Come Closer.
1 Parte 1
Notas iniciais
Depois de mais de 4 anos sem escrever nada sobre casais hetero, eis que ressurjo das cinzas, feito uma fênix. Uma que, aliás, está sempre atrasada com os prazos de postagem, mas enfim...
Desta vez, foi um desafio e tanto. Não pelo tempo que passei sem escrever hentai e shoujo, afinal não estava assim tão enferrujada quanto achava que estaria, mas por esta fic ser um presente de Amigo Oculto do Dia dos Namorados para uma pessoa que me conquistou recentemente com fofura e simpatia sem tamanho.
No Twitter, onde tive o prazer de conhecer a @_jjubes, que é um amorzinho e que me conquistou, eu descobri que tínhamos este OTP em comum, mesmo que ela seja mais shoujo e eu, muito mais yaoi purpurinado. Então, por toda sua doçura, eu decidi que faria um presente do qual ela jamais se esqueceria.
Quando comecei a escrever e não conseguia mais parar, achei que acabaria nos 15k, mas aí está a loucura de amor que faço por você, Jubes, sua lindona! ♥ Espero mesmo, de coração, que você goste, pois foi feita com o maior carinho (e o maior trabalho -qq) do mundo! Sei que será uma leitura cansativa, mas prometo que valerá a pena.
Feliz Dia dos Namorados para você e que aproveite esse presente, tal qual qualquer pessoa que o ler ;3
Até as notas finais ♥
I
“A morte era para todos.
O amor, em contrapartida, com certeza, não.”
- Bah! – resmungou com uma careta pressionando números no controle remoto do aparelho televisor e mudando para o canal local de esportes. A programação estava ótima até aquele ridículo filme dramático sobre amor começar.
Não dera sorte com aquele canal também. Naquele momento, em um daqueles programas estúpidos, um casal de atletas concedia uma entrevista sobre como o amor pelo esporte despertara um tipo de amor diferente em seus corações.
Com um muxoxo, outra mudança de canal. Desta vez, o canal de esportes internacional.
- Mas não é possível... – sussurrou entre dentes, os olhos estreitando-se para a tela do aparelho que contava a incrível história de um jogador de futebol europeu que viera dos subúrbios de qualquer lugar que não importava e chegara ao sucesso, mas jamais esquecera seu primeiro amor, perdido numa época do tempo tão importante quanto toda aquela merda, e agora esforçava-se em sua busca inútil por ela.
Bem, a história não era exatamente assim, mas era desta forma que soava aos ouvidos de Gajeel.
Mudando de canal outra vez. Canal de esportes do Estado.
Em frente aos olhos incrédulos do moreno, era exibida a história de amor de dois jovens do Ensino Médio que haviam se conhecido no clube de basquete da escola e, após certo tempo, a garota sofrera um acidente e perdera os movimentos das pernas.
- Ah! Essa porra só pode estar querendo me foder! – Gajeel finalmente gritou ao desligar o aparelho pressionando o botão no controle remoto com muito mais força do que aquele ato geralmente exigiria.
Largou-se no espaçoso sofá e encarou o teto, mirando-o raivoso.
Amor? Por que as pessoas insistiam em acreditar nessa mentira? Se queriam tanto foder, que fossem a um bar, conhecessem alguém, levassem para o banheiro, ou para um beco, ou se acreditassem que a foda valeria a pena, que fossem para casa ou um motel e fodessem até cansar. Era assim que Gajeel vivia e estava mais do que satisfeito com isso.
Não, não havia nenhuma vadia destruidora de corações em seu passado. Não havia uma amiga de infância, nem havia uma garota popular do ginásio ou do colegial. A vida de Gajeel não era um clichê. Vivia como gostava e gostava de como vivia.
Nunca se apaixonara. Já se envolvera, já namorara. Não gostara. Na verdade, odiara. Corresponder cobranças, sentimentos, expectativas? Isso era complicado demais. Transas casuais com mulheres gostosas eram bem mais seu estilo.
Uniu as mãos sobre o peito e suspirou.
O maldito tal de amor o perseguia recentemente.
Preferia sempre sair à caça quando sentia a libido ferver dentro de si, – o que acontecia com bastante frequência – mas por vezes o comodismo o tomava e ligava para suas Gostosas da Preguiça, como passara a chamar. Eram mulheres com as quais já fizera sexo muitas vezes e gostava de repeti-las ocasionalmente, mas, é claro, sem qualquer compromisso.
E, repentinamente, todas estavam indisponíveis.
O motivo?
Essa coisa fantasiosa que elas chamavam de amor.
Ligara para uma: conhecera o amor de sua vida.
Ligara para outra: estava em busca do amor e se cansara daquela vida de sacana.
Ligara para mais uma: decidira que conquistaria o homem a quem sempre amara.
E fora a mesma coisa com todas as outras sete.
Qualquer que fosse a mulher, a resposta era mesma: estava amando, buscava o amor ou fora surpreendida por ele.
Como poderiam todas elas terem feito suas escolhas tão repentinamente nos últimos dois meses? Parecia até coisa do Diabo para lhe atormentar a alma. No entanto, ele nem sequer acreditava ter uma, então estava tudo okay nesse ponto.
Não tivera opção senão sair sempre que queria foder naquelas últimas semanas. As coisas não estavam saindo conforme ele planejava, e coisas fora dos planos o irritavam.
Não bastasse seu azar com o tal maldito amor, o aluguel estava muito pesado depois do último aumento sofrido no começo daquele ano e aquilo que ganhava em seu estágio estava desaparecendo entre as parcelas de seu curso de Engenharia Metalúrgica, o dito cujo aluguel, comida, roupas e, claro, bebida e mulheres. Talvez, se diminuísse o consumo destes dois últimos, a vida ficasse menos apertada, mas... Nah! Preferia ficar sem comer, se assim fosse. Ou andar pelado, o que não seria assim tão mau, já que não tinha do que se envergonhar em seu corpo. Muito pelo contrário.
Sorriu com aquele pensamento.
Perguntara à Natsu, seu amigo que cursava Engenharia Civil – talvez mais para destruir edificações do que para construí-las – se este não gostaria de dividir o aluguel consigo, mas ele disse ter alguém que viria morar consigo, então não seria conveniente dividir apartamento com outro cara. Gajeel estava imaginando se seria Lucy, a namorada do cara, que viria morar com ele. Talvez fosse, já que, pelo que sabia, ela estava prestes a ingressar na mesma Universidade que ambos frequentavam e onde haviam se conhecido.
Fazer a mesma proposta à Gray seria uma piada, já que este morava com Juvia desde que ambos haviam começado a cursar juntos Oceanografia e juntos permaneceriam em qualquer momento de suas vidas, algo que Juvia frisara com veemência durante todo aquele tempo em que Gajeel a conhecia. Mulher assustadora. Apaixonada, mas assustadora. Talvez, pensava Gajeel, justamente por isso. O tal do amor parecia tornar mentes sãs em algo que beirava a loucura.
Desde que Laxus, seu antigo companheiro de aluguel – como se chamavam, pois o termo companheiro de quarto era muito enviadamento para ambos – formara-se em Meteorologia e fodera-se embora, Gajeel estava sentindo o peso financeiro de ter um quarto extra no apartamento, e ele nem ao menos o utilizava.
Pagara o aluguel sem problemas gritantes durante todo aquele ano que passara, mas naquele aumento absurdo... Gostaria de bater na cara do senhorio com um bom porrete de aço até que ele decidisse baixar o valor, no entanto lidava com a burocracia da imobiliária que alugara o lugar à Laxus, e, por experiência própria, sabia que bater em papéis não levaria a lugar algum.
Como última alternativa, colocara um anúncio no jornal da Universidade, anunciando que buscava dividir aluguel com alguém: um homem. Mulher não. Mulher nunca! Em sua concepção, mulheres só davam trabalho quando estavam próximas demais, e este era um dos motivos pelos quais Gajeel não tinha uma namorada.
Já fazia um tempo desde que publicara o anúncio e este ficaria lá por dois meses ou menos, no caso de alguém ocupar a vaga.
Era final de Março e as aulas começariam dali duas semanas e, se até a segunda semana de Abril ninguém o procurasse, teria que se foder para encontrar outro lugar para viver. E se foder muito. Já era difícil para um universitário comum encontrar um lugar para viver ali em Magnólia, mas para um universitário como Gajeel... Seria quase impossível.
Os olhos de orbes vermelhos como sangue, totalmente incomuns; os piercings espalhados pelo rosto e orelhas; as roupas de punk, um rebelde sem causa; os cabelos compridos, negros e repicados de forma a cobrirem seus ombros e cascatearem por suas costas, como uma aljava preenchida de todo por flechas negras que despontavam e apontavam para baixo; e, por fim, a tatuagem que lhe cobria as costas: um dragão feito de metal. Tudo somado passava uma péssima impressão a qualquer pessoa que buscasse algum senso de responsabilidade em um estudante. E o próprio Gajeel bem sabia que não tinha nenhum.
No entanto, mesmo sabendo da dificuldade que sua aparência lhe trazia e ainda traria ao longo de sua vida, não se desfaria de quem era. Toda sua aparência era sua identidade, mas principalmente o dragão de metal que estendia suas asas por suas costas e estas, por sua vez, lhe chegavam aos bíceps. A começara anos antes e apenas meses atrás fora capaz de termina-la. Era uma arte difícil, lenta e dolorosa, mas Gajeel estava disposto a ostentá-la como um estandarte em homenagem ao seu pai.
Gajeel não conhecera sua mãe e nem tinha curiosidade de fazê-lo. Era uma drogada estúpida que dava para qualquer um, até onde sabia. Não tivera curiosidade de perguntar sequer seu nome ao homem que lhe criara. E este o fizera por pura bondade. Não havia obrigação naquele amor. E aquele era um amor no qual Gajeel acreditava. O único.
Metalicana era seu apelido e Gajeel nunca soubera seu verdadeiro nome. Era assim chamado por ter feito parte de uma famosa banda de metal, The Dragons, sendo seu vocalista e guitarrista.
Sua mãe era uma fã da banda e dera-lhe a luz aos portões da mansão do astro. Este, ao invés de enxotar a ambos, adotara ao menino e prestara socorro à mulher, que falecera dois dias depois do trabalho de parto, mas sua morte nada tinha a ver com a criança: as drogas que ingerira por quase toda a vida haviam finalmente lhe abraçado e tragado em direção à escuridão da morte.
Gajeel conseguiu esboçar um sorriso mesmo com tais pensamentos a lhe perturbar a mente no silêncio de seu apartamento, mas agora já não havia felicidade ou ira em seu riso. Uma nota de tristeza ecoava em seus ouvidos, mas era tocada apenas por sua mente.
Lembrava-se com exatidão da música que Metalicana compusera sobre aqueles dias e dedilhara os acordes em sua guitarra mais vezes do que poderia contar. As palavras da triste canção lhe vinham à mente com a facilidade de uma prece que alcança os lábios de um homem quando se encontra diante da iminência da morte.
“A new blood knocks on my door,”
Um novo sangue bate à minha porta,
“And have dark eyes like the night,”
E tem olhos negros como a noite,
“But not all evil,”
Mas não de todo mal.
“Not at all.”
Não de todo.
“My knees are on the floor”
Meus joelhos estão no chão
“And I think once again about wrong and right.”
E eu penso novamente sobre errado e certo.
“With or without my seal,”
Com ou sem meu selo,
“It was my fall.”
Esta é minha queda.
“A request.”
Um pedido.
“Who will say no?”
Quem dirá não?
“My fate.”
Meu destino.
“Who will say I go wrong?”
Quem dirá que errei?
“I was in my quest”
Eu estava em minha busca
“Playing sad notes on a piano”
Tocando tristes notas em um piano
“When crows ate”
Quando corvos comeram
“The muscial words in my tongue”
As palavras musicais na minha língua.
A música seguia até seu fim, tal qual a carreira de Metalicana. A partir de então, deixara o mundo da fama e da música, abandonara os palcos em prol de Gajeel. Em um amor como aquele, Gajeel era quase obrigado a acreditar. Não entendia, mas acreditava.
Entretanto, a morte abraça a todos, como o próprio Metalicana costumava dizer, e não tardou a abraça-lo.
Quando Gajeel ingressou na Universidade Fairy Tail de Magnólia, Matalicana falecera.
- Não há mais pesos em mim. Você me libertou deles, Gajeel. – Metalicana murmurara de seu leito de enfermidade, quase morte. O homem forte que Gajeel conhecera definhara ao ponto de parecer que uma brisa o carregaria. A imagem doía aos olhos de Gajeel, mas muito mais ao coração. – Sei que amor é uma palavra difícil para você, tal qual o foi para mim. No entanto, eu encontrei você, meu filho. – suspirou pesadamente e, na expiração, Gajeel pensou ter vislumbrado um pouco da alma de seu querido pai se esvaindo. No entanto, Metalicana ainda continuou, agarrando uma das mãos de Gajeel com força, os olhos profundos fixos naqueles vermelhos que tanto se esforçavam para conter o choro. O enfermo saboreou as próximas palavras. – Meu filho. Que agradáveis palavras. Um filho que não é meu sangue, mas amo mais do que amaria algum gerado por minhas nada castas noites. – havia ternura nos olhos fundos emoldurados por olheiras e Gajeel sentiu ainda mais dificuldade em controlar as lágrimas que teimavam em querer lhe escapar. – Eu o amo. E, assim como eu, você encontrará o amor, pois ele se apresenta em diferentes formas para cada pessoa. Meu amor foi trazido por uma mulher de olhos negros como a noite. Por quais olhos será trazido o seu? Espero que tenha belos seios.
E, com aquelas palavras tão castas quantos as noites da vida de adolescente e adulto que Metalicana levara, sua vida se foi em um último suspiro e deixou-lhe um quase sorriso nos lábios finos e ressequidos.
A ferida da perda fora aberta e jamais se fecharia. Mesmo anos depois, ainda doía.
Gajeel levou a mão direita sobre o coração que pulsava contra suas costelas. Estava tão vivo quanto um dia Metalicana estivera.
A morte era para todos.
O amor, em contrapartida, com certeza, não.
Amor romântico não existira na vida de Metalicana e tampouco existiria na sua.
Seu estilo e sua identidade eram coisas das quais seu pai se orgulhara em si quando começara a moldar-se para se tornar quem era e Gajeel não abriria mão disso apenas para agradar uma sociedade putrefata.
A tatuagem tivera início três dias após a morte de Metalicana.
Gajeel engoliu em seco sentindo-se estranhamente consciente de sua tatuagem, repentinamente. Era quase como se uma parte de Metalicana seguisse viva em si. Quando pensava muito sobre o tal amor, parecia que a figura em suas costas se agitava.
- Velho, você com certeza deixou um fantasma que sabe como falar sobre assuntos que me incomodam tanto quanto você fez em vida. – Gajeel falou para o ar, para as paredes, para os móveis. Para Metalicana, onde quer que estivesse.
A fortuna – não pouca – que Metalicana lhe deixara, poderia bancar-lhe uma vida luxuosa por mais de cem anos, mas Gajeel estava determinado a não tocar naquele dinheiro em sua conta bancária. Vendera propriedades e ações e guardara todo o dinheiro, deixando-o lá e buscando esquecer-se que o tinha. O amor de Metalicana fora o único que conhecera, e agora que se fora, não precisava de um dinheiro que era incapaz de mantê-lo vivo ou trazê-lo de volta.
Viajara em suas lembranças. Divagara demais em pensamentos tolos. A dor estava novamente ali, e doía quase tanto quanto no dia em que Metalicana morrera.
Mal sabia Gajeel que toda sua introspecção lhe seria tirada em breve, pouco a pouco. E por fim, completamente.
Caiu com um estrondo do sofá onde se deitava quietamente quando batidas altas, repentinas e ligeiras se fizeram ouvir na porta da sala.
Gajeel sentou-se no chão, praguejando baixo e massageando sua cabeça onde batera com mais força no chão de tacos. Fosse quem fosse o demônio que batia à sua porta, estava com pressa, pois não parava de bater.
- Já vou, porra! – gritou levantando-se sem qualquer traço de ânimo em si. Caminhou a passos preguiçosos e arrastados, sem demonstrar incômodo com a forma como se apresentaria ao visitante indesejável. Vestia apenas uma bermuda, apesar de não estar assim tão calor; uma bandana mantinha seus cabelos afastados da testa e isto era tudo o que usava.
Colocou a mão na maçaneta sem se preocupar em espiar pelo olho mágico a fim de saber quem batia tão desesperadamente e, quando estava prestes a girar a chave para destrancar a porta, as batidas mudaram para um ritmo musical que o fazia crer em duas coisas: primeira, a pessoa estava usando as duas mãos para irritá-lo; segunda, com certeza estava conseguindo.
Com um rosnado, girou a chave e a maçaneta, abrindo a porta com força e encarando a tão irritante pessoa que batia. Ou tentava encarar. Via as três malas grandes no corredor, mas não uma pessoa. Talvez pensar nos mortos lhes trouxesse de volta à vida.
- Credo em cruz, eu nem sabia que assombração conseguia carregar malas... – esfregou sua nuca sem conseguir desgrudar os olhos da bagagem em frente sua porta. Que faria com aquilo? A quem pertencia? Pertenceria a alguém ou... A algo? Gajeel engoliu em seco.
- Aqui embaixo, babaca! – Gajeel sobressaltou-se ao ouvir uma voz fina e feminina que falou alto com uma clara nota de irritação. Voltou seus olhos para baixo. Para muito baixo. Uma garotinha encarava-o de braços cruzados e expressão endurecida mais de 30cm abaixo da linha de seus olhos. O que aquela criança estava fazendo ali com todas aquelas malas? – Que rude chamar de assombração a alguém que você sequer se deu ao trabalho de encarar, não?
Passado o momento de susto, Gajeel amarrou a cara e cruzou os braços. A garota estava tão perto de si que tudo o que conseguia ver eram seus cabelos azuis curtos e ondulados e seus olhos castanho-escuros. Mas eram... Profundos olhos castanho-escuros que pareciam lê-lo. Arrepiou-se e não entendeu o motivo.
- Não, não acho não. Agora desinfeta, Tampinha. – Gajeel enxotou-a, pouco se importando com sua nova expressão de ultraje. Que se ultrajasse o quanto quisesse, mas que o fizesse longe dali. Não tinha tempo para crianças burras que erravam endereços. Por que, claro, já chegara àquela conclusão.
- Escuta aqui, sua montanha de músculos! Sua mãe não te deu modos? – A garota franziu o cenho e os olhos cintilaram em sua direção, fazendo-o engolir em seco. Arrepiou-se novamente. Não entendeu o motivo. A boca de lábios cheios apertou-se em quase bico quando suas mãos desceram à cintura. Era bonita. Quantos anos teria? 15, talvez.
- Minha mãe deu muita coisa pra muitos caras, minha querida, mas para mim deu apenas a vida, graças a Deus. E olha que eu nem acredito Nele. – Gajeel respondeu à contragosto com um riso seco. A garota, de quem sequer sabia o nome, o estava irritando como se tivesse sido feita apenas para isso.
- Então acho que ela deveria ter parado de dar coisas por aí, já que o resultado não é muito bom. – a garota esboçou um sorriso de troça ao mirá-lo de cima a baixo e Gajeel sentiu-se corar. Ela estava zombando dele.
- Se me dá sua licença, vou bater minha porta na sua cara agora, Princesinha. – Gajeel murmurou entre dentes, segurando a porta. Sua paciência já estava no limite e a vaquinha apenas o estava empurrando para além deste.
- Oh, Gatinho! – a garotinha exclamou com voz estridente, sentando-se encostada ao batente de sua porta e pegando o gato que se enrolara às suas pernas, colocando-o em seu colo e acarinhando-o até que começasse a ronronar.
Gajeel achava que seu gato estava ficando louco por ir com alguém irritante como ela tão facilmente. Phanterlily, o gato preto de focinho branco com uma lívida cicatriz destacada no pelo era tão arisco quanto o próprio Gajeel, e de repente, ali estava ele, se engraçando com a menina.
Revirou os olhos para ambos. Phanterlily poderia até ter gostado da garota, mas isso não impediria Gajeel de enxotá-la.
- Xô, xô, criancinha chata. – gesticulou com as mãos, mandando-a sair, esticando um braço para pegar o gato de seu colo, mas este parou imediatamente de ronronar e eriçou seus pelos, rosnando e sibilando para sua mão esticada. – Vai tomar no cu, filho da puta! Sou eu quem te alimenta, não ela.
- Veja, veja, gatinho. Seu dono é um idiota que não consegue te conquistar, pobre coitado! – a garotinha provocou e riu. Seu riso ecoou pelo apartamento vazio de Gajeel, e aquele som lhe encantou e pareceu amenizar a dor que até então sentia. Arrepiou-se, sem entender o motivo.
- Que fiquem os dois para fora, então! – Gajeel rosnou agarrando a porta novamente, mas a garota se levantou ainda com o gato em seus braços.
- Esta não é a forma mais correta de se tratar sua nova roommate, Gajeel. – a pequena lhe censurou com um dedo em riste e Gajeel mirou bem seu rosto sério para saber se aquilo seria alguma brincadeira. Aquela criança queria dividir apartamento consigo?
- Agora colegiais querem dividir apartamento com universitários, Deus! Por que Você não existe pra dar um jeito nisso? – Gajeel clamou, escarnecendo da garotinha que encarou-o com olhos estreitados. Arrepiou-se novamente ante aquele olhar. Ainda não entendia o motivo. – Não sei se sabe, Pequeno Polegar, mas é preciso que ligue para as pessoas antes de aparecer com malas. Se tivesse me ligado, teria sabido que: – colocou um dedo em riste antes de prosseguir – primeiro, precisa estar na Universidade para morar aqui. Não quero ser babá, muito obrigada. E, – adicionou o médio ao indicador em frente aos olhos da garotinha. – Segundo, tanto quanto não quero crianças, não quero mulheres morando aqui comigo.
- Deus, alguma coisa está realmente errada. Seres assim não morrem ao nascer? Como ele consegue viver com meio cérebro? – agora a garota era quem zombava, os olhos voltados para o teto e voltando para ele apenas após um risinho. – Eu liguei para o primeiro número do anúncio, mas não atendeu. Então, liguei para o segundo e falei com... Natsu. Ele disse que você estava bem desesperado, então eu poderia aparecer com tudo o que quisesse colocar em meu quarto. E, acho que ainda não percebeu, então vou te explicar: meu nome é Levy McGarden e começarei meu curso de Letras dentro de duas semanas na Universidade Fairy Tail de Magnólia.
Gajeel boquiabriu-se e sua expressão devia estar muito engraçada, pois Levy não parava de rir.
- O caralho que você é uma universitária, pirralha. Você tem 15 anos! Q-U-I-N-Z-E! – Gajeel gritou, apontando um dedo em sua direção.
- Obrigada pela lição de soletração, mas eu passo. – Levy revirou os olhos. – Primeira colocação no vestibular, apenas caso queira saber. – e piscou-lhe um olho, sorrindo.
Gajeel arrepiou-se e deixou a sensação passar. O que poderia ser todos aqueles arrepios?
- Não, não, não e não! Dê meia volta e faça o favor de ligar ao Natsu e manda-lo ao inferno por mim. – Gajeel disse incisivamente, a voz mais alta que o necessário. – Ou melhor, pode deixar que eu mesmo faço isso. Apenas esqueça que me viu, que sabe onde eu moro e que quero alguém para dividir o aluguel comigo. Okay? – perguntou e Levy fez menção de responder, mas Gajeel a atalhou. – Okay! Agora vai!
Por um momento, Gajeel imaginou que tivesse vencido a discussão dada a expressão estupefata da garota, mas esta recuperou-se, deixando o gato saltar de seu colo e apoiando ambas as mãos na cintura, seu cenho se franzindo ao dirigir um olhar determinado ao moreno muito mais alto.
Gajeel arrepiou-se. E foi então que descobriu que o motivo de seus estranhos arrepios era a garota que postava-se ferozmente à sua frente, mas ainda não entendia.
- Escute, cara, por que só vou dizer uma vez: — a voz nada mais tinha de doce, apesar de continuar tão feminina quanto antes. Estalava como um chicote e Gajeel não lembrava-se de algum dia já ter ouvido algo similar. Quase retrocedeu um passo. Quase. – Você vai me deixar entrar. Você vai dividir esse lugar comigo. Se é por eu ser mulher, você vai ter que arranjar outro motivo, por que, caso contrário, eu trarei abaixo esta porta no momento em que você a fechar.
Ela era pequena e magra, mas Gajeel não duvidava dela. Não tinha como ela lhe ferir fisicamente sendo tão nanica, mas algo em sua voz, em seus olhos... Ela era perigosa. Ela era muito perigosa. E o era de uma forma que Gajeel não entendia. Jamais vivenciara algo similar. Aquela determinação queimando em seus olhos...
Engoliu em seco sentindo que a nuca suava.
- Não, Tampinha. Não tem jeito. Muita merda vai rolar se você passar a viver aqui. – Gajeel estendeu as mãos em frente ao corpo em sinal de rendição, mas não arredaria pé de seu ponto naquela discussão.
Levy afastou-se e por um momento, Gajeel pensou que a discussão estava acabada e ele a vencera. Ledo engano. A garota apenas sentara-se sobre uma de suas malas, a maior, e cruzara as pernas, as mãos apoiadas ao lado do corpo, os olhos castanhos ainda fixos nos de Gajeel.
- Eu não vou sair daqui enquanto você não me der uma discussão justa. – e aquela seria sua palavra final, o moreno deduzira apenas pelo tom que ouvia em sua voz. A garota era dura na queda. Incisiva.
- Escuta, por que diabos no inferno você quer morar justo aqui? – Gajeel passou uma das mãos nos cabelos, levando a bandana junto de sua mão e libertando os cabelos volumosos. Adorava uma boa discussão, mas com Levy... Que o diabo lhe carregasse se dissesse que não estava se sentindo tentado a ceder.
- Não é uma questão pessoal. É só que aqui fica muito perto da Universidade, tem um quarto só para mim e, o melhor: está disponível. – Levy explicou, dando de ombros, os olhos desviando-se para observar o corredor. – Eu liguei para muita gente, mas todas as vagas já haviam sido preenchidas.
Gajeel aquietou-se e permitiu-se escorregar pelo batente da porta, sentando-se exatamente no mesmo lugar que Levy ocupara há pouco. As palavras da garota estavam sendo digeridas por uma parte de sua mente, mas outra estava mais focada na aparência que ainda não tinha notado. O rosto era, sim, muito bonito, isto já percebera, não era cego, mas a garota lhe causava tamanha irritação que ainda não prestara atenção em seus demais atributos.
Primeiramente, seus olhos correram pelas pernas curtas, mas bonitas, cobertas por uma meia-calça preta de fios entrelaçados e com grandes rosas negras bordadas, as pernas de pele clara mostrando-se, para dizer o mínimo, apetitosas, com coxas grossas que fariam qualquer homem com apetite sexual saudável salivar. O que vinha acima das coxas era um segredo coberto por shorts jeans ligeiramente largos que contornavam os quadris volumosos. A cintura era delineada com perfeição pela regata de algodão que usava, o decote deixando muito à imaginação, mas revelando as curvas de adoráveis seios medianos, uma gargantilha de cordão comprido descendo de seu pescoço e escondendo um pingente exatamente onde Gajeel adoraria dar uma espiada. As mãos e pés eram pequenos e estes últimos batucavam o chão do corredor com certa maestria, a sola de seus tênis de lona dando algum toque rústico à musicalidade da batida. A fofura de Levy começava no rosto, determinara Gajeel, e por ali mesmo terminava. Não havia nada de fofo além disso, à exceção do tamanho. Era uma gostosa em tamanho compacto.
Gajeel rapidamente afastou esses pensamentos de sua mente. Aquele era apenas mais um motivo para não permitir que a garota ali vivesse.
- Bem, eu até compreendo que seja difícil encontrar um lugar para ficar. Para mim foi bastante difícil também, mas você precisa encontrar outro lugar, Tampinha. Vai por mim. – Gajeel retomou a fala, mas seus olhos agora estavam na bandana em suas mãos. Não conseguia olhar naqueles olhos castanhos. Não conseguia dizer não à ela sendo que ele mesmo recebera esta mesma palavra muitas vezes enquanto procurava um lugar para morar. – Eu sou um cara mais velho que você e, bem, não muito bem visto. Se alguém descobre que você mora comigo, as coisas podem se complicar para você. Sem contar que um cara e uma garota morando juntos perdem toda a privacidade se não estão tendo um caso ou algo do tipo. São tantos os motivos que poderia passar a tarde toda aqui listando-os para você.
- Eu sei disso. – Levy respondeu rapidamente, o tom de voz firme obrigando Gajeel a encará-la. Tinha que admitir que a garota era guerreira, não desistia fácil. – Prefiro morar com uma garota tanto quanto você prefere morar com um rapaz, mas isso é tudo o que eu tenho agora. – os olhos castanhos brilharam e Gajeel pensou ter visto a sombra de lágrimas passando por eles. Engoliu em seco. Arrepiou-se. Continuava sem entender. – Isso é tudo o que eu tenho agora, Gajeel. – ela repetiu, desta vez dizendo seu nome, e o moreno sentiu uma pontada de culpa. – Então não me peça para desistir sem lutar por isso.
Gajeel encarava seus olhos sem conseguir desviar-se. Eles pareciam tão próximos repentinamente...
Não poderia expulsá-la dali. Nem sequer sabia de onde viera. E se o fizera de muito longe? E se não estivesse em condições de pagar um hotel até encontrar outro lugar? E se não encontrasse? Seria sua responsabilidade se tudo desse errado para a pequena guria.
E ela parecia tão próxima, parecia estar aproximando-se cada vez mais...
- Ahn... Gajeel... – sua voz chamou incerta e o moreno focou seus olhos naqueles lábios cheios e ligeiramente avermelhados que tremeram adoravelmente. — Por que... Por que está se aproximando?
- O que? – Gajeel murmurou entorpecido. Do que ela estaria falando?
- Você. Você está se aproximando de mim. – Levy respondeu com a face ligeiramente corada. Tão fofa.
E Gajeel voltou a si, percebendo que estava sentando próximo às pernas da garota, tendo se aproximado sem perceber que o fazia. Pigarreou, tentando não corar e forçou-se a não desviar o olhar.
- Ah, não é nada. Eu só achei que tinha uma barata no seu ombro. – Gajeel respondeu vagamente com a primeira desculpa que lhe vinha à mente e Levy gritou, algo agudo, estridente e que, mais um pouco e apenas os morcegos poderiam ouvi-la. Gajeel pegou-se gargalhando enquanto a garota apalpava seus ombros.
Finalmente entendera. Seus arrepios o estavam avisando. Um aviso gritante. Ensurdecedor. E ele não fora capaz de entender até ser tarde demais.
Levy o fazia sentir-se tentado a aproximar-se.
Mais do que fisicamente.
II
“Seu cheiro já começava a espalhar-se pela casa e à Gajeel parecia que deveria fazer um enorme esforço para não esbarrar na garota. Acidentalmente, claro.”
- Eu vou esvaziar umas prateleiras do armário do banheiro para você. – Gajeel resmungou após deixar Levy no quarto desocupado, que possuía uma cama de solteiro, um roupeiro embutido a uma das paredes, uma escrivaninha à um canto, um criado-mudo ao lado da cama e uma pequena estante para livros completamente vazia.
- Okay! – Levy concordou radiante. Não parecia importar-se com a simplicidade daquilo que encontrara. A janela era pequena e desprovida de cortinas e o quarto estava um tanto empoeirado, mas ela estava animada e sorridente, disposta a limpar e arrumar.
Um sorriso brincou nos cantos dos lábios de Gajeel enquanto retirava embalagens vazias das prateleiras do banheiro e atirava ao lixo. Ver Levy sorrindo daquela forma quase fazia valer a pena tê-la permitido ficar. E valeria se Gajeel não soubesse que acabara de fazer uma loucura.
Gostaria de poder dizer que resistira bravamente à investida emocional da garota quando ela apelara aos seus grandes olhos castanhos chorosos, mas se resistisse àquilo, o que poderia dizer sobre si mesmo enquanto homem?
Lhe lera um sermão enorme antes de permitir que colocasse sequer um pé porta adentro, proibindo-a de entrar em seu quarto e comprometendo-se a não entrar no dela e a única exceção à essa regra seria um convite expresso. Também a proibira de largar calcinhas espalhadas pela casa, roubar suas guloseimas ou tomar suas cervejas. A advertira quanto às despesas inclusas no aluguel e falara por mais uma hora além disso.
No entanto, Levy sorrira o tempo todo. Parecia-lhe que se a proibisse de sequer comer ali, ela aceitaria de bom grado. Suas entranhas se contorceram e ele sentiu-se mal por tê-la enxotado a um primeiro olhar. Depois sentiu-se mal por sentir-se mal e uma bola de neve começava a rolar montanha abaixo dentro de si.
- Gajeel! – Levy chamou, saindo de seu quarto e adentrando o banheiro que era bastante amplo. A bandana que antes apenas lhe empurrava os cabelos para trás, agora os prendia em um rabo de cabalo e ela estava imensamente fofa. Gajeel buscou focar em outra coisa. – Preciso de coisas para limpar meu quarto. Você limpa esse lugar com alguma coisa?
- O que você não tem de tamanho, tem de ingratidão, coisinha! – Gajeel resmungou entre dentes, cutucando a testa exposta vezes seguidas, abaixando-se ligeiramente para falar-lhe. – Está dizendo que não limpo as coisas por aqui? Huh? É isso que estou ouvindo nesse seu tom de voz? Eu a deixo entrar em minha casa e é assim que me retribui?
Afastando sua mão com um peteleco, Levy franzira o cenho e lhe corrigira:
- Nossa casa, gênio; nossa. – enfatizou. Gajeel sentiu que seu coração se apertava e torcia. Queria procurar um cardiologista. – Cadê as coisas?
- Aqui, Tampinha irritante. – Gajeel abaixou-se, abriu o armário sob a pia do banheiro e retirou um pequeno balde com alguns produtos de limpeza e panos de chão, colocando-o nas mãos pequenas. – Há um rodo na área de serviço, no final da cozinha.
Com um aceno, a garota novamente o deixara sozinho com seus pensamentos.
Enquanto dividira o lugar com Laxus, Gajeel achava que o apartamento era bastante grande, com uma cozinha à esquerda da porta de entrada, uma bancada a dividindo da sala e uma pequena área de serviço bem ao final do espaço; do outro lado da bancada, a sala se mostrava um sofá de canto com um grande aparelho televisor logo em frente, um tapete felpudo cobrindo o espaço entre estes com uma mesa sobre, exatamente ao centro; no mesmo espaço, uma pequena mesa com duas cadeiras encostava-se à outra parede; um corredor dividia os dois quartos e, ao fim deste, o único banheiro.
Agora que Levy transitava alegremente pelo lugar, tudo parecia pequeno, quase sufocante. Seu cheiro já começava a espalhar-se pela casa e à Gajeel parecia que deveria fazer um enorme esforço para não esbarrar na garota. Acidentalmente, claro.
III
“Cada segundo que Levy passava ali perpetuava sua presença, tornava o lugar uma parte de si e ela se tornava uma parte dele.”
- Vai! – a garota insistiu da porta de seu quarto, já finalmente arrumado, as mãos na cintura, o cenho franzido.
Apenas quatro horas passaram-se desde que ela ali chegara e Gajeel a ajudara com as malas, arrastando aqueles pesos monstruosos porta adentro e perguntando-se o que haveria ali.
Acabou por descobrir que não eram muitas as roupas e sapatos da garota, mas sim os livros, que ocupavam toda a estante, boa parte da escrivaninha e alguns poucos estavam dispostos sobre o criado-mudo, pelo que podia ver.
Naquele espaço de tempo, Levy limpara tudo até o ambiente parecer ofuscante, a pequena janela aberta fazendo as novas cortinas de cor clara esvoaçarem contra o sol poente. A cama estava impecavelmente arrumada, um acolchoado de aparência muito macia estendido sobre o colchão, no qual Gajeel vira Levy colocando capa de zíper e lençóis limpos, dois travesseiros e uma almofada apoiados contra cabeceira. Pequenos tapetes felpudos mostravam-se em vários pontos do quarto e Gajeel percebera que nunca vira tamanha arrumação em sua vida.
- Não vou, vai você! – Gajeel respondeu da porta de seu quarto, a qual mantinha apenas semiaberta para que Levy não pudesse ver suas roupas espalhadas pelo chão, junto de livros, sapatos e embalagens vazias de guloseimas há muito consumidas. Vestira uma camisa regata apenas por que sentia-se exposto e consciente desse sentimento pela primeira vez em sua vida. Era quase um nudista, mas sentia-se envergonhado perto de Levy. Talvez por que ela zombara de sua aparência mais cedo. Talvez não.
- Eu não posso ir, preciso de um banho com urgência! – Levy bateu com um pé no chão com força, tendo há muito retirado os tênis para limpar seu quarto com maior facilidade, e acabara por limpar também o chão de todo o apartamento. Seu rosto estava ligeiramente suado e algumas mechas de seus cabelos haviam se libertado da bandana que os prendia. A barriga lisa e de pele branca estava exposta, pois dobrara sua regata para cima devido ao calor que estava visível nas gotículas que se formavam na pele que Gajeel esforçava-se para não mirar.
Estava acontecendo o que o moreno temia: cada segundo que Levy passava ali perpetuava sua presença, tornava o lugar uma parte de si e ela se tornava uma parte dele.
Mas a pior parte era o desejo que Gajeel forçava-se a suprimir. Pensava o tempo todo sobre coisas pervertidas como nunca antes o fizera.
Conhecia muitas mulheres bonitas e gostosas, com curvas que fariam qualquer homem implorar, mas Levy, apesar de também sê-lo, o era de forma completamente diferente. Não tentava ser sensual, por isso o era. Não mirava Gajeel com desejo naqueles lindos olhos castanhos, e isto apenas fazia com o moreno desejasse ver o reflexo da libido brilhando em seus orbes. Não lhe mostrava partes de seu corpo propositadamente, tudo era muito ocasional, e, normalmente, aquilo não bastaria para lhe excitar, mas a inocência de seus gestos a tornava apetitosamente desejável.
Naquele exato momento, depois de desejar pernas, nádegas, seios, boca e muitas outras partes daquele corpo pequeno, Gajeel esforçava-se para não pensar em si mesmo marcando a pele daquela barriga com mordidas e sugadas. Estava caminhando por uma estrada de espinhos e aquele seria seu castigo por não resistir ao impulso idiota de aproximar-se.
- Eu ‘tô é nem aí para o seu banho, Tampinha. Você não vê que ‘tô ocupado? – Gajeel ralhou e empurrou Phanterlily de volta para dentro com um dos pés. O gato tentava carregar uma embalagem de biscoitos vazia para fora do quarto, como se quisesse contar à Levy sobre o estado deplorável e caótico em que o quarto de Gajeel se encontrava.
- E eu também! Acabei de me mudar, ou você já se esqueceu? – Levy deu um passo em frente, a irritação brilhando em seus olhos sinceros. – Por que não pode simplesmente ir logo ao supermercado e comprar o que precisamos para fazer um jantar decente nessa casa? Eu nem sequer conheço essa vizinhança!
Gajeel rangeu os dentes e rosnou, desistindo da discussão e fechando a porta de seu quarto, pegando sua carteira sobre a mesa da sala e saindo sem se despedir, batendo a porta atrás de si.
Já bufava na metade do corredor, quase chegando às escadas, quando ouviu a voz de Levy chamando-o e seu coração deu um salto desnecessário e não-autorizado ao ouvi-la. Virou-se e a viu acenando e sorrindo:
- Volte logo. Estarei esperando!
Gajeel acenou de volta bobamente enquanto a garota desaparecia porta adentro.
Algo estava muito errado com seu cérebro, mas parecia haver algo ainda mais errado com seu coração.
IV
“As coisas estavam ficando loucas como inferno em sua vida.”
Voltou com as mãos cheias de sacolas, deixando-as sobre a mesa da sala e largando-se em uma cadeira. Comprara vegetais, legumes e arroz, carne suína e bovina, frango e peixe, ovos, frutas e mais tantas coisas que esperava satisfazer à Tampinha exigente.
A operadora de caixa com quem passara suas compras era alguém que já conhecia, pois costumava comprar muito ali e flertava sempre com ela, mas desta vez aquele seu sorriso coquete não se mostrou um convite para Gajeel. Ela estranhara tanto sua falta de interesse quanto as coisas que comprara. O moreno sempre levara apenas guloseimas para a casa em todos aqueles anos e, repentinamente, aquela mudança. Gajeel se perguntava por que estava se esforçando tanto para agradar àquela coisinha pequena.
Suspirou e, bem enquanto o fazia, a porta do banheiro se abriu, o cheiro de banho feminino recém-tomado invadindo suas narinas. Observando a figura que se destacava contra a porta do banheiro, Gajeel engoliu em seco. Levy enxugava os cabelos úmidos com uma toalha felpuda e vestia apenas uma regata quase justa e shorts largos, ambos feitos de flanela, os pés descalços. Quando ela virou-se em sua direção, percebeu que não usava sutiã e seus mamilos intumescidos destacavam-se contra o tecido fino. A garota sorriu-lhe incerta e ligeiramente corada quando os olhos se encontraram, dirigindo-se a passos apressados para seu quarto e fechando a porta às suas costas.
Gajeel piscou aturdido e umedeceu seus lábios, mordendo o inferior com força:
- Sensual pra porra... – segredou para si mesmo em um sussurro, a imagem da garota gravada à fogo em sua mente.
Os shorts eram largos e curtos, então mostravam as coxas e delineavam as nádegas com perfeição, deixando tão pouco à imaginação que era enlouquecedor. A regata quase ajustava-se às curvas com exatidão, mas o fato apenas tornava o corpo que escondia ainda mais tentador, deixando apenas parte da barriga e um ligeiro vislumbre do vale entre os seios à vista. No entanto, aquilo que escondia não era um segredo. Gajeel engoliu em seco ao pensar naqueles mamilos em sua boca, permitindo que sua língua brincasse com eles.
As coisas estavam muito loucas dentro de suas roupas e, repentinamente, o apartamento parecia muito quente.
Levy deixou seu quarto e Gajeel cruzou suas pernas, escondendo o volume que começava a mostrar-se em sua virilha e buscando uma calma dentro de si que a pequena parecia ter eliminado completamente. Mirou a região de seus seios em busca de outro vislumbre de seus mamilos, mas eles não estavam mais ali. A garota vestira um sutiã e Gajeel sentia-se grato por isso, mas não tanto quanto gostaria.
Levy começou a tagarelar sobre um livro que lia e Gajeel estava embebido em suas palavras enquanto ela se movia graciosamente pelo lugar, desembalando as compras e guardando-as, deixando sobre a pia aquelas que usaria. Quando mulheres falavam, geralmente Gajeel se sentia entediado, pois as que conhecia eram tão fúteis e ele estava tão interessado em fodê-las que apenas respondia automaticamente. No entanto, Levy falava sobre o livro e o criticava de uma maneira cativante, trazendo à tona os sentimentos das personagens e colocando-os como se fossem seus. Quando Gajeel percebeu, já pedia o livro emprestado.
Era um homem de poucas palavras. Fora um adolescente de ainda menos e uma criança que conversaria apenas com Metalicana, se assim pudesse. Mas ali estava ele falando e rindo com Levy. Que merda havia naquela garota que o fazia querer aproximar-se?
Levy arrancava coisas vencidas da geladeira e dos armários e atirava-as ao lixo. Resolvera que limparia a geladeira antes de fazer o jantar, e, como Gajeel a ajudaria com este último afazer, deveria tomar um banho antes se assim o quisesse, pois quando saísse, ela já teria terminado o que estava tão determinada a fazer.
Quase à contragosto, Gajeel concordou e foi para seu quarto, pegando suas roupas e rumando para o banheiro.
O banho fora repleto de gemidos roucos e baixos enquanto se tocava com pensamentos nada castos sobre Levy. Nada concreto como uma fantasia sexual, mas imagens aleatórias com a garota nua em seus braços, suas mãos apertando-a toda, marcando sua pele, esfregando-se nela, beijando, mordendo, lambendo, ouvindo seus gemidos, penetrando-a, levando-a ao êxtase junto de si.
Quando os espasmos do orgasmo cessaram e o entorpecimento dera lugar à lucidez enquanto a água lavava seu sêmen, Gajeel sentiu-se culpado por masturbar-se pensando em alguém pela primeira vez em toda sua vida.
As coisas estavam ficando loucas como inferno em sua vida.
V
“Viram o sol nascer juntos e adormeceram sentindo como se aquilo significasse o nascer de algo novo entre eles.”
Um dia seguiu-se ao outro e Gajeel apreciava cada um deles que passava ao lado de Levy. As coisas haviam se tornado tão diferentes em sua vida que estava se perguntando quando tudo mudara tanto. Percebeu, então, que a mudança fora gradual e que a apreciara.
Levy não tardara a arranjar um emprego como instrutora particular de línguas estrangeiras com dez crianças diferentes, então chegavam e saíam juntos de casa todos os dias.
Gajeel ainda não conseguia entender como alguém tão jovem poderia ser fluente em tantas línguas diferentes: japonês, inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, árabe, chinês e coreano.
A garota não precisava de uma faculdade para ganhar a vida, mas insistia em fazer uma para subir os degraus escorregadios do mundo dos críticos literários.
Seu desejo de aproximar-se de Levy crescera cada dia um pouco mais, e Gajeel parara de esforçar-se para resistir.
Passaram a fazer tantas coisas juntos que o moreno mal conseguia se ver sem a companhia da Tampinha. Cozinhavam o jantar juntos e também o comiam; assistiam às mesmas séries de TV, filmes, documentários e desenhos animados; acordavam um ao outro batucando a madeira da porta, cada dia sendo um a gritar com o outro nas manhãs durante os dias úteis da semana; faziam compras no supermercado e em lojas de roupas, livrarias e lojas de sapatos; frequentavam a mesma coffee house, bar e lanchonete, um lugar chamado Mira’s, a duas quadras de casa, e escolhiam sempre pedidos iguais; mas, acima de qualquer coisa que compartilhavam, o que Gajeel mais apreciava era o riso.
Não passara muito tempo até que a pequena turma da qual Gajeel fazia parte passasse a conhecer Levy, mas a ele parecera que a garota encontrara ali seu lugar sem qualquer ajuda, enturmando-se como se já fizesse parte do grupo há muito tempo.
O Mira’s ficava na rota que todos faziam em direção à Universidade, então Gray, Juvia e Natsu estavam sempre por ali. Na segunda semana em que Levy estava morando com Gajeel, Natsu marcara uma reunião na mesa de sempre e convocara Levy. A garota sequer precisou de tempo para pensar.
O encontro fora mais normal do que Gajeel temera. Esperava que Levy ficasse assustada com os hábitos nudistas de Gray, a voz alta e gestos escandalosos de Natsu e ainda mais com a expressão de namorada psicopata que Juvia tinha quando alguma garota desconhecida chegava perto de Gray, no entanto todos os seus temores se revelaram infundados.
- Eu quero que você cuspa! Cuspa agora! – uma garota loira gritava acima da balbúrdia geral que era o lugar, as mãos agarrando os cabelos rosados de um rapaz, que gritava ainda mais alto que ela quando Gajeel e Levy passaram pela porta do Mira’s.
- Aquela é a nossa mesa. – Gajeel indicou com um gesto despreocupado e um suspiro de decepção. Esperava que eles pudessem ser normais ao menos uma vez na vida, mas isso provavelmente seria querer demais.
- Eu não vou cuspir, já está quase do outro lado a essa altura! – o rapaz de cabelos rosados gargalhou, mas choramingou quando a garota puxou com mais força após um grito de raiva.
- Sua criatura asquerosa, você vai vomitar meu colar nem que eu tenha que enfiar minhas mãos na sua boca! – a moça gritou, agarrando as arcadas dentárias superior e inferior do rapaz e puxando-as em direções opostas, um olho curioso fitando o interior da boca mantida muito aberta.
Os olhos negros do rapaz se encontraram com os de Gajeel e ele não pareceu incomodado de forma alguma com a garota que olhava dentro de sua boca ao começar a falar daquela forma:
- Oe, Gaheel! – chamou com a voz soando ridícula devido à forma como sua boca estava aberta. – Renga arri e arrerrenrre a garrorra ra renrre.
- Cala a boca, Natsu, e me deixa procurar meu colar em paz. – a garota loira continuou a perscrutar o interior da boca que mantinha aberta à força.
- Para que apresentar a garota para você se foi você quem disse a ela para me procurar? – Gajeel cruzou os braços ao parar às costas da moça, sobressaltando-a e obrigando-a a soltar Natsu para olhar-lhe com imensos olhos castanhos e um sorriso que era todo pedido de desculpas.
- Olá. – a moça cumprimentou, limpando as mãos em guardanapos de papel e estendendo-a para Gajeel apertar. – Desculpe pela cena, mas esse animal engoliu meu colar. Sou Lucy.
- Sim, a namorada do animal. – Gajeel ameaçou rir-se ao olhar para Natsu, que esfregava as bochechas com uma expressão de dor. – Sou Gajeel, mas se está pensando que vou apertar essa mão cheia de baba de bicho, ‘tá muito enganada.
- Quem você chamou de bicho, seu bosta? – Natsu perguntou, já levantando-se de seu lugar, procurando briga com Gajeel como sempre, mas foi obrigado a sentar-se com um gemido de dor quando Lucy lhe socou o estômago.
- O animal encontrou uma domadora, Gajeel. – o moreno de olhos cinzentos riu-se do canto no qual mantivera-se em silêncio até então. Natsu virou-se em sua direção pronto para começar nova briga, mas Lucy agarrou o rosto do rapaz, examinando sua boca novamente.
- Sim, mas me parece que você precisa que Juvia o dome novamente, cérebro de geleira. Onde estão suas roupas? – Gajeel perguntou apontando para o moreno, que franziu o cenho para o peito desnudo, provavelmente perguntando-se quando foi que se despira.
- Gray, querido, você não pode despir-se assim em público. – a mulher de cabelos tão azuis quanto os de Levy pronunciou-se ao lado de Gray, os tímidos olhos escuros afastando-se do rapaz que tinha sérios problemas para manter-se vestido, a face pálida completamente corada. Gajeel se perguntava se eles já teriam feito sexo pela forma como ela agia toda constrangida. Se não, Gajeel apenas podia lamentar por seu amigo, que tinha uma namorada tão bonita, mas tão boa das ideias quanto ele.
- Onde estão minhas roupas, Juvia? Ah, pelo amor de Deus... – Gray perguntou, abaixando-se e examinando sob a mesa redonda e Gajeel sentiu as cócegas do riso em sua garganta.
Virou-se para o lado afim de apresentar Levy aos seus amigos anormais, mas esta já se afastara, ligeiramente curvada em direção à Natsu ao lado de Lucy, examinando a boca aberta com interesse:
- Como você espera recuperar esse colar? – perguntou à loira, que cutucava a língua de Natsu com um dedo enquanto este cantarolava entediado.
- Ainda não sei, mas vou. Nem que eu precise abrir a barriga desse imbecil com um cutelo. – Lucy declarou e Natsu resmungou coisas ininteligíveis em resposta. – Cale a boca que ninguém pode te entender.
- Ele disse: “Quando apostou comigo, não disse nada sobre uma cirurgia forçada da qual eu com certeza não vou sair vivo.”. – Gajeel traduziu enquanto se sentava, os olhos vagando pelo lugar apinhando à procura de uma garçonete.
- E como você entende o que ele diz? – Levy perguntou, rindo-se ao ocupar o lugar restante entre Gajeel e Lucy.
- Sei lá. Talvez eu fale macaquês. – Gajeel deu de ombros e sorriu ao ouvir a gargalhada de Levy. Era um som agradável e o seria ainda mais se não houvesse os incômodos resmungos de Natsu, aos quais apenas Gajeel poderia entender, para seu azar. Voltou-se para Juvia, ignorando os xingamentos e impropérios na voz de Natsu. – E que história é essa sobre aposta?
- Oh, Lucy apostou com Natsu que ele não conseguiria engolir seu colar e ele prontamente provou que ela estava errada. – Juvia respondeu, o rosto ainda corado e Gajeel suspeitava que Gray estava demorando demais sob a mesa. Sortudo ele, que poderia fazer qualquer coisa longe de olhares curiosos, mesmo em um lugar apinhado. E o Mira’s era, de longe, o estabelecimento mais frequentado pelos universitários na cidade.
- E por que motivos ela faria isso? – Gajeel perguntou e Gray finalmente ressurgiu de sob a mesa, novamente vestido, e um colar de três fios cintilava em uma de suas mãos, ao qual ele colocou sobre a mesa, mas Lucy pareceu nem sequer notar.
- E por que motivos ela namoraria Natsu? – Gray perguntou, dando de ombros, arrancando risos de Gajeel, Levy e Juvia, e atraindo a atenção de Natsu.
- E por que motivos a Juvia namoraria contigo, Sr. Nudismo-É-Meu-Segundo-Nome? – Natsu bateu sobre a mesa e virou-se para Gray, sentado diretamente ao seu lado.
- Por que Juvia o ama. – Juvia manifestou-se antes que Gray pudesse fazê-lo, as mãos sobre os ombros do moreno, apenas o topo de sua cabeça aparecendo por trás do rapaz, os olhos com aquele brilho maníaco que adquiria sempre que falava de Gray. Seria fofo, se não fosse assustador, Gajeel pensava. – Ama muito, Natsu-Cabeça-De-Fósforo. Ama demais.
- O que? Agora até você me ofende, Juvia? – Natsu choramingou e Gray riu-se sem se conter. Até onde Gajeel sabia, Natsu e Gray se conheciam desde crianças e a rivalidade entre os dois até mesmo os levara à mesma Universidade.
- Tem mais é que ofender mesmo! – Lucy esbravejou, espalmando a mão sobre a mesa ruidosamente tal qual seu namorado, sua palma finalmente encontrando o colar que há muito estava ali. Pegou-o com olhos desconfiados e sua voz estava um tom mais baixo quando falou, os olhos reduzidos a fendas ameaçadoras. – Okay, eu quero saber quem colocou isso aqui e quero saber agora.
Um perigoso silêncio pairou sobre a mesa que fora tão barulhenta segundos antes e todos se recusavam a mirar os olhos castanhos da loira.
- Ah, eu não aguento essa pressão! – Natsu finalmente gritou. – Aposto que foi o Gray.
- Outra aposta? – Gray suspirou, uma veia saltando em sua têmpora. Em um rápido movimento, agarrou Natsu pelo pescoço e começou a estrangulá-lo. – Pois saiba que todos esses anos que passei tendo que te suportar acabam agora!
E a cena estendeu-se com uma mistura de braços de Natsu e Gray enquanto tentavam se matar em meio a gritos e ameaças. Era a primeira vez no dia em que prometiam matar um ao outro, mas não seria a última em suas vidas. Lucy acabou presa àquela bagunça quando tentara separá-los e Natsu a arrastara para entre as cadeiras dos brigões. Gajeel foi tragado para a briga quando tentara tocar em Gray afim de separar os punks, mas um brilho estranho tremulou nos olhos de Juvia e esta mordeu-o, tentando espetar seus olhos com os dedos e dizendo que não tocaria em seu precioso e querido Gray.
Uma ligeira tossezinha educada findou a briga como se um feitiço os tivesse congelado. Lentamente, os envolvidos voltaram seu olhos para a mulher alta que postava-se ao lado da mesa, os cabelos brancos e ondulados cascateando por seus ombros e emoldurando seu rosto de feições suaves e sorriso agradável, mas com olhos muito azuis que destilavam a irritação que a veia que saltava em sua testa poderia facilmente dar conta de expressar.
— Gostariam de pedir algo agora? Ou preferem fazê-lo depois de destruir meu estabelecimento? Talvez eu devesse chamar Erza... – a jovem mulher expressou-se, o sorriso alargando-se sem, no entanto, aplacar o fogo de seus olhos.
- Mirajane! Linda e querida Mirajane! – Gray saudou-a com um grito, finalmente largando Natsu, apenas para abraçá-lo de seguida, o qual correspondeu o abraço com fervor. – Não há nenhuma necessidade de chamar Erza aqui. Vê? Natsu e eu somos mais amigos que nunca!
- Aye! – Natsu confirmou como um eco, repentinamente transformado em um dócil bichinho. Gajeel podia entender o pavor de ambos. Mirajane poderia ser terrível, quase tanto quanto Erza, a ruiva, mas ambas juntas eram mais confusão do que Natsu e Gray poderiam aguentar.
- Fico feliz em ouvir isso. – e então, simples assim, a veia desapareceu da testa de Mirajane e seu sorriso era realmente acolhedor e simpático. – Vão querer pedir agora?
Os pedidos de Natsu, Gray, Juvia e Lucy foram feitos com gritos e palavras de dúvidas, mas para Gajeel e Levy a escolha era tão clara quanto as palavras que proferiram juntos:
- Um cappuccino forte sabor creme e caramelo com bastante chantilly e canela e um pedaço grande de bolo de brigadeiro para acompanhar.
Mirajane riu-se respeitosamente ao ouvir e anotar aquele pedido enquanto Gajeel e Levy entreolhavam-se e coravam ligeiramente, um sorriso de cumplicidade trocado entre ambos.
As conversas foram retomadas fervorosamente e, desta vez, as brigas não tiveram mais lugar naquela mesa, apesar das muitas discussões por motivos idiotas.
Gajeel surpreendeu-se quando Levy engajou numa discussão acalorada com Lucy a respeito do medo em relação ao primeiro dia de aula e os risos e confissões trocados entre as futuras crítica literária e jornalista eram algo que agradava aos ouvidos de Gajeel. Levy encontrara seu lugar.
Não tardou até que mais mesas fossem arrastadas para unirem-se àquela e mais pessoas aderiram à roda de conversa: Mirajane e Erza, a outra sócia do lugar; Elfman e Lisanna, irmãos mais novos de Mirajane; Jet e Droy, que nunca antes haviam aderido à turma, mas repentinamente pareciam bastante interessados em Levy e Gajeel sentira-se mais tentado do que nunca a lhes dar alguns chutes; Sting e Rogue, os novatos dos cursos de, respectivamente, Engenharia Civil e Engenharia Metalúrgica que pareciam mais interessados nos passos de Natsu e Gajeel do que nos próprios, mas eram companhias bastante engraçadas; a única colegial a frequentar o Mira’s, Wendy; Cana, a despudorada beberrona; e tantas outras pessoas que Gajeel sequer conseguira apresentar à Levy, mas esta não parecia se importar, pois divertia-se e ria tanto que Gajeel sentiu até mesmo uma pontazinha de ciúmes, ou, talvez, um pouco mais que isso.
O resto da tarde, boa parte da noite e algumas horas da madrugada foram gastas no Mira’s e o grupo só despediu-se quando o estabelecimento alcançou o horário de fechamento.
- Deve estar pensando que te sacaneei. – Gajeel murmurou encarando suas botas de cano médio enquanto caminhavam lentamente em direção ao apartamento que dividiam, um distância segura entre eles.
- Ora, e por que pensaria isso? – Levy perguntou sem entender, a cabeça ligeiramente inclinada na direção de Gajeel.
- Por que eu disse que os caras eram suaves, gente fina e você chega lá pra se deparar com aqueles loucos. – Gajeel deu de ombros, um esgar em seus lábios. Mesmo que soubesse o quanto Levy divertira-se naquele dia, não poderia deixar de sentir-se culpado por ter-lhe dito aquilo apenas para que ela o acompanhasse. Queria dividir mais aquela parte de sua vida com Levy; queria que ela se aproximasse.
- E não estava errado. Bem, eles são um pouco incomuns, isso eu tenho que admitir. – Levy riu-se gostosamente, e Gajeel teve que sorrir, resistindo bravamente ao impulso de olhar em seu rosto e ver as curvas de seu sorriso espalhando-se por aqueles lábios tão desejáveis. – Mas eles são seus amigos, e meus também a partir de hoje. Lu é alguém realmente encantadora. E eu... – desviou o olhar do rosto de Gajeel, mesmo que este não conseguisse tirar seus olhos do chão para encará-la. Se o tivesse feito, veria que corava. – Eu fico... Bem... Feliz, você sabe... Por... Sei lá... Fazer parte de outro aspecto da sua vida.
E Gajeel finalmente não resistiu ao impulso de olhá-la, toda pequena ao seu lado, com roupas não muito apropriadas para o clima da madrugada fria de fim de outono, o rosto corado adoravelmente, os braços cruzados sob os seios.
Levy não ousava encarar Gajeel, por mais que os olhos incomumente vermelhos do moreno ansiassem pelo encontro com os orbes castanhos e calorosos. Se o tivesse feito, veria um grande sorriso de Gajeel que aqueceria seu coração.
Gajeel retirou seu casaco pesado e colocou-o sobre os ombros de Levy, que encarou-o em tempo de ver uma sombra do sorriso ainda nos lábios do moreno:
- Fico feliz.
E aquelas simples palavras ditas naquela madrugada silenciosa os permitiu uma troca cúmplice de sorrisos acanhados. E eles finalmente perceberam que estavam aproximando-se.
A caminhada seguiu com uma distância reduzida entre os corpos.
A madrugada foi passada nos sofás da sala, com risos trocados e conversas jogadas fora. Viram o sol nascer juntos e adormeceram sentindo como se aquilo significasse o nascer de algo novo entre eles.
VI
“E era tão bom tê-la assim tão próxima... Era quase como se Levy lhe pertencesse.”
- Não, ainda não! – Levy choramingou, segurando os ombros de Gajeel com ambas as mãos e pendurando-se em suas costas, as pernas cruzadas sobre o tórax do rapaz, buscando pará-lo. Era inútil, claro, pois o moreno a carregava como se não pesasse nada. – Por favor!
- Qual é a merda do problema, guria? – Gajeel finalmente parou de caminhar, enxotando Levy de suas costas com as mãos. Estava cansado dos choramingos e clamores da garota.
- Eu ainda não estou pronta para me tornar uma universitária! – Levy exclamou, chorosa, postando-se à frente de Gajeel. Estavam já quase em frente ao Mira’s no caminho que percorreriam a pé para a Universidade. Gajeel revirou os olhos.
- Talvez devesse pensar melhor nisso antes de prestar vestibular novamente no próximo ano. – Gajeel foi sucinto em sua resposta, simplesmente dando a volta em Levy e prosseguindo seu caminho com um bocejo cansado. A garota estava reclamando sobre a primeira semana de aula há vários dias e, por mais que Gajeel tentasse tranquiliza-la, nunca obtinha verdadeiro sucesso.
- Que história é essa de prestar vestibular no próximo ano? – Levy apressara seus passos ao retomá-los afim de alcançar Gajeel, que parara na esquina do Mira’s.
- Se perder esse ano, então acho melhor prestar vestibular no próximo ano para outra coisa. Ao menos eu preferiria assim se fosse comigo. Fracassar em comparecer ao próprio curso me parece uma maneira bem fracassada de fracassar. – Gajeel respondeu ao encostar-se à placa de sinalização de trânsito colocada na calçada. Se abordagens sutis não funcionariam para empurrá-la para frente, Gajeel faria o que sabia fazer de melhor: ser grosseiro.
- Isto é absurdamente redundante! – Levy ralhou, batendo um pé no chão com força, bufando. – Sem contar que não é isso o que quero! Eu... Eu só estou com medo, só isso!
- A redundância é para que você compreenda quão ridículos são seus medos. – Gajeel finalmente voltou-se em direção à garota, quase mulher, que o olhava com os grandes olhos castanhos marejados pelas lágrimas. Oh, qual é... Lágrimas eram jogo baixo! Sem permitir que seu cérebro filtrasse suas ações antes de coloca-las em prática, Gajeel aproximou-se, enlaçando os ombros da baixinha com um braço e apertando-a contra seu peito, ao qual ela mal alcançava. – Tampinha, se seu sonho realmente for se tornar uma grande crítica literária como não parou de repetir desde que a conheci, deveria superar esses medos bobos que tem. Se hoje está com medo de comparecer ao primeiro dia de aula apenas por que não se sente pronta, como será quando tiver que exercer a profissão que escolheu ou, ainda pior, lutar por um emprego neste ramo? Vai sentir-se novamente frágil e assim tão tentada a desistir?
Com uma fungada, Levy abraçou-o com força, as pequenas mãos apertadas contra a camisa de Gajeel antes de responder com voz abafada:
- Não poderei. Não é?
- Não, Tampinha, não poderá. – Gajeel riu-se. Era uma menina, mas era também uma mulher. Era pura e agradável, mas conseguia ter uma voz de gralha para acordá-lo de manhã. Era tão gostosa quanto fofa, e isto sempre atormentaria os sonhos nos quais Gajeel estava determinado a não pensar. – Então, vai desistir agora e permitir que outra pessoa ocupe o lugar que você almeja?
- De jeito nenhum! – Levy afastou seu rosto do peito forte no qual se aninhara e mirou o rosto de Gajeel com determinação queimando em seus olhos castanhos.
- É assim que se fala. – Gajeel abraçou-a verdadeiramente. E era tão bom tê-la assim tão próxima... Era quase como se Levy lhe pertencesse. Teve vontade de não deixa-la ir nunca. Mas ela não lhe pertencia e nunca o faria, pois Gajeel não poderia jamais tentar toma-la apenas para si. Não a deixaria ir, pois partiria antes que ela pudesse fazê-lo. Tinha certeza disso. Conhecia-se.
Se dissesse, nem que apenas para si mesmo, que não pensara em tentar algo firme com Levy, sendo sincero pela primeira vez em sua vida, mentiria. E Gajeel não era do tipo que mentia para si mesmo. Talvez um dia o fora, mas não desde que conhecera Levy.
A garota era uma menina-mulher, com sorriso meigo e mãos gentis, com olhos calorosos e um corpo inigualável. Gajeel estava embebido nela tanto quanto um tecido pode se embeber em álcool e, tanto quanto tal tecido, bastaria uma faísca para que pegasse fogo.
No entanto, sempre que pensava que poderia ser ele o responsável por apagar aquele sorriso, Gajeel sentia-se despedaçado. E não conseguia ver um fim para um relacionamento entre ele e Levy que não acabasse com um coração quebrado.
Era um cafajeste. Sabia disso. Todos sabiam disso. Todas, ainda mais. Então como poderia esperar prender-se a alguém? E quando se cansasse? E se a pessoa se cansasse dele? Levy era primeira mulher com quem jamais se envolvera romanticamente, mas a primeira a fazê-lo pensar em mudar quem era.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Entretanto, aqueles pensamentos permaneceriam exatamente aquilo que o eram: pensamentos. Gajeel estava determinado a não coloca-los em prática.
Mas, se assim o era, por que sentia-se tão bem tendo aqueles braços frágeis a lhe circundar, as mãos pequenas a lhe segurar com força, o rosto lindo e suave aninhado contra seu peito? Por que sentia-se tão tentado a toma-la apenas para si? E por que sentia-se tão temeroso em sequer tentar? Pela primeira vez, sentia-se absurdamente incapaz de conquistar uma mulher.
Levy tinha muito mais que beleza, fofura, uma boa conversa, riso agradável e gostosura. Era uma intelectual, inteligente e absorta em seu próprio mundo de palavras e histórias. Gajeel sentia-se cada vez mais diminuído toda vez em que pensava sobre isso, afinal, nunca fora do tipo muito absorto por conhecimentos variados; aquilo que lhe interessava era aquilo a que se dedicava. Ponto.
Naquele mês que passara desde que Levy viera morar consigo, Gajeel aproximara-se mais passos do que poderia contar e há muito já passara do ponto em que poderia voltar atrás.
Apertou Levy com mais força.
Decidiu que seus sentimentos ficariam eternamente enterrados em seu coração, até que simplesmente desaparecessem ou acabasse devorado por eles, mas sua real determinação era jamais permitir que Levy o desvendasse e descobrisse o que ia no mais íntimo de seu coração.
- Hey! Parem de namorar na esquina e vamos logo! – uma voz expansiva que Gajeel poderia facilmente ficar sem ouvir pelos próximos cinquenta anos esbravejou de uma curta distância. Natsu sabia como ser um incômodo.
- Pelos vistos outro animal conseguiu uma domadora! – outra voz quase tão detestável quanto a primeira surgiu da direção oposta e Gajeel bufou. Gray conseguia ser tão inconveniente quanto Natsu quando queria. E, para a infelicidade de Gajeel, parecia sempre querer.
Baixou os olhos para Levy com um pedido de desculpas em seu lábios, mas este derreteu como neve ao sol diante daquele lindo sorriso que adornava a face corada da pequena. Gajeel sentiu-se como se uma mão de ferro apertasse seu coração, tamanha dor que sentia. De repente, respirar se tornara uma tarefa difícil.
Levy poderia não sabê-lo, mas aquele seu sorriso apenas despedaçara ainda mais o coração de Gajeel. E ele jurou novamente que ela jamais saberia de seus sentimentos.
VII
“Sorrisos não são feitos de felicidade, Gajeel. Sorrisos são feitos de esperança.”
- Gajeel! – a voz estridente ecoou pelo pequeno apartamento e Gajeel trincou os dentes. O que merdas poderia ter feito para que a baixinha lhe gritasse com tamanho tom de repreensão?
Desde que Levy viera ali morar, as coisas tinham ficado bem ruins para Gajeel, que aprendera a tomar broncas dolorosas e ficar em silêncio pela primeira vez em sua vida.
- Que merda você quer agora, Tampinha? – Gajeel perguntou em um grito de resposta já ouvindo os passos dos pequenos pés nus ecoando ao pisar com força contra o chão de tacos. Ela estava indo do banheiro para a sala como uma tropa marchando.
- Eu que pergunto que merda você quer com isso! – Levy exclamou, contradizendo suas palavras enquanto sacudia uma toalha de rosto em frente aos olhos de Gajeel, que franziu o cenho sem entender.
- Bem, pelo que vejo, isso é uma toalha de rosto, então só posso querer enxugar meu rosto com ela. – Gajeel explicou-se com obviedade, mordendo o lábios inferior ao ver a raiva queimando nos olhos de Levy. A pequena estava de TPM novamente, de acordo com as contas mentais que Gajeel andara fazendo. Desta forma, evitava ao máximo confrontá-la. Bem, isso nem sempre dava muito certo.
- Sim. Que bom que sabe para que serve. Mas será que realmente sabe? Por que eu estou vendo uma meleca enorme aqui! – Levy estendeu o tecido em frente ao rosto de Gajeel, próximo demais para seu gosto. Como poderia ter certeza de que ela não tentaria arrancar seus olhos com as unhas tendo as mãos tão próximas?
- Pelo que me consta, não há meu nome escrito nessa meleca. Portanto, ela pode ser tão minha quanto sua. E quem me garante que não seja sua e você esteja querendo colocar a culpa em mim? – Gajeel defendeu-se, mas ao ver os lábios crispados de Levy em seu rosto muito vermelho, soube que escolhera as palavras erradas.
Um discurso sobre como ele era porco, nojento, bagunceiro, teimoso, mal educado e orgulhoso demais para admitir seus erros e porquices estava prestes a começar. De novo. Seria a segunda vez no dia.
Estava tão farto que apenas a encarou enquanto ela falava, falava e falava, e andava de um lado para o outro na sala, andava, andava e andava. Não conseguia encontrar em si bom senso o bastante para explicar por que aguentava aquilo há oito meses.
Na primeira vez, todos aqueles hormônios femininos em ebulição o assustaram: a torrente interminável de palavras, de motivos infindáveis para brigas, de felicidade e tristeza sem motivos aparentes. Agora? Bem, ainda o assustava, mas aprendera que ficar com a boca bem fechada poderia salvar sua pele.
Enquanto Levy andava de um lado para o outro sacudindo a toalha em suas mãos e ainda muito entretida com seu discurso, Gajeel não pode evitar um pequeno sorriso. Ela era linda até mesmo quando estava com tanta raiva.
Aprendera a lidar com seus sentimentos por Levy aos poucos. A princípio, quanto mais tentava ir para longe deles, mais estes pareciam lhe perseguir, agarrando-se às suas roupas, braços, pernas, pescoço, abraçando-o, tentando sufoca-lo com aquela torrente de coisas que não entendia completamente.
Primeiramente, entendia que estivera apaixonado por Levy, por sua beleza, por sua doçura, por seu sorriso, por seu corpo. E ainda o era. No entanto, havia algo mais. E quanto mais o tempo passava, mais esse algo que Gajeel não conseguia entender agarrava-se ao seu coração e se enraizava por ali mesmo.
O tempo é um velho sábio que ensina tanto quanto o silêncio. E ensinou à Gajeel sobre seus sentimentos, mesmo que este recusasse a verdade sobre eles. Entretanto, nem todas as certezas são assim tão certas que não possam ser contraditas.
- Você nunca me falou sobre sua família. – Levy tocara naquele assunto delicado como o gelo que as primeiras nevascas do inverno formam sobre um lago parado. Era um território complexo, perigoso, onde um passo em falso, uma escorregadela, por menor que fosse, levaria tudo à perder.
- Tampouco você me falou da sua. E sabe por que? Por que eu não sou uma garota baixinha e intrometida, então cala a boca e assiste. – Gajeel resmungou, mal humorado ao concentrar toda sua atenção no episódio de série que assistiam juntos.
Àquela altura, Levy já morava ali há quase seis meses e a proximidade entre eles crescera, tanto física quanto emocional, mas aquele era um assunto delicado demais para que Gajeel quisesse compartilhar com alguém.
Levy remexera-se incomodada no sofá, o rosto que até então repousava em um dos ombros de Gajeel levantando-se para mirar a face do moreno. O rapaz sabia que ela estava pronta para enfrentar suas tempestades, fossem de gelo, fossem de fogo, e não desistiria:
- Mas eu sou uma garota baixinha e intrometida, por isso faço perguntas. E pouco me importo se vai ficar carrancudo. Você já é bem rabugento quando o quer, de qualquer forma.
- Você pode perguntar o quanto quiser, mas eu também posso me recusar a te contar. – Gajeel respondeu com não mais que um resmungo, se recusando a encarar a garota que sabia ter os olhos cravados em si.
- E se eu não te perguntar nada? E se eu só te contar coisas? – Levy questionou, sabendo que assim atiçaria sua curiosidade. E estava certa, por mais que doesse em Gajeel ter que admitir.
- Já está perguntando. – Gajeel resmungou, as entranhas se embolando de curiosidade. Era um homem crescido, mas seu lado infantil jamais resistira a segredos e coisas que ainda não sabia. E durante todo aquele tempo se perguntara muito sobre Levy, que jamais recebia qualquer ligação de casa. Repentinamente, ali estava o prato que tanto ansiara por degustar todo aquele tempo: os segredos da vida de Levy. Mas estaria disposto a pagar o preço por tal iguaria?
- Então vou parar de perguntar. – a garota foi sucinta. Tomou-lhe o controle remoto e desligou o aparelho televisor. Gajeel não precisava de qualquer outro indício de que Levy queria toda sua atenção. Mal sabia ela que já a tinha. – Eu sou de uma cidade pequena ao sul. Nasci e cresci lá. Não há muito o que dizer sobre o lugar. Cidades pequenas não têm segredos nem atrativos. – Levy contou, recostando-se novamente ao moreno e este finalmente cedeu ao desejo de voltar seus olhos para ela. – Meu pai era uma pessoa simples, sem muitas ambições. Não que eu realmente me lembre de muito sobre ele. Afinal, a última lembrança que tenho dele é seu rosto em um caixão de madeira escura quando eu tinha só sete anos. Ele era simplório, não era propriamente bonito.
“Minha mãe, em contrapartida, é o oposto. Linda é bem pouco para descrevê-la. Alta, com pernas longas e bonitas, cabelos castanhos compridos e ondulados que cascateiam até seus quadris, um rosto de queixo fino e lábios cheios, nariz afilado e altas maçãs do rosto, olhos grandes, profundos, azuis; continua com um corpo jovem mesmo agora que a idade já deveria estar cobrando seu preço. E o que faltava ao meu pai em ambição, a ela sobra, transborda, sufoca.
“Meu pai era um homem assalariado simples, sempre com um sorriso nos olhos castanhos. Os cabelos começaram a rarear cedo devido às preocupações da vida, creio eu. Talvez estas o tenham matado, ao invés de seu câncer. Graças à bondade de Deus, eu herdei quase tudo de seu lado da família em características físicas. Gostaria de crer que também o fiz em personalidade.
“Nós não tínhamos muito dinheiro enquanto eu era pequena, disso me lembro bem, mas isso não era um real problema. Eu amava os poucos presentes que ganhava e a quantidade não importava, desde que viessem acompanhados por aqueles olhos castanhos sorridentes.
“Para minha mãe, aquilo não bastava. Nada nunca bastava. Ela odiava os serviços domésticos e estava sempre amaldiçoando meu pai por não ter um emprego melhor que pudesse nos pagar uma empregada doméstica. Ele a amava tanto... Ah, sim. Amava demais. Por isso apenas a encarava com aqueles olhos que sempre sorriam e desculpava-se. Talvez seja um pecado pensar assim, mas creio que minha mãe foi a maior causa de sua morte. Ou a maior causa de seu câncer. De qualquer forma, não dá no mesmo?
“Quando ele se foi, meu coração de criança era incapaz de entender que aquela separação era um eterno adeus, então eu perguntava o tempo todo para minha mãe quando meu pai voltaria. Ela, que não derramara uma única lágrima, me espancou três dias depois, quando minhas perguntas se tornaram mais frequentes.
“Ela gritou verdades para mim, dizendo que ele estava morto e apodrecendo sob a terra, que aquela era melhor coisa que tinha lhe tinha acontecido desde que se casara com ele. Ela gritou por horas, chamando-o por nomes horríveis e eu chorei.
“Quando ela me mandou calar a boca com mais tapas, eu entendi que jamais deveria perturbá-la, então chorei em silêncio. Meu pai jamais me batera, jamais permitira que ela o fizesse. Tudo doía. Corpo. Mente. Alma.
“E eu entendi que meu pai estava longe do meu alcance. E eu agradeci a Deus por ainda ter minha mãe e para que Ele a abrandasse. E eu chorei por Ele ter levado meu pai. E nunca mais perguntei nada sobre isso à minha mãe.
“Dois meses depois, ela entrou em casa com um homem estranho que eu nunca antes vira. Ela disse que ele seria meu novo pai e eles se casaram algum tempo depois. Nós nos mudamos para aquela mansão magnífica que ele tem.
“Ele era gentil, mas tinha qualquer coisa de forçado em sua gentileza. Ele sorria, mas seus sorrisos nunca chegaram aos olhos. Eu cometi o erro de dizê-lo em voz alta um dia à mesa de jantar e minha mãe jogou todo o conteúdo do prato dela na minha cara, me esbofeteando uma vez em cada lado do rosto e gritando que era ele quem pagava aquela comida que eu comia e que deveria dar-me por satisfeita com isso.
“Ele não se perturbou em seu lugar e apenas continuou a comer como se eu não estivesse ali, como se não houvesse comida em meu rosto, cabelos e roupas e como se eu não chorasse silenciosamente.
“Ele, apesar de nunca me dirigir mais do que palavras que pareciam passar obrigadas por seus lábios, começou a pagar-me cursos e mais cursos, apenas as melhores escolas. Eu estava grata. Deus, eu estava muito grata! Não precisaria passar o dia em casa, escondendo-me de minha mãe o tempo todo.
“Sempre que algo dava errado, era em mim que ela queria descontar. Gritava comigo e me batia. Dizia que eu era um fardo, que deveria me jogar na rua, que deveria abrir minha barriga e me atirar aos cães e coisas ainda piores. Mas o que ela gritava com ainda mais frequência era que queria furar meus olhos com as próprias mãos e arrancar meus cabelos aos puxões, pois era incapaz de aguentar a cara do meu pai estampada na minha.
“Eu chorava. Eu me olhava no espelho e chorava novamente. Então, pedi ao meu padrasto para me ajudar, para me dar lentes que escondessem a cor dos meus olhos e tintas para meus cabelos. E quando eu apareci em casa com olhos e cabelos no tom de azul favorito dela, tudo o que minha mãe fez foi rir e me chamar de aberração. Então, eu abandonei as lentes, mas fiquei com a cor dos cabelos. Meu pai teria gostado daquela excentricidade e eu reencontrei meu sorriso ao pensar nele naquele dia.
“Eu cumpria meus deveres fora de casa. Me esforçava para deixa-la orgulhosa com minhas notas.
“Fora de casa, ela era a melhor mãe e elogiava minhas notas, meu comportamento, minhas medalhas quando estávamos na frente das pessoas. Gabava-se às amigas por ter uma filha tão bonita, tão inteligente. Mas quando estávamos em casa... Ela rasgava meus boletins e cuspia no meu rosto, dizendo que eu nunca seria ninguém. Que era melhor aprender a usar a boceta logo, pois meu cérebro não me serviria de nada.
“Aos doze anos, pela primeira vez eu me perguntei o que a tornara tão amarga. Ela o era desde que poderia me lembrar. Quando era casada com meu pai, reclamava da falta de dinheiro. Então, se casara com meu padrasto e continuava a reclamar, mesmo que agora houvesse dinheiro. Eu não entendia. E eu ainda não entendo. E não se pode odiar aquilo que não se compreende, então eu não a odiava.
“Cultivei tolerância e sorrisos. E cresci. Mais por dentro do que por fora. Aprendi que “Sim, senhora.” era tudo o que ela queria ouvir o tempo todo e comecei a dizer com mais frequência. No entanto, com o tempo, aquilo também se tornou motivo de reclamação e não havia mais o que eu pudesse fazer para aplacar sua fúria constante.
“Aos quatorze anos, ela entrou em meu quarto enquanto eu me trocava e eu instintivamente escondi meu corpo de seus olhos da melhor maneira que pude com minhas mãos. Estava nua e não sabe o quanto me arrependo por isso. Mas, sabe? Não sei se seria diferente mesmo que eu estivesse com pesadas camadas de lã.
“Ela me olhou e franziu o cenho. Estava pronta para sair pelas roupas que vestia, mas entrou em meu quarto e trancou a posta às suas costas. Deixou a bolsa sobre uma poltrona e veio caminhando até mim, tão alta que quanto mais perto ela chegava, mais para cima eu tinha que olhar. Ela retirou os saltos e o casaco leve que vestia; o cinto, o camisete, a calça; e, por fim, o sutiã e a calcinha. Eu desviei os olhos e corei. Nunca tinha visto minha mãe sem roupas. Ela riu e me levou para frente do grande espelho do meu quarto e me colocou ao lado dela. Eu estava me perguntando o que estaria acontecendo.
“Ela me disse para olhá-la através do espelho e para me olhar, para observar as curvas do corpo dela e as do meu, para ver a diferença abismal que havia entre nós. Ela disse que eu era tão lixo quanto as mulheres da família do meu pai e não tinha prestado nem sequer para herdar sua genética. Perguntou se eu já tinha feito sexo e eu não menti para ela. Fui sincera. Disse que não. Ela riu e os olhos cintilaram. “Já não está na hora de fazer, então?”, ela me perguntou e eu sacudi a cabeça em uma negativa muda. Ela riu novamente.
“Sem aviso, ela segurou meus seios com força e apertou-os em suas mãos. Quando eu gritei de dor, ela me esbofeteou e disse que faria o que quisesse comigo e eu gostaria. Eu tentei repudiá-la, mas ela era muito mais forte e me derrubou no chão. Eu caí de costas e senti que todo o ar era expulso dos meus pulmões e minha cabeça, a qual eu tinha batido com força contra o piso ao cair, começava a latejar. Ela pisou no meu rosto e sorriu para minhas lágrimas.
“Chamou dois seguranças que a acompanhariam quando saísse e ordenou que eles fizessem qualquer coisa que quisessem comigo. O terror tomou conta do meu corpo, mas eu os ouvia dizendo que não entendiam, apesar de entenderem.
“Então minha mãe disse as palavras mágicas de uma ameaça bem dita, com promessas de demissões, de famílias sendo abordadas, de coisas horríveis acontecendo, de jamais encontrar emprego novamente. Um deles cuspiu na cara dela e disse que não faria parte daquilo. Ele deixou o quarto. O outro ficou. E me encarou com olhos cintilantes ao retirar seus óculos escuros e começar a tirar suas roupas.
“Eu lutei, Gajeel. Eu lutei como se minha vida estivesse em risco, mas era minha sanidade que tentavam me tomar. Eu lutei, lutei, lutei, lutei. Me contorci, mordi, chutei, estapeei, arranhei, soquei e fiz coisas das quais sequer me lembro. As mãos dela seguravam meus braços com força, mas quando eu a acertava, ela me soltava e me batia no rosto ou socava entre meus seios. E lá se ia meu fôlego, mas não minha vontade de lutar. E eu continuava lutando. Até que os golpes começaram a ficar mais fortes, vindos de mãos mais pesadas, maiores. E tudo doía novamente. Corpo. Mente. Alma.
“Estava no limiar da consciência quando tudo aconteceu, mas se dissesse que não me lembro, estaria mentindo. Me lembro como se fosse hoje, como se fosse agora. Meu corpo todo doía, mas havia um lugar que doía muito mais. Eu estava sendo rasgada e meus gritos eram abafados pelas mãos da minha própria mãe. Eu permaneci olhando-a nos olhos mesmo enquanto tudo acontecia. E ela ria alucinadamente. Os olhos brilhavam de loucura.
“Não me lembro de ter desmaiado, mas acordei em uma cama de hospital com um braço fraturado, hematomas roxos e negros por todo meu corpo, com lugares tão inchados que eu mal reconhecia. Em muitos pontos as marcas de mãos grandes e fortes eram lívidas. Quando meu médico me disse que eu ficaria bem e me recuperaria da queda da escadaria de casa, eu soube que estava perdida.
“Os anos passavam cinzentos para mim. A vida passava cinzenta. Eu já não era mais protagonista da minha própria vida. A violência de minha mãe me transformara em mera expectadora da minha própria desgraça.
“Ao me ver naquele estado apático, ela me deixou em paz e eu finalmente soube o que ela sempre havia desejado: arrancar minha felicidade de mim. E havia conseguido. Então estava satisfeita e eu havia sido deixada em paz. Mas que paz? Que paz havia me restado nas noites insones, nos pesadelos febris, na fobia ao toque de outros?
“Me padrasto sabia de tudo, mas nada fazia. Me enchia de livros, roupas, sapatos, joias. Como se bens matérias pudessem curar as feridas em minha alma...
“O carpete do meu quarto havia sido trocado e eu sabia o motivo: meu sangue estivera ali. E eu me sentava em frente ao espelho todos os dias e observava meu corpo. E eu o odiava. Me odiava. Odiava àquele segurança. Mas odiava, acima de tudo, aquela criatura que se dizia ser minha mãe, pois eu finalmente a entendia. E odiava também aquele entendimento.
“Os hematomas desapareceram, meu braço se curou, mas minha alma continuava quebrada e os anos passavam-se.
“Então, no dia do meu aniversário de 16 anos, deitada em minha cama eu chorei e senti falta do meu pai. Mais do que jamais havia sentido até então. Apertei contra meu peito o último presente que ele me havia dado: uma boneca de pano.
“Quase dez anos depois de ter recebido o presente, eu ainda o guardava, mesmo que então estivesse tão esfarrapado que poderia rasgar a qualquer momento. E tamanha era a força que empregava que, de fato, rasgou-se. E eu fiquei segurando-a em minhas mãos e pensando que ela estava tão rasgada quanto eu um dia fora. Eu esperava que ela pudesse entender que havia certos machucados que jamais seriam curados, mas ela era penas uma boneca e tinha mais sorte do que eu.
“Observando a cabeça separada do corpo, encontrei algo que jamais imaginara que estivesse ali. Retirei aquele pedaço de papel tão bem dobrado, meio desgastado pelo tempo. Era uma carta. As letras estavam meio borradas, provavelmente das vezes eu que eu tinha molhado a boneca, mas eu reconhecia a caligrafia. Era uma carta do meu pai.
“Com mãos trêmulas, eu li suas últimas palavras destinadas apenas a mim. E ele me consolava. Me dizia sobre dias difíceis que viriam e como eu deveria ser forte. Eu precisava sê-lo se quisesse ser feliz. Ele me ensinou muitas coisas com a sabedoria contida naquelas últimas palavras sobre esperança, força, felicidade, sonhos e todas as coisas que eu havia deixado para trás. Eu quase podia sentir suas mãos enxugando minhas lágrimas e bagunçando meus cabelos. Ele me alertou sobre minha mãe e pediu perdão por ter me deixado, mas a morte é uma companheira insistente que não aceita uma recusa como resposta. E novamente, ele me fez reencontrar minha felicidade.
“Com o peito cheio de esperança renovada, estudei como louca e me dediquei ainda mais a tudo o que fazia. Decidi-me sobre meus sonhos. Economizei minhas mesadas, guardei-as todas. E, por fim, prestei o vestibular e encontrei você.
Levy não se movera desde que começara a contar sua história, nem mesmo um milímetro. Tudo o que Gajeel pudera vislumbrar, fora sua boca que se movia. Ele achava que sua história de vida fosse ruim, mas Levy... Como ela ainda conseguia sorrir?
- Como você ainda consegue sorrir? – Gajeel não conseguiu refrear sua pergunta. Era algo que não conseguia compreender. Como alguém que sofrera tamanha violência conseguira sequer sobreviver? Com o que sustentava suas esperanças?
- Sorrisos não são feitos de felicidade, Gajeel. Sorrisos são feitos de esperança. – Levy respondeu, calma como águas paradas.
Gajeel não sabia o que pensar. Muitas perguntas giravam em torno de sua cabeça e não sabia se teria coragem de verbaliza-las. O passado de Levy era tão doloroso que Gajeel sentia a dor em si, corroendo, queimando, enraivecendo, frustrando, entristecendo, matando.
- Por que me contou sobre isso? – Gajeel fez a pergunta que mais martelava em sua mente. Sentia medo, repentinamente. Medo de machucar Levy. Medo de sequer encostar-se a ela, mas ela o fazia consigo. Qual seria o significado daquilo?
- Por que é uma troca justa: meu passado pelo seu. Você é tão desligado de família quanto eu, Gajeel. Eu precisava saber. Preciso, aliás. Quero ver se suas feridas podem curar as minhas. – Levy respondeu ainda na mesma posição. Os olhos se escondiam atrás de seus cabelos azuis cheios de histórias para contar.
- Eu não entendo, Levy. Não entendo por que abrir esse baú de dor justo para mim. Quero dizer, olhe bem para mim. O que você vê? – Gajeel deu de ombros mais para si mesmo do que para a doce menina cheia de feridas de uma passado doloroso e cruel. Ele queria saber como tamanha doçura sobrevivera, mas ousaria perguntar?
Como que aquiescendo ao pedido de Gajeel, Levy virou-se para ele, os olhos castanhos carregados de uma dor que o moreno estava habituado a ver apenas em seu próprio reflexo. Ver aqueles olhos que tanto apreciava e admirava repletos de uma dor que estava longe de ser curada por si, Gajeel sentiu que doía, e doía muito mais do que sua própria dor, algum dia, doera.
- Vejo quem você é. Vejo alguém que carrega dor tal qual eu. Vejo alguém que, mesmo que não me entenda, buscará me entender. Vejo alguém que não me trairá. Vejo alguém que, antes, ficará ao meu lado. – Levy foi sincera e seus olhos não estavam úmidos pelas lágrimas. Seus orbes sempre tão brilhantes estavam quase opacos. Aquele passado, ao ser desenterrado, trouxera sua sombra de morte àquele olhar.
- Não. – Gajeel respondeu sentindo os olhos queimarem. Levy estava errada. Ele não era como ela imaginava. Ele a decepcionaria. – Eu não sou nada do que você diz. Eu sou egoísta. Eu não entendo nada sobre confiança, tampouco sobre ajudar aos outros. Eu não entendo nada sobre amor, Levy.
- O único amor que já conheci foi o doce e terno de meu pai. É o único amor que sou capaz de compreender, Gajeel. Não espero nada de você. Tudo o que disse não são coisas que quero ou espero que faça: são coisas que sei que fará. – Levy respondeu com um quase sussurro. A garganta de Gajeel estava apertada e teve que se esforçar para não ceder às lágrimas provocadas por uma tristeza que, pela primeira vez em sua vida, não era por si mesmo. Levy estendeu uma mão trêmula e fria e tocou-lhe o pulso. – Vê? Em você eu posso tocar. Eu posso me encostar em você aqui no sofá sem sentir medo. Posso sorrir para você por que você me deu esperança quando eu só tinha meus receios em ser obrigada a retroceder. Você me salvou.
- Está louca, Levy. – Gajeel sacudiu a cabeça, os cabelos compridos e negros espalhando-se por suas costas e ombros. Ela estava errada. Ele não era bom como ela acreditava, e sabia que jamais o seria. – Você, que sofreu todo tipo de merda que a vida tem a oferecer implorou para um completo desconhecido que a aceitasse em sua casa. E que tipo de desconhecido era esse? Eu. Justo eu! Um punk sem escrúpulos, que te tratou mal à primeira vista, que te enxotou, que não tem caráter e que poderia ser qualquer tipo de maluco psicopata.
- Sim, você poderia. – Levy confirmou, sem hesitar. Os olhos continuavam fixos aos de Gajeel e, a mão, ainda firmemente segura. – Poderia ser uma maníaco, um estuprador, um espancador, um tarado. Mas se fosse, eu já não conhecia todos estes tipos? Eu estava arriscando tudo ou nada, Gajeel. Eu estava disposta a lutar? Sim. Mas em iguais proporções, estava preparada para perder. No entanto, não perdi. Na verdade, ganhei. Por que hoje estou aqui. E hoje eu tenho você.
- Isto não é ganho nenhum, Levy. Nenhum! – Gajeel apertou suas mãos em punhos e mordeu seu lábio inferior. A esperança e confiança que aqueles olhos castanhos depositavam em si eram tão grandes e tão tentadoras... Jamais alguém fizera algo semelhante. Sempre que Gajeel se relacionara com outras mulheres que não faziam parte de seu grupo de amigos, tudo era muito sexual. E mesmo entre seus amigos, ninguém nunca se segurara a ele com tamanha ânsia. – O que eu posso fazer por você que um milhão de outros amigos não poderiam?
- Você pode me ouvir; falar, brigar e rir comigo; rir de mim; e, mais importante, pode fazer sua dor se tornar minha e, a minha, tornar-se sua. Pode compartilhar esse laço comigo. Eu vejo isto em seus olhos, Gajeel, assim como você viu nos meus. Nós nos aproximamos pois nossos olhos nos traíram. – Levy ajoelhou-se no sofá ao lado do moreno e segurou ambas as mãos grandes nas suas, colocando-as uma em cada lado de seu rosto e fechando os olhos ao contato. Gajeel sentia o suor frio que cobria e pele do pequeno rosto que suas mãos quase encobriam completamente e engoliu em seco. – Eu passei tanto tempo odiando a forma como as pessoas me olhavam, mesmo que não houvesse nenhuma malícia nos olhares... Parecia que todos me julgavam, me despiam com os olhos e me diziam quão impura eu era. Eu odiava ainda mais os toques do que os olhares: qualquer mínimo contato me repudiava, me enojava, me fazia tremer dos pés à cabeça, um medo sem proporções ebulindo dentro de mim e ameaçando me consumir. Mas veja... Suas mãos são grandes e fortes e poderiam fazer muito mal a mim. No entanto, eu gosto tanto do toque delas... Me confortam por que têm seu cheio e você cuida de mim como há muito tempo ninguém o faz. Nesses meses todos, você só me trouxe coisas boas. Se não posso confiar em você... Então não posso confiar em ninguém.
- E você está certa, Levy. – Gajeel fechou seus olhos por um momento, buscando resistir à tentação de aceitar o doce cálice da confiança mútua que lhe era oferecido, pois este era feito todo do mais fino cristal e Gajeel tinha tendência a quebrar coisas com muita facilidade. E não queria quebrar mais nada em Levy. Por mais que quisesse ajudá-la a se reencontrar, reconstruir, recomeçar, Gajeel estava temeroso por acabar fazendo o completo oposto de suas intenções. – Nunca deve confiar em ninguém.
- Por que sou sempre eu quem insiste e sempre você quem recusa, Gajeel? – Levy perguntou obrigando o moreno a reabrir os olhos devido ao tom grave de sua voz. Quando os olhos se reencontraram, os castanhos estavam ferozes e queimando com determinação e fizeram Gajeel arrepiar-se. Lembranças do dia em que a conhecera tomaram sua mente por instantes. – Tudo isto me lembra o dia em que apareci aqui à sua porta e nós discutimos sobre bases totalmente diferentes, mas nenhum estava disposto a ceder. E eu ainda não estou disposta a desistir. Não vou. Não vou desistir de você. Por que eu sei que estou tão certa quanto estava naquele dia.
- São ocasiões diferentes, Levy, e você sabe disso. – Gajeel retrucou, a garganta apertada como se uma mão de ferro a pressionasse. – Não posso me comprometer a criar esse vínculo contigo. Eu não sou bom com esses tipos de coisas.
- Eu não quero saber! – Levy esbravejara, as mãos em seus pulsos apertando-os com força. – Não quero saber se você aceita essa situação ou não! Eu já confio em você e um dia você também vai confiar em mim!
Gajeel piscou, aturdido diante da pequena fera que rugia contra seu rosto. Ela era tão pequena, tão frágil... Fora tão quebrada pela vida, tão maltratada. Conhecera o pior das pessoas e, ainda assim, não desistira de si mesma nem de lutar por aquilo que acreditava. Agora estava ali, pedindo um lugar imutável e perpétuo no coração de Gajeel e ele sabia que estava se recusando a ceder pois Levy já o tinha.
- Eu confio em você. – as palavras saltaram para fora de sua boca antes mesmo que pudesse refreá-las e repentinamente, ali estava ele contando sobre seu passado, suas dúvidas, suas dores, seus anseios para a garota que instalara-se em seu coração sem pedir licença. Quando finalmente terminou, sentia seu coração muito mais leve, mas seus olhos muito mais pesados. Contara à Levy tudo o que jamais pretendera contar a ninguém. – E é isso, Levy. É isso. Eu não entendo nada de confiança, de carinho, de amor, de compreensão... Eu não tenho aquilo que é necessário para ser seu companheiro.
- Eu tampouco entendo qualquer dessas coisas das quais você falou. – Levy deu de ombros e sorriu ligeiramente. Não era seu sorriso usual; era triste, quase conformado. – Por isso quero alguém que também não entenda. Quero aprender enquanto ensino e ensinar enquanto aprendo.
- Levy... Eu... Eu não sei se consigo. Estou com medo. – Gajeel finalmente confessou sua maior verdade àqueles olhos pelos quais se apaixonara.
- Sim. – um pequeno dedo indicador pousou sobre os lábios de Gajeel, calando-o. O rosto de Levy estava muito próximo ao seu e Gajeel podia sentir o cheio de seu hálito e este não era nada que conseguisse descrever. Sentiu as madeixas azuis tocarem seu rosto e seus olhos não conseguiam deixar o contato com aqueles castanhos profundos que repentinamente haviam recuperado seu brilho usual. – Eu também tenho medo. Mudanças não são fáceis, não é? Mas você me faz bem... E acho que também devo te fazer um pouco. Então... Deixa eu me aproximar, nem que seja apenas um pouquinho.
O contato dos lábios fora quente e simplório, macio e cheio de ternura. Uma das mãos de Gajeel apoiava a nuca de Levy com leveza e sutileza surpreendentes, as quais ele jamais dispensara a mulher alguma, enquanto ambas as mãos de Levy se apoiavam nos ombros fortes do moreno.
Gajeel lembrava-se com perfeição de como seu medo fora substituído por um sentimento muito mais doce, no entanto, muito mais perigoso. E finalmente ele começava a entender essa coisa chamada de amor.
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