Combustão

4 Capítulo 3


Mary estava preparando o jantar quando o telefone tocou. Ela parou de cantarolar a música da Aretha e atendeu ao chamado.

“Alô.”

“Sou eu.” Ela identificou imediatamente a voz da amiga.

“Só queria saber se chegou a tempo de fazer sua famosa torta de maçã.”

“Há quatro anos seguidos. Como estão as coisas por aí?”

“Acho que teremos que comprar mais coisas. A casa é muito grande.” Brincou Tinker, olhando ao redor do seu quarto. Sentada em sua cama com o indicador enrolando o fio do telefone, ela mantinha uma pose quase adolescente.

Mary manteve alguns minutos de silêncio, que foram sentidos por ela.

“O que vai fazer para o jantar, Tink?”

“Ainda nem pensei nisso.”

Killian entrou no quarto, colocando algumas coisas sobre a penteadeira.

“O Killian está aqui e pediu desculpas por não ficarmos na festa.”

Ele estava abrindo uma garrafa de vinho, e sorriu para ela.

“Diga que eu entendo. É um grande dia para vocês.” Suspirou Mary do outro lado da linha.

“Posso te ligar mais tarde?”

“Eu estarei aqui.”

“Ok. Tchau.”

Killian colocou um pouco de bebida em seu copo.

“Como estava a Mary Margareth? Ainda pendurada no seu calcanhar?”

“Mary pode ser difícil, mas é a pessoa mais leal que conheço.”

“Leal ou grudenta?”

“Pare com isso.”

Killian levou um copo até ela, e sentou-se ao seu lado.

“Parei.”

“Sabe” Começou ele, debruçando-se para perto dela. “Tudo está muito bom para nós. Está tudo dando certo. Um brinde para que nós dois aproveitemos cada minuto.”

Ela sorriu, tocando o copo dele com o seu e tomando um gole generoso da sua bebida.

“Nós vamos à festa dos vizinhos essa noite, certo? Temos que começar da maneira correta.”

“Não sei, Killian. Estou exausta. E tem a Emma, não vou deixa-la sozinha nessa casa enorme.”

O celular dela tocou instantaneamente e ela levantou-o na direção dele, para que notasse o visor.

“Emma? Tem certeza?” Ela o encarou, e ele admirou a beleza da esposa. “Tudo bem. O Neal te traz para casa? Sem problemas. Juízo, garota. Beijo. Também te amo.”

Tinker colocou o celular na cama, não sem antes identificar um sorriso vitorioso nos lábios do moreno.

“Viu, eu disse que tudo estava muito bem para nós.”

Ele preencheu o copo dela novamente e ela tornou a beber.

Emma estava atravessando a lateral da praia com um baseado nos dedos quando ouviu a voz dele.

“Essa porcaria é cheia de nitratos, Emma. É pior que cigarro.”

Ela sentiu o corpo paralisando-se pela visão de Humbert Graham sentado em um banco, vestindo bermuda e camisa polo. Os cabelos despenteados lhe davam um ar jovial, mas o livro grosso em suas mãos o mantinha intelectual demais.

Ela caminhou até ele, desajeitadamente – e jogou o cigarro no primeiro lixo que encontrou pelo caminho.

“O que faz aqui, senhor Graham?”

Ela podia jurar que os olhos dele haviam percorrido seu corpo. Vestindo apenas a parte de cima do biquíni e um short jeans, ela sabia que estava gostosa. Tinha certeza disso, se adicionado o fato de seus cabelos estarem soltos e com ar de surfista sulista.

“É uma praia pública, que eu saiba.”

“Não. Sim. É que... Não acha estranho encontrar seus alunos por aqui?” Ela sorriu. “Quer dizer, não estranho, apenas...”

“Fora do contexto?”

“Isso.”

“Então devo avisá-la que às vezes eu vou ao mercado, ao correio e até mesmo a festivais de musica indie. Há o terrível risco de me encontrar.”

“Música indie? Sério?”

Ele riu, e ela adorou aquela imagem dele.

“Já leu meu trabalho?”

“Sim.”

“Hm, essa não parece a cara de quem me deu um 10.”

“Você fugiu do assunto.”

“Como? Isso é porque o trópico de Câncer não é uma bibliografia aceita?”

“Não misture as coisas. Henry Miller é um gênio. Mas a proposta do trabalho era citar um exemplo literário de liberdade de Kierkeggard e depois um de sua própria experiência.” Ela manteve os olhos semicerrados. “O que foi? A menos que você seja amiga de Anais Nin, não atendeu à proposta.”

“Anais Nin é muito mais interessante do que eu. Nada que eu já tenha feito chega perto do que ela escreve.”

“Você precisa trabalhar nisso.”

O carro amarelo de Neal apareceu no horizonte, buzinando indiscretamente.

“Namorado?” Perguntou ele.

“É... Nem tanto.” Ele a olhava com curiosidade e atenção e aquilo a inquietava. “Eu preciso ir.”

“Feliz dia da independência, Emma.”

Ela sorriu para ele e caminhou até o carro onde Neal a esperava.

“Não encontro minhas coisas. Tive que usar a maquiagem da Emma.” Constatou Tinker enquanto descia as escadas. Killian limpou a garganta, os olhos reluzindo de admiração por sua esposa. O cabelo loiro estava solto e caindo em cachos pelos ombros, a boca marcada com um batom vermelho. Seu corpo estava delineado em um vestido branco justo, com mangas esvoaçantes de um tecido leve.

Ela terminou de descer as escadas e caminhou até ele, que ainda tinha um sorriso bobo no rosto.

“Exagerei?”

“Está brincando?” Falou ele, com uma voz rouca enquanto a pegava pela mão e lhe girava à sua frente, puxando-a para um beijo logo em seguida.

Ding-dong.

Ele sorriu, encostando a testa contra a testa dela. Tinker deslizou o polegar pelo rosto dele antes de caminhar até a porta.

“Hey! O que estão fazendo aqui?”

“Achei que valia a pena trazer um pedaço da torta de maçã. E alguns itens extras.” Sorriu Mary Margareth, ao lado de David.

“Isso sim é um presente delicioso.” Brincou Killian.

“E eu trouxe um engradado de cervejas.” Falou David, entrando logo após Mary enquanto o colocava nas mãos de Killian. Ele afastou-se e colocou a cerveja sobre a mesa de entrada, retirando os vasilhames da mão da esposa e colocando-os sobre a mesa também.

“Nós comeremos assim que estivermos de volta.”

Mary olhou para Tinker, confusa.

“Achei que quando disse que não tinha pensado no jantar ainda... era porque não tinha planos para hoje.”

“Os novos vizinhos nos convidaram para uma festa, só isso.”

Mary balançou a cabeça, incrédula. Sua expressão fora sutil, mas perceptível.

“Bem, não queremos atrapalhar. Deixe o velho, viva o novo.”

“Porque não vem conosco? Nós não conhecemos ninguém lá.”

“Não acho que seja uma boa idéia.” Começou David.

“Tem certeza?” Perguntou Mary.

Tinker pensou por alguns segundos e virou-se para o marido, a mão depositada gentilmente sobre o peito dele.

“O convite pareceu aberto o suficiente, não?”

Killian concordou, e Mary e David trocaram um olhar confuso. Ele não parecia confortável com a ideia, mas Mary o cortou.

“Acho uma boa ideia, mas seria bom o Killian emprestar uma camisa para o David. Ele está ultrapassado na moda.”

Eles sorriram um para o outro, e subiram no sentido dos quartos.

Quando Robin abriu a porta, deparou-se com os dois casais. Uma música suave tocava nos fundos, e ele vestia uma camisa com alguns botões abertos, revelando seu corpo rígido e definido. O cabelo castanho claro estava arrepiado, e uma barba por fazer completava o visual sexy.

“Oi pessoal.” Sorriu ele. “Killian e Tinker, certo? Entrem.”

“Espero que não se importe. Nós trouxemos amigos.”

“Ex-vizinhos, para ser exato.” Replicou Jones.

“Quanto mais, melhor.” Sorriu ele, abrindo espaço com o braço para que eles entrassem.

Da porta da entrada, havia uma parede de vidro que lhe dava visão da piscina. A casa era enorme, e muito bem decorada. A área externa estava toda decorada com fitas estiradas de azul e branco, e havia pessoas por todos os lugares, algumas dançando, algumas na piscina, outras encostadas no balcão. A atmosfera era de pura diversão, e as pessoas pareciam incrivelmente entretidas.

“Você e Robin realmente conseguem resolver tudo, Regina.” Riu August, enrolando uma folha de seda com os dedos e selando-a com os lábios, enquanto Regina sorria para ele. Usando um vestido azul com um decote generoso, ela estava irresistível. “Ele não faz ideia de como é um cara sortudo.” Brincou ele, depositando a mão sobre o joelho. Ela sorriu e colocou a mão por cima da dele por alguns segundos, levantando-se.

“Tinkerbell, oi.” Cumprimentou ela, abraçando a loira, e acariciando lhe os braços. “Foi tudo bem com a mudança?”

“Fizemos o melhor que pudemos. Mas ainda não chegamos perto de acabar.”

“Talvez você possa dar algumas dicas sobre decoração para a minha esposa.” Continuou Killian, sorrindo.

“Claro. Chame um designer de interiores.”

Tinker riu genuinamente.

“Quem está pronto para uma rodada?” Chamou Robin.

“Já tem um campeão.”

Killian o seguiu na direção do bar.

“Traga um para mim, por favor?” Pediu Tinker.

“Você deveria ir.” Comentou Mary e David beijou-a na testa antes de se afastar com os rapazes.

Regina o seguiu com os olhos, e depois se virou para Tinker com um sorriso safado no rosto. Mary aproximou-se delas.

“Regina, esta é a minha amiga Mary. Ela...”

“Se disser que eu sou uma antiga vizinha mais uma vez vou me matar.”

Regina segurou um sorriso.

“Eu ia dizer melhor amiga e ex-vizinha depois de anos.”

“Desculpe nossa bobeira. Aquele amável homem parado ali e sem habilidade nenhuma para se apresentar é David, meu marido.”

“Que tal um tour pela casa?”

“Eu... eu vou esperar meu marido.”

“Tudo bem, voltamos logo.” Respondeu Regina, puxando Tinker na direção do corredor.