Com Todo Amor - O começo

18 Você é a Melhor Coisa Que Já Foi Minha


Existem lugares que parecem imunes à passagem do tempo.

O riacho continuava lá, perfeitamente escondido entre a copa densa dos carvalhos da Fazenda Wright, como um segredo de infância que pertencia única e exclusivamente a nós dois. Quando éramos crianças, aquele pedaço de terra era o nosso reino particular. Passávamos tardes inteiras ali; construíamos barragens de pedras que desmoronavam na primeira correnteza, tentávamos pescar peixes que sempre encontravam um jeito de escapar e competíamos para ver quem tinha a coragem de mergulhar primeiro na água gelada.

Anos depois, o riacho continuava exatamente o mesmo. Nós é que havíamos mudado, arrastando o peso de Stanford na bagagem.

As primeiras semanas das férias foram uma espécie de tortura medieval perfeitamente desenhada para testar os meus limites psicológicos. Era estatisticamente impossível não esbarrar em Aidam Wright. A fazenda era vasta, com centenas de hectares de terra, mas de repente parecia estreita demais para nós dois.

Ele estava em toda parte. Consertando as cercas de madeira sob o sol escaldante, ajudando o pai a domar os potros novos, treinando arremessos no celeiro ou correndo pela estrada de terra batida ao amanhecer, deixando um rastro de poeira vermelha no ar.

E havia um detalhe de puro sadismo masculino naquela rotina: Aidam parecia ter declarado uma guerra pessoal contra as camisetas.

Sempre que o meu caminho cruzava com o dele, ele estava sem camisa. O sol do Texas parecia desenhar com precisão cirúrgica cada fibra dos músculos que o futebol americano universitário e a sala de musculação de Stanford lhe deram. O peito largo, o abdômen trincado e aquela linha marcada que descia em direção ao cós da calça jeans gasta.

Eu desviava o olhar instantaneamente. Ou, pelo menos, fazia o meu melhor para encenar que desviava. O grande problema era que a minha química biológica ignorava solenemente qualquer comando racional do meu cérebro. Minha boca secava na mesma hora, o coração errava a batida e uma onda de calor que não tinha nada a ver com o clima do Texas percorria o meu corpo antes que eu pudesse conter.

Era patético. Respirei fundo, me escorando na bancada da cozinha. — Você tem vinte anos, Camille Davis. Se controla. Você estuda o cérebro humano, devia saber dominar os seus próprios hormônios.

Não funcionava. Nem um pouco.

— Sabe o que eu acho? — Florence disparou durante o almoço de quarta-feira, cutucando a salada com o garfo.

Levantei os meus olhos azuis do prato, estreitando a vista. — Sinceramente, Flor? Tenho até medo das suas conclusões.

Ela apontou discretamente com o queixo na direção da janela de vidro da cozinha. Lá fora, sob o mormaço do meio-dia, Aidam passava em direção ao galpão carregando dois sacos pesados de ração sobre os ombros largos, os músculos das costas se contraindo com o esforço físico.

— Eu sempre achei o Aidam um menino bonito, sabe? Tipo o vizinho legal — ela comentou, com a maior naturalidade do mundo. — Mas agora que ele voltou da Califórnia... Meu Deus do céu. Ele conseguiu ficar ainda mais gato. É quase uma ofensa visual.

Quase engasguei com o gole de suco, tossindo para recuperar o ar. — Florence Davis! Olha o respeito!

She deu de ombros, totalmente descontraída. — O quê? Eu tenho quatorze anos, Camille. Tenho olhos funcionais também. Só estou constatando um fato científico.

Revirei os olhos, mas não consegui conter uma risada limpa. Foi exatamente nesse segundo de distração que a porta dos fundos se abriu e o meu pai, Otto, entrou na cozinha, tirando o chapéu de feltro.

— Posso saber qual é o motivo da graça no meio do dia? — ele perguntou, lavando as mãos na pia.

Florence, sendo a peste adorável que sempre foi, respondeu antes que eu pudesse inventar um álibi acadêmico: — Nada demais, pai. Apenas constatando que a Camille continua perdidamente apaixonada pelo vizinho.

— Florence! — repreendi, sentindo o meu rosto queimar no mesmo tom de vermelho das maçãs da mesa.

Meu pai apenas arqueou uma das sobrancelhas, secando as mãos no pano de prato com uma calma irritante. — Bem... isso aí eu já sei faz uns dez anos, no mínimo. Nenhuma novidade no Texas.

Minha irmã soltou uma gargalhada histérica, batendo a mão na mesa. Enterrei o meu rosto entre as mãos, soltando um gemido de pura vergonha. — Por favor, Deus, me diz que eu posso pedir emancipação ou trocar de família no próximo semestre.

Meu pai sentou-se à mesa, um sorriso discreto surgindo no canto dos lábios dele antes de adotar um tom mais sério: — Mas falando sobre o que importa... o que você pretende fazer até o fim das férias de verão, Camille? O rebanho está sob controle.

Pensei por alguns instantes, o peso de Stanford voltando a rondar os meus ombros. — Estou pensando em antecipar a minha passagem de volta para a Califórnia, pai. Voltar um pouco mais cedo.

Os dois me encararam ao mesmo tempo, o silêncio se instalando na cozinha.

— Mais cedo? — meu pai repetiu, o semblante tencionando de leve.

Assenti com a cabeça. — Sim. Os laboratórios de pesquisa avançada em neurologia ficam praticamente vazios nessa época do ano. Posso estudar com calma, adiantar algumas pesquisas de laboratório e garantir a monitoria do próximo semestre.

Meu pai mastigou lentamente o pedaço de carne antes de responder, com aquela sabedoria rústica de quem me conhecia de dentro para fora: — Você precisa viver um pouco além das lâminas de vidro e dos cérebros de plástico, Camille. A vida passa rápido demais para ser assistida apenas pela janela de uma biblioteca de elite.

Sorri de canto, esticando a mão para cobrir a dele. — Eu sei, pai. Eu vou viver. Mas antes... — Desviei o olhar para a janela, onde a poeira da passagem de Aidam ainda assentava no ar. — Eu quero extrair absolutamente tudo o que aquela universidade tem para me oferecer. Quero garantir o meu futuro. Nunca mais vou ter outra oportunidade como essa na vida.

Ele apenas assentiu devagar com a cabeça. Sabia que, quando uma Davis colocava uma meta na mente, tentar dissuadi-la era um exercício inútil de teimosia.

No terceiro domingo das férias, o clima no Texas parecia um castigo divino. O estado inteiro derretia sob um mormaço sufocante de quarenta graus, o tipo de calor opressor que faz a poeira queimar as narinas e a pele clamar por trégua. Sentindo o suor colar a minha blusa de alças ao corpo, decidi que precisava de um refúgio. Coloquei a sela em Grace e guiei a égua em passos lentos até o riacho escondido. Eu precisava desesperadamente de silêncio. De oxigênio. Mas, acima de tudo, precisava fugir da órbita magnética de Aidam Wright.

Depois de amarrar Grace à sombra generosa de um carvalho antigo, tirei as botas e entrei na água devagar. A temperatura fria e cristalina colidindo contra a minha pele quente arrancou um suspiro involuntário dos meus lábios. Deixei o meu corpo flutuar na parte mais rasa, fechando os olhos. Pela primeira vez em semanas de agonia, a minha mente experimentou um milésimo de paz.

Até que o som de passos pesados quebrando galhos secos e a água chafurdando cortaram o silêncio do bosque.

Abri as pálpebras num solavanco, o coração subindo direto para a garganta.

Aidam.

Ele estava parado a poucos metros de mim, com a água batendo na altura dos joelhos. O corpo musculoso, completamente nu da cintura para cima e dourado pelo sol, brilhava com o suor e as gotículas de água. Os fios loiro escuros estavam molhados, jogados para trás. Ele não parecia surpreso; ele parecia consumido. Seus olhos cor de mel esverdeados estavam em um tom de fúria e desejo tão sombrio que o ar faltou nos meus pulmões.

A postura dele estava rígida, o maxilar travado com tanta força que os músculos da bochecha tremiam. Ele deu um passo violento na minha direção, cortando a correnteza.

— Você prometeu, Camille — ele disparou, a voz barítona saindo num rosnado áspero, ecoando sob a copa dos carvalhos. — No raio daquela varanda, antes de toda essa merda de Stanford começar, você olhou na minha cara e prometeu que nada mudaria entre nós.

Fiquei de pé num salto, a água batendo na minha cintura, o meu próprio orgulho texano explodindo em chamas diante daquela acusação direta.

— E você prometeu que confiava em mim, Aidam! — gritei de volta, dando um passo agressivo na direção dele, a água salpicando entre nós. — Você prometeu que não ia deixar a porra da sua paranoia estragar o que a gente tinha! E o que você fez? Você me encurralou naquela festa! Você agiu como um animal possessivo na frente de todo mundo e depois me deixou assistir você beijando outra garota no telão de um estádio lotado!

— Eu estava cego de pânico! — ele berrou, a centímetros do meu rosto, os punhos cerrados ao lado do corpo enquanto o peito largo subia e descendo num ritmo violento. A proximidade dele era sufocante, o calor que emanava da sua pele contrastando com a água fria. — Aquele veterano estava cercando o seu espaço há semanas, Camille! E você sorria para ele! Você agia como se ele fosse a porra do cara mais inteligente do campus! Eu via o mundo inteiro te descobrindo em Stanford, via todo mundo olhando para os seus olhos azuis e a única coisa que eu conseguia pensar era que eu era só um caubói idiota que você ia acabar deixando para trás!

— Eu nunca olharia para outro homem daquele jeito, seu imbecil! — as lágrimas de frustração, mágoa e raiva acumuladas explodiram, escorrendo quentes pelas minhas bochechas. Empurrei o peito nu dele com as duas mãos, descontando toda a agonia dos últimos meses no impacto. — Eu cruzei a porra do país com você! Eu quebrei as regras do meu pai por você! Eu entreguei o meu corpo e a minha alma para você no escuro daquele apartamento! Como você pôde duvidar de mim? Como teve a coragem de me deixar ir embora daquela cidade sozinha?

— Porque eu achei que você me odiava! — Aidam explodiu, segurando os meus pulsos com uma força desesperada, interrompendo o meu ataque. O aperto dele era firme, mas não machucava; era o toque de um homem que estava se afogando e precisava de uma âncora. — Eu passei quatro dias nesta fazenda morrendo por dentro, Camille! Olhando para a porra daquela cerca, olhando para o carvalho e sabendo que eu tinha destruído a única coisa que dava sentido para a minha vida! Eu não aguento mais esse silêncio. Eu não consigo respirar sem você. Se você for voltar para a Califórnia mais cedo para fugir de mim, me diz agora, porque eu juro por Deus que eu largo a liga, largo o time e vou atrás de você a pé!

— Eu não quero fugir de você, Aidam! — gritei contra a boca dele, o choro quebrando a minha voz por completo. — Eu odeio o jeito que você me machuca, mas eu odeio ainda mais o fato de que eu continuo te amando com cada pedaço do meu ser!

— Então para de lutar contra mim, Davis — ele sussurrou, a fúria se transformando instantaneamente em uma urgência devastadora.

Aidam largou os meus pulsos e envolveu as suas mãos grandes na minha nuca, puxando o meu rosto para cima com uma força avassaladora. O impacto das nossas bocas foi uma colisão brutal de tudo o que vínhamos reprimindo nas semanas de separação. Não foi um beijo calmo de reconciliação; foi uma explosão de fúria, ressentimento e uma saudade tão física e violenta que fez os meus joelhos fraquejarem sob a água.

A boca dele se moveu contra a minha com uma fome selvagem, os dentes se esbarrando, as línguas se encontrando com uma propriedade que me fez soltar um gemido agudo de puro alívio contra os lábios dele. Minhas mãos abandonaram o peito dele e subiram com pressa pelos seus ombros musculosos, enterrando os dedos nos seus cabelos loiro escuros molhados, puxando-o para ainda mais perto, querendo fundir a minha pele à dele.

Aidam soltou um rosnado baixo, o som vibrando direto no meu peito, e me suspendeu da água num movimento bruto, prendendo as minhas pernas ao redor da sua cintura robusta. Ele andou aos tropeços pela correnteza até me prensar contra o tronco áspero e colossal do carvalho da margem. O impacto da madeira contra as minhas costas foi amortecido pelas mãos dele que subiram pela minha blusa, rasgando o tecido fino com uma urgência ensandecida que arrancou de mim um arquejo de puro desejo.

— Aidam... — implorei entre os beijos, a minha boca ardendo, o meu corpo inteiro tremendo de excitação.

— Você é minha, Camille. Nunca mais ouse sumir de mim — ele determinou, a voz completamente rouca, os olhos mel esverdeados dilatados enquanto ele desfazia o fecho do meu sutiã e jogava a peça na água, me expondo ao calor da tarde e aos lábios famintos dele.

Ele desceu a boca pelo meu pescoço, pressionando os lábios contra a pele da minha clavícula com uma intensidade que me fez arranhar as suas costas nuas, deixando marcas vermelhas na sua pele dourada. O cheiro de sabonete limpo, o calor do verão do Texas e o frescor da água criaram uma atmosfera inebriante. Não havia mais espaço para o orgulho ou para as palavras que tinham nos machucado; o desejo acumulado durante semanas de separação agia como uma força da natureza, exigindo uma entrega total e imediata ali mesmo, na margem úmida do riacho.

Nós éramos os primeiros e únicos um do outro, e aquela exclusividade explodiu em uma necessidade crua sob a sombra das árvores. Aidam me suspendeu, firmando o meu corpo contra o tronco robusto do carvalho, e, em um único movimento forte e profundo, eliminou qualquer distância que restava entre nós.

Soltei um arquejo agudo que foi imediatamente abafado pela boca dele, que voltou a esmagar a minha. O impacto daquele contato foi uma descarga elétrica que percorreu cada terminação nervosa da minha espinha, apagando o resto do mundo ao redor. Fazer amor com ele ali, com aquela mistura de fúria e adoração romântica digna de uma tempestade, foi a experiência mais avassaladora da minha juventude. Ele se movia com uma urgência contida, um ritmo intenso e arrebatador que fazia a madeira do carvalho vibrar contra as minhas costas. Meus dedos apertavam os músculos dos seus braços largos, me segurando contra o seu peito enquanto o calor daquela conexão nos consumia por inteiro.

Os olhos dele permaneceram trancados nos meus azuis durante todo o tempo, duas poças de puro fogo esverdeado focadas nas minhas reações, decifrando cada respiração ofegante e cada som que eu soltava no meio do bosque deserto. Naquele instante, não existia Stanford, não existiam veteranos e nenhuma líder de torcida na face da Terra. Havia apenas a entrega de dois jovens de vinte anos que sabiam, na pele, que pertenciam àquela mesma coordenada geográfica.

O ritmo tornou-se frenético, os nossos corpos colados pelo calor do verão e pela água do riacho, até que a intensidade máxima nos atingiu juntos, feito um raio que corta o céu do Texas. Envolvi o seu quadril com força, cravando as unhas nos seus ombros enquanto Aidam soltava um suspiro rouco contra o meu pescoço, entregando-se por inteiro a mim em um movimento final que fez o meu mundo girar e encontrar, finalmente, o seu eixo correto de volta para casa.

Na segunda-feira seguinte, mantive a minha decisão inquebrável de retornar para Stanford antes do cronograma previsto. Nada havia mudado em relação às minhas ambições profissionais; a Califórnia continuava me esperando com os seus laboratórios vazios de verão e as horas intermináveis de estudo. Mas uma coisa essencial tinha sido alterada no meu DNA: antes da partida oficial, ainda restavam duas semanas de férias. E, pela primeira vez na vida, eu decidi vivê-las de verdade, deixando que o desejo guiasse os meus passos.

Aidam pensava de forma milimetricamente idêntica. E a nossa forma de encontrar espaço na vida um do outro passou a ser puramente física, uma necessidade quase desesperada de recuperar o tempo perdido na base do toque, do suor e do hálito compartilhado.

Nós éramos os primeiros um do outro. Cada centímetro de pele revelado, cada reação do corpo, cada som que escapava das nossas gargantas no escuro era uma descoberta mútua, uma escrita que estávamos desenvolvendo juntos. E aquela exclusividade tornava o nosso desejo algo magnético, quase selvagem. Nós não sabíamos como nos tocar sem incendiar o perímetro.

Nas tardes em que cavalgávamos sem rumo pelas divisas das terras, o calor do sol do Texas parecia se transferir diretamente para o nosso sangue. Bastava um olhar de lado de Aidam, os olhos cor de mel escuros de excitação, para que o rumo dos cavalos mudasse na direção do riacho.

Ali, sob a copa fechada dos carvalhos, a água fria que batia no nosso peito era o único contraste contra o calor febril dos nossos corpos colados. O riacho, que tinha sido o cenário das nossas brincadeiras de criança, agora guardava o eco dos nossos gemidos abafados. Aidam me suspendia contra o tronco molhado de um dos carvalhos, as mãos grandes e calejadas segurando as minhas coxas com uma firmeza possessiva que me fazia arfar. O toque da pele dele contra a minha era puro atrito, um encaixe perfeito e urgente que nos fazia esquecer de qualquer limite. Nós nos amávamos na água com a entrega de quem pertencia ao mesmo solo, sentindo a correnteza bater contra os nossos quadris enquanto o ápice nos alcançava no meio do mormaço.

Até o celeiro, que antes era o lugar do trabalho duro com os arreios de couro, virou um território de pura provocação e entrega. Houve uma tarde em que eu o ajudava a organizar as sacas de ração e, num segundo de distração, ele me prensou contra a parede de madeira rústica, as mãos subindo pela barra do meu shorts com uma pressa que fez a minha espinha vibrar. O cheiro de feno seco e couro misturava-se ao cheiro da nossa própria excitação.

— Aidam... — eu sussurrava contra a boca dele, sentindo o volume rígido dele pressionar contra a minha intimidade.

— Eu não consigo parar, Cami. Não com você aqui — ele respondia com a voz completamente rouca, os lábios colando no meu pescoço, deixando marcas que eu precisaria esconder do meu pai mais tarde.

Nós fazíamos amor ali mesmo, sobre a palha limpa e as mantas de montaria, de forma rústica, intensa e de tirar o fôlego. O peso do corpo de Aidam sobre o meu era a minha maior segurança; a forma como ele me conduzia, com aquela mistura de adoração romântica e urgência masculina, me fazia perder a noção de espaço e tempo.

E, claro, nas noites abafadas do Texas, a caçamba da velha caminhonete de Aidam voltava a ser o nosso santuário particular sob o céu estrelado. Nós estacionávamos no ponto mais alto da colina, longe das luzes da fazenda. Estendíamos a manta xadrez e, antes mesmo de começarmos a conversar sobre as metas da faculdade, as roupas já estavam espalhadas pela lataria.

O desejo entre nós não tinha a calmaria dos casais de longa data; tinha a voltagem alta de dois jovens de vinte anos que sabiam exatamente o gosto da falta do outro. Fazer amor sob o vento fresco da noite texana, com o suor colando os nossos peitos e os dedos de Aidam entrelaçados nos meus cabelos castanhos, era uma experiência quase mística. Nós nos movíamos no ritmo lento e profundo da confiança, cada estocada dele arrancando de mim uma confissão silenciosa de amor que eu não precisava colocar em palavras.

Ainda existia o plano acadêmico, as provas e as ambições de Stanford. Mas nas duas últimas semanas do verão, a nossa maior e mais complexa especialidade médica foi aprender a dominar e saciar o corpo um do outro.

No último fim de semana antes do embarque definitivo para a Costa Oeste, John Wright conseguiu ingressos vips para um jogo decisivo dos Dallas Cowboys no AT&T Stadium. Fomos todos juntos, mas a verdade é que o barulho da torcida e os holofotes do campo pareciam apenas um pano de fundo borrado. O verdadeiro espetáculo, para mim, era a forma como os olhos cor de mel de Aidam me procuravam a cada jogada, a forma como a mão dele encontrava a minha na arquibancada, como se precisasse daquele toque para se manter no eixo.

Após a vitória barulhenta do time, quando a noite já caía alta, nós nos distanciamos do grupo. Caminhamos sem pressa pelas ruas iluminadas e pulsar de energia do centro de Dallas. O vento fresco da noite urbana batia no meu rosto, mas eu só conseguia sentir o calor que emanava do corpo dele ao meu lado.

Acabamos entrando em um beco estreito e charmoso, decorado com luzes suspensas de gambiarra, perfeitamente escondido do movimento caótico das avenidas principais. Aidam parou os passos de repente. Ele me puxou pela cintura com uma urgência suave, colando o meu corpo ao seu. Ele sorriu com aquele seu jeito torto e marcante, mas havia uma gravidade nova no fundo do seu olhar. Uma promessa silenciosa.

— O que foi, Wright? — perguntei em um sussurro, rindo da intensidade dele, apoiando as minhas mãos nos ombros da sua jaqueta escura. — Por que está me olhando como se eu fosse desaparecer?

Ele aproximou o rosto lentamente, roçando o nariz no meu, os olhos brilhando com uma devoção que me arrepiou inteira.

— Porque eu passei os últimos anos da minha vida sonhando secretamente com o segundo exato em que eu não precisaria esconder o que sinto, Camille. Que eu poderia segurar a sua mão em público, te beijar no meio da cidade e gritar para quem quiser ouvir que você é a minha mulher. Eu te amo tanto que às vezes acho que meu peito não vai aguentar.

Meu coração deu um solavanco de pura emoção. Olhar para Aidam era olhar para o meu passado, meu presente e meu único futuro possível.

— Eu também te amo, Aidam. Mais do que a própria vida — respondi, encurtando a distância que restava entre as nossas bocas e o beijando antes que ele pudesse formular qualquer argumento de defesa.

O desejo que havia sido provocado no beco iluminado explodiu no segundo em que a porta da cobertura da família Wright, em Dallas, se fechou atrás de nós. Não houve espaço para conversas ou hesitações. As roupas foram deixadas em um rastro caótico pelo tapete do corredor enquanto as mãos de Aidam mapeavam o meu corpo com uma fome que eu conhecia bem, mas que sempre parecia inédita.

Ele me carregou para o quarto principal, onde as paredes de vidro revelavam a imensidão das luzes de Dallas lá fora. Mas o nosso mundo estava restrito àqueles lençóis. Ali, deitados sob a claridade difusa da cidade, nós nos entregamos um ao outro. Sendo os primeiros e únicos um da vida do outro, cada toque carregava o peso de anos de convivência e a eletricidade da paixão madura. O ritmo dele era firme, possessivo, mas cheio de uma adoração quase sagrada. Cada vez que ele me puxava para mais perto, cada vez que o meu corpo se arqueava sob o dele buscando aquele encaixe perfeito, eu sentia que estávamos selando um pacto que Stanford nenhuma seria capaz de quebrar. Nós fizemos amor com a alma exposta, até que o cansaço feliz nos vencesse e as nossas respirações voltassem a se acalmar.

Horas mais tarde, a madrugada nos encontrou exatamente assim: espalhados pelo colchão largo, com as pernas entrelaçadas sob o lençol fino e a pele ainda quente pelo suor recente. O braço pesado de Aidam servia de travesseiro para a minha cabeça, e os dedos dele faziam carinhos lentos no meu ombro nu.

Ficamos observando o brilho dos arranha-céus, e foi ali, no silêncio seguro do pós-sexo, que começamos a projetar o futuro.

— No próximo semestre, no apartamento da Califórnia, as coisas vão ser diferentes, Cami — ele sussurrou, a voz barítona ainda mais rouca pelo sono, colando os lábios no topo da minha cabeça. — Eu vou organizar meus horários de treino. Não importa o quão puxado seja o campeonato, eu vou estar em casa para jantar com você. Sem paranoias. Sem espaço para mal-entendidos.

Sorri de canto, subindo a mão pelo peito trincado dele, sentindo o bater constante do seu coração.

— E eu prometo não me trancar no laboratório até a meia-noite sem te avisar. Vamos fazer aquela grade funcionar, Wright. Juntos.

— Vamos — ele concordou, apertando-me um pouco mais contra si. — E depois que a faculdade acabar... depois que você for a neurologista mais brilhante daquele país e eu estiver na liga profissional... nós vamos comprar uma casa nossa. Com um quintal grande. Quem sabe um carvalho parecido com o da fazenda para os nossos filhos subirem.

O calor subiu pelo meu estômago com aquela imagem. Ouvir Aidam falar do nosso futuro com tanta certeza era a minha maior âncora. Percebi que a verdadeira intimidade não consistia apenas na entrega arrebatadora dos nossos corpos na cama. Consistia na coragem mútua de deitar no escuro, desarmar os medos mais profundos e desenhar uma vida inteira a dois sem vacilar. Era conhecer cada versão da pessoa que você amava e, ainda assim, escolher permanecer ali para sempre.

Quando o dia oficial da minha partida para a Califórnia finalmente chegou, já não existia nenhuma poeira de dúvida dentro de mim. Eu voltaria mais cedo para Stanford. Continuaria estudando com o mesmo foco inabalável que havia prometido ao meu pai e consumiria cada oportunidade acadêmica. Mas uma coisa essencial havia mudado: eu não tinha mais medo do futuro.

Porque, independentemente da distância dos blocos cirúrgicos, dos desafios de Stanford ou dos anos que ainda nos separavam dos nossos planos na madrugada, eu finalmente compreendia que Aidam Wright nunca foi apenas o garoto que cresceu dividindo a terra da fazenda comigo.

Ele era a minha casa. E eu tinha a sorte monumental de ter encontrado o meu lugar no mundo nos braços dele.