Com amor, Lutávio
14 TV
Notas iniciais
Depois da tempestade na casa dos pais, Luccino dormia em um dos carros da oficina. A expressão de desarme que todos tinham durante o sono poderia ocultar toda a confusão que havia acontecido um dia antes. Otávio chegou de mansinho na oficina, tão cedo que a chuva ainda não dava sinais de chegada. Por sorte, não fez barulho: deparou-se com a figura incólume do mecânico, a beleza que todos têm ao dormir, quando podemos ver um pouco da real expressão das pessoas, aquela serena, aquela plena, tranquila, sem a afetação do mundo.
O capitão teve vontade de tocar a face pálida de Luccino, mas teve de receio de lhe acordar. Até que, quando começou a chover, ele estava tão concentrado que não sentia algumas gostas respingando do teto direto para o seu uniforme. Concentrado nos detalhes que queria guardar do italiano: o cabelo bagunçado, um fio rebelde caindo na testa, a boca emoldurada. Quando o capitão percebeu que existia uma goteira perto do veículo, apressou-se para pegar o cobertor próximo e embrulhar Luccino para que não sentisse frio. Foi nesse momento em que ele o acordou, num sobressalto envergonhado.
Ao fundo, começaram a tocar as primeiras notas de uma música...
Desta vez não esqueceria. Henrique anotou os primeiros versos da música que conseguiu pescar na memória, para não se esquecer de procurá-la no Youtube mais tarde. Depois, voltou à novela. Não queria perder um segundo sequer.
... Uma música que Luccino e Otávio não escutavam, abafada pela tempestade lá fora. Luccino despertou perguntando se Otávio estava ali há muito tempo. Otávio continuou encarando-o sem responder e se aproximou da janela do carro com cuidado.
“O que aconteceu?” Perguntou, com a voz leve. “Está de pijamas ainda”.
“As coisas não terminaram bem lá em casa...”
Otávio soltou o ar, olhando para a boca de Luccino.
“Eu queria... Ter ficado. Mas você me mandou embora.” Completou, engolindo em seco.
Os dois silenciaram por um instante, para concentrar as palavras que viriam a seguir. O capitão sentia o coração ser confusão e mãos. Sua confusão tamborilava pelas suas próprias mãos. Uma marcha de angústia seguia por seu peito, temendo a atitude de Luccino quando ele saiu pela porta da frente depois da confusão.
“Você negou tudo, não foi? Eu entendo. Como eu te disse, eu sou órfão, mas eu imagino que por serem seus pais você...”
“Otávio!” Luccino foi pontual, interrompendo os achismos de Otávio. “Eu não neguei nada.”
“Não?” Completamente surpreso, Otávio de um impulso só abriu a porta do carro e sentou ao lado de Luccino, sentindo a energia entre os dois entrar em choque. O capitão rodeou os ombros do mecânico com seus braços e os rapazes ficaram numa proximidade perigosa...
Henrique segurava-se no sofá, sentindo o balanço de todas suas terminações nervosas. Queria poder gritar de empolgação, mas em sua casa não podia. O pensamento era que ficava em polvorosa. Gritava “beijem, beijem!”. Será que se beijariam? Ah, mas se colocaram um casal gay em plena novela das 18h, um beijinho teria que ter! Quando Luccino e Otávio se aproximaram no carro, Henrique prendeu a respiração. Olhou atento para sua mãe no sofá, ao lado dele, uma das mãos segurando a cabeça com a expressão impassível.
“Eles podiam se beijar, né mãe?”
“O quê?” Perguntou, distraída.
“Eles podiam se beijar. São tão bonitinhos.”
A mãe deu de ombros, sem olhar para ele. Henrique afundou no sofá, sentindo a vibração do celular no bolso. Era uma mensagem no Whatsapp, do Caio, a qual imediatamente fez Henrique sorrir. Logo o Caio que nunca foi de novela, tava bem assim: “Você tá assistindo? MEU DEUS EU QUERO MEU LUTÁVIO AGORA”. Só aquilo para fazer Henrique rir.
... E numa proximidade perigosa, Luccino foi se acalmando à medida que sentia o corpo de Otávio perto do seu.
“A noite passada não deu muito certo. Por que você acha que eu estou de pijamas? Eu dormi aqui mesmo. Meu pai me botou pra fora de casa...” Luccino respondeu, os olhos cabisbaixos.
Otávio foi derrubado por aquela informação, ao mesmo tempo sentindo extrema admiração pela coragem de Luccino. Mas também estava triste pela situação ter chegado naquele extremo. E lhe falou, com todo carinho que podia, que sentia muito.
“O seu Gaetano não vai me aceitar. Eu nunca tive essa ilusão. Mas a minha mãe? Eu fui muito ingênuo. Achei que ela fosse entender...”
A mãe de Henrique se remexeu no sofá. O filho recebera mais uma mensagem de Caio. O namorado havia conseguido achar a música do casal, que era uma da Sandy sem o Júnior. Salvou pra escutar depois. A mãe incomodada ao ver a cena da novela. “Será que ela sabe que também me sinto assim?”, perguntou-se Henrique, querendo chorar. Mas, acima de tudo, querendo conversar com ela. Desde que apresentara Caio como seu namorado e dissera que era gay, os dois nunca mais tinham trocado um diálogo consistente sequer. O pai o apoiava, mas como já tinha outra família, pouco poderia ajudá-lo. A mãe era sua questão particular. Lembrou-se do momento em que chegou em casa com Caio e, percebendo a expressão confusa da mãe, num impulso trêmulo segurou nas mãos do namorado. Mesmo Caio se surpreendeu, Henrique que era tão fechado sobre seus sentimentos, Henrique que estava tão conformado em nunca se assumir antes dele chegar. De viver uma vida como dava até conseguir sair de casa. Sua mãe nunca o escutou depois disso. Recolheu-se para o quarto, reapareceu à noite com os olhos vermelhos e desde então, se fazia de desentendida... Helena, a mãe, amava Jane Benedito. Uma moça pura. Toda vez que Jane aparecia em tela, virava para Henrique, que vibrava só de ouvir a mãe lhe dirigindo a palavra. Mas logo em seguida morria de frustração, quando ela dizia... “Mas essa menina seria perfeita pra você, hein?”...
... A tempestade prosseguia. Não mais intensa do que aquela que Luccino e Otávio sentiam dentro de si mesmos. Otávio olhou para o mecânico, sabendo no seu âmago que naquele dia, seria enfim claro sobre seus desejos. Disposto a tudo, a desistir da sua carreira, da sua vida, só para entender a si mesmo junto ao rapaz ao seu lado.
“Tá vendo essa tempestade lá fora?” O capitão indagou “Eu acho que nós vamos ficar presos aqui dentro por um bom tempo...”
E Otávio pensou ah, a tempestade está aqui do meu lado... Luccino sorriu-lhe, numa sensação amistosa de gratidão por tê-lo ali naquele momento difícil. Otávio afagou suas costas e ajeitou o corpo para ficar mais próximo do rapaz. Ele trouxe sua cabeça devagar para seu ombro, afagando seus cabelos até que a respiração estivesse mais calma. Em seguida, os dois se cobriram com o cobertor e Otávio deu um beijo casto da bochecha de Luccino. Ficaram assim, admirando a tempestade cair, enquanto sentiam seu interior em calmaria...
Henrique soltou o ar. “O beijo não foi dessa vez”. As cenas da novela continuaram. Ele não estava gostando daquele vai e vem com as provas contra Elisabeta. Mas porque ele via tudo de uma maneira... Técnica. A mãe não, se divertia. E a novela era o único momento em que os dois se juntavam e trocavam algumas poucas palavras. A mãe olhou para ele rapidamente, enquanto o filho se distraía a sorrir no celular. Vislumbrou o nome do contato. Caio. Seu estômago se revirou de orgulho ferido. Fora traída. Queria tanto ter netos... Mas ao pensar no casal... Lúcio e Otávio, não era esse o nome deles? Lúcio e Otávio. É, eram até bonitos juntos.
“Henrique, esse Lúcio aí saiu de casa por causa daquele jantar?”
Henrique se assustou, respondendo de supetão:
“Ele saiu p-porque era gay.” Falou, as palavras atropeladas.
“Você tá falando igual o Rodolfo. Mas será que eles são viados mesmo?”
Henrique pareceu receber uma punhalada nas costas.
“Não são viados, mãe. São meninos... Que se amam...” Respondeu, ponderando as palavras, mas a voz embargada denunciava sua tristeza.
A mãe voltou ao seu estado anterior. Quando a novela terminou, Henrique voltou ao quarto depois do jantar. Colocou os fones e repetiu Morada no Player de música não sei quantas vezes.
“Caio, a música é linda”, escreveu ao namorado. Caio retornou com um áudio de dois minutos cantando a música. Henrique revirou os olhos. O namorado amava contrariá-lo, pois sabia que não tinha paciência com áudios. Mas aquela voz...
Até que bateram à sua porta, e era a figura da mãe, contrariada.
“Você acha que ele gosta de caldo de frango?”
Henrique estranhou:
“Ele?”
“Gosta ou não?” A mãe devolveu, impaciente.
Até que o filho percebeu que ela estava fazendo um esforço enorme para vir até ali falar com ele, ainda mais de Caio.
“S-Sim. Ele gosta.”
“Então...” A mãe pesou no silêncio por um bom tempo. “Amanhã talvez tenha mais um lugar na mesa. Quem sabe não aparece uma visita.”
E ela lhe olhou, engolindo em seco, brava consigo mesma. E fechou a porta. Não era a resposta que Henrique queria, mas era um começo. Desta vez, foi Henrique que mandou um áudio de três minutos para Caio, contando que ele “meio que” tinha sido convidado pro jantar de amanhã. E de quebra assistiriam a novela juntos. Talvez...
Depois de conversarem, Henrique escutou Morada a noite toda, pensando em Caio, pensando na mãe, pensando em Luccino e Otávio. Pensando, sobretudo, no momento feliz que lhe acenava, e que logo se tornaria completo em sua vida.
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