Combustão

10 Capítulo 9


Emma estava deitada em sua cama com os olhos fixos no teto quando o despertador tocou. Ela estendeu a mão e desligou, e passou os olhos pelo quarto, percebendo a luz solar adentrando o cômodo com simetria. Já tinha amanhecido e ela não tinha dormido nada. Cada acontecimento da noite anterior estava em sua cabeça, voltando como uma reprise infinita e involuntária, no qual ela não tinha controle.

Graham não a deixou em casa primeiro, como ela achou que faria. Deixou Glinda em um hotel elegante na avenida principal da cidade e Emma assistiu em silêncio o carinho e a intimidade que os rodeava durante a despedida. No fundo, sentia-se ferida. Traída. Era seu professor, mas ao mesmo tempo, era o homem pelo qual detinha uma paixonite avassaladora. Na volta para a casa dela ele falara poucas palavras, mas as que proferiu foram suficientes para desestruturá-la.

Flashback on

“Bonita sua namorada.”

“Ela não é minha namorada, Emma.”

A voz dele era séria e comedida. Ele a encarou por alguns segundos, de uma maneira que fez o útero dela dar uma volta completa. Ela não teve coragem de falar mais nada. Talvez tivesse sido intrometida demais e Graham não parecia o tipo de pessoa que gostava disso. Ela se odiou por alguns segundos.

Ele estacionou o carro na frente da casa dela, e desatou o cinto. Emma o olhou por alguns segundos, enquanto ele observava a casa vazia à sua frente. Sua irmã ainda não voltara. Ela colocara a mão na maçaneta quando sentiu a mão máscula sobre o seu joelho, paralisando-a.

“Emma.”

A maneira como ele dizia seu nome fazia-a pensar em como seria se ele o gemesse.

“Seu cabelo é tão lindo, Emma...” Falou ele, a voz rouca. Os dedos dele deslizaram sobre os seus cabelos, numa carícia suave. Emma fechou os olhos e balançou a cabeça assentindo. “A cor dele, a maneira como ele brilha ao sol, o balanço dele quando você caminha...”

“Graham.” Gemeu ela, mordendo o lábio inferior enquanto olhava nos olhos dele.

“Boa noite.” Respondeu ele, gélido. “Vou esperar você entrar na sua casa.”

Emma o encarou inquieta, mas Graham manteve o olhar fixo à sua frente. Ela saiu do carro, desajeitadamente e entrou em sua casa.

Flashback off

Emma repassava cada segundo daquele encontro em sua cabeça. Por quê? Por que ele estava a seduzindo em um minuto e a deixando em outro? Ela fizera algo de errado? Ela engoliu em seco. Talvez ela não fizera algo. Graham esperava respostas. E o que ela fez? Ficou lá, parada como uma estátua. Graham era acostumado á mulheres como Glinda e ela era uma garota. Uma garota pra lá de idiota, tinha certeza.

Emma precisava aprender a seduzi-lo, como ele fazia tão facilmente com ela. Ela sorriu no minuto seguinte. Já sabia exatamente quem ia ensinar isso a ela.

Regina estava terminando de arrumar sua sala de estar quando a companhia tocou. Ela arrancou o avental e jogou-o sobre o sofá. Seu macacão de malha azul turquesa realçava todo o seu corpo suntuoso, assim como o salto alto o deixava rígido e empinado. Segundos depois, ela alcançou a porta frontal.

“David?”

“Olá.” Ele estava sorrindo, mas parecia constrangido em estar ali. Olhou em volta com uma leve ansiedade. “Posso entrar?”

“Pode, claro.” Regina perguntava-se o que ele poderia estar fazendo ali. Nunca tivera muito contato com ele, talvez pela rejeição imediata que Mary Margareth tinha por ela. Ele era bonito, muito bonito. Cabelos loiros arrepiados, olhos azuis e um sorriso quente. Ela podia imaginar como ele era por baixo daquela roupa social. “David, se está procurando o Robin saiba que ele está trabalhando.”

“Eu já sabia que ele não estaria em casa, Regina.”

Ela o fitou, surpresa e começou a listar as possibilidades dessa visita. Nenhuma decente, até então.

“Entre por aqui, vamos beber alguma coisa.” Ela indicou a varanda, onde um jogo de mesa e cadeiras de madeira os aguardava.

“Não é cedo demais?”

“Eu iria oferecer um suco, mas se quiser um drinque posso preparar.” Respondeu ela, sorrindo.

“O suco está bom para mim.”

Regina preencheu o copo dele e o seu, sentando-se à sua frente. Ela bebeu dois goles do seu suco e então fitou o loiro à sua frente. Aquela situação começava a ficar um tanto interessante para ela.

“David, me desculpe a indiscrição mas... Mary sabe que está aqui?”

“Não.” O olhar dele era duro.

“Você veio até a minha casa sem sua esposa saber e em um momento em que meu marido não estivesse, posso perguntar quais os seus planos?”

David pareceu racionalizar sua resposta por algum tempo, mas seus ombros relaxaram e ele se recostou ao encosto da cadeira. “Eu precisava conversar com você.”

“Certo.” Respondeu ela.

“E não ia me sentir à vontade com nossos cônjuges por aqui. Nem mesmo o Robin com todo seu liberalismo.”

“Tudo bem, David. Eu entendo.” Ela colocou o copo nos lábios e bebeu mais um pouco do suco. “Então me diga: o que te trouxe aqui? O que você quer?”

A maneira com a qual ela o analisava dizia a ele que até mesmo se ele dissesse ‘você’, ela aceitaria tranquilamente – deitando-se na mesa e ficando ao seu dispor. Mas ambos sabiam que ele não queria aquilo, pelo menos não com tanta prioridade. David parecia pensar sobre o que dizer e o que não dizer. Seus olhos perambulavam pelo local, e os dedos tamborilavam incessantes contra a mesa. Entretanto, Regina era especialista em linguagem corporal e isso lhe proporcionava uma vantagem incontável sobre as outras pessoas.

“David.” Ela chamou a atenção dele, que levantou os olhos para ela com certa incredulidade. “Pode confiar. Nada do que disser aqui sairá daqui. Eu sei ser discreta.”

Ele balançou a cabeça, concordando e ajeitando-se na cadeira, debruçou-se para frente. “Eu preciso de dois favores seus, mas antes prefiro que os aceite e que mesmo que não possa me ajudar diretamente, que me ajude a encontrar quem possa.”

“Fechado.”

“Eu quero conhecer o que há lá embaixo.”

Regina sorriu e seus olhos criaram um lampejo de malícia. “Qual seu interesse lá, David?”

“Eu tenho uma fantasia e quero saciá-la.”

“E onde entra a Mary nisso?”

“A Mary não pode saber, Regina. Por favor. Ninguém pode saber. Você exala confiança e eu estou morrendo de medo de ter cometido um erro lhe contando isso.”

“Eu sou uma pessoa de confiança, dear.”

“Vai me ajudar?”

Os olhos dela já haviam criado um brilho escuro, quase negro. Ela o encarava com curiosidade, mas o sorriso havia desaparecido. David tentava decifrá-la, sem sucesso algum. Regina era um cubo mágico com milhões de cores. Antes de encontrar a solução, você já teria enlouquecido. Ela terminou de beber seu suco e levantou-se.

“Você tem certeza do que quer, David?”

“Sim.”

“Então eu o levo até lá.”

Regina estava sentada sobre uma poltrona vermelha, com algemas presas aos braços dela. Ela observava David caminhando por uma das salas, o olhar fixo e interessado em cada ferramenta, cada acessório higienizado e disponibilizado por cima das bancadas. Se havia algo que tanto Robin quanto Regina prezava, era aquele subsolo. Eram aquelas salas, aqueles acessórios, aquele universo. Era onde eles podiam ser eles mesmos. Onde eles se entregavam, onde as pessoas se entregavam.

“Você frequenta aqui embaixo como anfitriã ou como participante?”

“Ambos.” A voz dela era rouca. Quando passava pela porta vermelha, Regina adquiria outra postura. Muito mais segura, poderosa, controladora. “Mas só me submeti pouquíssimas vezes.”

“Você faria isso por mim?”

Os olhos dele procuraram pelos dela. Regina respirou fundo, observando aquele homem tentador e seus dedos sobre o chicote de cerdas curtas. David Nolan tem tendências sádicas. Um sorriso preencheu seus lábios.

“Eu posso fazer isso por você, David... Mas tudo tem um preço.”

“E o seu qual é?”

“Prefiro deixar em aberto. Quando eu precisar, eu lhe aviso.”

“Correto.” Respondeu, caminhando até as barras suspensas. “Você tem um arsenal poderoso aqui embaixo, Regina.”

Regina caminhou até ele. Ela o encarou sem delongas, aprofundando-se naquele rarefeito mar que eram as íris dele. “Você tem conhecimento demais para um novato, David. Isto me intriga. O que você está escondendo?”

“Se eu lhe contasse, deixaria de ser segredo.” Respondeu ele, abandonando sua fixação pela sala ao seu redor e fixando-a nela. Regina era uma mulher linda. Sua sexualidade latina era avassaladora e simplesmente hipnótica. “Minha mulher é um tanto...” Ele procurou a palavra certa.

“Tradicional?”

“Isso. Tradicional. Ela jamais entenderia meus anseios sexuais como você entende, Regina. Na verdade, por muito tempo eu me senti como um lobo aprisionado numa manada de ovelhas. É infeliz ser obrigado a sufocar sua natureza para salvar seu casamento.”

“É fadá-lo ao fracasso, David.”

“Eu sei. Mas Mary jamais aceitará nada disso. Ela tem um ponto de vista muito provinciano a respeito da vida e por muito tempo, achei que fosse melhor assim, achei que eu ia conseguir me adaptar a ela.”

“Certo.” Ela olhou para o relógio em seu pulso. “Se não se importa, preciso subir. Robin estará de volta em uma hora e eu ainda não estou pronta para sairmos.”

“Sem problemas, Regina.”

“Não se preocupe.” Ela se debruçou e encostou seus lábios nos dele, num beijo leve. “Qualquer que seja seu plano, eu vou ajudar você. Só preciso saber a hora e eu estarei lá pontualmente.”

Ela sorriu e ele a acompanhou até a saída com um sorriso bobo no rosto. Seu coração parecia pesar menos depois da confissão. Regina era uma loba, como ele e finalmente ele voltara para a matilha.

Tinker estava limpando a vidraça do quarto de Emma quando fixou os olhos na casa à frente, e observou David saindo da casa de Regina. Ela tinha observado Robin saindo para o trabalho mais cedo e seu carro não estava de volta à garagem. David também estava sozinho. Por alguns segundos, Tinker analisou quais as possibilidades de estar errada. Seu estômago doía com as ideias odiosas que sua mente produzia. Será que eles estavam juntos? David estava traindo a Mary com Regina? E Robin, estaria sabendo daquilo? No fundo, Tinker não sabia o que a estava incomodando realmente. Ela estava sentindo ciúmes? De David ou de Regina?

Assim que o carro dele desapareceu, ela se sentou e respirou fundo, organizando seus pensamentos de uma maneira racional. Tudo que ela tinha era circunstancial. Ela precisava de provas.