Capítulo 4 — O começo de tudo

Existe um momento exato na vida em que a infância termina sem pedir licença. Ela não vai embora de um dia para o outro; prefere se retirar devagar, camuflada entre aniversários, roupas que deixam de servir de uma estação para a outra e brincadeiras que, de repente, já não parecem tão divertidas.

Quando me dei conta, eu tinha quinze anos. Florence já não era mais o bebê que carregávamos no colo para cima e para baixo. Meu pai continuava dizendo que ela ainda era sua menininha, enquanto ela fazia questão de provar o contrário escalando as cercas de madeira mais altas, perseguindo as galinhas pelo pátio e transformando qualquer tarde de domingo em uma aventura barulhenta.

Algumas coisas, no entanto, pareciam imunes ao tempo. Otto ainda saía de casa antes do primeiro raio de sol rasgar o céu do Texas para trabalhar. Depois de tantos anos como capataz, ele conhecia cada hectare daquela terra melhor do que as linhas da palma de suas próprias mãos. John Wright vivia repetindo que o império não funcionaria sem ele, e meu pai sempre rebatia dizendo que o exagero era um defeito genético da família Wright. Então, os dois riam alto, trocando tapas nas costas como velhos amigos que a vida tinha nivelado.

Amalia continuava aparecendo na nossa cozinha sem a menor cerimônia de bater à porta. Às vezes, trazia uma torta de maçã ainda quente; outras, surgia apenas para roubar um abraço e perguntar se precisávamos de algo. No fundo, ela nunca precisou de uma desculpa para cuidar de nós.

E Aidam... bem, Aidam continuava sendo o meu tormento particular. Ele ainda encontrava uma satisfação quase infantil em implicar comigo, ainda escondia o meu chapéu de caubói predileto só para me ver bufar e andava pela fazenda com aquele sorriso de canto absurdamente irritante sempre que eu perdia a paciência. Mas, por mais que eu tentasse manter a pose de garota durona, ele continuava sendo o centro da minha gravidade. Meu melhor amigo.

Naquele agosto abafado, começamos o ensino médio na Trinity Christian Academy. Era uma escola de elite, tradicional e frequentada pelas famílias mais ricas e influentes do condado. Filhos de grandes produtores de soja, magnatas do petróleo, advogados de Dallas e políticos que carregavam sobrenomes conhecidos muito antes de aprenderem a assinar o próprio nome.

Lembro-me da nossa primeira manhã ali como se as imagens estivessem passando agora na tela da minha mente. O estacionamento da escola parecia um salão de automóveis, tomado por caminhonetes novas e brilhantes. As garotas caminhavam em pequenos bandos pelos corredores de armários, rindo alto com seus cabelos perfeitamente escovados e uma confiança magnética que parecia vir de berço. Nos dias em que o uniforme não era obrigatório, elas desfilavam com botas de couro exótico que custavam mais do que todo o guarda-roupa da minha casa.

Eu observava aquele desfile em silêncio. Não porque me sentisse inferior — meu pai jamais teria permitido que eu abaixasse a cabeça para qualquer um deles. Desde que eu me entendia por gente, ele repetia que o caráter de uma pessoa valia infinitamente mais do que o saldo bancário estampado no sobrenome. Eu acreditava nele. Mas também já tinha idade suficiente para saber que o mundo real raramente jogava seguindo essas regras.

Enquanto a maioria daquelas meninas passava as férias de inverno esquiando em Aspen ou os verões na Europa, minhas melhores lembranças eram galopar ao amanhecer, nadar nas águas rasas do riacho, deixando meus longos cabelos castanhos secarem ao vento, e terminar o dia com a pele coberta de poeira vermelha depois de apostar corrida com Aidam. Sinceramente? Eu não trocaria a minha infância pela de nenhuma delas.

Mesmo assim, quando os portões da Trinity se fecharam atrás de nós, foi impossível não engolir em seco diante do contraste.

— Você está pensando demais. A engrenagem da sua cabeça está fazendo barulho daqui.

A voz de Aidam cortou o cordão dos meus pensamentos. Olhei para o lado. Ele caminhava com uma tranquilidade irritante, uma das mãos enfiada no bolso do jeans e a mochila pesada pendurada displicentemente em apenas um ombro. Ele já era mais alto que a maioria dos garotos dali; os fios do seu cabelo loiro escuro estavam ligeiramente queimados do sol do verão e a camisa da escola parecia justa demais nos seus ombros que insistiam em alargar.

— Como você sabe o que eu estou pensando? — perguntei, ajeitando a alça da minha própria bolsa.

O canto dos lábios dele subiu naquele sorriso torto que eu conhecia de cor. — Porque você faz essa ruguinha bem aqui quando está tentando decifrar o universo. — Ele esticou o indicador calejado, tocando de leve o espaço exato entre as minhas sobrancelhas.

O toque foi rápido, mas o calor do dedo dele fez minha pele formigar. Instintivamente, relaxei os músculos do rosto, fixando meus olhos azuis nos dele. Aqueles olhos cor de mel esverdeados, que dependendo da luz do sol do Texas mudavam de tom, estavam me encarando com uma intensidade que me deixou momentaneamente sem ar. Dei um passo para o lado. — Eu não faço ruguinha nenhuma, Wright.

— Faz, sim. Toda vez que está assustada.

Cruzei os braços, tentando recuperar a minha pose. — Você inventa coisas para se sentir inteligente.

He deu uma risada baixa, um som que vibrou no peito dele e que agora era decididamente masculino.

— Admite, Camille. Você está nervosa.

Suspirei, derrotada pelo cansaço da pose.

— Talvez um pouco. É tudo muito... grande aqui. E diferente da fazenda.

Aidam parou o passo por um instante, varrendo o pátio lotado antes de focar toda a atenção em mim.

— Está vendo todo esse pessoal fingindo que manda no lugar? — Assenti. — Daqui a um mês, você nem vai lembrar o nome da metade deles.

Um sorriso brotou nos meus lábios.

— E da outra metade?

Ele deu de ombros, voltando a caminhar.

— Também não. Nenhum deles importa.

Deixei uma risada escapar. Era o efeito Aidam: ele tinha esse dom absurdo e puramente arrogante de reduzir qualquer monstro a um inseto insignificante.

As semanas seguintes passaram em um piscar de olhos. Contra todas as minhas expectativas de isolamento, acabei fazendo amizade com três garotas da minha turma. Claire era a doçura em pessoa; Abigail falava em uma velocidade que desafiava a física; e Emma parecia uma agente secreta disfarçada, sabendo exatamente quem estava namorando quem antes mesmo que os próprios envolvidos descobrissem.

Foi justamente Emma quem puxou o gatilho durante um intervalo de quarta-feira. Estávamos sentadas sob a sombra da grande carvalheira do pátio quando ela apoiou os cotovelos na mesa de piquenique, inclinou o corpo na minha direção e disparou um sorriso cúmplice.

— Posso te fazer uma pergunta de utilidade pública, Cami? — Claro — respondi, abrindo meu sanduíche. — Você está interessada em alguém da escola? Ou, sei lá... tem algum namorado secreto na fazenda?

Quase engasguei com o gole de limonada, tossindo enquanto tentava recuperar o fôlego.

— O quê? Ficou louca?

Claire caiu na risada, enquanto Abigail balançava a cabeça com um olhar de "eu te avisei". — Certo, então você realmente vive em uma bolha na ponta daquela fazenda — Emma comentou, aproximando a cadeira ainda mais, os olhos brilhando com fofoca fresca.

Franzi a testa, limpando os lábios com um guardanapo.

— Dá para me explicar o que eu perdi?

— Luke Carter — Emma pronunciou o nome como se estivesse anunciando uma divindade.

Continuei olhando para ela com uma tela em branco na mente.

— Quem é Luke Carter?

As três soltaram um suspiro coletivo de pura frustração dramática. — O quarterback do time júnior, Camille! O garoto que metade das líderes de torcida tenta dar oi no corredor — Abigail explicou, gesticulando com as mãos.

— Ele passou a aula inteira de História olhando para você — Emma continuou, baixando o tom de voz para dar mais impacto. — E o Cole me contou que ele foi perguntar no vestiário quem era a garota de olhos azuis hipnotizantes que sempre ia embora no carro do Aidam Wright.

Meu coração deu um solavanco estranho contra as minhas costelas. Senti minhas bochechas esquentarem instantaneamente. — Vocês estão brincando comigo. Isso é algum tipo de trote com a caloura?

— Não estamos brincando! — Ele está caidinho, Cami.

Antes que eu pudesse formular qualquer frase coerente ou tentar diminuir o tamanho do meu próprio espanto, o som de passos firmes ecoou no cascalho atrás de nós. O cheiro familiar de sabonete limpo e sol me atingiu antes mesmo da voz dele.

— Pronta para ir, Camille?

Levantei os olhos no mesmo segundo. Aidam estava parado a menos de um metro da mesa, com as mãos enterradas nos bolsos da calça jeans escura. A expressão dele era a personificação da tranquilidade texana, mas os seus olhos cor de mel pareciam mais escuros, quase completamente verdes enquanto faziam um rastreamento rápido, quase cirúrgico, pelo rosto de cada uma das minhas amigas antes de pousarem fixamente nos meus.

— Atrapalhei alguma coisa? — ele perguntou, a voz saindo um tom mais baixa que o normal.

Claire desviou o olhar com um sorrisinho discreto, e Emma, sem perder um único segundo de audácia, respondeu antes que eu conseguisse articular uma vogal.

— Na verdade, sim. Estávamos falando sobre um garoto bem interessante.

Por uma fração de segundo — um milésimo de segundo quase imperceptível —, o maxilar de Aidam travou. O vislumbre daquele sorriso tranquilo sumiu do rosto dele, sendo substituído por uma rigidez fria que tencionou seus ombros. Foi um flash. Tão rápido que Emma e Abigail nem piscaram.

Ninguém notou. Ninguém... exceto eu, que passara os últimos nove anos decifrando cada milímetro daquela linguagem corporal.

Naquele instante, sob o sol de agosto, minha mente de quinze anos achou que ele só estivesse impaciente para pegar a estrada e voltar para os cavalos. Hoje, revisitando aquela cena com a maturidade de quem sabe o peso de cada olhar, percebo a verdade. Aquele foi o primeiro compasso da nossa mudança. O exato momento em que a nossa infância foi enterrada sob o cascalho daquela escola e a nossa amizade começou, silenciosamente, a queimar.

Nas semanas seguintes, o outono texano tingiu as folhas da Trinity Christian Academy de tons dourados e avermelhados, mas a verdadeira transformação estava acontecendo dentro da minha rotina. Eu, que até então era apenas "a garota da fazenda que andava com Aidam Wright", passei a ocupar um espaço perigosamente visível nos corredores da escola.

Tudo por causa de Luke Carter.

Luke não era do tipo sutil. Ele usava a jaqueta do time de futebol americano com o orgulho de um rei usando sua coroa, tinha dentes perfeitamente alinhados e um charme fácil que parecia funcionar com qualquer ser vivo. O problema — ou a grande questão — era que, de todas as garotas que suspiravam quando ele passava, os olhos dele decidiram focar nos meus.

Começou com pequenos esbarrões "acidentais" perto do meu armário. Depois, evoluiu para bilhetes despretensiosos deixados na minha mesa durante a aula de Biologia, e, quando dei por mim, Luke estava sentando-se à mesa com o meu grupo durante o almoço, deixando os garotos do time de lado apenas para puxar assunto comigo.

— Ele está completamente na sua, Cami — Emma sussurrou em uma tarde de sexta-feira, trancando a porta do banheiro feminino do segundo andar para garantir que teríamos total privacidade. Estávamos nós quatro espremidas ali: Claire retocando o brilho labial, Abigail sentada no balcão da pia e eu encarando o espelho, tentando entender o que Luke via de tão especial na garota de cabelos castanhos e jeans desgastados.

— Ele me chamou para ir ao cinema em Dallas no próximo final de semana — confessei, a voz saindo quase em um fio.

Abigail deu um gritinho agudo, quase caindo da pia, enquanto Claire parou o batom no ar, de olhos arregalados. — E o que você respondeu?! — as três perguntaram em um coro perfeitamente ensaiado.

— Eu disse que precisava ver com o meu pai... o que é verdade, mas... — Suspirei, afundando o rosto nas mãos, sentindo a ansiedade adolescente queimar na minha garganta. — Meninas, eu estou em pânico. Um pânico genuíno e paralisante.

Emma franziu o cenho, aproximando-se e tocando o meu ombro. — Pânico por quê, Cami? O Luke é um gato, é gentil e está sendo super fofo com você. Qual é o problema?

Levantei os olhos, encarando minhas três amigas pelo reflexo do espelho. A vergonha fez minhas bochechas arderem mais do que o sol do meio-dia no campo de soja. — O problema é que... eu nunca pensei em namorados. Tipo, nunca mesmo. Minha vida inteira foi correr atrás de cavalo, limpar estábulo e xingar o Aidam quando ele roubava minhas coisas. Eu não sei como essas coisas funcionam.

— Como assim não sabe? É só ir, conversar, deixar ele pagar a pipoca... — Abigail começou, mas eu a interrompi.

— Não, Abigail. Vocês não estão entendendo — dei um passo para trás, baixando a voz até quase um sussurro confessional. — Eu nunca beijei ninguém. Nem um selinho. Nada. Eu tenho quinze anos e o meu histórico romântico é um zero absoluto.

O banheiro feminino ficou em um silêncio absoluto por três segundos, que pareceram durar três anos.

— Espera... nenhum beijo? — Emma perguntou, os olhos piscando rapidamente, tentando processar a informação que, para os padrões da Trinity, era quase um mito urbano.

— Nenhum — afirmei, cruzando os braços de forma defensiva, sentindo-me a criatura mais esquisita do Texas. — Eu sequer sei o que fazer! Como é que faz aquilo, afinal? Quero dizer... as pessoas batem os dentes? Para que lado a cabeça vira? E se eu esquecer como se respira e desmaiar no meio do cinema de Dallas? É sério, parece um troço anatomicamente impossível de dar certo na primeira vez!

Claire soltou uma risada doce, mas cheia de empatia, vindo me abraçar de lado. — Ah, Cami... você é uma fofa. Não tem segredo, juro. É só... instinto. Acontece natural.

— Instinto? — retruquei, desesperada. — Meu instinto serve para não levar um coice de um cavalo quarto de milha, Claire! Não para coordenar lábios com o quarterback da escola.

— Primeiro de tudo: você não vai desmaiar — Emma assumiu a liderança do comitê de crise, gesticulando com as mãos. — Segundo: Luke é experiente, ele vai ditar o ritmo. Você só precisa fechar os olhos, inclinar a cabeça um pouquinho para o lado oposto do dele e deixar rolar. E, por favor, não morda a língua do garoto.

— Morder a língua?! Meu Deus, isso pode acontecer? — arregalei os olhos azuis, meu estômago dando voltas completas.

Enquanto Abigail e Emma tentavam me acalmar criando um verdadeiro manual teórico do "primeiro beijo perfeito", meu cérebro sabotador deu um salto para fora daquele banheiro. Pensei em Luke, no seu sorriso perfeito e no convite. Mas, por um motivo que eu me recusei terminantemente a analisar naquele momento, a imagem que surgiu logo em seguida na minha mente foi a dos olhos cor de mel esverdeados de Aidam, e em como ele reagiria se soubesse que eu estava ali, trancada no banheiro, morrendo de medo de descobrir o mundo real com outro garoto.

Eu estava prestes a dar o passo mais importante da minha adolescência, mas o chão sob os meus pés nunca pareceu tão instável.