Com Todo Amor - O começo

2 A casa de portas abertas


Durante muito tempo, eu realmente achei que o silêncio fizesse barulho. Um ruído agudo, ensurdecedor, que ricocheteava nas paredes de madeira da nossa casa e fazia meus ouvidos doerem. Porque foi exatamente esse som que restou quando o carro que levou minha mãe para o hospital voltou trazendo apenas o meu pai. Ele desceu do veículo em câmera lenta, com os olhos vermelhos e o corpo curvado sob o peso de um mundo que havia desabado.

Nos dias seguintes, a fazenda mudou de cor. As pessoas andavam na ponta dos pés, como se o chão fosse feito de vidro pronto para quebrar. Os adultos falavam em sussurros urgentes sempre que eu entrava na cozinha, engolindo o choro e disfarçando as lágrimas com tosses forçadas. Meu pai, o homem mais forte e imbatível que eu conhecia, simplesmente não conseguia me encarar de frente. Sempre que olhava para mim, seus olhos desviavam para o chão, como se ver o meu rosto fosse um lembrete doloroso demais do que tínhamos perdido.

Eu tinha apenas seis anos. Não entendia o conceito de "nunca mais". Por isso, puxava a barra da camisa dele todas as manhãs, com a insistência típica de uma criança, e fazia a mesma pergunta: — Quando a mamãe vai voltar?

Ninguém respondia. Em vez disso, recebia abraços apertados demais, daqueles que parecem tentar colar os pedaços de quem está quebrado.

Então, Florence chegou. Mas ela veio sozinha.

Minha irmã era um pacotinho pequenino, com a pele enrugada e frágil, que parecia minúscula dentro do berço de vime. Dormia quase o tempo inteiro, exausta, e quando acordava, chorava com um som agudo, sôfrego, como se seu instinto também estivesse procurando por uma presença que não estava ali. Meu pai fazia o impossível. Ele tentava ser o homem que preparava o leite morno na madrugada, o homem que ninava o bebê com as mãos calejadas de trabalho pesado e, ao mesmo tempo, precisava continuar sendo o capataz da propriedade.

O Texas não parava porque o nosso mundo tinha acabado. O trabalho no campo começava antes do primeiro raio de sol tocar as plantações de soja e só terminava quando o céu de Dallas já estava completamente escuro, salpicado de estrelas. Meu pai precisava continuar. Nós também precisávamos.

E foi Amalia Wright quem abriu as portas da nossa casa antes que a escuridão nos engolisse por completo.

Ela passou a cruzar o caminho entre a mansão e a nossa casinha todas as manhãs, bem cedo, quando o orvalho ainda brilhava na grama alta. Não importava quão ocupada estivesse com os negócios da família ou quantas pessoas trabalhassem para ela naquele castelo de pedra; Amalia aparecia. Ela assumiu a nossa cozinha com uma autoridade doce e inquestionável. Preparava o meu café, desembaraçava os meus cabelos com uma paciência infinita enquanto eu reclamava dos nós, e organizava a casa sem que ninguém precisasse pedir um único favor. Não fazia aquilo por obrigação ou caridade. Fazia porque nos amava.

Ao mesmo tempo, John Wright montou uma barreira invisível de proteção ao redor do meu pai. Ele passou a assumir as funções burocráticas da fazenda, garantindo que Otto tivesse tempo para respirar, para ser pai, para desabar quando o peso ficasse excessivo. Enquanto um garantia que o império funcionasse lá fora, o outro se certificava de que nunca faltasse absolutamente nada dentro do nosso lar.

E Aidam... bem, Aidam simplesmente se recusou a sair do meu lado.

Como um bom garoto de seis anos, ele não tinha a menor ideia do que dizer. Mas ele sabia agir. Quando me via sentada nos degraus da varanda, com as lágrimas escorrendo silenciosas pelo rosto, ele surgia do nada, quebrando a cena dramática com sua presença inquieta. Às vezes, sentava-se ao meu lado e estendia um carrinho com a roda quebrada, ou um graveto perfeitamente moldado que ele jurava ser uma espada mágica.

Nos dias em que eu ficava calada demais, mergulhada naquele silêncio ensurdecedor, Aidam perdia a paciência com a minha melancolia. Ele se aproximava, segurava a minha mão com uma firmeza surpreendente e me puxava para cima. — Vamos, Camille — dizia, os olhos brilhando com uma urgência que eu não conseguia ignorar. — Para onde? — eu perguntava, sem energia. — Para qualquer lugar.

E "qualquer lugar", quando se tem o Texas inteiro como cenário, significava o riacho de águas rasas, a sombra fresca da velha mangueira ou o topo dos fardos de feno no celeiro. Às vezes, a gente nem brincava. Apenas sentávamos lado a lado na terra morna, observando o formato das nuvens se desfazendo no céu azul e infinito.

Aidam nunca pedia para eu parar de chorar, nem tentava explicar a minha tristeza. Ele simplesmente dividia o silêncio comigo, tornando o peso suportável. Só hoje, revendo essas memórias como se assistisse a um filme antigo, percebo o quanto aquilo era raro. Naquela época, eu só sabia que o mundo parecia um pouco menos assustador quando a silhueta de Aidam estava por perto.

Alguns meses depois, quando a poeira do luto começou a assentar, Amalia e John aceitaram ser os nossos padrinhos de batismo.

A cena parecia saída de um cartão-postal. O batizado aconteceu na igrejinha de pedra perto da fazenda, um lugar simples que cheirava a cera de vela e flores do campo. Meu pai segurava Florence nos braços, que vestia um mandrião branco impecável comprado por Amalia em uma de suas viagens. Eu, de pé ao lado deles com um vestido engomado, não soltei a mão de Aidam em nenhum momento.

Enquanto o padre derramava a água benta na nossa testa, uma certeza silenciosa se instalou ali. Sem que ninguém precisasse colocar em palavras, nossas famílias deixavam de ser apenas o patrão e o capataz. Estávamos sendo costurados pelo afeto, pela perda e por uma convivência que desafiava qualquer diferença de classe. Ali, sob o teto daquela igreja, nós nos tornávamos uma só carne. Uma só história.

E eu mal sabia que aquela mesma mão que eu segurava com tanta força para não cair no abismo seria a mesma que, anos mais tarde, teria o poder de me salvar ou de me destruir por completo.

Aquele pacto silencioso na igrejinha durou exatamente até o momento em que entramos no carro para voltar para casa. A solenidade do batizado, com toda aquela carga emocional de "estamos unidos para sempre", logo deu lugar à mais pura e autêntica confusão infantil.

No banco de trás do sedã luxuoso de John, espremida entre o bebê conforto de Florence e a figura inquieta de Aidam, eu olhava para as minhas próprias mãos engomadas e depois para ele. O peso daquelas palavras no altar ainda ecoava na minha cabeça de seis anos. Família. Unidos. Irmãos.

Eu franzi o cenho, cutucando o braço de Aidam com o cotovelo. — Ei.

Ele desviou os olhos da janela, onde observava a poeira levantar na estrada de terra, e me encarou com os olhos semicerrados. — O que foi, Camille?

— O que a gente é agora? — perguntei, direta, sem filtro nenhum. — O moço de saia preta falou que agora a gente é uma coisa só. Você vai ter que morar na minha casa ou eu vou ter que ir pro castelo? E minhas bonecas?

Aidam arregalou os olhos, genuinamente horrorizado com a perspectiva de ter bonecas invadindo o quarto dele. — Claro que não! Eu não quero bonecas no meu forte de feno. Pai! — ele chamou alto, inclinando-se para a frente e apoiando as mãos no banco do motorista. — A Camille tá dizendo que a gente é a mesma coisa agora. O que isso significa?

No banco da frente, Amalia soltou uma risada baixa, trocando um olhar cúmplice com John, que segurava o volante com uma expressão divertida. Meu pai, sentado no banco do passageiro com Florence aninhada nos braços, virou-se um pouco para trás, com um sorriso terno que há meses eu não via em seu rosto.

— Significa, meu filho — John começou, a voz grossa e calma ecoando pelo carro enquanto ele olhava pelo retrovisor —, que a partir de hoje, vocês dois são mais do que apenas vizinhos que correm pelo pasto. Vocês são melhores amigos. E, de um jeito muito especial, vocês vão se amar e cuidar um do outro como irmãos pelo resto da vida.

O silêncio que se instalou no banco de trás durou exatamente dois segundos.

Eu olhei para Aidam. Aidam olhou para mim.

Nossas expressões mudaram instantaneamente para uma mistura perfeita de choque e repulsa absoluta.

— Irmãos?! — Aidam exclamou, fazendo uma careta tão dramática que parecia que tinham lhe oferecido um prato de jiló cozido. — Eca! Mas ela chora por causa de lagartixa e não sabe nem segurar um graveto direito! Deus me livre ter uma irmã.

— Eca digo eu! — rebati na mesma hora, cruzando os braços com força e virando o rosto para o outro lado, bufando. — Eu jamais vou amar o Aidam como irmão. Ele é irritante, não toma banho direito depois de correr e vive me empurrando na lama! Prefiro a Florence.

— Eu tomo banho sim! E você que é chorona! — ele protestou, mostrando a língua.

— Chega, vocês dois — Amália interveio, embora sua voz estivesse embargada pelo riso. Ela se virou para trás, esticando a mão com unhas perfeitamente feitas para acariciar o topo da minha cabeça e depois a bochecha do filho. — Vocês não precisam morar no mesmo quarto e nem dividir os brinquedos se não quiserem. Mas o amor de vocês já existe, mesmo que agora pareça cheio de implicância. Um dia vocês vão entender o tamanho do nó que foi dado hoje.

Aidam e eu nos encaramos uma última vez, trocando um olhar de pura rivalidade infantil, antes de voltarmos a ignorar um ao outro até o carro estacionar. Naquela tarde de sol forte do Texas, "amor" e "irmandade" pareciam conceitos abstratos demais, quase ofensivos para duas crianças que só sabiam demonstrar afeto apostando corrida e dividindo o silêncio na terra batida.

Nós tínhamos certeza absoluta de que sabíamos de tudo. Tínhamos a convicção imbatível dos seis anos de que aquele "eca" seria eterno.

O destino, no entanto, devia estar assistindo àquela cena no banco de trás e rindo da nossa inocência. Porque a promessa que fizemos de jamais nos amarmos daquele jeito seria a primeira grande mentira das nossas vidas.