aurélio, Xavier, mas sempre no intuito de fazer fofoca, como se para conferir que ele de nada se lembrava. E ele se sentia refém destas pessoas que ele não tinha certeza se gostava ou não. Nada de útil saía daquelas conversas. A tal Dona Agatha, por ex, queria que Darcy não se sentisse preterido, que muitas moças no Vale eram interessantes e quando ele acreditou que ela soltaria um nome a tal Susana Adonato entrou na sala e mudou o assunto. Essa era outra que o cansava. Por um momento ele chegou a pensar que havia sido ela a partir seu coração, mas não ele não sentia ser verdade. Ao contrário, ele sentia que ela ficava feliz com sua amnésia, querendo enredá-lo romanticamente ao lado dela.

De todas as novidades uma, que ninguém fez questão de esconder, o assustou. Ele soube que o Uirapuru havia feito mal a outra menina, a duas meninas da mesma família, mas seu pai havia pago a polícia para encontra-lo. Não foram bem-sucedidos, por isso o embuste estava desaparecido. O que representava um perigo para Charlote. A ideia de seu pai era retornarem a Inglaterra o mais rápido possível e nunca mais pisarem neste pais. Algo que Darcy considerava sensato.

Mas um outro sentimento tomou conta do peito de Darcy, a construção da ferrovia o agradou. Ele se sentiu vivo, as pessoas pareciam gostar do serviço, e até dele, ele havia feito algo que não contaram, mas uma ação que impressionou seus funcionários. A obra seria um grande acontecimento, faria diferença naquele lugar. Traria progresso. Ele queria fazer parte dessa mudança, acreditava num mundo melhor, mais justo para todos. E enquanto seu pai fazia planos para retornarem, ele pensava em ficar até tudo estar pronto. Seu pai não ficaria muito feliz, aparentemente ele tinha vindo ao Brasil para ver uma enrascada amorosa em que Darcy se metera.

E esse era o outro assunto que Darcy se pegava pensando. Quem diabos havia partido seu coração? Ele havia feito um pedido de casamento e havia sido recusado. Aparentemente isso deu a ele motivos para voltar para a Inglaterra. Era tudo tão fora do seu padrão de comportamento nessa história que Darcy chegava a duvidar. No entanto, quando tentava conversar sobre esse assunto com seu pai ou mesmo Julieta, eles desconversavam dizendo que na hora certa ele se lembraria. Nem mesmo sua irmã falava algo sobre o tema, dizendo que algumas coisas era melhor ser passado.

Quem teria sido essa mulher que o havia arrebatado? E porque o rejeitaria? Ele sabia que não era um homem asqueroso, ao contrário, ele agradava a muitas mulheres. Era sempre limpo, bem apresentado, uma fortuna considerável. O que será que havia acontecido?

Ele precisava encontrar Camilo, seu amigo com certeza não negaria essa informação a ele. No entanto, Julieta não falava mais com Camilo, que havia se casado com uma moça, Jane. Demoraram a contar para Darcy o nome da moça. Será que ele a conhecia? Deus, será que ele a pediu em casamento e ela preferiu o amigo? Faria algum sentido ele partir. Em São Paulo ele procuraria Camilo com urgência. Ele precisava ir em busca destas informações.

A chance de encontrar o amigo veio por acaso.

Darcy foi procurar o Dr Celso, psiquiatra indicado pelo Dr Wagner, quando avistou Camilo caminhando a passos rápidos. O consultório do médico ficava numa parte afastada da cidade, em uma rua movimentada por um cortiço. Haviam milhares destes imóveis em São Paulo. Darcy sabia que famílias moravam ali, um simples quarto para várias pessoas. Não era o melhor tipo de moradia, mas a situação precária de alguns brasileiros imigrantes e pós escravidão não os dava outra opção.

Estranhou quando viu Camilo sair de um lugar como aquele. Primeiro achou estar ficando louco, a consulta com Dr Celso o cansara profundamente. O médico havia feito muitas perguntas e alguns exercícios, no intuito que a memória de Darcy retornasse. Mas toda aquela situação só causou dor de cabeça a ele. Dr Celso disse para não desanimarem, que como os exames não apontaram danos físicos ele acreditava que Darcy estava bloqueando estas memórias, por algum trauma. Era para ele começar a anotar todos os sonhos, para então analisarem juntos.

Darcy parou pensar sobre isso quando avistou o amigo. Camilo também estava mais magro, roupas gastas e uma aparência de pobreza o acompanhava. Darcy gritou por ele, que recebeu de volta um enorme sorriso.

Darcy, Darcy, não sabe a alegria que invade meu coração ao te reencontrar. Sabia que voltaria ao Brasil. Eu sabia. Camilo abraçava Darcy com muito carinho e muito fervor.

Ah, Camilo, tanta coisa me aconteceu neste tempo. Você sabe que eu não me lembro de nada, não é? Minha última memória com você é nossa conversa sobre eu vir para o Brasil. Eu nem estava inclinado a aceitar. O que me fez mudar de ideia?

E então Camilo chamou Darcy para o bar do Seu Manoel, um portuga simpático e ótima comida. Eles conversaram e Darcy contou para Camilo os meses em Londres, os problemas com sua tia, o retorno. Camilo pensava que a perda de memória do amigo era uma certa tapeação, um teatro para despistar Archiebald, e, diante do fato ser verdade, ficou sem saber como agir. Ainda mais quando Darcy contou que estava se tratando com um psiquiatra e o que o médico havia dito, que algum trauma estava atrapalhando o retorno de suas memórias. Camilo apenas contou que ele e Darcy vieram para o Brasil para empreender, que o amigo havia ficado tentado após Camilo contar dos planos para o escoamento do café, do progresso que isso traria a região. Então Camilo passou a contar da própria vida, da felicidade de rever Darcy e relembrou a chegada deles, de sua paixão por Jane, seu casamento e briga com a mãe, o que Darcy julgou ser passageiro, embora Camilo já não tivesse mais esta certeza.

Camilo, eu iria mesmo me casar? Darcy de repente perguntou. Ao que parece esse sentimento estava bloqueando suas memórias e ele precisava saber.

Sim, meu amigo. Eu nunca o vi mais apaixonado. E Camilo teria cedido a sua intuição e contado tudo se não fosse surpreendido por Jane e Elisabeta chegando juntas ao bar.

As irmãs estavam conversando sobre a vida quando a mais nova convidou a mais velha para uma bebida e um bom papo junto ao jantar desta com o marido, Elisabeta disse que acompanharia a irmã até o bar e voltaria para o quarto. A Benedito mais forte e decidida da família estava passando por muitos dilemas. Darcy sem memória era o maior deles, ainda mais com Charlote querendo reaproximá-los, o que ela não achava justo, embora seu coração dissesse para deixar o orgulho de lado e refazer a história deles. Ele não se lembrava, então era como um livro novo. Mas Elisa rebatia, dizendo que ela sabia, que correto seria ela contar a ele. Mas contar a ele iria fazê-lo sofrer novamente. Por não saber que decisão tomar, no momento, ela ficaria afastada e quem sabe, ao se lembrar, Darcy a procurasse.

Mas ficou surpresa por encontrá-lo no bar com Camilo. Temendo que Camilo houvesse contado a história ela se preparou para perguntas, que não vieram. Ao contrário, Darcy sorriu para ela com as melhores intenções e disse eufórico:

Senhorita Benedito. Curioso que a encontre sempre no universo de todos os meus amigos. Ele a cumprimentou com um beijo na palma da mão. Era a primeira vez que ele a tocava desde então, e ambos ficaram arrepiados. Elisa por precisar admitir a falta que sentia dele. E Darcy por cada vez mais ter consciência do quanto aquela mulher capturava o seu interesse. Ele sequer notou com quem ela estava, os olhos dela o chupavam feito um zoom. No entanto ele notava que ela sempre ficava arredia sua proximidade, então se recompôs e deixou que Camilo apresentasse as outras damas.

Camilo se casou com Jane que era irmã de Elisabeta, que também era amiga de sua irmã. Não era preciso somar dois mais dois para ele saber que ele já a conhecera anteriormente. Ele gostaria de se lembrar qual interação tiveram, se o seu coração sempre dava cambalhotas por estar ao lado dela, como acontecia agora, enquanto comiam e conversavam calmamente num bar perdido num bar da periferia de São Paulo.

Seria Elisabeta a mulher que partira seu coração? Faria um certo sentido, ela evitava olhar para ele, e quando o fazia, sempre tinha um olhar atônito a sua presença. No entanto algo nessa história não encaixava. Em sua cabeça, uma mulher para recusá-lo deveria não o amar, ter uma total aversão a sua presença. E ele sentia que não era o caso ali. Elisabeta podia tentar evita-lo, mas ele sentia que ela se sentia capturada por ele, quanto ele por ela. Ele investigaria isso com ela na primeira oportunidade.

Eles jantaram todos juntos e Camilo convidou Darcy para “conhecer” o cortiço. Se Darcy ficou decepcionado não demonstrou, mas diante do quarto precário do amigo o presenteou com moveis novos. Era o mínimo que ele poderia fazer enquanto Camilo se reestruturasse. Jane agradeceu bastante e Darcy finalmente reparou na esposa do amigo. Camilo casado e ele havia perdido este enlace. O amigo encontrou uma mulher muito bonita e tão doce quanto ele. Sequer parecia irmã do furacão que estava ao lado dela. Enquanto Jane era serena, Elisabeta era tempestuosa. Era o que ele sentia em todo o seu corpo estando naquele lugar com ela, Elisabeta parecia o mar revolto que ele deve ter pego no navio ido em direção a Londres. Ele a sentia acuada, por isso quando ela se despediu alegando cansaço Darcy também aproveitou o boa noite e a seguiu para fora do quarto dos amigos. Nenhum dos dois do casal fez qualquer menção de segui-lo, mas ele chamou por Elisabeta, queria falar com ela, sem nem bem saber o porquê.

Senhorita Elisabeta, será que poderíamos ter uma última palavra? Ele falou não se aproximando dela. Ele pensava em convidá-la para descerem, afinal de contas o decoro o impedia de entrar no quarto de uma mulher solteira e sozinha, mas Elisabeta não parecia ligar para estas convenções e abriu a porta do quarto dela para que ele entrasse.

Darcy observou o ambiente. O quarto de Camilo já era bastante precário, embora o tamanho comportasse ele e a esposa por enquanto, mas o quarto de Elisabeta era menor do que o do amigo. Não havia banheiro e apenas uma pequena janela ventilava o local. Era pequeno, escuro e diante da inspeção dele Elisabeta o questionou, o fazendo admitir suas impressões.

Me perdoe, Senhorita, mas este não é o melhor ambiente sequer para um casal, quem dirá para uma moça solteira. Ele quase se arrependeu das palavras, mas o olhar dela não mostrou raiva e sim reconhecimento.

Em primeiro lugar, retire o senhorita. Elisabeta está de bom tamanho, Darcy. E em segundo lugar, o cortiço é um lugar adequado para qualquer pessoa honesta, solteira ou casada. Ela não falou com raiva, era um ar confiante e desafiador que mais encantava do que chateava Darcy. E ele se viu pensando em travar uma discussão com essa mulher fascinante sobre a vida que ela levava e teria feito isso, se o assunto que o levara ali não fosse outro.

Sim, mas estranhamente você parece saber que minhas palavras não tiveram a intenção de ferir os princípios deste lugar. Darcy pausou, medindo as próximas palavras. Nós já nos conhecíamos. Foi uma afirmativa.

Oh meu Deus, você se lembrou? Elisabeta olhava Darcy com lágrimas nos olhos.

Não, infelizmente nada do que vivi no Brasil me vem à cabeça. No entanto, tudo na senhorita me soa familiar. Ele não queria se aproximar tanto, mas quando percebeu Darcy já estava perto o bastante para sentir o cheiro de Elisabeta. Algo nela o tirava do lugar e diante da cabeça dela balançando positivamente que o conhecia ele tocou seu rosto. E foi a melhor sensação dos últimos meses para Darcy. Sua outra mão pareceu ter vida própria e enlaçou a mulher a sua frente pela cintura, trazendo-a para mais perto ainda, como se não fosse possível controlar a distância. Elisabeta tinha a mão espalmada no peito de Darcy e o teria beijado, se fosse o certo a fazer. Mas sua consciência falou mais alto e ela o afastou com cuidado. Ela não poderia brincar com os sentimentos desse homem. Darcy não faria isso a ela. Se não tivessem um passado ela o teria beijado com paixão, dado a vontade que ela possuía no momento, mas ela era outra mulher agora. Sua impulsividade precisava ser controlada, ainda mais quando o assunto era ele. Quando magoava tanto.

O que houve entre nós, Elisabeta? Ele sussurrou no ouvido dela, surpreso que um sentimento tão poderoso existia dentro dele.

Algo para esquecer, Darcy. Ela sussurrou de volta, virando de costas para ele.

Me conte.

Não há nada para contar. Nós temos diferenças intransponíveis. Ela ainda olhava para a parede, com medo de encará-lo. Com medo de dizer tudo que vinha de seu coração no momento, que gostaria de estar com ele, se ele estivesse disposto a entende-la. Mas pelo olhar dele no cortiço ela já soube que não era possível.

Darcy também não soube o que dizer. Ele buscava desesperadamente algo para se lembrar, de bom ou de ruim, mas nada vinha a sua cabeça. Exceto a mulher a sua frente, o quanto era bom estar próximo a ela.

Nenhuma boa lembrança. Eu realmente lamento. E realmente ele lamentava, porque não parecia justo com o que ele sentia. Ele poderia não entender o nome e o tamanho, mas a mulher diante dele despertava dentro do seu peito um sentimento inexplicável. Mas aparentemente nela algo muito maior e negativo imperava.

Então Darcy saiu do quarto de Elisabeta decidido a deixar o passado, no passado. Ela era o coração partido e se sem se lembrar, doía, imagina recordando o que de fato aconteceu.