Como Esquecer ?!
7 Capitulo 7
Depois daquele dia, Elisabeta mudou.
Primeiro ela se culpava pela covardia, por não ter coragem de dizer a Darcy sobre o não ao pedido inapropriado. No entanto o sentimento continuava ali, ela o amava. E não sabia o que fazer com esse sentimento diante do total esquecimento dele. Ela poderia se aproveitar desse fato e recomeçar, como Charlote as vezes sugeria. E Jane também aventou. Mas ela não sentia que era justo, fosse ela sem lembrar, e Darcy fizesse algo parecido, ela ficaria enfurecida. A decisão que ela tomou foi não contar nada a ele, nem de bom, nem de ruim. Se ele teve a sorte, ou o azar de esquecer, algum sentido havia. Ela não iria interferir.
Elisabeta se afastou de Charlote, evitava jantar com Jane e Camilo e se afundou ainda mais no jornal. A investigação no porto quase deu cadeia, não fosse Cosme sempre ao seu lado era possível que ela tivesse passado dos limites e o caldo teria entornado. Venâncio a chamou um dia para uma conversa seria, disse que ela parecia sem controle e que isso não estava fazendo bem a ela e ao jornal. Deu a ela uns dias para descanso, sugeriu que ela passasse uns dias com sua família. E que na volta talvez ele tivesse uma surpresa.
Agora Elisa e Seu Felisberto observavam a paisagem na varanda de casa, no Vale. Jane e Cecilia estavam casadas, Mariana quase se acertando com Brandao e Lídia carregava em seu ventre um filho do Uirapuru. Uma bomba na família Benedito que Ofélia tentara mascarar casando a filha mais nova com um militar que não aceitou. Agora o gago Randolfo tentava novamente conquistar a Benedito espevitada.
Felisberto entendia a filha e tentava respeitar seu tempo, mas Elisabeta estava calada. Algo tão distante da personalidade dela que ficava evidente o sofrimento. Ele pensou em falar com Darcy pessoalmente, já que ficou sabendo que o inglês retornaria ao Vale por estes dias, mas não achou conveniente. No entanto, deixar Elisabeta quieta partia seu coração. Era preciso que ela falasse, com ele, ou com Ema, mas que ela fosse capaz de colocar para fora o que a incomodava.
— O que tanto você escreve, minha filha? Ele começou solícito.
— Um prospecto de um futuro livro, quem sabe. Mas eu escrevo e reescrevo, mas a história não avança.
— Então é um romance. Ele concluiu.
— Pai, por favor, já tivemos essa conversa. Ela se defendeu.
— Não tivemos conversa nenhuma, Elisabeta. E isto me preocupa, eu quero realmente ouvi-la. Felisberto falou carinhoso, sem querer invadir o espaço de sua primogênita, mas realmente entender o que a afligia.
— Eu não tenho nada para falar, pai. Esse é o problema. E era mesmo, para Elisabeta existia o debate. Ela aceitaria um Darcy raivoso de volta, acusando-a, ela saberia se defender, ela atacaria, eles brigariam. Mas agora era diferente, Darcy estava vulnerável. E diante disso ela se sentia perdida. Darcy era um homem feito, sempre parecera a ela que ele sabia tomar as decisões e cuidar de si mesmo, então estavam em pé de igualdade. No entanto, caberia a ela controlar a impulsividade e aprender como trata-lo. Elisabeta era uma mulher que seguia os seus instintos, raramente sua razão ganhava a briga. – Eu não imaginava que o tivesse magoado tanto. A ponto de ele pegar um navio para ir embora. A ponto de seu cérebro querer me esquecer.
— Jane disse que ele se interessa por você, mesmo sem se lembrar. Inclusive esteve te procurando no cortiço novamente.
— E eu posso me aproximar e machucá-lo novamente. E também não me aproximar e machucá-lo ainda mais. Eu quase o matei. Elisabeta respondeu e Felisberto entendia o problema. Sua filha não imaginava o tamanho da consequência do seu não, ainda mais quando ela amava o namorado. Ela imaginava que eles conversariam, reatariam, não que ele passasse por um acidente, que ele quase morresse.
— Você sempre socorreu Darcy. O salvou de uma explosão, minha filha. Passou dias intermináveis trabalhando para encontrá-lo. Mobilizou a ferrovia para encontra-lo, e se não me engano, vocês também estavam brigados naquela época. O que muda agora?
Elisabeta sorriu para o pai. O que mudava agora era que ela não poderia errar de novo. Eles estavam sempre metidos em confusão de vida e morte. Foi assim desde o início, no acidente de carro, no sarau de Camilo, na explosão da mina. Ela não era uma boa influência na vida de Darcy.
Seu pai riu da explicação dela, dizendo que amar é sempre um risco. E Darcy é quem avaliaria se ela compensava os perigos. Se ela permitisse. Mas Elisabeta deu um beijo em seu Felisberto, pegou tornado e foi dar uma volta no morro, no seu morro.
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Archiebald queria retornar a Inglaterra o quanto antes, quando soube do que Margareth fez ao filho sua raiva se inflou e ele gostaria de pegar Charlote e zarparem de volta ao pais natal. Um absurdo que sua irmã enviasse um telegrama dizendo que Darcy não voltaria ao país, enquanto o mantinha prisioneiro até que ele possivelmente se cassasse com sua filha. Sequer ajudou seu filho a recuperar as memórias, ao contrário, se aproveitava da situação. Ela merecia ser expulsa de Pemberley, se ainda estivesse por lá, e severamente punida por tratar seu filho da forma como o fez.
O lorde Williamson só não partiu imediatamente porque Darcy ainda não estava ciente de todas as suas memórias e ele ainda desconfiava que essa Elisabeta, que partira o coração do filho, representava perigo. O Uirapuru por exemplo, havia feito mal a duas irmãs delas, duas. Uma delas carregava um filho. Que tipo de família essa moça possuía? Não era nem de longe uma mulher para um Williamson.
Archiebald conhecera o pai da moça, um pobre coitado em sua opinião. Um pobre coitado de muita personalidade, coisa que Charlote já dissera que a filha também possuía. A moça era jornalista, vivia metida em confusões para cobrir matérias e escrevia uma coluna que estimulava a liberdade feminina. No entanto seu filho pediu essa moça em casamento, não avaliou adequadamente seus modos para ser uma Williamson. E se essa garota fosse uma golpista manipuladora, o enlaçaria novamente, porque ele notava que Charlote tinha bastante afeição por Elisabeta. Archiebald sequer quis conhece-la, embora a filha falasse maravilhas da quase cunhada, até Julieta, que não tinha qualquer afeição pela mulher do próprio filho, dizia que Elisabeta era admirável.
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Darcy contara a Charlote que sabia que Elisabeta era a mulher que partiu seu coração. Ele não se lembrava, mas os encontros sucessivos e seu coração lhe disseram. A irmã contou que a amiga não falava sobre o assunto e ele admitiu que nem mesmo com ele Elisabeta se abriu. No entanto ele concordava com a irmã, fosse qual fosse o motivo da negativa ao pedido de casamento, não foi falta de amor. Elisa parecia amá-lo, ele sentia, sua irmã sentia, Camilo sentia. Qual seria o problema deles?
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Archiebald continou pressionando Darcy para retornarem à Inglaterra, mesmo não se desfazendo da construção da ferrovia. Vicente parecia competente o suficiente para concluir o serviço, tudo correria bem, em um ano possivelmente Darcy poderia voltar para inaugurarem o trem. Mas o filho disse não. Disse que o pai estivesse à vontade para retornar, mas ele ficaria no Brasil até se lembrar, talvez para sempre, ele não sabia. E que se Charlote quisesse, poderia ficar com ele. Mesmo com o perigo do Uirapuru, ele cuidaria da irmã. Seu pai ficou possesso com essa possibilidade, mas Darcy o lembrou de que a irmã não era mais uma menina que podia ser controlada e mandada conforme a vontade deles.
Para evitar uma briga maior ainda, Darcy retornou ao Vale.
Ele já queria fazer isso a um tempo, estar na ferrovia o dava uma sensação boa, como se fosse útil e soubesse o que fazer. E agora que sabia que Elisabeta era a mulher que partira seu coração, ele gostaria de estar na cidade dela e começar a tentar entendê-la. Dez minutos num quarto de cortiço junto a ela e todo o seu corpo sabia, ele pertencia a ela, de uma forma tão natural que é como se ele não vivesse até o momento em que ela surgira na sua vida. Ele sabia porque a pediu em casamento. Ele a amava. Mesmo que não se lembrasse, seu coração tinha certeza, ele não se via com nenhuma outra mulher na vida. Dr Celso ficou surpreso diante desta afirmação. Foi uma consulta confusa, Darcy passara a anotar os sonhos no caderninho de Elisabeta, já que ela não o queria de volta. Ele sonhava com um morro, um cavalo quase o mordendo, desejo. O psiquiatra acreditava que em breve Darcy teria suas memórias de volta, mas era preciso paciência e investigação. Então sugeriu que ele retornasse ao Vale, local onde passou bastante tempo no Brasil. E que uma vez lá ele se permitisse uma imersão no local.
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Era quase fim de tarde e Darcy estava vendo os funcionários irem para casa. Vicente perguntou se ele queria mais alguma coisa e ele disse que não, apenas olhava a paisagem em volta quando seu funcionário disse que a vista mais bonita da ferrovia era do morro a frente. Que o projeto da ferrovia, inclusive, contemplou não destruir o local.
Darcy resolveu conferir. Ele ficava entediado fora do serviço. A casa de Julieta era sempre escura, ou tinha Susana sempre o importunando com galanteios e conversas que em sua maioria ele considerava mentiras.
Ele optou por deixar o cavalo e caminhava pelo descampado admirando a paisagem. O pequeno vale lá embaixo e sua construção como uma cicatriz em meio as montanhas. Era realmente lindo, se parecia bastante com o morro dos seus sonhos.
Foi quando ele a viu.
A princípio ele pensou que fosse uma ilusão. Mas era realmente Elisabeta Benedito, vestida toda em vermelho.
Como ele nunca reparou? Ela era o vermelho dos seus sonhos, o envolvendo, o salvando, sempre uma sensação boa.
Ela estava deitada debaixo de uma arvore, na sombra, olhos fechados. Uma sensação imensa de deja vu o invadiu, embora nenhuma imagem se formasse. Apenas um sentimento de pertencimento aquele lugar e aquela mulher. Ele pensou em surpreende-la, abaixar-se e beijar as faces coradas dela. Iria fazer isso quando viu o cavalo. Ele parou, não era um cavalo de raça, ao contrário, parecia o mais legitimo pangaré que ele já vira. E também parecia já velho, cansado, no entanto ele ficou encarando o cavalo.
Tornado. Era o nome do cavalo. Tornado. Ele acabou gritando, assustando Elisabeta. Ele foi em direção ao cavalo, como se cumprimentasse um velho amigo. Tornado.
— Darcy ? Elisabeta se levantou depressa e um tanto surpresa por vê-lo ali em seu morro. Ela se lembrou do beijo que trocaram meses atrás. Tanto para se afastar e o acaso sempre os colocava juntos. Talvez fosse destino. Ela nunca podia deixar de se sentir bem ao vê-lo, quanto mais negava a si mesma, mais seu coração a desmentia. Agora, por ex, ele batia fervorosamente diante do homem que a observava e falava o nome do seu cavalo.
— Tornado. Ele se chama Tornado. Ele se chama Tornado, como o vento que invadiu o navio onde eu estava. Oh meu Deus, foi um tornado. Ele sentou no chão sentindo-se tonto.
Elisabeta correu para socorre-lo. Darcy tinha a testa suada e coração acelerado. Ela o encostou na arvore, afrouxou sua gravata e retirou o paletó e o colete. Pediu para que ele respirasse calmamente enquanto fazia movimentos circulares com seus dedos em seus ombros, na intenção de relaxá-lo.
Demorou um tempo para Darcy se sentir apto a falar alguma coisa. Ele se lembrava do nome do cavalo dela e do que houve no navio. Lembrava-se de olhar pela janela e ver nuvens pretas e uma formação de rodamoinho vindo em direção ao navio. Ele sorria bobamente, ele se lembrou de algo.
Elisabeta continuava ao seu lado, uma sensação boa tê-la tão próximo. Um bem querer, um aquecimento. Ele entrelaçou suas mãos e deixou a cabeça no colo dela, fechando os olhos por um momento. Disse que nada mais vinha a cabeça.
— Não se cobre. Ela falou com mão livre passando pelos cabelos de Darcy. Uma familiaridade boa, uma saudade saciada. Eles ficaram em um silencio confortável por um tempo.
— Eu sonho com você. Darcy falou, a conclusão chegando obvia a sua cabeça. Os olhos ainda fechados. Não com seu rosto, mas desde o acidente eu sonho com vermelho. Um pano, uma nuvem, sempre vermelha, me protegendo, me amparando. Ele sorria.
— E o que te faz pensar que sou eu esse vermelho, Senhor Darcy? Ela se divertiu, já sabendo a resposta. Era algo que Ema sempre dizia, ela era um vermelho ambulante.
— Você não varia muito as cores do seu vestuário, Elisabeta. Ele abriu os olhos, para encontrar o par azuis dela o encarando de volta. Lindos. Ela continuava acariciando seus cabelos, uma sensação de paz os invadindo.
Ele não precisou perguntar se já haviam estado ali antes, ele sabia que sim. Com o tempo ele se lembraria se foi algo bom ou ruim. Mas não parecia ser uma má lembrança, porque alguém viria a um lugar de lembranças ruins? Resolvendo que não iria forçar este assunto, pediu a ela para contar a história desse morro, o que significava para ela. Elisabeta contou, não só deste morro, mas de todo o vale. Das cachoeiras, das trilhas, do sitio, da cidadezinha, do seu refúgio. Do seu lugar.
— Eu lutei tanto para ir embora daqui, no entanto quando precisei me reenergizar, não havia outro local para onde eu iria.
Darcy apenas sorriu diante da frase dela. Ele podia não se lembrar, mas não era o único que passava por transformações. A mulher a seu lado não parecia feliz, ela falou sobre o trabalho que amava fazer, sobre a independência, no entanto ela estava aqui, no meio do nada, longe de todos, para pensar na vida.
Eles desceram do morro juntos e Darcy quis acompanhá-la até em casa. Elisabeta não disse não, ela queria a companhia dele.
Dona Ofélia tentou fazer gracinhas, mas Felisberto a conteve e Darcy ficou para o jantar. Não passou em brancas nuvens ao pai de Elisabeta o olhar mais calmo da filha, menos carregado. Ela parecia mais leve. Darcy contou que se lembrou o nome do cavalo de Elisabeta e que o navio onde estava foi surpreendido por um tornado. A família Benedito conversou amenidades, fez piadas e Darcy olhou maravilhado em como uma família brasileira se comportava tão diferente de sua família inglesa. Todos sempre tão sérios e sisudos, comendo silenciosos ao passo que ali era sempre muito barulho e nenhuma formalidade.
Ele já havia comido sobremesa e tomado café quando disse que precisava ir embora.
Elisabeta o acompanhou até a pontezinha sobre o lago, que dava para a porteira de sua casa. Darcy parou no meio da estrutura, pegou na mão de Elisa e beijou, desejando bons sonhos. Ela riu, dizendo a ele o mesmo, mas que se maus sonhos o atingissem o vermelho o protegeria.
— Eu sempre fico aguardando. E levava um sorrido bobo no rosto ao sair.
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Os dias no Vale se tornaram menos pesados para Elisabeta, ela agora conseguia escrever boa parte do tempo e em outra parte ela e Darcy visitavam alguns locais, talvez para reativar sua memória.
Darcy continuava tendo sonhos que não faziam muito sentido, mas depois de se lembrar de Tornado passou a levar muito a sério suas anotações. Qualquer cochilo com alguma imagem ele já escrevia no caderninho.
— Elisabeta, tem certeza de que não precisava mesmo do seu caderno de anotações. Eu, meio sem querer, li o que estava escrito nas primeiras páginas. Ele falou meio sem jeito. Ela achou gracioso da parte dele falar que havia lido anotações sobre denúncias e sobre o próprio cortiço. Em como seria mais interessante haver um chuveiro com água quente e uma limpeza dos lixos, quanto custaria e como traria benefícios a todos.
— Fico feliz que esteja sendo útil para você, Darcy. Ela dizia enquanto tomavam um chá, sob os olhares perspicazes da fofoqueira oficial do Vale do Café. Ela e Darcy fingiam não notar as indiretas que Dona Agatha jogava sobre eles, perguntando se já estava superado, se retomariam o compromisso. Eles não respondiam, mas as vezes Darcy sentia vontade de conversar com Elisabeta sobre eles. Ela se esquivava e eles mantinham uma certa amizade, que ele juraria sem interesses da parte dela se as vezes não a pegasse olhando para ele. Eram sempre olhos felizes quando ele chegava no final da tarde a sua casa, para conversarem na varanda e ela o levar para um passeio. Ele acostumou-se a jantar com os Benedito, se afeiçoou a seu Felisberto e até ao jeito expansivo de Dona Ofélia, que sempre pedia desculpas pela recusa da filha.
Darcy as vezes só gostaria que ela dissesse o porquê de ela dizer não, para que ele avaliasse se valia a pena pedir para reatarem, mas nunca aparecia o momento certo. Ele gostava de estar ao lado dela, ele se sentia vivo, seu coração corria rápido quando ela abria um sorriso gigante ao ver o embaraço dele diante de uma situação que ele já devia conhecer. Inúmeras vezes ele pensava em beijá-la e ele sabia que o retorno de Elisabeta para São Paulo era iminente, ela havia conversado com Venâncio e o editor precisava dela para uma matéria sobre uma importante médica brasileira. O emprego no jornal era importante para ela, ele perceberia mesmo que ela não contasse diariamente para ele, com uma empolgação que ele tinha prazer de assistir.
Ele estava dizendo que era admirável ela fazer tudo isso, ele não entendia muito bem, mas respeitava as escolhas que ela fazia para a própria vida. Davam a ela consistência, verdade. Ela era a mulher mais corajosa que ele conhecia, foi o que ele disse a ela enquanto decidiam que torta comeriam de sobremesa. Elisabeta disse gostar da torta de limão, favorita inclusive de Jane, quando Darcy teve um flashback. Ele viu Jane oferecendo um jantar onde ele e a mulher a sua frente discutiram sobre as qualidades que a mulher ideal deveria ter.
Junto com a memória o mundo dele balançou, sorte que estava sentado, o que evitou sua queda. Elisabeta perguntou se estava tudo bem e ele apenas acenou que sim.
— Você não é mesmo uma esposa para o marido se vangloriar com as galinhas e os porcos.
Elisabeta o olhou espantada, mas Darcy parecia calmo, como se começasse a entender alguma coisa que ela já sabia. Na verdade, Darcy ligava os pontos, se Elisabeta não o amasse, o teria rejeitado e se recusaria a ficar próximo a ele. No entanto, durantes estes dias no Vale, não deixaram de se ver. A renúncia dela não foi falta de amor. E amor era algo que ele suspeitava que eles jamais deixariam de sentir um pelo outro.
— Pareceu um jantar adorável. Darcy concluiu. Elisabeta apenas sorriu para ele:
— Pois depois daquele jantar, intimei Jane a irmos embora. Não suportava mais a sua presença.
—Você não me parece uma mulher que foge de um combate, Elisabeta.
— Como pode ter tanta certeza, você não se lembra? Ela provocou, combativa.
— Você está aqui agora. Mesmo sem me dizer que diferenças instransponíveis nós possuímos, você parece gostar da minha companhia.
Elisabeta sorriu se lembrando do início do interesse deles, foi uma época gostosa, em que as brigas apenas escondiam o que sentiam um pelo outro.
No entanto, ela pensava, uma hora Darcy vai se lembrar dela dizendo que ele seria o último homem com quem se casaria.
Olhando para ele assim, na sua frente, aberto e disposto a estar com ela, parecia mentira que ela tivesse coragem de dizer aquilo. Ele apenas era um homem do seu tempo, com os anseios do seu tempo. Ela não, ela estava presa num século errado. Nunca daria certo. Quanto mais ela trabalhava no jornal, ganhava notoriedade e independência, ela sentia que um relacionamento teria que ser sacrificado. Que nenhum homem a entenderia.
Mas Darcy continuou comendo sem se importar com a memória da empáfia dela, feliz pela lembrança e com a presença dela em sua vida. E pensando que tudo que ele gostaria era lembrar, como o gosto dela. Se as lembranças não chegassem logo, ele pensava, iria beijá-la só para saciar a curiosidade.
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