Com Todo Amor - O começo

3 O lugar onde pertencíamos


Os anos seguintes foram uma verdadeira sucessão de cenas caóticas. Mas era um caos barulhento, vibrante e profundamente feliz.

Florence cresceu cercada por três adultos que pareciam competir silenciosamente em um campeonato invisível para descobrir quem arrancaria dela o primeiro sorriso da manhã. Meu pai continuava sendo o homem mais trabalhador daquela região do Texas, saindo antes do sol e voltando com a pele marcada pelo clima, o que fazia John Wright bufar e repetir, quase diariamente, que ele precisava aprender a descansar mais. Amalia, por sua vez, fingia uma indignação terrivelmente falsa sempre que meu pai cruzava a porta da mansão para jantar sem avisar. No fundo, ela sabia perfeitamente o ritmo dos nossos passos e preparava comida suficiente justamente esperando por aquela batida na porta da cozinha.

A verdade era que a nossa casinha de madeira e o castelo de pedra dos Wright nunca tiveram uma linha divisória real. As cercas da propriedade serviam apenas para os animais, não para nós. Havia dias em que o nosso almoço era servido na mesa de mogno polido da mansão, com talheres pesados que eu mal sabia segurar; em outros, a família inteira se espremia na nossa cozinha simples, dividindo o ensopado de carne que meu pai passara horas preparando. Às vezes, eu pegava no sono assistindo a um filme com Aidam no tapete da sala deles e acordava no dia seguinte na cama de hóspedes da mansão, com Amália beijando minha testa. Em outras manhãs, era a silhueta de Aidam que aparecia, descalça e com o cabelo totalmente bagunçado, empurrando a porta da nossa cozinha e pedindo um copo de leite morno antes mesmo que meu pai terminasse de passar o café.

Ninguém achava estranho. Ninguém questionava. Era simplesmente a nossa vida acontecendo no ritmo da terra.

Aidam e eu crescemos como duas metades da mesma bagunça. Se o Texas era um cenário vasto e intimidador para os outros, para nós era um tabuleiro de jogos particular. Subíamos nas árvores mais altas até arranhar os braços, apostávamos corridas alucinantes até a margem do lago e disputávamos quem conseguia encilhar e montar nos cavalos mais rápido. Eu perdia quase sempre — uma realidade que eu odiava engolir —, o que invariavelmente terminava comigo de braços cruzados, bochechas vermelhas e uma acusação infundada na ponta da língua.

— Você trapaceou. Eu vi você soltando a corda antes! — eu reclamava, bufando enquanto tentava recuperar o fôlego.

Aidam descia do cavalo com aquela arrogância natural que parecia nascer com os garotos do Texas, exibindo um sorriso de canto que me dava vontade de arremessar um punhado de terra na cara dele. — Você é uma péssima perdedora, Camille. Aceita que eu sou mais rápido.

— Você é um convencido.

— E você é o quê?

— Chato.

— Mandona.

A gente se encarava como se estivesse prestes a travar uma guerra histórica. Mas o corte de cena era sempre o mesmo: cinco minutos depois, estávamos sentados debaixo da mesma sombra, dividindo uma garrafa de suco e planejando a próxima travessura.

Quando Florence começou a dar os primeiros passos firmes, ela se transformou oficialmente na nossa sombra. A garotinha de cachos loiros queria desesperadamente fazer tudo o que a gente fazia. Se nós corríamos em direção ao celeiro, as perninhas curtas dela se moviam o mais rápido que podiam logo atrás. Se caíamos na lama depois de um tombo feio, ela se jogava no chão e ria, achando que a queda fazia parte da brincadeira.

— Um dia eu ainda vou ter um infarto por causa de vocês três — meu pai dizia ao entardecer, massageando as têmporas enquanto nos via chegar cobertos de poeira e arranhões.

— Deixe de bobagem, Otto — John respondia de sua poltrona, ajustando o chapéu e soltando uma daquelas gargalhadas que ecoavam pelo pátio. — Isso é o preço que se paga por criar crianças genuinamente felizes. Deixe que gastem a energia na terra.

Hoje, revendo esses momentos como quem assiste aos episódios mais bonitos de uma série de nostalgia, percebo que não foram os grandes acontecimentos ou as datas comerciais que construíram os alicerces de quem eu me tornei. Foram os detalhes pequenos, quase invisíveis. As refeições barulhentas compartilhadas, as broncas coletivas que levávamos de Amália, as risadas que faziam nossa barriga doer, as tardes que pareciam durar uma eternidade sob o céu azul do verão e o cheiro inconfundível da terra molhada do Texas logo após uma tempestade passageira.

E, acima de tudo, a presença dele. A mão de Aidam, que começava a ficar maior e mais calejada que a minha, segurando os meus dedos com uma firmeza protetora sempre que o terreno ficava íngreme demais ou quando precisávamos atravessar o riacho cheio.

Naquela época, na pureza dos meus dez ou onze anos, eu acreditava piamente que ele fazia aquilo porque éramos melhores amigos. Porque era o papel dele cuidar de mim, assim como o meu era irritá-lo. E talvez, naquele momento, fosse apenas isso mesmo.

Nós ainda éramos jovens demais para entender de biologia, de química ou das peças que o destino costuma pregar. Não sabíamos que alguns amores intensos e devastadores começam a ser escritos muito antes de ganharem um nome definitivo. Nem tínhamos a menor dimensão de que bastariam apenas mais alguns anos, e a chegada da adolescência, para que aquela linha invisível entre nós fosse puxada com tanta força que tudo mudaria para sempre.


O verão que marcou a nossa despedida do ensino fundamental foi uma espécie de divisor de águas invisível. Foi o período em que a infância finalmente arrumou as malas e nos deixou para trás, sem pedir licença.

Até ali, nossos corpos eram apenas ferramentas para correr pelo pasto, subir em árvores e acumular cicatrizes nos joelhos. Mas, de repente, a natureza resolveu acelerar o passo. Durante as férias que antecediam o início do ensino médio, a nossa rotina impecável de estarmos juntos vinte e quatro horas por dia sofreu a sua primeira grande fratura: John e Amalia decidiram levar Aidam para passar dois meses inteiros na Europa, visitando investidores e conhecendo os negócios da família além-mar.

Pela primeira vez na vida, passei um verão inteiro sem a minha sombra. E o Texas pareceu grande demais, vazio demais e silencioso demais.

Mas o verdadeiro choque aconteceu no dia em que eles voltaram.

Eu estava na varanda da nossa casa, ajudando Florence a amarrar os sapatos, quando o carro preto dos Wright estacionou na mansão. Quando a porta traseira se abriu, o menino de pernas finas e cabelos bagunçados que eu conhecia simplesmente não desceu dali.

No lugar dele, surgiu um garoto que parecia ter sido esticado à força. Aidam tinha ganhado quase dez centímetros de altura em sessenta dias. Seus ombros estavam mais largos dentro da camiseta, o maxilar parecia ter ganhado linhas retas e duras que antes não existiam, e a voz dele... quando ele me viu de longe e gritou o meu nome, o som não era mais o tom agudo de uma criança. Era um barítono ressonante, meio rouco, que fez os pelos dos meus braços se arrepiarem por um motivo que eu não soube explicar.

Ele correu na minha direção, cruzando a distância entre as nossas casas com passos longos. Parei no topo dos degraus da varanda, sentindo uma pontada repentina de timidez que nunca, em toda a minha vida, tinha sentido perto dele.

— Camille! — ele parou na base da escada, precisando inclinar a cabeça para trás para me encarar. Ele sorriu, o mesmo sorriso de canto de sempre, mas tudo parecia diferente. — Cara, que saudade desse lugar.

Eu engoli em seco, cruzando os braços de um jeito defensivo. A verdade era que eu também não era mais a mesma. Minhas roupas de ficar em casa estavam ligeiramente apertadas nos quadris, minhas curvas começavam a desenhar uma silhueta nova que me deixava terrivelmente desconfortável, e minha pele insistia em brigar com os hormônios da puberdade. Eu me sentia desengonçada, desajeitada. Uma criatura estranha no meio do próprio processo de metamorfose.

Aidam me analisou de cima a baixo com o cenho franzido, os olhos curiosos varrendo o meu rosto e descendo pelos meus ombros antes de voltarem para os meus olhos.

— Você tá estranha — ele disparou, com a mesma honestidade brutal de quando tínhamos seis anos.

— Eu não tô estranha! — rebati na mesma hora, sentindo minhas bochechas queimarem de vergonha. — Você que viajou, virou um poste europeu e tá achando que pode chegar aqui me insultando.

— Não é um insulto, Camille. É que... sei lá. Você mudou. Tá com cara de... sei lá, esquisita — ele implicou, coçando a nuca, claramente tão confuso quanto eu com as novas formas do meu corpo e com o fato de que ele já não conseguia me decifrar com tanta facilidade.

— Esquisito é o seu cabelo, Aidam Wright. Parece que não vê um pente desde que saiu de Dallas — blefei, dando um passo à frente e tentando manter a pose de mandona, embora meu coração estivesse batendo um pouco mais rápido do que o normal.

Ele soltou uma risada ruidosa, dando dois passos rápidos para cima e invadindo o meu degrau. Mesmo de salto ou na ponta dos pés, eu agora mal chegava ao queixo dele.

— Pode tentar gritar o quanto quiser, tampinha. Você continua sendo péssima perdedora — ele provocou, esticando a mão calejada e bagunçando os meus cabelos com força, quebrando o gelo que ameaçava nos afastar.

— Me solta, seu brutamontes! — dei um tapa na mão dele, rindo contra a minha vontade enquanto tentava arrumar os fios.

A gente se encarou por um segundo longo demais. Havia algo novo ali, flutuando no ar abafado do Texas, uma eletricidade esquisita e desconhecida que nenhum de nós dois estava pronto para admitir ou nomear. O ensino médio estava batendo à porta, trazendo consigo um mundo de corredores cheios, festas, hormônios à flor da pele e descobertas. Mas ali, na segurança daquela varanda de madeira, nós nos agarramos à única certeza que tínhamos: a nossa capacidade de nos irritar mutuamente.