Como Esquecer ?!
2 Capítulo 2
BRASIL
Três semanas, Elisabeta pensava. O trabalho na fábrica a agradava, agora que as coisas entraram nos eixos.
Em três semanas Lídia, fugida com Uirapuru, havia sido encontrada com a ajuda do pai de Darcy. Ele chegara no Brasil de surpresa, se desencontrando do filho. Mas ao saber que o embuste havia atacado novamente o Lorde contratou a polícia para encontrar Diogo, que agora estava novamente foragido e sua irmã estava em casa, segura. E mesmo Mariana, que havia ficado bastante abalada, já dava sinais de recuperação. Tudo graças ao Coronel Brandão.
Três semanas que Darcy havia ido embora. Por isto, Elisabeta não esperava. Foram palavras duras, ela sabia. Ambos disseram crueldades pelo calor do momento. Ele não era o último homem com quem ela se casaria, muito pelo contrário, as vezes pensava que ele seria o único marido possível para ela. Mas aparentemente ele levara aquelas palavras ao pé da letra e resolveu deixar o país.
Nessa fuga de Lídia ela gostaria de ter conversado com o pai de Darcy, no entanto Seu Felisberto foi quem tratou tudo e não gostou do Lorde, deixando Elisabeta sem ter como pedir notícias. Aparentemente o pai de Darcy não sabia que o filho havia ido de encontro a ele na Inglaterra, tampouco da recusa de Elisabeta.
Três semanas. Será que pensava nela?
Camilo foi sucinto, dizendo que a carta de despedida apenas dizia que precisava ir ao seu país de origem e repensar sua vida.
Ludmila entrou na sala e a chamou para irem ver tecidos novos que chegaram, tirando Elisabeta do devaneio. Era um trabalho agradável, ela dizia a si mesma. Não era o que ela gostaria de fazer, que enchia seu coração. Mas era uma independência. O salário não era muito, mas pagar o próprio quarto no cortiço e ainda ser dona da própria vida era uma vida que ela aprendia a gostar cada vez mais.
O único porém continuava sendo Darcy. Ele foi embora, ela dizia a si mesma. Ele a esqueceu, ela repetia. No início, quando ela havia descoberto que ele havia ido embora ficou até feliz de não precisar cruzar com ele e terem um clima estranho no ar. Ainda mais ele sendo amigo de Camilo, noivo de sua irmã.
Mas depois de descobrir que o pedido havia sido uma ideia de Ema ela reconsiderava sua postura. A amiga havia se intrometido em sua vida de uma forma irreparável, pensando ajudar, por julgar o casamento a única solução possível para os problemas do mundo. Isso enfurecia Elisabeta e ela gostaria de poder dizer a Darcy que ele era mais louco do que Ema por seguir tal ideia estapafúrdia.
Mas não, ele havia preferido fazer suas malas e ir embora.
Talvez nunca mais se vissem.
E quando pensava nisso os olhos de Elisabeta se enchiam de lágrimas, agora também por perceber que ainda não o havia esquecido.
Não deveria ser assim, ela pensava. Seu futuro avassalador nunca deveria competir com seu grande amor. Ao contrário, deveriam ser complementares. Agora ela entendia e não parecia justo que conhecer Darcy desse a ela a possibilidade profissional que ela tanto sonhara, mas que fosse preciso perde-lo para isso.
Talvez devesse escrever para ele, Camilo disse lhe dando o endereço. Mas ela não sabia se era o correto, ela sentia que ele deveria procura-la, já que ele quem foi embora. Ela jamais teria se recusado a falar novamente com ele, agora ela tinha certeza. Mas ele havia ido embora, ele a havia deixado. O melhor era ela também seguir em frente.
—
Estes primeiros tempos de Elisabeta em São Paulo foram turbulentos porque Julieta deserdara Camilo e a família de Ema perdeu toda a fortuna. Mesmo com uma certa raiva da amiga pela interferência em seu relacionamento com Darcy, Elisabeta abrigava a ela e a Jane em seu quarto no cortiço. Não estava sendo fácil para elas, nem para Ernesto, que veio a tira colo tentar a vida na cidade grande.
Agora ela e o amigo tomavam um café no bar do seu Manoel, depois de Ernesto largar o serviço. Ele era um bom amigo, muitas vezes Jane dizia que eles tinham temperamentos parecidos, poderiam ser um bom casal, mas não era isso. Ele era um amigo, quase um irmão. Seu coração não batia desenfreado como acontecia quando Darcy chegava perto, passava os braços por sua cintura e a beijava. Era como se ela saísse do chão com Darcy. E ele dizia que aprendeu a cometer loucuras em nome do sentia por ela.
Mas Darcy havia ido embora, a maior loucura de todas. Três semanas.
— Ei, Elisabeta, está sonhando novamente? Ernesto chamou por ela. Era regra agora, qualquer oportunidade ela se via pensando no que Darcy estaria fazendo. Já havia dado tempo de ele chegar a Inglaterra? E ao não encontrar o pai, voltaria para o Brasil?
— Não. Apenas pensando. Sabe, Ernesto, o trabalho na fábrica é legal, mas não é o que me motiva, entende? Elisabeta respondeu, sabendo que com o amigo acontecia a mesma coisa. Ernesto tinha sonho de mudar o mundo. E não era servindo batatas ao murro que ele conseguiria fazer isso.
— Entendo, se entendo. Descobrir para o que fomos feitos. Como é difícil não virmos com manual, minha amiga. Ele respondeu reparando mais ainda em Elisabeta. Houve um tempo em que ele achava que eles eram destinados um ao outro. Mas agora ele sabia que não. A amiga nunca o amaria, o coração dela estava longe, dava para ver pela cor ao redor dos olhos. Já ele, ele bem, ele negava, mas uma certa ex nobre andava invadindo seu coração e todo o seu corpo. De verdade, como você está, Elisabeta?
— Bem.
— Sem mentiras, Elisa. Vamos, fale comigo. Ele viu a amiga com os olhos cheios d’água.
— Eu queria saber porque ele fugiu. Darcy não parecia este tipo de homem. Diante do olhar do amigo, ela completou. Eu sei que minha recusa foi uma humilhação para um homem como ele, mas quem foge do amor, Ernesto?
— Todos se tivéssemos oportunidade, Elisa. Você ao recusá-lo também não o fez por medo do que sente? Darcy apenas tomou a decisão de ir mais longe. Ele respondeu, entendendo o inglês. Não era fácil ser recusado. No entanto, você sabe, não fugimos do que nossa cabeça não consegue tirar do coração. Ele terminou abraçando Elisabeta enquanto as lágrimas dela escorriam livres por seu rosto. Ei, quer que eu o busque a pontapés para você? Ele brincou para aliviar o clima. Mas ele gostaria de pensar que, se Darcy estivesse sofrendo o mesmo que Elisabeta, em breve ele estaria de volta.
— Me desculpe, Ernesto. Mas hoje eu senti uma angustia diferente, como se algo que eu não soubesse explicar estivesse acontecendo. Elisabeta falou tristonha, se despedindo do amigo e voltando para seu quarto. Onde entrou silenciosa e deitou na cama e dormiu sem trocar qualquer palavra com Jane ou Ema.
*
INGLATERRA
Darcy abriu os olhos o tudo que viu foram paredes brancas. “Será que estou no céu? ”, foi seu primeiro pensamento.
Mas então ele ouviu barulhos e a porta foi aberta para a passagem de uma enfermeira.
— Graças a Deus, Lorde Williamson. Nós pensávamos que o perderíamos. A enfermeira, uma senhora gorducha e pequena, com ares bondosos, falava com ele calmamente, dizendo que em breve o médico estaria ali para examiná-lo melhor.
— O que houve comigo? Darcy tentava se lembrar de alguma coisa, mas tudo que conseguia era sentir uma dor de cabeça lancinante ao fazer qualquer esforço.
— O senhor não se lembra?
Diante da negativa da cabeça dele a mulher desatou a falar. Disse que o navio dele passou por um revés da natureza. Fortes ondas o atingiram e algumas pessoas foram lançadas ao mar, parece que o comandante deu ordens de ficarem todos no convés. Mas milagrosamente o navio não naufragou, uma parte foi inundada e as pessoas que estavam no interior da embarcação puderam ser salvas a tempo. Um verdadeiro milagre.
— Para onde estávamos indo? Darcy perguntou meio abobado, não se lembrava de estar planejando viajar a lugar algum. Camilo, seu amigo, até gostaria que eles passassem um tempo no Brasil, que ele construísse uma ferrovia enquanto ele fosse inserido de vez nos assuntos do café de sua mãe. Mas ele ainda não havia se decidido, ele inclusive não estava muito inclinado a aceitar. Seu pai era contra.
— Indo? Não, não, Lorde, o senhor está confuso. Sua embarcação estava retornando a Londres. Vocês partiram do Brasil quase um mês atrás.
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