Combustão

9 Capítulo 8


Flashback on

“Você se importa se eu for a uma peça mais tarde?”

“Depende.” Respondeu Tinker, colocando um prato limpo dentro do armário. Ela se virou e encarou a irmã. “Você vai com quem? Volta que horas?”

“Vou sozinha, mas é perto daqui. É uma recomendação de um professor.”

“Se você voltar direto para casa, tudo bem. Eu não estarei aqui, mas você tranca tudo.”

“Aonde vocês vão?”

“Nossos vizinhos nos chamaram para jantar fora.” Sorriu Tinker.

“E você vai vestir o quê?”

“Isso.” Tinker esticou as mãos, mostrando a roupa que estava usando.

Emma gargalhou, mas ergueu as mãos como que pedindo desculpas por seu comportamento.

“O que tem de errado com a minha roupa?”

“Nada, Tink. Mas sei lá, a Regina é... descolada, sofisticada. Cheia de estilo. Não quero que você se sinta sem graça.”

Emma ergueu os ombros.

“Bem, é só a minha opinião.”

“Você tem razão. Me ajuda?”

“Com prazer, gata!”

Tinker sorriu antes de segurar na mão que a irmã mais nova deixara estendida, e a seguiu até o quarto.



Killian caminhou até seu chefe, que o aguardava ao lado de Peter. Pan o olhou de cima a baixo, com um sorriso descomedido. A rivalidade entre eles era palpável, e já havia ultrapassado o limite saudável.

“Jones.”

“Chefe.”

“Estava comentando aqui com o Pan que houve uma especulação a respeito das cotas da American Express. Está completamente liberada a compra e venda de ações das concorrentes. Se abrir a American, avance. Algo me diz que vai ser uma tarde de sorte.”

Killian sorriu abertamente. “Não é um problema para mim.”

“Eu sei que não, filho.”

Pan observou a conversa amigável.

“Cuidado, a sorte tem seu revés — Gancho.”

Killian sorriu para ele, sem graça. Odiava ter aquele apelido usado por pessoas que não possuíam intimidade para tal.

“Não conte com isso.”

“Vamos deixar a rivalidade para os negócios.” Alertou Tomas, dando um tapa na costa de Pan.



Killian desceu as escadas que davam acesso ao estacionamento, assoviando. Ele olhou em volta, certificando-se de que não havia ninguém por perto. Com um sorriso maldoso no rosto, caminhou até o Volvo verde musgo de Peter Pan.

Carro bonito, babaca.

Ele deu uma nova olhada ao redor, certificando-se de estar sozinho. Agachou-se ao lado do pneu dianteiro, e retirou uma faca de dentro do terno. Vamos ver de quem será o revés. Fincou a faca com força na borracha dura e com força, pressionou-a na posição contrária, abrindo um buraco razoavelmente grande.

Ele continuou assoviando alegremente enquanto repetia o procedimento nos outros pneus.



Flashback off

Regina ouviu a campainha tocando. Ela estava quase pronta para o jantar, um vestido vermelho atado ao seu corpo como uma tatuagem, os saltos negros mantendo-a numa posição privilegiada. Ela se olhou no espelho e limpou a borda dos lábios, checando o resultado final.

Gostosíssima.

“Estou quase pronto, babe.” Respondeu Robin, antes que ela perguntasse. Ela piscou para ele e correu para o hall de entrada.

Emma estava saindo de casa quando Neal estacionou o carro em sua calçada.

“O que está fazendo aqui, Neal?”

“Eu comprei um presente.”

“Neal...”

“Você disse que eu não sei nada a seu respeito, mas vou provar que você não está 100% certa.”

“Como vai fazer isso?”

Ele estendeu um pacote, sorrindo. Emma sorriu, apesar de estar incomodada. Ele não ia se tocar que ela não queria mais nada? Com cuidado, Emma rasgou a ponta do pacote e desembalou delicadamente o novo livro do David Goleman.

“Nossa, era o que eu queria...”

“Viu? Eu disse que te conhecia um pouquinho.”

“Neal.” Emma ergueu os ombros e o encarou nos olhos. Ia ter que dizer de uma vez. “Neal, eu gostei muito de passar todo esse tempo com você, mas eu não quero mais, entende? A gente não tem nada em comum. Nada. Não temos assunto para conversar, não temos gostos em comum.”

“Você não me dá chances, Emma. Qualé!”

“Não tenho tempo para isso agora, Neal. Estou atrasada.”

“Aonde você vai? Eu te dou uma carona.”

“Eu vou à uma peça.”

“Eu adoro peças.”

“Ah é? Me diz o nome de uma peça corretamente, e eu deixo você ir comigo.”

“Hair.”

Maldito.

“Uau!”

“Exagerei?” Sorriu Tinker.

“Você está linda!”

“Bem, houve um furo da parte do meu marido...” Respondeu ela, desajeitadamente. “Mas ele me pediu para trazer este vinho como pedido de desculpas.”

Regina pegou o vinho das mãos dela e colocou sobre a mesa lateral.

“Mas está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?”

“Está tudo bem! Parece que ele teve uma tarde muito lucrativa no trabalho, e eles pararam no The Red District para comemorar.”

“The Red District? Eu sou sócio lá.” A voz de Robin preencheu a sala. “Que tal irmos até lá e fazer uma surpresa para ele?”

Regina bateu as duas mãos em uma palma animada.

“Será que é uma boa ideia?”

“Não podemos desperdiçar esse vestido maravilhoso que você está usando, Tinkerbell.”

Tinker sentiu uma entonação diferente na maneira que Regina proferiu seu nome, mas resolveu ignorar em nome da sua sanidade.

“Mas o Killian não é sócio lá.” Ela pareceu confusa. “Eu acho. Será que vão permitir que a gente entre?”

“Claro, já somos velhos conhecidos. Vamos, vai ser ótimo.”

Tinker sorriu e invejou a espontaneidade de Regina. Ela queria ter essa positividade.

“Eu juro que não sei o que aconteceu. Sério. Eu desci e os quatros pneus do meu carro estavam furados. Com buracos enormes.”

Pan lamentava ao lado do chefe, bebendo talvez a sua quarta dose. Ao seu lado, Killian bebia com um sorriso mortal no rosto.

“Acontece, Pan. Tente manter as amantes na rédea na próxima vez. Isso tem cheiro de mulher rejeitada.” Brincou Tomas. “Killian só tem uma mulher e olha aí, ganhou rios de dinheiro hoje.”

Killian apenas acenou com o copo, o que irritou Pan de uma maneira absurda.

“Talvez tenha sido ele quem furou meus pneus, assim eu não chegaria à bolsa de valores.”

“E porque eu faria isso? Foi difícil ter que fazer tudo sozinho, Peter. Você deveria me agradecer.”

Tomas balançou a cabeça, concordando. “É verdade, Pan. Ele levou a empresa nas costas, pare de ser um idiota.”

“Já está na hora de eu ir para casa.”

“Vai escolher qual das namoradas hoje?” Provocou Tomas.

“Uma que eu encontrar por aqui.” Sorriu ele, observando uma das garçonetes que passava por ele naquele momento. O uniforme, um collant verde com orelhas e um rabo felpudo. A fantasia da coelhinha completa e muito bem desenhada.

“Quando você encontrar a mulher certa, nenhuma dessas vai ter nenhuma graça.” Replicou Killian. Ele fitou os olhos na direção da entrada e levantou-se. “E acho que a minha acabou de chegar.”

Tinkerbell caminhou até ele, e o abraçou.

“Querido!”

Ele sorria, um semblante bobo e apaixonado. “O que faz aqui?”

“Surpresa!”

“A melhor surpresa de todas.” Sussurrou ele, enfiando a mão por baixo da nuca dela e puxando-a para um beijo. Sua boca encaixou-se na dela, e as línguas brincaram uma com a outra antes de eles se separarem, ofegantes.

“Tem certeza que está tudo bem?”

“Está ótimo agora.”

“Killian!” A voz feminina chamou a atenção deles. Regina aproximou-se e o beijou na bochecha, enquanto Robin o cumprimentava com um aperto firme na mão. “Parabéns! Fiquei sabendo da sua maré de sorte!”

Killian olhou para a esposa, como que perguntando como ela e eles foram parar ali.

“Longa história.” Sussurrou ela contra o ouvido dele e ele assentiu com a cabeça, sorrindo.

“Você vai me mostrar o que tem abaixo daquela escadaria na sua casa?”

Os olhos de Regina escureceram por alguns segundos quando ela fixou os olhos na loira ao seu lado. Robin e Killian haviam se dispersado, e elas ficaram sozinhas no pequeno sofá ao redor da mesa.

“Está interessada no que tem lá embaixo?”

“Eu preciso saber o que tem para saber se me interessa.”

Regina aproximou-se dela e observou os traços genuinamente delicados da loira. Ela tinha o rosto de uma boneca, os cabelos lisos e sedosos lhe caíam pelo rosto. Os lábios eram desenhos esculpidos numa cor rosada perolada e a maneira como ela a encarava era quase indecente de tão pura.

Regina colocou a mão sobre a dela, e a acariciou com o polegar.

“Eu não sei, Tinkerbell. Aquele é outro patamar sexual. É quase como um novo universo.”

Tinker a encarou de volta, mas não retirou a mão.

“Eu quero, Regina.”

“Tem certeza? O Killian concorda com você?”

“E se ele não concordar, mas eu quiser mesmo assim? Você vai me impedir?”

“Eu não te impediria, Tinkerbell.”

O olhar entre elas permanecia intenso. Regina debruçou-se e colocou a boca sobre a orelha dela enquanto as duas mãos estavam enfiadas nas suas pernas. Sua voz soou rouca e dolorosa através do sistema auditivo dela.

“Eu não sou capaz de te impedir, e esse é o problema.”

Regina afastou-se dela rapidamente e levantou-se, deixando-a sozinha enquanto ia procurar o marido. Tinker a seguiu com o olhar. Assim que a morena desapareceu na multidão de pessoas, ela bebeu o resto da bebida em seu copo e chamou o garçom, pedindo outra dose.

Regina, Robin, Tinker e Killian saíram do carro, na garagem dos Jones e se depararam com Mary Margareth e David.

“Mary, o que está fazendo aqui?” Perguntou a loira, aproximando-se.

“Eu... eu trouxe uma torta, achei que seria uma boa retaliação por ter cancelado os planos de hoje. Mas você arrumou o que fazer bem rápido.”

Regina e Robin trocaram um olhar rápido.

“Tinker, Killian... Nós já vamos. Obrigada pela noite. Eu ligo amanhã. Boa noite a todos.”

Eles se afastaram com os dedos entrelaçados, deixando-os para trás.

“Mary, eu...”

“Não precisa se desculpar por ter saído com seus novos amigos, Tinkerbell.”

“Não é isso que eu...”

“Vocês vieram trazer uma torta a essa hora?”

“Killian!” Ralhou Tinker, e ele balançou os ombros, se desculpando.

“É, quer saber? Foi uma idéia horrível mesmo. Vamos embora, David!”

Killian acenou para o loiro, e caminhou para dentro da sua casa, pegando a torta na varanda e levando consigo. Mary havia se enfiado no carro, de modo que David e Tinker ficaram sozinhos no jardim.

“Me desculpe pela Mary.”

“Me desculpe pelo Killian.”

“Ela só está meio estressada esses dias, e teve a história da festa.”

“Eu deveria ter saído da festa com vocês...”

“Não.” A firmeza na voz dele a surpreendeu. “A festa estava ótima, estávamos todos nos divertindo. A Mary é um pouco neurótica. Já me acostumei.”

“Fico feliz que tenha se divertido, David.”

Ele sorriu.

“Por sinal, você está linda.”

“Obrigada.”

“David! Vamos embora!” Gritou Mary Margareth de dentro do carro.

Ele olhou para ela e então voltou sua atenção para Tinker. “Boa noite, Tinker.”

“Boa noite, David.”

Eles sorriram um para o outro, enquanto ele se afastava na direção do carro e ela fitava a amiga emburrada.

Mais um ponto negativo para mim.

Emma estava conversando com Graham nos bastidores do teatro. Ele vestia uma calça jeans justa e uma camisa social azul com as mangas dobradas na altura dos antebraços, e estava incrivelmente bonito, como sempre. O perfume estava bagunçando o sistema nervoso dela como um efeito dominó.

“O foco dela é completamente maniqueísta.”

“Na verdade, o foco não é completamente maniqueísta, Emma. Eu diria um panenteísmo.”

“A autora não colocaria as cenas daquela forma se fosse este o foco dela.”

“Como você pode saber? De acordo com o lirismo poético, o imanente e transcendente estavam presentes.”

“Na verdade eu acho que preciso estudar mais.” Riu ela e ele sorriu.

Uma mulher loira de olhos incrivelmente azuis aproximou-se deles. Ela era belíssima e usava um blazer e calça social, ambos pretos. O cabelo escorria em cachos pelos seus ombros e um batom vermelho vivo marcava cada centímetro dos seus lábios.

“Glinda, essa é Emma Swan. Estávamos discutindo qual o seu foco de escrita.”

“Não deixe ele te prender nesse jogo. Passamos horas tentando chegar a um acordo.”

“Emma, essa é minha amiga Glinda South. Ela escreveu a peça.”

“Prazer.” Sorriu Emma. “Sua peça é um verdadeiro tesouro filosófico e antropológico. A maneira como você aborda as questões mais profundas com considerações quase superficiais me deixou sem folego.”

“Boa aluna, essa.” Sorriu Glinda.

“Eu não entendi muita coisa. Quem se importa, não é?”

Emma paralisou-se ao ouvir Neal do seu lado. Ela percebeu o olhar de Graham sobre ela, inquisidor. Ele parara de sorrir.

“Vocês me dão licença?” Respondeu Emma, puxando Neal para longe deles. Ela caminhou até a saída e socou o braço de Neal com força. “Qual seu problema, Neal?”

“Nossa, Emma. Foi só uma piada.”

“Uma piada? Neal, você falou para a escritora da peça que ninguém se importa. É isso que você chama de piada? Você me fez passar a maior vergonha! Você cochilou a maior parte da peça, saiu para comer depois e aí para finalizar me faz passar esse vexame na frente do meu professor e da escritora da peça. Pelo amor de Deus, Neal, se toca!”

“Eu nunca vou ser bom o suficiente para você, não é Emma? Então que se foda! Fica aí com essas merdas de livros e escritores e peças e cursos de literatura. Eu não preciso disso e não preciso de você! Vai se foder! Vai para casa andando!”

“Neal, espera...”

Neal já havia corrido até seu carro, ligando-o e evaporando dali o mais rápido que pode. Emma ficou observando enquanto pensava no que fazer a seguir.

Merda.

“Está tudo bem aqui, Swan?” A voz máscula reverberou por toda a sua espinha e ela sabia exatamente quem era antes de se virar para vê-lo.

“Sim, eu acho.”

“Eu vi o que aconteceu. Eu te dou uma carona.”

Um lampejo brilhou dentro dela, até que Glinda apareceu ao lado dele novamente. Ela sorriu e entrelaçou seu braço no braço dele – o que não passou despercebido aos olhos atentos de Emma. Eles eram namorados?

“Tudo bem se dermos uma passada na casa da Emma antes? Ela perdeu a carona.”

“Sem problemas, querido. Só vou me despedir de Howard e já vamos.”

Emma os acompanhou novamente para dentro do teatro.