Coming Home
4 Capítulo 4- Dandara
A vida de Dandara já fora mais fácil. Conseguia se lembrar brevemente da infância. Na verdade, a maioria das lembranças era só dela cuidando de seus irmãos. Era a mais velha de cinco, então sempre que podia, queria ficar um pouco sozinha. Talvez seja por isso que se jogou de cabeça e coração nos livros, devorando todos que tinham na sua casa.
O pai da menina havia os deixado muito cedo, quando o mais novo era apenas um bebê, por isso sempre teve muitas responsabilidades em casa. Sua mãe dava duro para sustenta-los, então quando entrou no colegial Dandara já começou a ajudar, trabalhando (é claro) numa livraria. Ah, como ela adorava aquele lugar! Era tão tranquilo, podia ficar o dia inteiro pensando e lendo, lendo e pensando...
Seu único companheiro na velha e pequena livraria era um menino que ela conheceu (e amou) sua vida inteira. Seu nome era Giovanni, seus cabelos eram louros, seus olhos eram verdes e seu coração era... de pedra. Ele nunca correspondeu o amor de Dandara, nem nunca pensou nisso. Ele a via como sua melhor amiga, e sempre seria assim, desde quando ele mudou para a casa ao lado da dela. Aquelas coisas de estragar a amizade, sabe? E, além disso, Giovanni era, no mínimo, viajado. Passava de um assunto estranho para outro mais ainda, gesticulando e olhando para o horizonte, perdido nos seus próprios devaneios... Enquanto isso, Dandara o olhava. Na verdade, estava mais para encarava. O dia todo, todos os dias.
A menina se perguntava quanto essa paixão por ele ia acabar. Claro, já havia ficado com outros meninos, e até experimentado ficar com meninas, mas sempre acabava em Giovanni. Tudo, absolutamente tudo voltava para ele, e ela nunca conseguiu sentir como era esse tal de amor que todos falam, o correspondido. Aquele que dura anos, que acaba guerras e quebra todas as barreiras. Aquele amor que vale a pena, que dá a base para uma nova vida... Na verdade, já se perguntava até se isso existe mesmo, ou se só acredita por ler demais. O único exemplo de casal (além daqueles de escola) que havia conhecido era de seus pais, e o fim não foi bom. Bom... não poderia perder a esperança. Um dia ia acha-lo... ou, quem sabe, um dia Giovanni se tocasse e eles viveriam felizes para sempre.
E assim era sua vida: escola, trabalho, casa. Depois de passar quatro horas por dia na livraria, ainda chegava, cozinhava o jantar para todos, fazia a lição de casa e esperava a mãe para todos comerem juntos e irem ver TV até a hora de dormir. Não sabia se isso era bom ou ruim, mas estava no seu último ano de escola. Talvez, se conseguisse entrar numa faculdade, poderia conseguir um emprego que desse dinheiro. Mas isso significava deixar sua mãe e seus irmãos por conta própria. Os outros nunca tiveram a mesma determinação de Dandara para fazer tanta coisa por dia. Só iam à escola, voltavam e acabou. Não dá para simplesmente deixa-los assim... Mas talvez o dinheiro do trabalho da livraria não iria sustenta-la para sempre. Talvez. Sempre os “talvez”.
Sua mãe não teve tempo para se recuperar do divórcio. Com todos esses filhos e nenhum dinheiro, começou a trabalhar com sua melhor amiga de infância em uma marca de roupa que as duas criaram, entrando nisso de corpo e alma e torcendo para dar certo. Infelizmente, não deu, e as duas se separaram e arrumaram empregos mais simples, trabalhando em restaurantes diferentes. Alguns meses foram mais difíceis que outros, mas a mãe de Dandara sempre se esforçou ao máximo para dar tudo que os filhos desejassem. E é nesse exemplo que a filha se inspira.
Ah, e claro, a pergunta de sempre: por que Dandara? Sua mãe sempre havia simpatizado com a cultura cigana. Na verdade, quando nova, já havia pensado em tentar ser aceita por alguma família ou grupo e só... ir. Muitos têm preconceito com essa cultura e esse povo, mas isso acontece por serem leigos. Ao contrário disso tudo, a mãe da menina sempre achou tudo muito lindo. Os seus bisavós descendiam de ciganos, e ela sempre achou isso incrível, por isso deu a sua filha um nome homenageando esse amor, pensando que um dia essa liberdade cigana iria fazer o rumo da menina e mudar sua a vida por completo. Na verdade, nisso sua mãe estava certa.
Era um daqueles dias que parecia que o céu estava triste. Tudo cinza, sem nenhuma luz. É o típico dia que Dandara acha perfeito para ler, e que todas as outras pessoas do mundo acham perfeito para dormir e não fazer absolutamente nada, principalmente ir à livraria. Com tudo tão calmo, decidiu escolher um livro para ler em algum canto escondido, sem o velho e rabugento dono ver. Seus livros preferidos eram aqueles que você acaba, olha para o teto e não consegue pensar em absolutamente nada que não seja “nossa...”. Esses livros não eram só de um gênero, mas sim de todos os possíveis e imagináveis, então a menina tinha todas as opções do mundo ali com ela.
Enquanto ia para o seu canto escondido habitual, viu um menino entrando na loja, todo perdido. Sua cabeça ficava virando de um lado para o outro muito rápido, como se tivesse dizendo “não” para alguém invisível. Assim que ele a viu, parou. Ficou encarando por uns segundos, até começar a andar até ela com um olhar suspeito. Isso não vai acabar bem...
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