Com Todo Amor - O começo
19 Fissuras Do Futuro
O tempo tem um jeito terrivelmente curioso e silencioso de passar. Enquanto estamos afogados no epicentro da rotina, esmagados pelas demandas do presente, cada minuto parece se arrastar numa lentidão torturante. Mas basta um segundo de trégua para olharmos para trás... e percebermos, com um sobressalto no peito, que quatro anos inteiros simplesmente desapareceram em um piscar de olhos.
Aquele primeiro apartamento funcional e apertado em Palo Alto. As noites intermináveis sem pregar o olho, sustentadas à base de cafeína e desespero. As provas diagnósticas que pareciam verdadeiros muros instransponíveis. Os copos de café esquecidos que invariavelmente ficavam frios sobre as apostilas. Os plantões voluntários nas madrugadas geladas da Califórnia. As festas de fraternidade às quais nós nunca fomos. Os aniversários importantes que comemoramos sentados no chão da biblioteca central de Stanford, dividindo um sanduíche de máquina. As ligações telefônicas nostálgicas para o Texas que terminavam em lágrimas mudas. Os Natais rápidos em casa, com o cheiro de feno nos resgatando da loucura. As despedidas dolorosas na esteira do aeroporto. Os reencontros urgentes na caçamba da caminhonete.
Quando finalmente paramos para respirar e avaliar o reflexo no espelho, já não éramos mais os dois adolescentes assustados e turrões que haviam cruzado a fronteira do estado com os olhos cheios de idealismo.
Éramos, oficialmente, internos de Medicina do último ano. Estávamos mais próximos do peso e da responsabilidade do jaleco branco definitivo do que jamais havíamos imaginado nos nossos planos mais audaciosos sob o velho carvalho. Mas antes que as portas da residência dos nossos sonhos em Neurologia ou Cardiologia se abrissem, ainda teríamos que enfrentar o purgatório da Clínica Médica Geral. Era exatamente ali, no asfalto bruto do hospital universitário, que tudo começava. E foi ali que o nosso mundo começou a dar os primeiros sinais de fissura.
Na terceira semana do internato geral, o destino resolveu mover mais uma peça no tabuleiro. Nathan Brooks reapareceu na minha órbita, agora ostentando o distintivo de residente do segundo ano do departamento de emergência. Ele abriu um sorriso genuíno ao cruzar o meu caminho no corredor da ala de trauma.
— Então as lendas eram verdadeiras... finalmente sobrevivemos ao ciclo básico do inferno, Davis — ele brincou, escorando-se na mureta.
Deixei uma risada cansada, quase sem forças, escapar pelos lábios.
— Por muito pouco, Nathan. Acho que a minha sanidade ficou em algum lugar da interestadual.
Ele tencionou as sobrancelhas na mesma hora, o olhar de monitor captando o abatimento crônico no meu rosto.
— O que foi, Camille? O que aconteceu?
Dei de ombros de forma displicente, fixando os olhos nas minhas próprias unhas cortadas rente.
— Nada demais. Acho que apenas cheguei à conclusão médica de que não nasci para aguentar o tranco disso aqui.
Nathan franziu a testa, dando um passo à frente, o tom de voz mudando para algo firme.
— Você? Logo você está me dizendo uma bobagem desse tamanho? A garota que virou madrugadas inteiras dissecando o Netter e estudando neuroanatomia na fazenda? A interna que eu nunca vi recuar diante de um caso clínico complexo? Para de palhaçada, Camille.
Balancei a cabeça negativamente, o desânimo pesando nos meus ombros.
— Acho que você está depositando as suas expectativas na pessoa errada, Brooks.
Antes que ele pudesse bolar uma tréplica, o Dr. Coleman cruzou o corredor com passos firmes. O supervisor reduziu a velocidade, lançando um olhar rápido, clínico e analítico para a proximidade de Nathan, antes de fixar os olhos em mim com aquela sua costumeira rigidez. Nathan, adotando a postura polida de residente sênior, abriu um sorriso perfeitamente educado para o chefe.
— Dr. Coleman. Estávamos apenas alinhando os prontuários da enfermaria. A interna Davis é, de longe, uma das mentes mais brilhantes e focadas da turma de anatomia clínica deste ano — Nathan elogiou com naturalidade, tentando aliviar o meu terreno.
O supervisor ergueu uma das sobrancelhas grisalhas, um vinco cínico desenhando-se no canto da sua boca.
Percebendo a linha perigosa que o silêncio do chefe tomava, Nathan completou com uma casualidade cirúrgica que fez o meu coração errar a batida: — E, antes que o senhor ou qualquer outra pessoa do conselho interprete a nossa proximidade de forma errada... a Camille é estritamente mulher de um homem só, doutor. O hospital inteiro conhece o quarterback do time e sabe que o perímetro dela é impenetrável.
Coleman manteve os olhos fixos em mim por mais dois segundos, soltando um sorriso estranho, contido e ligeiramente pretensioso que me causou um calafrio na espinha. Naquele exato momento, sob a luz branca do corredor, a minha mente ingênua não conseguiu decifrar o porquê daquela expressão.
Comecei a compreender a assinatura daquele sorriso estranho poucos dias depois. O relógio da parede do posto de enfermagem já marcava mais de onze horas de uma noite de quinta-feira caótica. Quase todos os residentes do bloco haviam descido em bando para tentar conseguir algo para comer no refeitório do subsolo. Eu continuava deitada sobre a mesa técnica, finalizando a digitação de alguns prontuários atrasados, quando ouvi o som familiar da voz do supervisor soar às minhas costas:
— Davis.
Girei a cadeira de rodinhas imediatamente, ajeitando a gola do jaleco. — Sim, Dr. Coleman? Precisa de alguma evolução de emergência?
— Venha comigo até a sala de prescrição do bloco B. Precisamos alinhar os parâmetros do paciente do leito quatro — ele comandou, girando nos calcanhares.
Segui os passos dele até a referida sala, um ambiente isolado, frio e que se encontrava completamente vazio àquela hora da madrugada. Assim que passei pelo portal, ele esticou o braço e fechou parcialmente a porta de madeira, reduzindo o barulho do corredor a um sussurro. O meu estômago afundou instantaneamente num nó de pura premonição ruim.
— Você precisa aprender a confiar mais no meu direcionamento clínico, Camille — ele começou, adotando um tom de voz arrastado, desprovido daquela rispidez habitual das rodadas de leito.
Forcei um sorriso puramente educado e protocolar, mantendo a prancheta como um escudo entre nós. — Eu estou dando o meu melhor para absorver as suas críticas e melhorar o meu desempenho, doutor.
Ele deu dois passos à frente, quebrando a distância de segurança e se posicionando perto demais do meu corpo. Perto o suficiente para que eu pudesse sentir o cheiro do café dele.
— Eu tenho plena consciência de que você possui um potencial brilhante para a neurologia, Davis. Mas eu também acho, avaliando o seu comportamento... que você se beneficiaria muito se aprendesse a ser um pouco mais... simpática e receptiva com quem detém o poder da sua nota de recomendação — ele sussurrou, os olhos dele descendo para os meus lábios de um jeito que me fez congelar.
O meu corpo inteiro entrou em um estado de rigidez absoluta, o sangue congelando nas minhas veias. Eu não consegui articular uma única resposta.
— Internos promissores e inteligentes costumam construir excelentes relações de proximidade com os seus supervisores de bloco. Facilita muito o caminho para a residência de elite em Stanford — ele continuou, e a forma pausada e possessiva como ele pronunciou aquela última frase fez o meu coração disparar numa batida desordenada de puro pânico e nojo.
Foi exatamente nesse milésimo de segundo de desespero que a porta da sala foi empurrada com força, batendo contra o batente.
Nathan.
— Ah, ótimo! Você está aqui! — ele disparou, entrando no recinto com os olhos colados em mim, ignorando solenemente a carranca imediata que se formou no rosto do Dr. Coleman. — Estava te caçando pelo bloco inteiro, Davis. A paciente idosa da enfermaria cinco teve um rebaixamento súbito de nível de consciência e o quadro piorou drasticamente. O plantão precisa da sua evolução neurológica agora mesmo. Vem.
Olhei para Nathan na mesma hora, os meus olhos azuis gritando por socorro. Ele sustentou o meu olhar com uma firmeza absoluta, um comando silencioso impresso nas pupilas que dizia apenas: "Larga tudo e sai desse perímetro".
— Com licença, doutor — soltei num fio de voz, recolhendo os meus papéis e saindo da sala de prescrição em passos rápidos, sem olhar para trás nem por um milésimo de segundo.
Só consegui arrancar o ar de volta para os meus pulmões quando as portas duplas do corredor principal se fecharam atrás de nós, nos isolando na ala de trauma. Nathan parou os passos na minha frente, cruzando os braços, a mandíbula travada de indignação.
— Aquele filho da puta está fazendo esse tipo de investida há quanto tempo, Camille? Fala a verdade.
Baixei os meus olhos, sentindo uma vergonha absurda e injusta queimar o meu peito. — Algumas semanas. Começou com as críticas nas rodadas de leito e depois evoluiu para esses comentários de canto.
— Camille... pelo amor de Deus, você é interna de Stanford, você estuda o cérebro! Você precisa formalizar uma denúncia na ouvidoria e na Reitoria agora mesmo — ele pressionou, o tom de voz urgente.
Balancei a cabeça negativamente de forma frenética, o pânico de ver o meu futuro desabar falando mais alto. — Não, Nathan. Você não entende como o tabuleiro de xadrez desses chefes funciona.
— Ele vai tentar de novo, Davis. Homens como o Coleman não recuam até conseguirem o que querem ou serem parados à força.
— Nathan... por favor — a minha voz falhou por completo, o choro embargando a minha garganta enquanto eu segurava a alça da mochila. — Eu passei a minha adolescência inteira comendo poeira na fazenda, estudando até as duas da manhã sob a luz de um abajur e abrindo mão de tudo para conseguir chegar até a porra dessa faculdade de Medicina. Eu não posso e não vou colocar o meu futuro em risco por causa de um escândalo de assédio com o chefe do departamento.
Ele soltou um suspiro pesado, passando a mão pelo rosto, mas percebendo que a minha estrutura emocional estava fragilizada demais para conseguir absorver aquela verdade naquele momento. Ele deu dois tapinhas no meu ombro.
— Você não está colocando nada em risco, Camille. Quem colocou a carreira na guilhotina foi ele. Mas tudo bem... vamos focar no paciente do leito cinco agora.
Quando abri a porta do nosso apartamento naquela manhã seguinte, o sol da Califórnia começava a rasgar as cortinas da sala. Aidam já estava de pé, vestindo apenas uma calça de moletom cinza, tomando café na bancada da cozinha. No milésimo de segundo em que ele levantou os olhos cor de mel e escaneou a minha expressão destruída e o meu andar arrastado, o semblante dele mudou por completo, a rigidez de jogador voltando à sua postura.
— O que aconteceu naquele plantão da noite, Camille? — ele perguntou, largando a caneca com um estalo na bancada e cruzando o espaço até mim.
Respirei fundo o ar limpo da nossa casa, desfazendo-me do jaleco com as mãos trêmulas.
— Antes que eu te conte qualquer detalhe do que aconteceu... eu preciso ressaltar que o Nathan Brooks me deu um suporte crucial hoje no hospital. Ele salvou a minha pele.
Aidam franziu as sobrancelhas, os olhos adotando aquele tom esverdeado de alerta, mas ele manteve o silêncio, permitindo que eu falasse.
Sentei-me no sofá e contei absolutamente tudo. Sem mascarar termos, sem omitir olhares e sem esconder nenhuma linha de diálogo ou o tamanho do asco e do medo que tinham paralisado as minhas pernas naquela sala de prescrição escura. No final da narrativa, o apartamento estava imerso em um silêncio assustador. Aidam permaneceu completamente imóvel na minha frente, com os punhos cerrados ao lado do corpo e o maxilar tão rígido que uma veia saltava na lateral do seu pescoço robusto.
Ele puxou o ar lentamente, os olhos focando o meu rosto com uma ternura dolorida.
— Você está bem, tampinha? Fisicamente bem?
As lágrimas que eu vinha reprimindo desde a madrugada finalmente venceram a barreira dos meus cílios, escorrendo livres pelo meu rosto.
— Agora que eu estou aqui com você... agora eu estou bem, Aidam. Estou segura.
Ele se ajoelhou no tapete da sala e me puxou para o centro do seu peito largo, me envolvendo em um daqueles seus abraços fortes e esmagadores do Texas, enterrando o rosto no meu pescoço enquanto me acunhava contra o seu corpo.
— Obrigado, Camille — ele sussurrou contra a minha pele, a voz saindo num tom arrastado e denso.
Afastei o rosto de leve, fitando as feições dele com uma legítima surpresa.
— Obrigado por quê, Aidam?
— Por ter confiado em mim o suficiente para me contar a verdade sem medo da minha reação — ele respondeu, os olhos dele brilhando com uma intensidade crua. — E... de verdade... obrigado ao Brooks. Aquele veterano fez exatamente o que eu gostaria de ter feito se estivesse naquele bloco cirúrgico. Ele protegeu o que é meu.
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