Coming Home
5 Capítulo 5- Victor
Decidiu usar parte de seu dinheiro se hospedando num hotelzinho barato, não longe de sua casa. Pensou em voltar para lá, mas seu orgulho não deixou. Será que seu pai e seu irmão estavam bem? Ele esperava que sim, e esperava que não estivessem bravos com ele. De qualquer jeito, agora já era tarde demais para voltar para casa.
Sentado na cama gasta do “hotel”, releu pela milésima vez o que seu pai escrevera. Hoje era o dia que ele tentaria encontrar Dandara, a pessoa que supostamente o ajudaria a chegar até sua mãe. Nunca havia ouvido esse nome, pelo menos não que se lembrasse. Mas como poderia esquecer um nome esquisito desses, né? Tentava imaginá-la, sua idade, sua aparência... Imaginava alguém mais ou menos da idade do seu pai, já que não teria como ele conhecer alguém com uma idade diferente, mais nova. A não ser... que Dandara seja filha de sua mãe. Será que isso seria possível? Não, tomara que não. Nunca sairia desse estado de negação.
Arrumou suas poucas coisas e foi caminhando até o ponto de ônibus, a caminho da livraria. Nunca, em sua “breve” vida havia entrado em uma livraria antes. Sempre fora daqueles que tem preguiça de ler, que não encontra um livro se quer que mantenha seu interesse. Quando era mais novo, seu pai era um grande leitor. Daqueles que compram diferentes livros de diferentes temas e se interessa por todos. Pedro puxou isso dele. Já Victor...
Poderia muito bem ter andado até a livraria, ou, se tivesse planejado melhor e sido um pouco esperto, poderia ter trazido sua bicicleta, mas estava cansado, principalmente mentalmente, então sentar um pouco e ver a paisagem passar depressa foi bom para ele. Uma ou duas estações depois, deu sinal e saiu, parando exatamente em frente a livraria. Como iria fazer para achar Dandara? Não ia ser fácil, é claro. Não era como se ele fosse entrar e lá estaria ela, esperando por ele. Nossa, como era medroso às vezes!
Entrou na loja como quem estava participando de uma gincana de objetos perdidos. Olhou para um lado, para o outro, olhou mais uma vez... Então viu uma menina. E nossa, que menina! Não, ela não era aquelas que chamam a atenção de todos os meninos, estava mais para a que passa despercebida. Mas não para Victor. Ele não conseguia parar de encará-la, então viu que devia estar parecendo meio maníaco e resolveu tomar coragem para perguntar para a menina sobre Dandara.
Chegando cada vez mais perto e observando os detalhes, viu como ela era realmente bonita. Era magra, magra até demais, parecendo quase bidimensional, e bem alta. Seu cabelo era meio longo, vindo até a altura dos seios e encaracolando um pouco na ponta. Seu rosto e seus colos eram cobertos de sardas, seus dentes eram meio tortos e seus olhos eram pretos, tão pretos que não dava para diferenciar as bolinhas de dentro e de fora.
–Posso ajudar? – Ela segurada um livro que era de longe grande mais para Victor, e não usava nenhum uniforme ou crachá.
– Sim, quer dizer, pode. Meu nome é Victor Araújo, estou procurando por uma menina chamada Dandara.
O rosto da menina se transformou para uma expressão de surpresa e, ao mesmo tempo, defesa, dando até um passo para trás.
– Sou eu. Eu te conheço?
– Não, eu acho que não.
– Tá, então... Isso vai parecer meio estranho, ou completamente estranho, mas eu estou aqui procurando minha mãe. – Parou. Não sabia como explicar tudo ser parecer louco. Os dois ficaram um pouco em silêncio.
– Bem... Como pode ver, não tem ninguém aqui. – Ela parecia extremamente confusa, mexendo os braços e olhando para os lados.
– Sim, eu sei... Bem, ela não está aqui, mas eu acho que você pode me ajudar a procura-la. A gente poderia conversar um pouco?
A menina ficou em silêncio, pensando. Talvez esteja cogitando sair correndo e chamar a segurança, é o que Victor faria se estivesse no lugar dela. Do nada, um menino estranho, mais velho, chega sabendo o nome dela e falando umas coisas sem nexo. Pra surpresa dele, ela assentiu com a cabeça e começou a andar para a área do café, onde havia mesas para eles sentarem. Sentou, colocou a mochila no seu colo, abriu e tirou de lá a carta de seu pai.
– O nome da minha mãe é Beatriz Araújo. Ela deixou meu irmão e eu quando ainda éramos pequenos, e eu decidi que quero saber o porquê. Meu pai nunca se recuperou do término, então a única ajuda que ele me deu foi essa carta, ou melhor, essa lista, e nela diz que eu devia encontrar você, e você iria me ajudar.
Ela pegou o papel da minha mão e leu. Olhou-me. Leu novamente.
– Eu conheço uma Beatriz. Quer dizer, não conheço, mas já ouvi falar. É... Uma amiga da minha mãe. Há muito tempo atrás, elas precisavam de dinheiro e tentaram fazer uma marca de roupas, mas não deu certo e foi cada uma para um lado.
Será que era tão fácil assim? Seu pai sempre soube como encontra-la, já sabia disso, mas não sabia que seria fácil para ele assim também. Planejava uma grande aventura, não uma busca de dois dias. Não devia ter brigado com o irmão por isso.
– Então você pode me dizer onde ela está?
– Na verdade, não. Não ouvimos falar dela já faz anos... Minha mãe tentou falar com ela, eram grandes amigas, mas ela mudou de casa e nunca tiveram a sorte de se encontrar na rua ou sei lá...
É, talvez não fosse tão fácil quanto imaginava. Victor se sentia, no mínimo, frustrado. Colocou as mãos no rosto, esfregando os olhos com força e depois partindo para o cabelo, bagunçando-o mais do que o normal. Ficaram um tempo em silêncio, Dandara o encarando, quando decidiu que já era hora de ir embora. Não conseguiria nada ali.
– Então, já que não pode me ajudar, vou continuar meu caminho, mas obrigado mesmo assim...
Antes que pudesse terminar, ela se levantou atrás dele e disse:
– Eu vou te ajudar. Vou com você nessa busca pela sua mãe.
– O que? Não, você não precisa fazer isso, já fez mais que o necessário...
– Mas eu quero. Por favor. Deixe-me ir com você. Não vou passar o tempo todo junto, claro, vou voltar para casa à noite e te encontro de novo no dia seguinte. Vamos, deixe.
Esse era, com certeza, o dia mais estranho de sua vida. Não sabia o que aquela menina queria, nem sabia direito quem ela era, mas talvez quisesse encontrar Beatriz por causa de sua mãe. Ficou com um pouco de ciúmes: quando encontrasse sua mãe, queria que ela fosse só dele por um tempo, mas, ao mesmo tempo, queria que ela fosse com ele. Estava se sentindo muito sozinho, gostaria de alguém para conversar, ainda mais com ESSA menina em especial. Não, não era amor à primeira vista, não acreditava nessas coisas, mas com certeza era gostei-muito-do-seu-estilo à primeira vista. Depois de um tempo pensando, decidiu:
– Tudo bem, você pode me ajudar...
– Mesmo? Nossa, que bom! Amanhã eu não trabalho, é meu dia de folga, e depois de amanhã eu posso faltar, e... Obrigada! – Nossa, como essa menina falava!
– A gente pode se encontrar amanhã, duas da tarde, na feirinha que tem aqui perto. Depois, à noite, vamos ao festival de cinema. – Isso parecia muito um encontro, e Victor não sabia como dizer isso de forma que não parecesse. – Vamos falar com pessoas, investigar, anotar e, no fim, tiramos uma foto. O.K.?
– O.K. Vejo você amanhã! – Ela se levantou, acenou e já foi andando para longe.
– Vejo você amanhã... Dandara.
Se ainda não saberia qual é a dessa menina, descobriria amanhã, se é que ela apareceria mesmo. De alguma forma, estava bem mais animado. Saiu da livraria, tirou uma foto da parte da frente e voltou para dentro para poder escrever sobre o que havia acabado de descobrir e, principalmente, sobre Dandara. Caso ela estivesse brincando e ele nunca mais a visse, queria ter como se lembrar dela. Quando acabou de escrever tudo, sentia-se extremamente cansado. Não sabia se poderia ir aos lugares que o pai lhe falou numa ordem diferente da lista, então preferiu não arriscar e voltar para o hotel. Amanhã teria a feirinha, e só esperava encontrar algo certo e, de alguma forma, maciço sobre sua mãe.
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