Como Esquecer ?!
5 Capitulo 5
Gomes precisava informar a Darcy que a parte inglesa da companhia estava içando o navio acidentado onde ele estivera meses atrás. E caso algum pertence fosse encontrado, ele, Darcy, devia fornecer o endereço para entrega.
Ao sair do porto Darcy ainda não entendia o que havia acontecido com ele ou porque ficara com o caderno daquela jovem. Ela era uma mulher nervosa, mas olhou para ele com olhos assustados. Será que já se viram antes? Ele desceu do navio olhando cada detalhe do lugar, já estivera aqui antes, ficara alguns meses. No entanto, tudo soava como novidade. Assim como ela. Uma agradável novidade, ele admitiu. Uma jovem belíssima. E um tanto quanto esquentada.
Mas estes assuntos não eram para ele no momento. Ele aparentemente tinha uma ferrovia para construir e um coração partido. Nada fazia o menor sentido, do que se lembrava seu pai era terminantemente contra sua vinda ao país de sua mãe. Ele chamava o Brasil de terra odiosa, por ter levado o amor de sua vida. Ele e Charlote, ao contrário, achavam que o país lembrava sua mãe e isso os enchia de boas sensações.
Na viagem para cá os sonhos confusos apareceram. Tanto os de desespero, onde ele parecia tentar se livrar de pedras, quanto alguns agradáveis, como comer pipoca numa rua movimentada. Será que foi isso que ele viveu aqui? Porque não sonhava com quem lhe partira o coração? Ou com a construção de sua linha férrea? A carta de Camilo também não esclareceu muitas coisas, o amigo mandou umas poucas linhas, dizendo para ele não ser tão intempestivo, que tudo se resolveria de outra forma. Mas já que ele havia partido, que ele torcia para ter sido a melhor decisão. Mas caso quisesse voltar, ele tinha certeza de que seria muito bem recebido.
Era estranho olhar as ruas e não reconhecer o que sabia que já conhecia. Talvez por isso sentiu empatia por aquela jovem. Estava claro que ela havia sido impetuosa e um tanto quanto atrevida, mas algo a havia parado e ele resolveu interceder. A madame parecia bem enfurecida e ele sabia como nobres podiam ser desagradáveis com pessoas menos abastadas. Ele mesmo já presenciara e já cometera alguns destes deslizes.
Darcy esperava ter encontrado a jovem misteriosa ao sair da sala da administração. Ele iria lhe entregar-lhe o caderno, mas não havia sinal dela em lugar algum. Ou do outro jovem que a acompanhava e tentava acalmar seus ânimos e depois guia-la para fora.
Agora ele seguia em direção ao endereço Charlote fornecera, sem saber o que esperar. Seu pai, pelo visto, o aguardava para uma bronca que ele sequer sabia do acontecido. E Charlote, ele tinha certeza, ficara feliz em revê-lo após tanto tempo longe.
Antes, porém, de descer na porta da casa de Julieta ele deu uma olhada no caderno. Não havia muita coisa escrita, aparentemente haviam denúncias de maus tratos aos funcionários do local. E algumas palavras soltas. Não havia um nome, para identifica-la. Mesmo assim ele resolveu ficar com o item guardado, havia um cheiro bom, familiar e agradável.
Ele achava que estava ficando louco, mas achava que esse caderno seria um amuleto da sorte.
—
Cosme não soube o que houve, mas retirou Elisabeta do porto sem grande dificuldade. Algo a paralisou e ele não entendia o que havia acontecido.
Ela agora estava quieta ao seu lado, olhar distante, sem ao menos se mexer.
— Senhorita Elisabeta, está tudo bem? Ele perguntou, preocupado. Ela não respondeu, apenas acenou com a cabeça.
Darcy.
Ele estava de volta. Porque ele não a cumprimentou? Pareceu que ele sequer a reconheceu. Ela não havia mudado tanto, nada, na verdade. Apenas usava os cabelos soltos agora, como um símbolo de liberdade. No entanto ele sequer a notara.
Aparentemente ele acabara de chegar. Porque ele voltara?
Ela havia encontrado Charlote e a amiga não falara nada sobre o retorno dele, ao contrário, disse que ele nunca dera notícias além do telegrama.
E naquele dia Charlote ainda falara que podia entender porque Darcy a havia amado. Mas agora Elisabeta duvidava, diante da recepção fria dele, é possível que ele não quisesse sequer falar com ela.
No entanto Cosme continuava perguntando a ela o que havia acontecido. Ela então mentiu dizendo que não estava se sentindo bem, para ele avisar Venâncio que ela iria para casa.
*
— Lorde Darcy, oh meu Deus, quanto tempo. Mercedes o recebeu com um grande sorriso no rosto.
Charlote apareceu correndo.
— Darcy, oh bom Deus, meu irmão. Quantas saudades. Não fazia ideia da vontade que estava de te encontrar. Porque não respondeu minhas cartas?
— Charlote, temos muito o que conversar. Ele falou sério e então sua irmã percebeu os detalhes. Uma magreza que ele nunca havia adquirido, olhos confusos e um ar perdido. Ela se acalmou, esperou o irmão levar as coisas para o quarto, tomar um banho e comer, para então conversarem. Ela avisou que o pai e Julieta estavam no Vale do Café.
Darcy contou que um dia acordou num hospital, onde disseram que ele estava num navio que sobreviveu a uma tormenta. De todas as sequelas apenas uma mais grave. Um completo esquecimento dos últimos meses. A última coisa que ele se lembrava era de ter encontrado Camilo e o amigo o ter convidado para vir ao Brasil.
Ele omitiu, conscientemente, o que Lady Margareth havia feito a ele. Era uma conversa para ele ter com o pai, quando voltassem a Inglaterra para punir a parente adequadamente. Ele apenas disse que não havia condições de vir antes ao encontro deles. Que ficou uns dias em Pemberley com a tia, mas que agora se sentia pronto para descobrir o que havia feito no Brasil.
Mencionou que sabia que havia ficado no Brasil, iniciado a construção de uma ferrovia, pedido uma mulher em casamento, sido rejeitado e havia ido embora.
No entanto ele não se lembrava de absolutamente nada desse país.
Charlote o olhava sem acreditar. Parecia um filme que o irmão estivesse ali alheio a tudo. Ela ainda questionou se ele não se lembrava de nada, nada mesmo. E diante da atitude positiva dele ela não teve coragem de falar além do óbvio e tomou a decisão óbvia e mais necessária no momento, o levou ao médico após ele descansar a viagem.
— Bem, Senhor Williamson, aparentemente o senhor não apresenta grandes sequelas. Sua cabeça não apresenta cicatrizes de cortes. O que pode ter acontecido foi que o trauma causou uma amnésia recente. Eu acredito que a medida que sua vida voltar à normalidade suas memórias retornarão. O Dr Wagner era um médico tão alto quanto Darcy, embora mais largo. Conversou com o inglês sobre os exames que eles fariam no hospital, por isso ele ficaria uns dias internados, mas que aparentemente estava tudo bem.
— O que podemos fazer para ajudar Darcy nesse processo de relembrar o passado? Podemos contar a ele histórias que sabemos? Era Charlote perguntando, mas o médico disse que não. Que contar a Darcy sobre um passado que ele não se lembrava poderia causar mais estresse, e ao invés de facilitar, dificultaria a volta dos acontecimentos. Eles poderiam, sem dizer a ele, colocar Darcy em contato com lugares e situações que ele já deveria conhecer. Ele indicou um amigo para Darcy fazer um tratamento alternativo para sua amnesia. Dr Celso era pouco tradicional, tinha um consultório mais afastado, mas Darcy poderia fazer grandes progressos junto ao médico. Celso era psiquiatra com bastante entendimento sobre Freud. Ele entregou um papel com o endereço a Darcy e seguiu o diagnóstico.
— De tudo que me contou, Senhor Williamson, algo não encontrei. Sua perna não apresenta ferimento algum. Ou se houve, já foi devidamente curado. No entanto sua perna está um pouco mais fina, o que as caminhadas e alimentação correta serão o curativo perfeito. O médico falava com ar pedagógico e Darcy, de certa forma, não se surpreendeu com essa constatação. Sua tia realmente queria fazer dele um prisioneiro.
Charlote não saiu do lado de Darcy durante os dias de internação. Ela enviou uma mensagem a seu pai e a Julieta, no Vale, sobre a chegada do irmão e plantou-se com ele para o que fosse necessário. Os raios X e os exames de sangue não demonstraram nada anormal e o psiquiatra indicado disse que a mesma coisa que o Dr Wagner, ele recobraria a memória com o tempo. Era necessária paciência.
Depois de quase uma semana de hospital Darcy teve alta e tudo que ele gostaria era de uma boa comida. Ele foi muito bem tratado na Santa Casa, mas não podia acusar a comida de ser gostosa.
A irmã então resolveu leva-lo a um restaurante que ela gostava muito, almoçava com Elisabeta as vezes lá e eram sempre bem servidas.
Elisabeta. Charlote não via a hora de encontrar a amiga e contar a novidade.
—
O restaurante estava cheio quando eles chegaram, mas o garçom garantiu arranjar uma mesa. Darcy olhava para o local, quem sabe pensando se já esteve ali antes quando a viu.
A moça do porto.
Ela estava sentada na mesa com o jovem que estava com ela naquele dia. Eles conversavam sobre algo interessante, ele sentia, embora ela não sorrisse. Uma pena, ela parecia tão bonita, ficaria melhor se sorrisse mais.
Charlote seguiu o olhar do irmão e não pode acreditar. Lá estava, Elisabeta e seu colega de jornal. Ela gostaria de preparar a amiga, mas diante da coincidência não haveria tempo. Ainda mais quando ela notou que Elisa olhava para eles, sem dizer nada.
Darcy sentiu sua mão ser puxada para a mesa da jornalista e não ofereceu resistência. Charlote parou em frente à mesa e falou antes que todos tivessem uma chance.
— Elisa, que bom te ver aqui. Iria procura-la essa semana ainda. Veja quem está aqui no Brasil? Esse é Darcy, meu irmão. Ele não deu notícias, somente apareceu. Você acredita que ele estava em um navio que quase naufragou, ficou internado e agora está sem memória dos últimos meses? Ele nem sem lembra que veio ao Brasil. Charlote falava sem parar e Darcy não entendia bem o porquê, ele apenas olhava a coincidência de sua irmã conhecer a moça do caderno.
— Charlote, não é necessário contar minha história completa. Ele falou calmamente. Até porque eu me lembro dessa senhorita.
— Lembra? Foi Elisabeta perguntou, o coração acelerado. O rosto esboçando um sorriso.
— Sim, do dia que retornei. Eu estava na sala da administração e fiquei com seu caderno de anotações. Darcy olhou para ela e viu o sorriso morrer. Esperava encontra-la nos arredores, mas quando saí não havia rastro da senhorita. Mas como é amiga de minha irmã ela poderá entrega-lo a senhorita quando se encontrarem novamente. Ele falou solícito, desejando que a irmã o convidasse para estar com aquela jovem em outra ocasião.
O garçom os chamou, dizendo que a mesa deles havia sido liberada. E antes de se virar Charlote piscou para Elisabeta, dizendo que depois a procuraria.
Elisa, em sua mesa, olhava para Darcy sem acreditar e sem compreender. Acidente. Perda de memória.
Já em sua mesa Charlote se admirava do destino ter colocado o irmão e a ex namorada numa situação de encontro, mesmo que involuntário. Ela resolveu saber como se deu o caso, ele contou e disse que não sabia porque havia ficado com o caderno dela. Foi um impulso. E então Charlote perguntou se ele havia achado a amiga dela bonita.
— Linda, mas não o suficiente para tolerar as encrencas nas quais ela se mete. Ele respondeu pensando nas palavras mentirosas que saiam da sua boca. Não era a primeira amiga que Charlote iria apresentar a ele no intuito de fazê-lo se apaixonar, ela já fizera isso várias em Londres. Mas era a primeira vez que seu interesse era verdadeiro. No entanto, não era necessário alimentar a imaginação de Charlote.
A irmã sorriu de volta, não acreditando muito no que ele dizia, porque em seguida, quando ela disse que qualquer dia almoçaria com Elisabeta para lhe devolver o caderno, Darcy pediu para estar junto.
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