Combustão
5 Capítulo 4
Estava escuro e havia meia dúzia de adolescentes ao redor de uma fogueira feita na areia. Alguns casais estavam embolados por perto, e de dentro do carro amarelo de Neal, Emma os observava.
Neal bebeu um gole da cerveja antes que os fogos de artifício começassem a estourar no céu.
“Legal.”
“Talvez, se você tiver oito anos.”
“O quão longe essa sua chatice vai ir?”
“Desculpe se ficar bebendo cerveja e olhando fogos estourando não é minha versão ideal de diversão.”
“O que há com você essa noite? Você nunca foi tão exigente.”
“A palavra é entediada.”
“Tédio é passar um verão todo tendo aulas extras de literatura inglesa quando você definitivamente não precisa.”
“A questão não é precisar, Neal. É absorver conhecimento.”
“Mesma porcaria.”
Emma sorriu, virando-se para olhá-lo nos olhos.
“Sabe de uma coisa? Você é um idiota. Não sabe absolutamente nada sobre mim.”
“Quer dizer que não vou ter passe livre para dentro da sua calça, essa noite?”
Emma respirou fundo, e saiu do carro.
“Aonde você vai?” Ela continuou caminhando para longe do carro. “Emma!”
Aos poucos, Emma pegou velocidade e correu para longe. Assim que chegou à beira do mar, ela retirou a parte superior do biquíni e arremessou-o ao chão, entrando no mar em seguida.
Quando entraram no quarto, Regina e Tinker se depararam com Blue sobre uma pequena mesa, em frente a uma fileira branca de cocaína.
“Regina, ainda bem que apareceu.” Comentou ela, visivelmente dopada. “Tem alguma coca aí?”
“Não, dear. Não quando sou a anfitriã. Mas o Leroy pode ter alguma. Cuidado, ele anda um pouco instável esses dias. Desculpe, vocês já se conhecem?”
Blue se aproximou delas, após levantar-se.
“Blue, essa é Tinkerbell. Ela acabou de se mudar para a casa ao lado da sua.”
“Você tem alguma coca?”
Tinker sorriu, sem jeito. “Não.”
“Blue, querida. Acho que Steve está procurando por você.”
“Conte-me uma novidade.” Falou ela, revirando os olhos enquanto saía.
Tinker sorriu para Regina.
“Não se preocupe. Ela é inofensiva.” A assegurou. “Miserável, porém inofensiva. Eu costumo dizer que ela abriu o casamento assim como todo mundo, mas o marido dela não se acostumou completamente com essa ideia.”
“Você e o Robin tem um casamento aberto?” Perguntou Tinker, levemente constrangida.
“Você não?”
“Não, não.” Tinker sorriu. “Killian me mataria se por acaso eu o traísse.”
“Ah, mas não é traição.” Sorriu Regina. “É o oposto disso.”
“Como que fazer sexo com outras pessoas pode não ser traição?”
Regina caminhou até o guarda-roupa com a taça em mãos.
“Porque é tudo muito transparente, tudo é feito as claras.” Ela abriu uma porta e retirou uma pequena caixa. “Ninguém sai escondido. Ninguém precisa mentir.” Elas trocaram um olhar intenso. “Desde que eu e Robin entramos nesse acordo, atingimos outro nível de intimidade. Um elevado nível.” Regina colocou um comprimido nos lábios e ingeriu a bebida. “Sem mencionar o sexo, extraordinário.”
Tinker sorriu, bebendo mais um gole de sua taça. Regina estendeu a mão com a caixa aberta para ela.
“Mandrax?”
“Eu nunca tomei um desses.”
“Nesse caso eu insisto.” Regina pegou um dos comprimidos e colocou sobre a mão dela. “Aqui. Vai deixa-la relaxada.”
“A verdade é que eu e o Killian namoramos desde o colégio...” Regina virou-se para ela, ouvindo atentamente. “E minha mãe morreu cedo, então nos tornamos ‘pais’ da minha irmã mais nova cedo demais.”
“Eu fico feliz de dizer que o trem ainda não partiu. Você pode embarcar. Converse com o Killian.” Tinker mordeu o lábio inferior. “Abrir o nosso relacionamento foi a melhor coisa que já aconteceu entre Robin e eu. Te vejo lá fora, preciso dar uma olhadinha nos convidados.”
Regina afastou-se, e Tinker engoliu o comprimido apressadamente antes de digerir o álcool da bebida novamente.
“Quando quiser ir a algum clube, fale com esse cara.” Disse August, apontando para Robin. “Eu te darei qualquer garota.”
Killian assentiu e pegou o cigarro de maconha que August lhe ofereceu, levando-o à boca. Do lado dele, Mary Margareth e David observavam, contrariados. Blue caminhou até August e cochichou alguma para ele.
“Eu vou procurar a Tinker.” Comentou Mary.
“Eu espero aqui.”
August pegou o cigarro novamente. “E onde está seu marido?”
“Foi para casa.” Respondeu Blue, saindo de perto deles.
August observou-a se distanciando. Alguns instantes depois, ele despediu-se deles.
“Vejo vocês lá embaixo.”
Assim que August se afastou, Killian não soube segurar a curiosidade.
“O que há lá embaixo?”
“Uma porta vermelha que dá acesso ao quarto dos jogos.” Robin sorriu. “Me dá uma ajuda com os fogos?”
“Claro.”
Tinker caminhou delicadamente até David, que estava parado solitário em frente à piscina. Ela colocou-se ao lado dele, e eles sorriram um para o outro.
“Seus novos vizinhos são realmente modernos.”
“Eu que o diga.”
Um estouro a assustou, e ela sorriu quando viu que eram fogos de artifício estourando por cima deles. Ela aproximou-se dele, e ele passou a mão pela cintura dela, mantendo-a por perto.
“Regina!” Chamou Mary. “Estou procurando a Tinker, sabe onde ela está?”
“Ela estava no meu quarto. Descendo as escadas, na segunda porta à esquerda.”
Assim que ela se afastou, Regina sorriu para si mesma, mordendo o lábio inferior.
Killian observou Tinker e David por alguns segundos, até que eles se viraram para ele. Ambos sorriram, e David afastou-se, de modo que Tinker passou os braços ao redor dele, abraçando-o. Killian beijou a ponta do nariz dela, carinhosamente.
“Está se divertindo?” Perguntou ele.
“Regina me deu mandrax.”
Eles riram um para o outro.
“Está brincando... E como você se sente?”
“Muito bem.” Disse ela, sorrindo. Suas unhas começaram a percorrer a nuca dele numa carícia suave. “Você não acreditaria no que ela me sugeriu.”
“Na verdade, eu acho que Tom sugeriu a mesma coisa. Loucura, não é?”
Tinker continuou acariciando a nuca dele, com um olhar ambíguo no rosto. Ele notou, e franziu o cenho levemente. “Ou não?”
Robin e Regina acenderam outro pavio e fogos começaram a estourar novamente sobre eles, interrompendo a conversa.
Mary Margareth estava descendo as escadas para o quarto de Regina. Ela se perguntava o porquê de tantos tons de vermelho, ou qual a finalidade de uma escada ostentar um corrimão de madeira maciça esculpida e degraus cobertos por um veludo vermelho-escuro. Era quase sufocante de tão sensual. Havia duas portas vermelhas no fim da escada, e ela não se recordava mais qual seria a porta do quarto. Ela havia dito primeira ou segunda?
As portas eram idênticas, exceto por um pequeno item fincado na parte alta da primeira, na altura de onde possivelmente ficaria um olho mágico. Parecia um broche e era esculpido em ouro. Mary aproximou-se e notou que se tratava de um lábio feminino com um indicador sobre ele, simbolizando silêncio – e isso chamou demasiadamente sua atenção.
Ela abriu a porta.
Havia um corredor, e todo o local parecia escuro. Feixes de luz iluminavam o caminho, envoltos por um fundo vermelho. Mary sentiu-se culpada pela invasão, mas a curiosidade era maior do que a vergonha. Havia portas e janelas enormes. Ela aproximou-se de uma das vidraças e seus olhos se arregalaram assustados.
Lá dentro, havia um homem preso a correntes. Ele estava nu, exceto por uma máscara de couro que cobria todo o seu rosto, e uma mulher usando uma roupa apertada e sensual de látex batia nele esporadicamente com um chicote de cerdas curtas. Mary ouviu um gemido atrás dela e engoliu em seco, virando-se lentamente. Sentia-se em um pesadelo de depravação.
Através da outra vidraça, havia uma mulher sobre uma mesa baixa de madeira, com os olhos vendados e sendo tocada por quatro ou cinco homens.
Ela sentiu que ia vomitar. Era isso que Regina e Robin eram. Os queridíssimos Locksleys eram donos de um centro de devassidão e sexo barato. Tinker estava deslizando para aquele antro de perdição, e nem havia se dado conta disso. Mary começou a caminhar apressadamente para fora dali assim que sentiu os pelos de seu braço arrepiando-se.
Ia contar tudo à amiga e os quatro sairiam dali tão rápido como entraram.
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