Come An' Get It
1 Prólogo
Notas iniciais
Era uma sexta-feira. Especialmente cansada naquele dia, trabalhara apenas cinco das oito horas que costumava ficar no escritório em que trabalha. Formada em Arquitetura por menos tempo que pensava, Rukia trabalhava incansavelmente e sempre que sentia a necessidade, bebia mais do que achava que aguentava. Estava morando em um pequeno — não muito– apartamento e quase não saía de casa. "Prefiro ficar parada em casa do que no trânsito" era o que sempre dizia. Mas ainda assim, naquela sexta-feira, após colocar as chaves em uma pequena mesa ao lado da porta — feita pra isso e pra correspondências — e tirar os saltos que tanto incomodavam seus pés, teve apenas um pensamento: Conhecia tanta gente e... ainda se sentia sozinha, às vezes.
Resolveu então, ligar para sua melhor amiga. Ela, com seu exagerado alto astral com certeza a faria esquecer toda aquela história maluca de se sentir sozinha — sim, maluquice, na cabeça dela — e, talvez, fosse até melhor passar o final de semana com a mesma. Quem sabe até o feriado prolongado que viria na terça-feira? Inoue com certeza tinha alguma coisa em mente. Rukia até pensou que seria uma ótima, maravilhosa ideia.
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Inoue caminhava pelo shopping que tanto conhecia com a alegria estampada em seu rosto. Sua vida como professora de primário era realmente gratificante! Adorava sempre receber as cartinhas dos seus pequenos alunos, com as letrinhas tão tortuosas e com clara falta de habilidade, mas que, além de melhorar a cada dia, as cartinhas sempre davam um retorno ótimo para seu trabalho. Olhou para uma loja que acabara de inaugurar e lembrou de sua amiga baixinha. Será que Rukia ainda escutava as mesmas músicas?
Ficava com um pouco de pena pela amiga. Estava morando numa cidade maior e ganhando dinheiro, o que era ótimo; em contrapartida, morava sozinha e todos os seus velhos amigos e sua família ainda moravam em Karakura, exceto por Renji que dava aula numa universidade no sul do país. Talvez se sentisse solitária. Inoue resolveu entrar na loja e talvez até comprar alguma coisa para Rukia, pra ver se ela parava de trabalhar apenas por um tempo.
Ao entrar na loja, olhou pelas prateleiras e logo tomou um enorme susto com o que viu: uma pessoa conhecida — e muito conhecida — no balcão, lendo um livro qualquer com uma mão apoiando a cabeça, como se a mesma fosse cair a qualquer momento.
– Kurosaki-kun? — Disse um pouco receosa, afinal, já faziam alguns anos que não via o homem de cabelos tão ruivos.
– Ah.. Inoue? Oi.. — Kurosaki ficou um pouco assustado, já que aquela mulher... trazia aquelas lembranças de volta.
– Eh, você está trabalhando aqui?
– Não exatamente.. estou ajudando o Urahara por um tempo. — ele fechou o livro e levantou o corpo, dando então atenção à mulher — pensei que tivesse se mudado de Karakura.
– Voltei pra cá depois da faculdade! A R.. — parou um pouco para pensar. Não deveria ser bom falar daquilo agora, né?
– A Rukia também voltou? — soltou demasiado ar ao ver que, mesmo se esforçando para não falar dela, ele mesmo disse.
– Não. Ela continou em Tóquio... queria até achar um disco pra ela. Você poderia me ajudar!
– Claro... ela não deve ter mudado o gosto tão facilmente. — Ichigo finalmente saiu de trás do balcão e se encaminhou pra uma das prateleiras, a fim de mostrar alguns discos para Inoue. — talvez ela goste deste aqui. É um pouco parecido com o que eu me lembro dela escutar.
– Ah, vou levar então! — Inoue iluminou o próprio rosto com um sorriso, o que deixou Kurosaki um pouco confuso.
– Não vai querer olhar outros...? — Ichigo mantinha o disco próximo de seu peito, segurando-o com as duas mãos. — Você a conhece melhor que eu e-
– De jeito nenhum! Você a conhece melhor que qualquer pessoa. Sempre foi assim. E se você disse que ela vai gostar, então ela vai gostar!
Ichigo ficou, de certa forma, até incomodado. Escutar algo assim da melhor amiga dela era no mínimo... não conseguia mesmo definir o que estava sentindo. Voltou para o balcão em silêncio, embrulhou o CD numa sacola personalizada da loja e entregou para Inoue, dizendo que era cortesia do local. Ele era um péssimo vendedor mesmo. Escutou Inoue dizendo para se encontrarem, mas não ligou. Ela não iria querer vê-lo de jeito nenhum; teria que se conformar com isso.
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Ela chegou em casa, tirou os sapatos; deixou numa varanda ao lado de fora, pegou o jornal perto da porta. Leria o horóscopo de Rukia e de Ichigo e sabia que daria super certo. Ao colocar sua bolsa no sofá quase delicadamente e suas sacolas para o jantar na cozinha, escutou seu celular tocando. Foi alegremente atendê-lo e ficou ainda mais radiante ao ver quem estava ligando.
– Alô?
– Inoue?
– Kuchiki-san! Que saudades de você!! Vem pra Karakura passar o final de semana aqui em casa!
– Oh, você sabe que minha mãe não ia gostar nada disso, não é... — ah, ciúmes de mãe...
– Sua mãe não viajou essa semana?
– Ah, claro... mas ela não vai gostar do mesmo jeito. — Riram-se.
– Hm, Kuchiki-san... comprei um presente pra você! — Inoue sentou no sofá de sua sala confortavelmente e apoiou o braço livre no braçal do mesmo. Talvez fosse o melhor momento para introduzir que ele estava de volta.
– Você.. sempre me deixando curiosa! O que é?
– Não posso te contar até te dizer quem me vendeu o disco!
– Você já contou o que é agora, Inoue... — Rukia, do outro lado da linha, botava sua mão direita, que antes tinha um copo d'água que fora deixado na bancada de sua cozinha, sobre a testa. Não sabia como se acostumar com as distrações extremas da amiga. — Quem vendeu o disco?
– Começa com I!
– I... Inoue, não consigo imaginar! Fala logo. É alguém que estudou com a gente?
– Hm... não. — Inoue soltava um risinho — mas nós conhecemos muito bem. Assim, mais você do que eu, não é? Naturalmente...
– I... — Rukia ainda tentava, a todo custo, advinhar... mas não vinha ninguém que venderia discos na mente.
– I... I... — a moça de seios fartos atiçava a mente da outra. — Ich...
– Não. O que? Ich?
– Sim. Ich... vamos, completa! Está fácil agora.
– Ich..igo? — estava estupefata. Então o cafajeste resolveu voltar pro Japão, não é? Deveria ter morrido no exílio.
– Peeeennn!! — tentou de forma falha simular uma campainha como em jogos de perguntas e respostas — Exato! Kurosaki Ichigo!
– Grr... não comece de novo, ok?
– Começo sim, Kuchiki Rukia! — Inoue ficou um pouco brava. Achou que a amiga tinha superado a história toda. — Você nem quis...
– Eu não vou pra Karakua de jeito NENHUM agora.
– Vem sim! Você não vai nem encontrar com ele! E você sabe que tem o feriado, então Renji deve vir... há quanto tempo não o vemos?
– Vou pensar.. se for pelo Renji...
– E por mim? Você deveria mesmo conversar com o Kurosaki-kun...
– Já fazem cinco anos, Inoue.
– E seus pais reataram o casamento depois de sete! Nem vem com essa, Kuchiki-san!
Rukia suspirou. Estava tão afim de ver gente, de rever as pessoas que amava... porque ele tinha, novamente, que atrapalhar tudo? Ele sempre fazia isso. Sugava as suas energias, como um vampiro. Não a deixava em paz nem por um segundo. E além de tudo isso, ainda tinha aquilo...
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Noite. Pela estrada na orla, que dava os sinais em que estava chegando ao litoral — e principalmente, ao seu destino — sentiu um alívio. A paisagem familiar aliada ao cheiro da maresia realmente a acalmavam; nem tanto desta vez, ao pensar que teria que encontrar com ele. Entortou-se numa careta. Viu seu celular tocando em cima do banco do passageiro, mas desligou. Atrapalhava a música do carro e tirava a concentração. Ligaria para Inoue quando desse.
Estacionou na frente da casa da amiga e não se preocupou em tirar suas coisas de dentro. Pegou apenas um celular mandando uma mensagem de texto "estou aqui na porta" enquanto, mesmo após o aviso, tocou a campainha. Olhou para os lados procurando por algo novo, e não se deu conta de nenhuma diferença desde a última vez que viera. Deixou para depois quando escutou a chave sendo girada na porta e, enfim, Inoue aparecendo dentro da casa na maior alegria.
– Nossa, que cheiro bom, Inoue.
– Sério? É o nosso jantar. Eu mesma fiz! É uma lasanha de queijo e presunto.
– Simples assim? Estranho.
– Sim! — A mocinha de cabelos acastanhados bateu em sua própria cabeça — aprendi bastante quando trabalhei naquela padaria no ensino médio.
– Quem diria.. tem certeza que não colocou nenhum doce de abóbora, nenhum wasabi..?
– Ficava tão ruim assim?
Inoue sabia que ficava. Aprendeu após quase ser demitida quando seu chefe a viu indicando um cliente a misturar biscoitos de polvilho no pudim. Escutou novamente a campainha tocando, olhou pra Rukia que ficou prontamente desconfiada. Subiu e desceu os ombros para mostrar que realmente não sabia quem era e foi logo atender.
– Yo!
Rukia conhecia aquela voz tão alta em qualquer lugar mundo. Logo largou o prato que trazia para a mesa e foi andando rapidamente até a sala, onde Inoue abraçava sua nova companhia.
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