Darcy passou alguns dias macambúzio. Não sentia vontade de sair de casa, ia a sede da ferrovia e dava as ordens necessárias.

Evitava seu pai ao máximo. Archiebald se preparava para voltar a Inglaterra, foi a decisão final após a discussão com Darcy. Ele iria dar uma lição a Margareth e gostaria que Charlote o acompanhasse, mas sua caçulinha não abria mão de ficar ao lado do irmão.

Ele notou que o filho estava cabisbaixo, notou que Charlote tentou conversar sobre o assunto, mas Darcy parecia preso em seus pensamentos. Alguma memória mais séria parecia ter retornado, no entanto seu filho não estava querendo falar sobre isso.

Archiebald viu Darcy ir ao médico, retornar com seu caderno de anotações e ficar algumas horas pensativo no jardim da mansão. Gostaria de poder ajudar o filho, mas não via como. Apenas no jantar de ontem a noite reiterou o convite para partirem juntos para a Inglaterra, mas Darcy disse que ainda não podia partir. Ele quis perguntar se era sobre Elisabeta, mas não era necessário, estava escrito em seu rosto. Mesmo na decepção que ele aparentava tinha o dedo da moça de belos olhos e jeito aventureiro.

Darcy levou o pai ao porto, Charlote o acompanhou. Ela andava preocupada com o irmão. Encontrá-lo na hospedaria com Elisabeta, num claro momento íntimo, deu a ela esperança de que eles reatassem. No entanto Darcy saiu feliz no dia seguinte e voltou diferente.

Charlote procurou a amiga no jornal e foi Elisabeta quem contou a ela que todas as memórias estavam de volta. As boas e as ruins. Não havia mais o que fazer. Elisabeta parecia ansiosa, Charlote notou e ela confessou. Ela aguardava que o temporal passasse para que ela e Darcy conversassem seriamente. E ela torcia para que ele não entrasse num navio novamente. No entanto ela havia recebido uma proposta de emprego maravilhosa, que ela avaliava aceitar ou não, mas até o momento ela não havia tomado uma decisão.

No Porto Charlote pensava na conversa com Elisabeta. Darcy não parecia pronto a entrar num navio, tampouco parecia querer correr para os braços da mulher que ele amava. Ele parecia em dúvida.

Eles se despediram do Lorde e disseram que em breve se encontrariam, mas no momento cada um deles precisa trilhar seu caminho.

Estavam voltando para casa quando Gomes o interpelou, puxando-o pelo braço até sua sala.

Que sorte encontra-lo por aqui, Senhor Williamson. A dias tentamos entregar uma encomenda para o senhor. Sua mala foi localizada nos escombros do navio e foi enviada para cá.

O homem entregou a Darcy sua mala. Ela parecia realmente naufragada. Estava amassada e inchada. Ele pensou em deixar o item no lixo quando chegasse a mansão, mas diante dos dias em que seus pensamentos se embaralhavam, ele resolveu quem sabe, ver o que sobrou.

Nos últimos dias Darcy estava resolvendo internamente sua vida. Ele havia pedido Elisabeta em casamento por amá-la e não querer ficar longe dela, jamais para impedir que ela crescesse como mulher e profissional. No entanto, era o que ela havia entendido. Se ele a pedisse em namoro agora, soaria como controle, como anteriormente. Ela entenderia que o pedido seria uma tentativa de mantê-la perto.

Não seria justo. Era uma grande oportunidade, mesmo ela não dizendo sim, ele sabia que não havia possibilidade melhor para ela do que dirigir uma sucursal no Rio de Janeiro. E ele havia sido recusado uma vez por não compreender o que significava para ela reconhecimento profissional. Não cometeria o mesmo erro.

Suas roupas estavam relativamente intactas, mas não era necessário reutilizá-las. Talvez Mercedes pudesse doar a algum necessitado. Haviam também alguns documentos da ferrovia, que agora ele nem se lembrava de ter levado. Além de algumas libras. E uma caneta.

Até que algo chamou sua atenção.

O envelope estava dobrado e do lado de fora

“Para Elisabeta Benedito”.

“Elisabeta Benedito,

Me perdoe por tentar tê-la a força, mas para além dos erros que cometi ao fazer um pedido de casamento completamente equivocado, meu coração continua te pertencendo.

E respeito qualquer escolha que você faça para sua vida, ansiando fazer parte delas.

Eu sonho uma nova chance para nós, mas se, ao ler estas palavras, eu não estiver mais neste planeta, saiba que meus últimos pensamentos foram para você, amando você, venerando você. Ardentemente.

Darcy Williamson.”

A carta que escreveu diante de um fim iminente. Poucas linhas que refletiam seu arrependimento ao ter partido. Tudo tão desnecessário agora que sua memória voltara, menos sua certeza de que ela era a mulher de sua vida, ainda que houvesse um distanciamento.

Irmão, está tudo bem? Charlote respeitava o tempo das pessoas, mas Darcy andava mais cabisbaixo do que o normal a muitos dias. Elisabeta estava receptiva a eles e seu irmão, ao contrário, parecia inclinado a se afastar.

Sim, Charlote. Ele segurava a carta nas mãos. Apenas vendo o que recuperaram do naufrágio.

Não foi sua ideia mais brilhante, não é? Ir embora assim, sem sequer dar a chance de vocês conversarem.

A maior estupidez da minha vida. Veja só no que deu. Eu quase morri, perdi a memória, minha tia me fez um prisioneiro. Darcy recapitulava os últimos meses pensando se já vivera de forma tão intensa.

Mas agora está tudo no lugar novamente, suas memórias voltaram e Elisabeta me parece muito disposta a reatar o relacionamento de vocês.

Você sabe que ela recebeu uma proposta de trabalho irrecusável, não é? No Rio de Janeiro.

Sim, ela comentou. Mas você é capaz de entender o que isso significa para ela.

Eu sou. O que não consigo é ser o último na lista de prioridades de Elisabeta.

— Não sei porque está dizendo isso. Já faz quase uma semana, Venâncio a tem pressionado, mas ela ainda não disse sim.

— Ela não aceitou? Darcy olhava fixamente para Charlote, vendo a irmã balançar a cabeça, dizendo que Elisabeta ainda não se decidira.

O que está esperando para procura-la? Que ela esteja dentro de um navio rumo ao Rio de Janeiro?

Darcy deveria agradecer a sua irmã, as vezes Charlote falava o óbvio para que ele ouvisse e interiorizasse a verdade estampada em sua testa. Ele sabia que amava Elisabeta e se fugia dela, era por medo de fazer a coisa errada e ser rejeitado novamente.

Mas ela não havia aceitado a promoção. Elisabeta, tão decidida, tão senhora de suas ações, não havia cedido a melhor oferta de emprego. O coração dele disparou.

Assim que ele pensou que o expediente dela havia terminado, foi ao seu encontro.

Elisabeta estava evitando Venâncio nos últimos dias. Não era por mal, ela precisava dar a ele uma resposta, mas tentando controlar sua impulsividade era melhor ficar longe do seu chefe.

Se fosse seguir seu impulso, já estaria arrumando as malas. Se seguisse seu instinto, bateria na porta da casa de Darcy e se casaria com ele. Era uma guerra interna que estava anuviando sua capacidade de decisão.

Foi tão fácil aceitar o convite de Ludmila para o trabalho, deixar tudo para trás. Como foi fácil deixar Ludmila e ir para o jornal. Era o caminho natural, não havia dúvidas.Nunca houve preocupação em relação ao que Darcy pensaria, suas decisões eram prioridade.

Agora era diferente.

Ela sentiu o que viver longe dele, e o quanto sua ausência doía. Eles estavam se acertando, se reconectando, tinha tudo para dar certo. Mas se ela se afastasse agora, tudo estaria acabado.

Darcy se lembrara do último momento deles, antes da vida virar do avesso. Era um momento feio, triste. Ela queria pedir desculpas, mas primeiro ela precisaria decidir se iria embora ou ficaria com ele.

Com licença, eu poderia falar com... Ele parou a frase no meio do caminho. Darcy havia entrado no jornal o mais sutilmente que conseguiu e quando viu Cosme o reconheceu. Iria perguntar por Elisabeta quando a viu, ela estava parada na porta olhando a janela.

No mesmo momento um senhor alto e magro também chegou ao ambiente.

Elisabeta, precisamos conversar. Elisabeta se virou sem perceber, ouviu a voz de Venâncio e ficou surpresa e feliz por encontrar Darcy de frente para ela, ao lado do seu chefe. Ele sorria. Seu coraçao deu um salto.

Darcy ?

Lorde Williamson ? Venâncio Castro, prazer.

Muito prazer, Sr Castro. Eu gostaria de falar com Elisabeta, mas se for incomodo posso voltar em outro momento. Perdão pela pergunta, mas nos conhecemos? Eu estive adoentado e não tenho memória de tê-lo visto anteriormente.

Oh não, realmente jamais nos vimos. Apenas sabia de sua presença no Brasil. Sua família está construindo uma ferrovia importante no país. E eu tenho estudado sobre vocês, para fazer uma matéria na inauguração da linha férrea. Cosme disse tê-lo visto no porto, mas não pode fazer perguntas por que o momento foi confuso.

Venâncio desatou a falar sobre a ideia de fazer uma matéria de capa sobre os Williamsons e o investimento gigante que faziam no Brasil. Além de ter ficado sabendo sobre o socorro ao funcionário acidentado, a maneira como Darcy tratava os funcionários. Ele havia procurado Archiebald, mas o velho lorde disse que a matéria sairia se o filho autorizasse. Nesse dia também soube que a amiga de Elisabeta era Charlote Williamson. Venâncio era um bom jornalista investigativo, muito bom por sinal, e percebeu que a funcionária nunca havia mencionado a amizade com os Williamsons. Ele não insistiu. Mas sabia que algum homem havia deixado alguma marca em sua colunista mais brilhante, não foi difícil juntar dois mais dois. Ela não cedeu aos galanteios de Cosme, ou de qualquer outro, e quando Cosme contou do encontro com o irmão da amiga, a história do acidente, ele percebeu a mudança em Elisabeta. E vendo Darcy ali, ele intuía que o lorde era o motivo da hesitação dela em aceitar o convite para o Rio de Janeiro.

Venâncio, amanhã conversamos. Elisabeta falou firme. Disse também que se não houvesse outro assunto ela gostaria de ir embora.

Elisabeta e Darcy caminhavam por São Paulo.

Desde que saíram do jornal andavam pelas ruas num silêncio desafiador. Ele parecia muito certo quando saiu de sua casa, queria pedir para que ela ficasse, que eles reatassem, mas ali, diante dela, vendo o chefe dela exigir uma resposta, sua resolução fraquejava. Mas ele não era um homem de pouca resolução. Ele respirou fundo, eles caminhavam pelo parque, alguns casais de braços dados faziam o mesmo, e inspirado por eles, Darcy começou.

Elisabeta, eu gostaria...Mas ela o interrompeu.

Me deixe falar primeiro, Darcy. Me deixe primeiro pedir desculpas. Por tudo. Por não contar a você o que vivemos, não dizer das boas lembranças e das nossas brigas. E principalmente por minhas palavras ao dizer não ao seu pedido de casamento. Eu sinto muito, de verdade. Eu não esperava magoá-lo tão profundamente. Eu estava ferida em meu orgulho e revidei ferindo ao seu. Espero que me perdoe.

Darcy sorriu as palavras dela. Algo ao mesmo tempo tão distante e tão recente, ele pensou. Recordar as palavras que ela disse doeram, entender o que ela queria também. Mas tanto havia acontecido depois daquele dia, meses atrás.

Espero que me perdoe por usar sua condição financeira como vingança.

Ela assentiu. O que não se diz sem pensar? Hoje ela sabia. Precisou perder muito para aprender.

— E espero não ser o último homem com quem você se casaria.

— Não é.

— Eu quero ser o único.

— Darcy, nós...

Não se preocupe, Elisabeta. Eu não vou pedi-la em casamento. Não agora. Mas eu não quero negar o que sinto por você. Eu a amo. Ardentemente. Sei que há essa proposta para o Rio de Janeiro e que é a chance de sua vida. No entanto, se você considerar, eu quero ser o homem que vai terminar de construir uma ferrovia em São Paulo e vai se mudar para o Rio de Janeiro, para estar ao lado da mulher que escolheu.

Você estaria disposto a fazer isso por mim? Por nós?

— Eu estou disposto a fazer o que for preciso para sermos felizes, Elisabeta.

Ela o beijou, sem aviso, em público, sem se importar com os olhares que vinham em direção a eles. Sem se importar com nada. Invadiu a boca de Darcy sem pedir licença, se permitindo ser sugada por ele e todo aquele sentimento que os envolvia.

Eles chegaram para jantar no bar do Seu Manoel e nenhum dos amigos se espantou quando sentaram lado a lado, mãos entrelaçadas e olhares perdidos um no outro. Darcy gostaria de ter ficado, mas com o retorno de Ema o quarto no cortiço agora não era mais solitário para Elisabeta. No entanto, eles combinaram de jantar no dia seguinte. Charlote ficaria radiante com as novidades.

O dia seguinte foi importante para Elisabeta. Ela chegou cedo ao jornal, concluiu sua coluna, ajudou Cosme a fechar a matéria sobre os abusos no Porto e aguardava uma chance para uma longa conversa com Venâncio.

Seu chefe chegou agitado, ficou a manha toda resolvendo assuntos burocráticos com o departamento financeiro e foi Elisabeta quem o chamou para um almoço.

No fundo eu esperava por isso, Elisabeta. Você não é uma mulher de pensar diante de uma grande proposta. Ele realmente não estava surpreso diante da negativa da Benedito.

Eu gostaria muito de estar disponível, Venâncio. Mas minha família precisa de mim nestes momento e minha história com Darcy precisa ser reconstruída. E ela contou do namoro deles, das desconfianças, do fiasco do pedido de casamento, do acidente, do seu sofrimento, do retorno dele, da falta de memória. E por fim, ela contou do sentimento que não mudava. Ela o amava.

Há um casamento à vista? Seu chefe brincou, mas sério.

Oh não, um namoro, eu suponho. Darcy sequer pediu que eu ficasse. Ao contrário, disse que me encontraria onde eu estivesse.

Ele te deu a liberdade e você o escolheu. Não havia como ser diferente.

Ambos riram sabendo que era verdade. Darcy não a pressionou, ele se afastaria se assim ela pedisse. Ou iria com ela se insistisse. Esse era o homem que ela queria ao seu lado, por esse homem ela encontrava motivos para abrir mão de sua vida profissional no momento. Ela continuaria sua vida no jornal, em São Paulo, enquanto Darcy terminaria a ferrovia. Ele ficaria indo e vindo ao Vale, mas era uma distância curta.

Se quando a ferrovia estivesse concluída acontecesse uma nova oportunidade, junto a ele, Elisabeta aceitaria a mudança. Agora o lugar dela era aqui, perto de suas irmãs e ao lado de Darcy.

Havia flores na mesa da mansão de Julieta naquela noite.

Darcy fez Mercedes preparar um verdadeiro banquete, ainda que fossem ele e Charlote e Elisabeta para o jantar, além de Camilo e Jane, Ema e Ernesto, Ludmila e Januário. Amigos que ele considerava família. Tudo que Elisabeta gostava de comer, tudo que Charlote também gostava e tudo que ele pensava que elas gostariam seria servido.

Talvez fosse um jantar de despedida, ele não sabia. Elisabeta não havia dito a ele sua decisão em relação a proposta de Venâncio. Mas ele havia decidido. Estaria ao lado dela qualquer que fosse a decisão. Já pensava em como viabilizar futuras idas ao Rio de Janeiro durante o intervalo de construção da ferrovia.

Charlote estava radiante e torcia declaradamente que Elisabeta não fosse embora. Algo que Darcy disse que não estava em discussão. Por muito menos ele quase a havia perdido, ambos aprenderam a lição.

Os amigos chegaram fazendo barulho, algo que alegrava Darcy e Charlote. O silencio inglês era por muitas vezes angustiante.

No entanto, Elisabeta puxou Darcy para fora enquanto as pessoas entravam na casa. Ela o levou até o jardim da mansão.

Eu queria falar com você primeiro, em separado.

Ai meu Deus, quando você fala assim. Darcy tinha as mãos suando. Ele sabia que poderia ser um adeus, ainda que momentâneo. Ele não queria pressionar Elisabeta, mas não podia enterrar toda sua ansiedade, mesmo deixando a certeza de que estaria disponível fosse qual fosse a decisão dela.

Elisabeta pegou nas mãos de Darcy e olhou fundo nos olhos dele.

Eu disse não. Ela olhava para ele com doçura, o coração parecia saltar pela boca, mas era de felicidade. Darcy olhava para ela de forma intensa.

É uma proposta tão boa. Você cresceria tanto. Ele queria gritar de alegria, por ela estar ficando, mas sabia que não era o momento.

Sim, mas o preço é muito alto no momento. Lídia vai ter um filho, meu primeiro sobrinho. Jane também. Mariana vai se casar, Cecilia está com problemas por não conseguir gerar o próprio filho. Eu não quero estar longe delas, Darcy. Não tão longe que eu não possa voltar correndo se eu sentir saudade, ou se elas precisarem. Elisabeta estava calma quando continou. E também tem você, eu não quero me afastar. Eu te amo, Darcy. Como nunca amei antes na vida. Passei os piores meses de minha quando você foi embora. E dias piores ainda quando você sequer se lembrava da minha existência. Eu tentei me afastar, seguir em frente, mas eu não consigo. E eu não quero. Posso não querer me casar ainda, mas eu quero estar ao seu lado.

Eu também te amo. E se há amor, todo o resto será resolvido. Darcy sorriu quando a abraçava e sentia que ela o apertava o mais forte que conseguia. Depois de soltá-la, estendeu o braço para que entrassem juntos e contassem a novidade aos amigos.