Com Todo Amor - O começo

15 O início do resto das nossas vidas


A cerimônia de formatura da Trinity Christian Academy passou diante dos meus olhos azuis como um borrão cinematográfico em alta velocidade. Se alguém, em sã consciência, me parasse no estacionamento e perguntasse qual tinha sido o tema do discurso final do diretor, eu jamais saberia responder. Minha memória simplesmente recusava-se a registrar os formalismos. Em vez disso, ela guardara os detalhes sensoriais: o som ensurdecedor dos aplausos ecoando pelo ginásio, o mormaço sufocante do sol texano batendo contra as vidraças, o peso incômodo da beca escura sobre o meu vestido e, acima de tudo, o calor reconfortante da mão de Aidam procurando a minha por baixo do tecido pesado toda vez que os adultos desviavam o olhar.

Nós finalmente estávamos juntos. Sem as amarras de um segredo, sem fachadas de colégio e sem a necessidade estúpida de inventar desculpas ou álibis para passarmos horas a fio dividindo o oxigênio e conversando debaixo das raízes do velho carvalho.

Quando o sistema de som da escola finalmente anunciou o meu nome completo na lista de formandos, uma voz aguda, estridente e absolutamente orgulhosa rasgou o protocolo do auditório antes de qualquer outra palma:

— ESSA AÍ É A MINHA IRMÃ, GALERA! COMPREENSÃO TOTAL!

Metade das famílias nas fileiras ao redor começou a rir alto, virando as cabeças na direção do escândalo. Senti minhas bochechas entrarem em combustão instantânea e escondi o rosto por trás do capelo por um segundo. Olhei de soslaio e vi o meu pai, Otto, balançar a cabeça devagar, embora houvesse um brilho marejado nos olhos dele.

— Um dia essa menina ainda me mata de vergonha no meio do condado — ele resmungou, fingindo uma severidade caubói.

Amália, impecável em um conjunto de alfaiataria, abriu um sorriso radiante ao lado dele.

— Não reclama, Otto. Ela é a cópia exata e cuspida da Camille quando tinha a idade dela.

— Ei! Eu era muito mais discreta! — protestei em um sussurro, segurando o riso.

John Wright soltou uma daquelas suas gargalhadas ruidosas que dominavam o perímetro.

— Ah, Davis... não dá nem para tentar negar o DNA. Aceita que dói menos.

Quando subi os degraus do palco para receber o meu canudo, meu olhar fez um rastreamento automático em direção à fileira central. Meu pai enxugava discretamente o canto dos olhos com um lenço amassado; Amália já chorava sem qualquer tentativa de manter a pose de investidora; John ostentava o sorriso de um homem que sabia que tinha vencido; e Florence acenava com os dois braços no ar como se eu estivesse desfilando no tapete vermelho do Oscar.

E Aidam... bem, Aidam apenas me olhava. Fixamente. Com aquele mesmo sorriso de canto torto, cúmplice e absurdamente íntimo que ele usava para me desarmar desde que éramos duas crianças cheias de lama no curral. Aquele olhar me deu a certeza de que o mundo real estava prestes a começar.

Após a enxurrada de fotos e capelos jogados para o alto, todos os Davis e os Wright migraram de volta para a fazenda. John fizera questão absoluta de transformar a varanda grande em um quartel-general de comemoração. O cenário era puro Texas: o cheiro defumado de churrasco na brasa dominava o ar, uma música country suave tocava ao fundo e os funcionários da lavoura misturavam-se à família em um burburinho feliz.

Eu estava encostada na mureta, rindo de alguma fofoca de vestiário com Emma e Abigail, quando o meu pai cruzou a porta da sala segurando um envelope branco, espesso e pesado. Meu estômago deu um solavanco violento e o riso morreu na minha boca no mesmo milésimo de segundo em que identifiquei o brasão vermelho prensado no papel.

Stanford. A universidade da Califórnia.

Olhei para o meu pai, o ar subitamente faltando nos meus pulmões.

— Pai... é o que eu acho que é?

Otto abriu aquele seu sorriso contido e terno, os olhos brilhando de um jeito que me fez engolir em seco.

— Acho que essa correspondência aqui tem o seu nome estampado na frente, Doutora Davis.

Minhas mãos tremiam tanto que precisei puxar o ar com força duas vezes antes de conseguir romper o lacre. O falatório na varanda simplesmente cessou, como se todos tivessem sintonizado na minha frequência de pânico. Desdobrei a folha de papel timbrado. Li a primeira linha de saudações formais. Depois a segunda. Na terceira linha, onde a palavra Admitted brilhava em letras firmes, a tinta começou a desaparecer atrás das lágrimas que inundaram a minha visão.

— Eu passei... — a minha voz falhou, virando um sopro estrangulado. Puxei o ar mais uma vez, gritando para o pátio: — Eu passei, pai! Eu fui aceita em Stanford!

Florence foi a primeira a soltar um grito histérico de comemoração, pulando no meu pescoço. Mas foi o abraço do meu pai que me tirou o chão. Otto me envolveu com tanta força e verdade contra o peito que jurei ouvir minhas costelas estralarem, o calor dos braços dele me dando a validação de anos de exaustão.

— Eu sabia, minha filha. No fundo da minha alma, eu sempre soube que nenhuma fronteira seria grande demais para você — ele sussurrou perto do meu ouvido, a voz embargada.

Limpei o rosto na camisa de brim dele, soltando o choro que guardara por meses.

— Obrigada por nunca ter me deixado largar os livros quando tudo parecia difícil demais, pai.

— Você fez cada milímetro desse milagre sozinha, Camille. O mérito é puramente seu — ele sorriu, limpando uma lágrima do meu rosto com o polegar áspero.

Aidam aproximou-se alguns minutos depois, cruzando o espaço com passos lentos, as mãos enfiadas nos bolsos do jeans. Ele me encarou com uma mistura de orgulho e uma intensidade que fez meu coração errar a batida.

— Boa tarde, Doutora Davis. Como vai a vida na elite da Costa Oeste?

Deixei uma risada escapar entre as lágrimas, limpando o rímel. — Para com isso, Wright. Ainda faltam anos de estudo e muita humilhação na residência.

— Não para mim — ele rebateu, o tom de voz descendo para aquela gravidade macia que ele só usava quando estávamos sozinhos. — Para mim você já venceu esse jogo há muito tempo.

Antes que eu pudesse formular uma resposta que fizesse jus ao flerte, John Wright bateu a colher de metal contra o vidro da sua caneca de cerveja, produzindo um estalo estridente que chamou a atenção de toda a varanda.

— Atenção, comitê da fazenda! Silêncio no recinto! — John comandou, passando o braço forte pelos ombros de Amália, que exibia uma expressão misteriosa e cúmplice. Olhei para Aidam, e ele parecia tão genuinamente perdido no roteiro quanto eu. John pigarreou, abrindo um sorriso largo.

— Nós sabemos perfeitamente que a Califórnia fica longe para cacete. É praticamente outro país se comparado ao nosso Texas. E nós também temos plena consciência de que a faculdade de Medicina de Stanford não cobra exatamente o preço de uma saca de grãos na mensalidade.

O meu coração acelerou o ritmo de forma desordenada. Amália deu um passo à frente, desfazendo-se do abraço do marido e segurando a minha mão direita com aquela doçura acolhedora que era a marca registrada dela.

— Camille... — a voz dela era pura seda. — Você é tão nossa filha, tão parte dessa engrenagem e desse sangue quanto o Aidam. O seu pai nos deu a honra imensa de acompanhar cada passo do seu crescimento de perto. E agora, nós fazemos questão absoluta de carimbar o passaporte dos seus próximos voos também.

Franzi a testa, sentindo os olhos arderem de novo, a confusão se instalando na minha mente.

— Como assim, madrinha?

John abriu o sorriso mais gigante e livre da tarde, apontando para mim com o copo.

— O veredito é o seguinte, Cami: a sua faculdade está integralmente paga por nós. Do início ao fim.

Pisquei as pálpebras três vezes seguidas, o cérebro recusando-se a processar a magnitude daquela informação financeira.

— O... o quê? Como assim paga?

— Moradia no campus, mensalidades brutas, livros acadêmicos, taxas de laboratório... tudo — Amália completou, apertando meus dedos com força. — Você não vai precisar assinar nenhum financiamento estudantil opressor ou se preocupar com as contas no fim do mês. A sua única e exclusiva obrigação na Califórnia é estudar e virar a melhor neurologista que esse país já viu.

Olhei imediatamente para o meu pai na ponta da varanda. Ele assentiu com a cabeça devagar, com uma serenidade no rosto que mostrava que o peso do mundo tinha sido retirado dos seus ombros.

— Nós conversamos sobre esse arranjo há meses, Camille. Está tudo certo. É o combinado entre nós.

Minha voz simplesmente evaporou. Sentia o peito subir e descer, a humildade e o orgulho lutando por espaço.

— Padrinho... Madrinha... eu não tenho como aceitar um presente desse tamanho. É dinheiro demais, eu não posso...

— Pode sim, e vai aceitar sem reclamar — Amália me interrompeu com aquela firmeza elegante de quem gerenciava os contratos da fazenda. — Porque isso aqui nunca foi, e nunca será, caridade, Camille Davis. Isso é família. E família cuida dos seus.

As lágrimas voltaram a rolar livres pelo meu rosto, arrancando um suspiro emocionado de Emma ao fundo. John, que odiava climas excessivamente dramáticos, soltou um pigarro divertido e apontou discretamente com o polegar na direção de Aidam, que assistia a tudo com os braços cruzados e um sorriso rendido.

— E além do mais... alguém com o juízo no lugar precisa ir para lá para vigiar aquele moleque na cidade grande — John brincou, fazendo a torcida rir.

Aidam soltou uma gargalhada ruidosa, balançando a cabeça.

— Ei! Olha o respeito com o herdeiro, pai.

— Você por acaso sabe fritar um ovo sem queimar a cozinha inteira, Aidam? — John desafiou, arqueando a sobrancelha.

— Não.

— Sabe como programar a máquina para lavar as suas próprias roupas de treino sem encolher o tecido?

— Também não — Aidam confessou, abrindo os braços em sinal de derrota.

— Então o veredito está mantido por unanimidade. A Camille vai junto para garantir a sua sobrevivência biológica na Costa Oeste — John concluiu, fazendo a varanda inteira explodir em uma gargalhada coletiva. Até eu acabei rindo alto da desgraça doméstica dele, sentindo o peso do futuro parecer infinitamente mais leve e divertido.

As semanas seguintes ao anúncio passaram voando em um ritmo alucinante de despedidas e preparativos, como se o tempo estivesse com pressa de nos expulsar da infância. Em menos de um mês, a nossa vida inteira parecia ter sido resumida de forma compacta dentro de caixas de papelão empilhadas: livros de Biologia, fotografias antigas desbotadas, casacos pesados de inverno, botas de montaria limpas e cadernos quadriculados cheios de anotações.

Eu estava no meu quarto, ajoelhada no chão de madeira enquanto dobrava as minhas últimas camisetas de algodão, quando ouvi uma batida suave e tímida na porta. Antes mesmo que eu pudesse ditar a permissão, a porta correu e Florence entrou carregando um urso de pelúcia surrado debaixo do braço. Ela já tinha doze anos e exibia o início daquela espichada típica da pré-adolescência, mas continuava invadindo o meu espaço sem pedir licença com a mesma audácia de sempre.

Ela se acomodou em cima de uma das caixas maiores de papelão, cruzando as pernas e ficando me observando dobrar o tecido em um silêncio pensativo.

— O que foi, Florence? — perguntei, sem levantar os olhos.

— Esqueceu de me pedir mais algum doce de Dallas?

Ela abriu um sorriso sapeca, daqueles que faziam o vinco surgir nas bochechas.

— Só estava pensando que você deu uma sorte monumental nessa vida, Cami. Uma sorte de loteria.

Deixei uma risada escapar, ajeitando a pilha.

— É? E posso saber em qual categoria eu fui premiada, segundo a sua vasta sabedoria de doze anos?

— Com o Aidam, óbvio — ela disparou, com aquela simplicidade cortante que só as crianças possuem.

Balancei a cabeça de leve, sentindo o rosto esquentar por puro reflexo.

— Não é bem assim que as engrenagens funcionam, Flo. Nós somos parceiros, nós crescemos...

— Ah, por favor, Camille, poupa os meus neurônios — ela me interrompeu, fazendo uma careta dramática idêntica à da Emma. — É exatamente assim sim.

Olhei para ela, largando a camiseta no colo, intrigada com o tom solene.

— Por que você tem tanta certeza disso, sabichona?

— Porque o Aidam é completamente alucinado e apaixonado por você desde a época em que a gente andava de pônei no pasto — Florence deu de ombros, displicente, como se estivesse comentando a previsão do tempo. — Todo mundo na fazenda sabia disso, Cami. O papai sabia, a tia Amália sabia, os funcionários sabiam... Só vocês dois que eram orgulhosos e lerdos demais e demoraram uma eternidade inteira de colégio para conseguir admitir o óbvio.

Acabei soltando uma gargalhada alta, jogando uma meia amassada na direção dela.

— Você tem apenas doze anos, Florence! De onde tira esse vocabulário de conselheira amorosa de revista?

— Eu presto atenção nos detalhes, ué. Tenho olhos funcionais — ela levantou-se da caixa com um salto ágil, caminhando até a beirada da minha cama. Um brilho sonhador e conspiratório dominou o olhar dela. — E além do mais... você vai ter aquela vida de princesa de livro que você sempre quis.

Arqueei uma das sobrancelhas, achando graça.

— Vida de princesa? Na exaustão do hospital de Stanford? Explica essa teoria.

— Pensa comigo, Cami: ele vai ser um cardiologista foda e rico. Você vai ser uma neurologista brilhante de Dallas. Vocês dois vão morar em uma daquelas casas coloniais gigantescas na Califórnia, vão ter três cachorros enormes correndo pelo gramado, talvez alguns cavalos de raça nos estábulos dos fundos... e eu vou ser a tia legal que vai visitar vocês em todas as férias de verão para gastar o dinheiro de vocês no shopping. É o plano perfeito.

Não consegui conter o sorriso gigante e emocionado que dominou o meu rosto diante daquela projeção pura e audaciosa da minha irmã caçula. Levantei-me do chão e a puxei para um abraço apertado, enterrando o rosto nos cabelos dela.

— Você sonha alto demais, Florence Davis. Impressionante.

Ela apoiou o queixo no meu ombro, apertando os meus braços com força.

— Aprendi com a melhor capitã de corrida do Texas. Você me ensinou o truque.

Na manhã oficial da viagem, o cenário no pátio era de pura partida. A caminhonete prata já estava com a caçamba completamente carregada, as caixas de papelão e as malas presas sob uma lona impermeável preta. Meu pai, Otto, verificava as amarras e os nós das cordas pela terceira vez consecutiva, garantindo que nada voaria na rodovia interestadual; John Wright organizava as pastas de documentos e os comprovantes de matrícula no banco da frente; e Amália distribuía potes térmicos de comida caseira congelada como se estivéssemos migrando para outro continente sem mantimentos.

Florence estava encostada na mureta da varanda, com os olhos vermelhos e as bochechas úmidas, lutando com todas as suas forças pré-adolescentes para fingir que o choro era apenas alergia à poeira da manhã.

Aproximei-me da lateral da caçamba e apoiei as mãos no metal frio, girando o corpo para lançar um último e demorado olhar em direção à Fazenda Wright. Encarei a estrutura imponente do celeiro velho onde tudo mudara, os estábulos onde passáramos tardes limpando as selas, a varanda de madeira onde as cúpulas de pais haviam decidido o nosso destino e, ao longe, a copa densa e majestosa do velho carvalho cortando o céu claro da manhã do Texas. Tantas histórias, tantas quedas e renascimentos estavam cravados naquela terra vermelha.

Senti um calor familiar envolver a minha mão esquerda. Os dedos longos e fortes de Aidam deslizaram entre os meus, entrelaçando as nossas palmas com uma firmeza possessiva que fez o meu chão se estabilizar no mesmo segundo. Olhei para o lado e encontrei o perfil dele, o queixo alinhado e o olhar fixo na nossa bagagem.

— Pronta para o início do resto das nossas vidas, tampinha? — ele sussurrou, a voz barítona vibrando perto do meu ouvido.

Respirei fundo o ar fresco com cheiro de mato e poeira, sentindo uma lágrima solitária e feliz embaçar a minha visão. Sorri de lado, apertando os dedos dele.

— Definitivamente não, Wright. Estou apavorada.

Ele soltou aquela sua risada curta de canto de lábio, os olhos mel faiscando com aquela cumplicidade antiga.

— Que bom. Eu também estou morrendo de medo. Estamos no mesmo barco.

Girei o corpo e olhei para a nossa família reunida na base da escada da varanda. Meu pai com os braços cruzados e o orgulho estampado no rosto; John com a mão no ombro dele; Amália mandando um beijo soprado no ar; e Florence finalmente desistindo da pose e acenando freneticamente com o urso de pelúcia no ar.

Abri a porta do passageiro da caminhonete e subi na cabine alta, sentindo o cheiro de estofamento novo me acolher. Enquanto Aidam dava a partida no motor potente e as rodas trituravam o cascalho do pátio, fazendo a nossa infância recuar na poeira da estrada de terra, compreendi com uma clareza avassaladora a maior lição que a fazenda me dera: partir e ganhar o mundo nunca significou, em nenhum segundo, deixar de pertencer ao seu ponto de origem. Alguns lugares e algumas pessoas possuem raízes tão profundas na nossa estrutura que viajam acoplados na nossa alma, não importa a distância geográfica da rota. E a Fazenda Wright, com toda a sua bagunça, seus silêncios grávidos e o calor daquele carvalho... sempre seria o porto seguro exato para onde o meu coração saberia, sem hesitações, exatamente como voltar.

A travessia do Texas até a Califórnia foi o nosso primeiro vislumbre de um mundo que não vinha com as rédeas da fazenda. A interestadual se estendia à nossa frente como uma fita cinzenta e interminável, cortando desertos de areia clara, formações rochosas que pareciam pintadas à mão e um horizonte que ia mudando de tom conforme o sol caía. Na cabine da caminhonete prata, o espaço parecia uma bolha isolada do resto do universo.

A dinâmica da estrada se estabeleceu sem que precisássemos discutir. Quando as pernas de Aidam começavam a travar após horas pisando no acelerador e os olhos cor de mel dele entregavam o cansaço, ele simplesmente encostava no acostamento de cascalho. Sem dizer uma palavra, trocávamos de lugar. Eu assumia o volante, ajeitando o banco mais para a frente, orgulhosa de guiar a nossa mudança pelas rodovias expressas enquanto ele desabava o corpo robusto no banco do passageiro, dormindo com o boné cobrindo o rosto.

Mas eram as nossas paradas planejadas no meio do nada que ditavam o ritmo da viagem.

No final da tarde do segundo dia, com o calor do Novo México começando a ceder para o vento fresco da noite, Aidam avistou uma clareira afastada da rodovia secundária. No centro do terreno de terra batida, uma árvore enorme e isolada, cujos galhos retorcidos lembravam de um jeito nostálgico o nosso velho carvalho, projetava uma sombra longa. Ele guiou a caminhonete até lá, desligando o motor sob a copa frondosa.

Não precisávamos de muito. Abrimos a tampa da caçamba, estendemos aquela mesma manta xadrez sobre o metal da lataria e deixamos que a adrenalina da fuga fizesse o resto.

Ali, protegidos pelo isolamento da estrada, nós nos amávamos com uma intensidade que misturava a urgência de quem estava conquistando a liberdade e o carinho maduro de quem se conhecia de dentro para fora. O sexo entre nós tinha ganhado uma frequência nova, livre das amarras e dos passos cuidadosos daquela primeira noite na cobertura. Era quente, rústico e urgente. A pele de Aidam, dourada pelo sol da viagem, colava na minha enquanto os seus braços fortes me suspendiam contra o metal da caçamba. Nossas respirações se fundiam com o som do vento batendo nas folhas acima de nós. Não havia pressa, mas havia uma fome jovem e bonita de descobrir cada linha, cada gemido e cada reação nova que o corpo do outro entregava na escuridão do acostamento.

Quando o turbilhão assentava e os nossos corpos finalmente relaxavam, cobertos pelo suor e pelo casaco de couro que usávamos para aplacar o início do frio da noite, a caçamba da caminhonete virava o nosso escritório de planejamento.

Ficávamos deitados de costas, encarando as estrelas do céu do deserto através dos galhos da árvore, com os dedos entrelaçados e a respiração voltando ao normal. Era exatamente ali, naquele pós-sexo preguiçoso e cheio de endorfina, que traçávamos os nossos planos e metas mais audaciosos para a Costa Oeste.

— O primeiro ano vai ser um inferno de disciplinas teóricas, Davis — Aidam quebrou o silêncio em um sussurro, a voz barítona vibrando perto do meu ouvido enquanto o polegar dele acariciava a minha costela. — Anatomia humana, bioquímica, patologia... Se a gente quiser manter as notas para garantir a permanência nos laboratórios avançados de Stanford, vamos ter que estabelecer uma rotina rígida. Nada de festas de fraternidade no meio da semana.

Sorri de lado, virando o rosto para apoiar o queixo no peito largo e nu dele.

— Eu já organizei um cronograma mental, Wright. Três horas de revisão na biblioteca central logo após as aulas de neurologia, e nas sextas à noite a gente faz o nosso próprio comitê de estudos no apartamento do campus. Mas você vai ter que cumprir a sua parte do trato doméstico.

Ele soltou uma risada rústica, o peito sacudindo sob a minha bochecha.

— E qual seria a minha cota na nossa sociedade médica, tampinha?

— Você limpa a cozinha e cuida da lavagem dos jalecos, já que confirmou para o seu pai que não sabe programar a máquina de lavar — provoquei, subindo a mão pelo abdômen marcado dele. — E em troca, eu garanto que a gente não morra de fome comendo comida congelada todas as noites. Eu sei fazer aquela torta de carne da Amália, lembra?

— Fechado — ele sorriu, virando o corpo de leve para colar os seus lábios na minha testa, o olhar mel esverdeado brilhando na penumbra. — Mas a minha meta principal não é só passar de ano, Camille. Eu quero aquela vaga de monitoria na ala de cirurgia cardíaca do hospital universitário antes do terceiro semestre. O diretor do departamento é um dos cirurgiões mais renomados do país. Se eu conseguir entrar na órbita dele, o caminho para a residência fica metade andado.

— E você vai conseguir — afirmei com uma convicção absoluta, sem um pingo de dúvida na voz. — Você tem a precisão e a teimosia dos Wright, Aidam. E eu vou estar bem do seu lado, dissecando cérebros enquanto você costura artérias. Vamos ser a dupla mais insuportável daquela faculdade.

— Com certeza vamos — ele concordou, os olhos dele descendo para a minha boca com aquela intensidade familiar que começava a acender o calor no meu estômago novamente.

Ficávamos ali por mais algum tempo, costurando o futuro com linhas douradas, dividindo o peso das ambições acadêmicas e a leveza de um amor que já tinha sobrevivido a todas as cercas do Texas. Quando o frio da madrugada finalmente nos obrigava a fechar a caçamba e voltar para a segurança da cabine, eu assumia o volante novamente, ligando os faróis altos na estrada deserta. Cruzar as fronteiras em direção à Califórnia já não parecia mais um salto no escuro de um abismo assustador; era apenas o início do roteiro que o velho carvalho tinha guardado para nós desde o primeiro dia.