Elisabeta havia acabado de escrever sua coluna e se preparava para voltar para casa. Todo dia a mesma rotina. Venâncio se preocupava com ela, que era uma ótima profissional, mas não parecia se interessar pela própria vida. Ela havia lhe contado que rejeitou um pedido de casamento, mas não deu maiores detalhes. Desde então ela havia decidido focar no trabalho, era seu discurso. E ela fazia isso bem, as vezes mais do que o necessário, em horas exaustivas e se embrenhando em todos os assuntos. De denúncias a receitas de cozinha, Elisabeta queria saber de tudo. Venâncio achava que ela era uma ótima aquisição do jornal, mas uma jovem tão bonita merecia viver. Não poderia se esconder por um coração partido.

Cosme era um colega de trabalho do jornal, da mesma idade que Elisabeta. A princípio Venâncio observou a interação deles e percebeu que o jovem suspirava pela jovem, eles se davam bem e o editor pensava que quem sabe, no futuro, essa interação virasse um relacionamento. Mas Elisa parecia não notar o interesse do amigo. Venâncio pensou que um empurrãozinho não faria mal, então combinou com eles que fariam algumas matérias juntos a partir de então.

Ao saírem da sala ele ia indicar que eles começassem com um jantar em comum, mas então Venâncio avistou uma amiga inglesa de Elisabeta. Ela vinha de vez em quando, Charlote, ela se chamava. Ela e Elisa iam a confeitaria e conversavam bastante. Um momento de meninas. Ela era uma garota fina, rica, dava para perceber. E Elisabeta não dizia o que tinham em comum. Ele se despediu das garotas e as viu partirem.

Elisa, fico feliz quando você me recebe. Eu não tenho muitas amigas em São Paulo. E você é sempre vibrante, finalmente consigo entender.

Entender... Elisabeta não fez como pergunta. Ela sabia que Charlote se aproximara mais dela depois que descobriu que ela foi a garota que rejeitou o irmão. A princípio Elisabeta queria deixar tudo em pratos limpos, mas como Charlote nunca mencionava Darcy, Elisa resolveu deixar o assunto quieto. Uma hora essa conversa chegaria, talvez Darcy mandara notícias e explicara para a irmã porque se afastou.

Elisabeta gostava da companhia de Charlote, ela era bem instruída e ambas se viram trocando livros. Certa vez Charlote até fez um trabalho de pesquisa para Elisabeta. E então ela se rendeu a irmã de Darcy, mesmo sabendo que era errado, que o dia em que ele reaparecesse, possivelmente com outra mulher ao lado, essa amizade chegaria ao fim.

Elisa esperava Charlote dizer que entendia porque ela rejeitara Darcy, mas se surpreendeu.

Sim, entender porque você foi a única mulher que meu irmão amou. Charlote falou sorrindo. Ela não fazia ideia do porquê Elisabeta recusara Darcy, quando ele respondesse sua carta ela perguntaria a ele se o pedido havia sido inadequado. O que parecia ser a única explicação. Ela se aproximou de Elisabeta realmente buscando uma amiga e quando Julieta sem querer contou que havia sido a Benedito quem recusara Darcy ela ficou curiosa, mas como a jornalista não falara nada, ela também decidiu não tocar no assunto. Mas agora que ela conhecia um pouco de Elisabeta, se sentia até amiga, era hora de saber deste assunto. Ela podia ver porque seu irmão havia se apaixonado. Você é uma mulher maravilhosa, Elisa. Rara. A gente passa a conviver com você, e seu mundo, e é invadido por um desejo de liberdade, de querer mais da vida. Você nos transforma.

Oh, Charlote, obrigada. Mas eu e seu irmão, quer dizer, ele deve ter amado outras mulheres. Ele .... . Falar de Darcy ainda doía, o que Elisabeta achava um absurdo, ela deveria seguir em frente. Sua vida profissional estava indo tão bem e ela cada vez mais assumia mais serviços no jornal, não era justo ficar emotiva ao pensar nele.

Elisa, eu conheço Darcy de uma vida inteira. Várias mulheres quiseram se casar com ele, mas ele sempre dizia que só se casaria quando encontrasse a companheira certa. Meu irmão é um visionário, acredita num casamento compartilhado. Ideias muito semelhantes as suas. Você nunca falou sobre isso, mas eu não consigo entender. O que deu errado? Charlote pressionou.

Nossas diferenças. Eu não me sentia pronta para um casamento e Darcy não entendeu. Eu queria namorá-lo enquanto me descobria profissionalmente, mas não casar. Então ao recusá-lo nós dissemos muitas palavras duras um para o outro e ele foi embora... Elisabeta terminou de contar a história toda. Mesmo depois de tanto tempo ela não odiava Darcy, nunca odiou. Ela disse a Charlote. Só não foi capaz de dizer que, se fosse mais sincera, era possível que ainda o amasse.

Charlote disse que sua amizade com Elisabeta não dependia de nada além do desejo de ambas. E mesmo que o irmão enviasse notícias, ela não tocaria neste assunto com ele.

Elisabeta duvidava que Darcy fosse dar notícias a eles no Brasil. Possivelmente ele já estava refazendo a vida na Inglaterra e eles só conversariam quando retornassem ao país europeu. E ela, que havia ficado no Brasil, precisava seguir sua vida. Ela estava bem profissionalmente, talvez se a vida enviasse um outro interesse amoroso ela também pudesse ser feliz como Darcy estava sendo com muitas mulheres bonitas ao seu redor, disponíveis para o matrimonio.

Venâncio começou a insistir que Cosme a acompanhasse nas matérias externas com a desculpa de que Elisabeta era uma mulher e poderia sofrer retaliações. Mas ela desconfiou que seu chefe queria ser uma espécie de cupido.

Não é que ela não gostasse de Cosme, ele era um garoto da sua idade, bonito, moreno, cabelos curtos, dedicado e inteligente. Mas ela achava que faltava alguma coisa. As vezes ela mesmo ria, pensando se não faltavam, sei lá, uns 20 cm de altura, uns olhos verdes e um sorriso genuíno que tirava seu ar. Cosme não era Darcy, ela se dizia, Jane dizia e até Venâncio dizia, embora não soubesse quem partira seu coração. Mas o que Darcy despertara nela era muito poderoso para ela trocar por qualquer coisa.

No entanto ela aceitou o pupilo e eles se davam bem.

Hoje, por exemplo, estavam no porto em busca de denúncias sobre maus tratos aos trabalhadores. Ela ouvira no cortiço sobre o assunto e comentou com o seu chefe que gostaria de averiguar.

Infelizmente o local estava completamente cheio de imigrantes, pessoas que desciam dos navios vindos da Europa em busca de oportunidade no Brasil. O lugar estava confuso e barulhento, Cosme já a chamara para irem embora duas vezes, com medo de serem mal interpretados por aquelas pessoas recém-chegadas, mas ela gostaria de tentar uma última vez com a administração.

Aparentemente eles estavam atendendo um viajante ilustre com algum problema na bagagem. Elisabeta já estava impaciente, por isso quando a porta foi aberta ela não pensou direito e invadiu a sala da administração do porto, trombando com uma madame repleta de joias, derrubando-a e causando um reboliço.

O administrador, visivelmente irritado, pôs-se a ajudar sua cliente e dar uma reprimenda nesta jornalista que insistia em falar com ele hoje, justo hoje, onde parecia que todos os nobres da Inglaterra desembarcariam no Brasil.

Senhorita, já lhe disse que hoje não é um bom dia para conversarmos. Sua insistência está atrasando o processo de todos os passageiros que estão desembarcando, indicando uma tremenda falta de respeito com quem está dias no mar e ansioso por chegar em casa, ou recomeçar a vida. Francamente, como jornalista, a senhora deveria ter mais respeito pelas leis.

Francamente digo eu, essa senhora praticamente me atacou, veja o estado que me encontro. A madame dizia aos berros.

Francamente, minha senhora, um simples encontro não causaria maior desconforto. Já lhe ajudei a levantar, recomponha-se e está tudo certo. Elisabeta berrou de volta.

Senhor Gomes, o Senhor precisa dar uma lição nessa jovem, onde já se viu, desacatar assim autoridades e nobreza?

Nessa hora Cosme iria tentar apaziguar a discussão quando viu um dos homens mais altos que ele já presenciara entrar na sala.

Com licença, eu fui informado para procurar Augusto Gomes. Algum problema sobre minha documentação de entrada?

Elisabeta parou.

Depois de meses, ali estava Darcy diante dela. Visivelmente mais magro, uma barba rala cobria seu rosto, olhos cansados e ar perdido.

Sequer a notou.

Por favor, entre senhor. Todas estas pessoas estão de saída. Gomes falou energicamente, ajudando a madame a se retirar enquanto Cosme puxava Elisabeta pelos braços. Ela não oferecia resistência, mas ao chegarem próximo a porta da sala Elisa viu seu caderno de anotações nas mãos da Madame. Debilmente puxou o caderno das mãos da outra, que por pirraça não soltava o item. Temendo uma outra briga Gomes disse para Cosme retirar imediatamente Elisabeta da sala e Darcy, olhando a cena sem entender absolutamente nada, tomou o caderno das mãos da Madame.