Como Conhecer Um Popstar
4 You don't know about me, but... é S.O.S pra você
Notas iniciais
Bella
Para variar, a minha querida e compulsiva amiga tivera outro surto. Ótimo. Ela ainda ia me deixar louca daquele jeito. Com toda a pressão sobre mim: prova de física (que eu certamente ia me ferrar legal), sorteio, meu pai (que talvez nem concordasse em me deixar ir ver os Gangster Boys quando eu ganhasse o sorteio). E agora mais isso. Só o que faltava era o pai da Alice trancá-la no quarto também. Aí sim tudo ia melhorar.
Ok. Talvez eu estivesse sendo muito dramática com toda a situação. No geral. Mas tudo que eu queria era… uma torta de chocolate. Das grandes.
Depois de Alice fazer a sua maluquice de “acalmamento de espírito” fechando os olhos, pondo os dedos nas têmporas, falando umas palavras em latim e contando até cinco, ela conseguiu, finalmente, voltar ao estado normal de espírito. E isso não era muito bom.
— Tudo bem — eu disse. — vamos deixar isso pra lá. Mas nem pense que eu vou usar algum desses troços nojentos que você comprou, porque eu não vou mesmo.
— Mas, Bella, olha só… Isso é pra gente ter sorte. Você não quer ganhar aquele sorteio? Porque EU quero.
— Não vai me dizer que você acredita mesmo que essas coisinhas não-identificadasvão trazer alguma coisa pra gente?! (Sem ser fedor, claro) — inquiri, olhando bem para a Lice e me certificando de que ela estivesse realmente bem. Dos parafusos.
— Bem, é que… Quer dizer, toda ajuda é bem vinda já que… E-eu…
— Sem desculpas furadas, Lice.
— Mas eu acho mesmo que a gente devia guardar esses amuletos — disse, séria. — Só por garantia, sabe como é.
— Arrã…
[…]
— Lice…
— Que foi?
Nós duas estávamos olhando a cena como se fosse um daqueles filmes bizarros. Existe um limite máximo de coisas estranhas que podem acontecer com as pessoas na vida. Para nós, já acontecera o suficiente por umas seis, sete vidas, no mínimo.
Mais uma vez, o problema era Rosalie. Ela estava sucumbindo de vez às trevas. E isso não podia ser nada bom.
— Acho que dessa vez a Rosalie está mesmo mal — eu disse.
— Realmente. RealMENTE.
— E o que a gente faz? Cê sabe que depois ela vai entrar em desespero por causa dos chocolates. Cara, se aparecer UMA espinha naquele rosto de porcelana, a gente vai ter que mandar internar ela, senão nós ficaremos loucas.
— Total. Olha isso.
Havia, para ser pouco, umas duas caixas de chocolates vazias ao lado da Rosie. E mais algumas, ainda cheias, empilhadas do lado dela, enquanto ela comia de um jeito bemdeselegante os da que ela segurava.
Até as pessoas perfeitas têm seus momentos constrangedores. Esse era o da Rosalie.
— A gente precisa mesmo fazer alguma coisa. Odeio ver a Rosie assim. Ainda mais por causa daquele nada do Austin.
Suspirei.
— Vamos lá, então.
Caminhei decididamente até o quarto da Rosie, onde ela parecia uma doente, enfurnada na cama, assistindo …E o Vento Levou, rodeada de cobertores. Desliguei a Tv.
— P’rê! Qu’c’tá pazendu? — perguntou a loira.
— Rosie, por favor! Você está enfurnada nesse quarto, comendo um monte de chocolates (que, caso você tenha esquecido, foi uma invenção demoníaca da indústria alimentícia para deixar mulheres como você e eu feias e gordas), toda descabelada e sem maquiagem.
Ela me olhava com a boca aberta — com bastante chocolate mastigado dentro, a propósito.
— Tipo, Rosie, é verdade — começou Alice, louca de novo. — Ainda bem que você não se olhou no espelho porque, caraça, cê tá muito mal. É sério mesmo, cê á um bagulho só, tá que nem a Thiana Frederickson, meu, aquela menina toda zuad… — ela parou de falar quando viu minha cara assassina.
Já se formavam lágrimas nos olhos da Rosie.
— Mas, na verdade, nem é tão ruim, você sabe… Tipo, é quase impossível você ficar que nem a Thiana, porque, e… Você é muito mais… é… eh… Vou tomar água — e saiu como um flash do quarto, antes que eu desse um tapa naquela boca inconveniente da Lice.
Lentamente, me aproximei de Rosálie, e sentei ao seu lado. Ela chorava silenciosamente.
— Oh, Rosie — abracei-a. — Pára de chorar. Eu tô aqui, miga. Não liga pro que a Lice fala, não, que cê sabe que ela é mó sem noção.
— E-e-ela… t-tá c-cert-ta — disse ela aos soluços —, eu t-tô um c-caco.
— E por que você tá assim, primeiro? — perguntei.
Ela soluçou mais alto.
— E-eu fui f-falar c-com o A-A-Austin n-na esc-cola…
— Ah, não. Isso de novo não.
Ela me olhou com aqueles olhos azuis da cor do céu. Com as bordas bastante vermelhas, naquele momento.
— Ele disse que… E-ele d-d-diss-se q-que…
— Ai, minha nossa, Rosie. Cê não pode ficar lamentando o fim do namoro de vocês pelo resto da eternidade. Vamolá, garota.
Ela me encarava, desconsolada. Pelo que eu conhecia da Rosalie, havia uma coisa que faria com que ela esquecesse essa depressão fácil, fácil.
— Eu sei do que você precisa: um D.P.T.
Ela olhou para mim, seus olhos brilhando. Mas dessa vez não eram as lágrimas. Era a excitação.
— Dia de Produção Total.
— Exato, minha querida.
[…]
Alice terminava de fazer suas unhas do pé. Pitava-as de amarelo. Ela sempre foi a mais discreta de nós três.
Eu escovava os cabelos perfeitos da Rosalie. Se tem uma coisa da qual eu sempre tive inveja dela, foram dos cabelos. Eles eram enormes e dourados, lisos até as pontas, onde faziam cachos; e iam até a cintura.
Depois de um banho na jacuzzi do quarto, uma hidratação max no cabelo, um serviço e manicure e pedicure e uma massagem relaxante (feita pela nossa querida fadinha), ela estava pronta para outra.
— Ah… – disse ela. – O que um D.P.T. não faz com uma garota? Todas precisavam de um. — disse Aly.
— Concordo penamente. Até fez com que eu raciocinasse–me direito.
— O quê? — perguntei, atônita.
— Já sei o que vou fazer a partir de agora.
— Cês vão ver só.
Lice e eu nos entreolhamos, sem fazer a mínima idéia do que ela queria dizer com aquilo. De todas as formas, não precisávamos nos preocupar. Aquela loira nunca tinha idéias descabidas demais — como certas Alices tinham —, e, de mais a mais, ela nunca levava a diante uma dessas idéias malucas dela.
— Ok. Então vamos arrumar as coisas para dormir.
A gente tinha combinado de fazer uma espécie de festa do pijama na casa da Rosalie, então arrumamos os sacos de dormir no chão, pegamos cobertores, travesseiros e, principalmente, FILMES para ver. Mas ninguém quis ver filme nenhum, então nos deitamos e ficamos conversando até que caímos no sono.
Só que havia um problema muito grande em festas do pijama com as minhas bests. A Alice roncava. MUITO.
Meus olhos estavam realmente pesados, como se tivesse alguém puxando as pálpebras para baixo com força. Mas a Alice parecia um porco do meu lado fazendo um barulho medonho meio ronc! rooooooonc! E eu não conseguia dormir.
Então, por volta de umas duas e meia da manhã foi que outro barulho começou.
— Ah… Issooooo… Faz, faz. Faz assim, gostooso. Ah, ah, AHHHHH — gritava uma voz de mulher no quarto ao lado. Era a tia da Rosalie, Lana.
Bem, agora sim eu não ia conseguir dormir de jeito nenhum. Uma leitoa roncando de um lado, e uma égua no cio gemendo do outro…
— Ahh, ahhh… ufah… Aperta mais, vai. Bota tudo, tudo… Ahhh… Vai, gato, vai, VAI!
Gemidos grotescos vinham do outro quarto.
Eu comecei a rir. Mas a rir MESMO. De uma forma tão compulsiva, mas tão compulsiva… Que tentava abafar com a mão, com o travesseiro, mas não dava. E eu parecia um cavalo relinchando.
Mais vozes e gemidos vinham do outro lado:
— Relaxa, gostosa. Uhhh… Ahhh… Issooo… Vou te c**** inteirinha…
Disse uma voz masculina. Eu ainda estava tentando controlar o ataque de risos, com algum esforço. No fim, consegui parar de relinchar. E o barulho continuava, só que agora com palavras mais obscenas.
— Alice… — sussurrei.
Ainda roncando como um porco — um porco engasgado —, ela se mexeu um pouquinho.
— Alice! — sussurrei outra vez, cutucando ela de leve.
Ela estava de frente para mim em seu colchonete quando eu a chamei pela terceira vez, e ela me deu uma joelhada no estômago que me deixou sem ar.
— Filha de uma v… — tentei dizer, sem fôlego, e roxa.
— Não, mamãe. Eu não quero… — disse a criatura, ainda dormindo.
— Mas que droga de amiga sonâmbula que não serve pra nada… — retruquei baixinho, com a trilha sonora, lá do outro lado, acompanhando.
E foi aí que a coisa ficou pior do que antes. Porque a minha amiguinha do peito chegou mais perto. Tipo, bem perto mesmo. Parecia até que ela estava… Bem, não vem ao caso o que parecia.
E quando pensei que não, ela já estava me abraçando, daquele jeito, com a mão na minha bunda.
— Vamos fazer isso agora, meu bem… — e foi se aproximando da minha boca.
— Ah! — gritei, saltando do colchão na hora. — Sua louca! Que nojo! Eca, eca, eca… Acorda, infeliz, e pára de me agarrar!
Mas que droga de sonho do capeta era aquele?!
Alice despertou na hora.
— Que foi, que foi? Estamos sendo assaltados? — falou, sonolenta.
— Eu vou assaltar é a mão na tua cara se você me agarrar de novo enquanto dorme.
— Eu o quê?!
— É isso aí mesmo!
A gente discutia, cada uma gritando mais alto que a outra, quando ouvimos três batidas na porta, e uma cabeça logo apareceu pela fresta.
— Algum problema, garotas?
Era a Lana. Eu tinha totalmente me esquecido da situação comprometedora dela e a outra pessoa no quarto ao lado. Ela estava um pouco vermelha, cabelo desarrumado e apele brilhando de suor. Uau.
Vermelha até a raiz dos cabelos, respondi:
— Não, nada, Sra. Carter. Não precisa se preocupar.
— Tem certeza? Eu achei que vocês estavam brigando por aqui.
Quase falei: “Ah, sim. Foi só um probleminha com a sonambulês da Alice, mas agora ela já acordou. Graças a Deus. Pode voltar pro seu quarto e continuar o que estava fazendo”. Mas me freei. Mesmo que, na minha opinião, aquilo não soasse perverso da minha parte, ela poderia ver desse jeito.
— Não. De verdade. Tá tudo legal por aqui.
— Tudo bem, então — disse ela, fechando a porta.
Virei-me para Alice, ainda vermelha — de raiva e vergonha.
— Que foi?
Prendi o ar nos pulmões.
— Nada, Alice. Vamos dormir de uma vez.
Peguei meu colchonete e arrastei até o outro lado do quarto.
— O que cê tá fazen…
— É o seguinte — interrompi, terminando de arrumar meu cobertor —, você fica aí, no seu canto — apontei para onde ela estava —, e eu aqui. Você aí, eu aqui, falô? Aí!
Deitei no meu lugarzinho, o mais afastada que podia da Alice, cobri minha cabeça com o cobertor e fechei os olhos.
— Eu, ein… — ouvi a louca dizer baixinho. — Povo doido… — E apagou a luz.
[…]
— Você tem o telefone do seu psicanalista, né?
— Tenho. Por quê? — Alice perguntou, na defensiva. Sempre que a gente falava de psiquiatra ou psicólogo ela entrava em estado de alerta, com medo de que o trem fosse para ela. O que na maior parte das vezes era verdade, mesmo.
— Por que a nossa amiga ali precisa mesmo de uma consulta com um deles.
— Ahhh…. Tá.
Mas o problema dessa vez definitivamente não era a Alice. Que ela era seriamente problemática, disso eu já sabia faz tempo. Só que aquilo ali era novo para mim — não só novo, mas uma completa loucura. Sabe quando você vê uma coisa, mas mesmo assim, mesmo você estando lá PRESENCIANDO a tal coisa, não faz nenhum sentido, como se o seu cérebro não conseguisse assimilar aquilo? ENTÃO!
E o negócio era...
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