Com Todo Amor - O começo
16 A vida depois dos sonhos
Stanford era exatamente tudo o que eu havia arquitetado na minha mente durante as noites em claro no Texas. E, ao mesmo tempo, absolutamente nada do que eu esperava.
Os prédios históricos de arenito e os arcos em estilo jesuíta pareciam ter sido sumariamente arrancados de um set de filmagem de Hollywood. Árvores centenárias e palmeiras majestosas cobriam boa parte do campus, deixando que o sol dourado da Califórnia atravessasse lentamente as folhas durante as tardes, pintando o chão de mosaicos de luz. Mas o que realmente ditava o ritmo ali era a velocidade humana. Os estudantes caminhavam num passo apressado, quase elétrico. Sempre havia alguém correndo com o jaleco na mão em direção a um laboratório avançado, outro sumindo pelas portas duplas de uma palestra de um prêmio Nobel, e um terceiro carregando cinco livros de capa dura debaixo do braço enquanto datilografava furiosamente uma resposta de e-mail no celular. Ninguém ali parecia ter tempo para nada. Nem para respirar.
No começo, com o meu sotaque arrastado do sul e minhas botas de couro, achei que a adaptação seria um muro intransponível. Depois, bastaram duas semanas para eu perceber que todos naquele complexo compartilhavam exatamente da mesma expressão facial: aquela mistura crônica de exaustão absoluta... e fascínio cego. Era o preço biológico de estar exatamente no lugar onde sempre sonhávamos habitar.
Os californianos operavam em uma rotação completamente diferente dos texanos. Muito diferente. No Texas, as pessoas exigiam saber quem era a sua família, o tamanho das suas terras e o seu sobrenome antes mesmo de perguntarem o seu primeiro nome. Na Califórnia... ninguém dava a mínima para o seu passado. Ali, você podia ser o herdeiro legítimo de um império de soja, a filha de um capataz de fazenda ou o herdeiro de um presidente; o que determinava o seu valor no refeitório era puramente quem você provaria ser dali para a frente. As pessoas sorriam mais para desconhecidos nas calçadas, tomavam café gelado enquanto andavam de bicicleta pelo campus, debatiam pesquisas de engenharia genética durante o almoço e pareciam acreditar, do fundo da alma, que mudar o mundo era apenas uma meta comum de uma terça-feira qualquer.
Demorei algumas semanas para digerir a informação de que eu finalmente pertencia àquele ecossistema. Aidam demorou bem menos. Ou aprendeu a encenar o papel com muito mais competência.
A faculdade de Medicina não era apenas um curso de graduação puxado; era um estilo de vida monástico, que exigia sacrifícios diários. A nossa grade de horários quase nunca coincidia, uma armadilha burocrática que testava a nossa sanidade. Quando eu finalmente saía da exaustão de uma aula de Neuroanatomia, ele estava cruzando o pátio para entrar no laboratório de Fisiologia. Quando ele finalmente encerrava os treinos pesados na equipe universitária, eu ainda estava com os olhos colados nas lâminas de microscópio. Às vezes, passávamos dois dias inteiros sem conseguir sincronizar o horário para almoçar juntos. Morávamos no mesmo apartamento funcional perto do campus e, mesmo dividindo o mesmo teto, a sensação de escassez parecia constante.
Havia noites em que eu abria a porta da frente depois da meia-noite, com os ombros caídos de cansaço, e encontrava apenas um bilhete adesivo amarelo colado na porta da geladeira, escrito com aquela caligrafia grossa e apressada:
"Esquente a lasanha que a minha mãe mandou. Boa prova de histologia amanhã, tampinha. Te amo. — A."
Outras vezes era eu quem deixava a cafeteira programada e o cheiro de café fresco inundando a cozinha antes de sair correndo, às seis da manhã, deixando um beijo rápido na testa dele enquanto ele ainda dormia pesado. Vivíamos nos desencontrando nas curvas dos blocos de pedra. E, estranhamente, Larissa... foi justamente no meio daqueles hiatos de horas que descobri a real dimensão e o peso da saudade.
O laboratório de Anatomia era, de longe, a minha disciplina favorita de todo o semestre. Também ostentava o título de ser a mais brutalmente difícil. Naquela tarde de quinta-feira, eu estava inclinada sobre uma bancada de inox, encarando uma estrutura nervosa complexa há quase quinze minutos, sentindo os meus olhos azuis arderem de frustração, quando uma voz masculina e descontraída soou logo atrás de mim:
— Você está procurando o nervo acessório no quadrante errado, Davis.
Girei o corpo imediatamente, ajeitando os óculos de proteção. O estudante parado ali usava o jaleco branco totalmente aberto por cima de uma camiseta de Stanford, carregando uma pilha de livros de patologia. O crachá de identificação preso ao peito dizia: Nathan Brooks, Segundo Ano.
— Acho que estou prestes a ter um colapso tentando achar essa ramificação — confessei, soltando o ar pelo nariz.
Ele soltou uma risada leve, aproximando-se da bancada com uma postura totalmente cortês, mantendo uma distância segura do meu corpo. Apontou com a ponta de uma pinça anatômica cuidadosamente para a estrutura correta no modelo. — Você estava olhando exatamente dois centímetros acima. Aqui, ó. Bem na transição.
Meus olhos se iluminaram na mesma hora, o nó no meu estômago desfazendo-se. — Nossa... era isso mesmo! Estava escondido atrás da fáscia. Obrigada, Nathan.
Ele abriu um sorriso charmoso, encostando-se na bancada vizinha. — Primeiro semestre de Medicina?
Assenti com a cabeça, ajeitando o cabelo. — Dá para notar o desespero na minha testa de longe?
— Não — ele riu, balançando a cabeça. — Eu só tenho a capacidade de reconhecer esse olhar de pânico absoluto de quem está prestes a reprovar no primeiro simulado. Eu tive exatamente a mesma expressão no ano passado. É um rito de passagem.
Acabamos rindo juntos, quebrando a rigidez do laboratório de formol. Nathan ficou mais alguns minutos ali, desinchando a matéria e explicando alguns detalhes de correlação clínica que eu ainda não tinha conseguido pescar nas aulas teóricas. Anotei cada palavra dele na margem do meu caderno com pressa.
— Sério, obrigada — falei, genuinamente grata. — Você acabou de salvar a minha nota de amanhã.
— Sempre que precisar de um monitor de emergência, é só...
— Camille? — a voz barítona, grossa e cortante de Aidam ecoou pelo recinto vazio, interrompendo a frase no meio.
Virei o rosto no mesmo centésimo de segundo. Aidam estava parado no vão da porta do laboratório. Ele ainda vestia o uniforme cinza de treino da equipe, os fios loiro escuros ligeiramente úmidos de suor grudados na testa e as mãos enfiadas nos bolsos do calção. Seus olhos cor de mel esverdeados estavam em um tom visivelmente escuro, travados na silhueta do veterano ao meu lado.
Nathan, percebendo a mudança drástica na temperatura do ambiente, estendeu a mão direita com uma polidez impecável de veterano. — Nathan Brooks. Segundo ano.
Aidam deu dois passos largos à frente, cruzando o espaço com aquela sua imponência física de atleta do Texas, e apertou a mão dele com uma firmeza que me fez prender o hálito. — Aidam Wright. Primeiro ano.
O sorriso de Aidam era perfeitamente cordial, o clássico protocolo bem-educado que John Wright ensinara, mas os olhos dele permaneciam atentos, escaneando cada milímetro da postura do cara.
— Obrigado por dar uma força para a minha namorada, Brooks. Anatomia no primeiro semestre é um soco no estômago — Aidam disparou, a voz saindo macia, mas com o peso de uma tonelada de feno.
Nathan olhou de relance para mim, captando a física da situação no mesmo segundo, e abriu um sorriso despretensioso. — Sem problemas, Wright. A Camille aprende rápido demais. Só precisava de um empurrãozinho na direção do quadrante certo.
— Disso eu nunca tive a menor dúvida — Aidam rebateu de pronto. A frase foi de uma gentileza cirúrgica, mas havia uma posse e uma firmeza silenciosa em cada sílaba que não deixava margem para segundas interpretações.
Nathan percebeu o recado implícito, despediu-se de nós com um aceno cortês e recolheu seus livros, sumindo pelo corredor segundos depois. Quando as portas duplas se fecharam e ficamos finalmente sozinhos no laboratório com cheiro de formol, não consegui me conter. Soltei uma gargalhada alta que ecoou pelas paredes de azulejo.
Aidam arqueou uma das sobrancelhas escuras, cruzando os braços musculosos sobre o peito. — O que foi? Qual é a graça, Davis?
— "Minha namorada", Wright? — repeti as palavras dele, limpando a mesa com um sorriso travesso. — Sério mesmo?
Ele fingiu uma indignação heróica, embora o canto da boca dele o denunciasse.
— Ué, e você por acaso não é?
— Eu sei que eu sou, poste. Mas foi incrivelmente engraçado ver a sua transição de jogador simpático para caubói ciumento em dois segundos de relógio.
He soltou o ar pelo nariz, caminhando até mim e segurando a minha cintura com aquela firmeza que me derretia por inteira. — Eu só achei de extrema relevância pedagógica deixar o perímetro devidamente demarcado para o segundo ano. Só isso.
Cruzei meus braços ao redor do pescoço dele, colando o meu corpo ao dele. — Marcação de território pura e descarada, então?
— Talvez um pouco — ele confessou no meu ouvido, exalando aquele cheiro de suor e perfume amadeirado. — Estou sendo honesto. Não gostei nem um pouco do jeito focado que ele estava usando para olhar para os seus olhos azuis enquanto explicava aquele maldito nervo.
Sorri de lado, sentindo meu coração acelerar com a possessividade dele. — Para o seu registro pessoal... eu achei a cena absolutamente fofa.
Aidam passou a mão direita pela nuca, as orelhas adotando aquele tom rosado clássico de quando ele perdia a pose de bad boy. — Não começa, Camille. Eu só sou um cara realista.
O carma, porém, é uma força eficiente em Stanford. Na semana seguinte, foi a minha vez exata de sentir o sangue ferver nas veias.
Eu estava esperando por ele perto do campo de treino quando uma garota da equipe universitária de atletismo — loira, de pernas intermináveis e usando o uniforme de corrida curto — praticamente ignorou a minha existência física no banco de reserva enquanto engatava uma conversa animada com Aidam. Ela ria de absolutamente cada palavra boba que saía da boca dele, tocava constantemente o braço musculoso dele para enfatizar as frases e, num cúmulo de audácia, perguntou se ele não queria que eles dividissem a mesma mesa na biblioteca para "estudarem juntos" a matéria de fisiologia. Ela esperou pacientemente até eu me levantar e dar três passos na direção deles.
— Oi — soltei, a voz saindo num tom de doçura perigosamente afiada.
Aidam, que parecia estar operando no modo automático de distração, mudou a postura no mesmo segundo em que ouviu a minha voz. Ele estendeu a mão grande e envolveu os meus dedos com uma firmeza possessiva, entrelaçando as nossas palmas bem diante dos olhos da velocista.
— Oi, Cami. Essa aqui é a Jordan, da equipe de corrida — ele nos apresentou, totalmente alheio à guerra fria no ar.
A garota olhou fixamente para as nossas mãos coladas, o sorriso perfeito dela murchando um centímetro no mesmo instante. — Ah... entendi. O par do Texas. Bom... eu preciso ir para o vestiário. A gente se fala por aí, Wright.
Ela se despediu com uma pressa cômica, sumindo pela pista. Assim que a silhueta dela ficou distante o suficiente, virei-me para Aidam, cruzando os braços e estreitando os olhos azuis.
— Você realmente não percebe, não é, Aidam? É fascinante.
Ele franziu as sobrancelhas, o cenho unido numa expressão de pura e legítima confusão masculina. — Percebo o quê, Camille? Do que você está falando?
— Que as mulheres flertam com você com a mesma frequência com que o sol nasce na Califórnia, seu tonto! Aquela menina estava praticamente se oferecendo para desenhar os seus mapas anatômicos.
Ele piscou os olhos duas vezes, totalmente desarmado. — Elas fazem isso? Juro por Deus que achei que ela só estava sendo educada sobre a matéria de monitoria.
Revirei meus olhos azuis com força, pegando a minha mochila no banco. — Você é inacreditável, Wright. O seu nível de lerdeza para o flerte alheio deveria ser estudado pela neurologia.
Ele começou a soltar aquela gargalhada ruidosa e gostosa, me puxando para perto do peito enquanto caminhávamos em direção ao estacionamento.
Naquela mesma noite, a realidade do cansaço nos cobrou o preço. Sentamos na varanda pequena do nosso apartamento funcional, dividindo uma caixa de pizza de calabresa que já estava completamente fria porque nenhum dos dois possuía um milímetro de energia restante para ligar o fogão ou cozinhar algo real. O vento da noite da Califórnia balançava as cortinas da sala.
Apoiei as costas na mureta, observando o perfil dele contra a luz da sala. — Posso te confessar uma verdade incômoda, Aidam?
Ele assentiu com a cabeça, mastigando um pedaço da massa. — Pode falar, tampinha. Sou todo ouvidos.
— Às vezes... eu sinto um ciúme absurdo de você aqui. Um ciúme que me aperta o peito.
Aidam permaneceu em silêncio absoluto, deixando o pedaço de pizza de lado, o olhar cor de mel focando inteiramente no meu rosto.
— E não é porque eu tenha a menor dúvida sobre a sua fidelidade ou ache, em algum segundo do dia, que você seria capaz de me trair com alguma daquelas meninas da Trinity ou de Stanford. Eu nunca, nem nos meus piores pesadelos, pensei isso de você — continuei, puxando o ar com força, deixando a vulnerabilidade adolescente que ainda restava em mim vir à tona. — É só que... eu tenho um pavor real de que a rotina desse hospital ou alguma dessas pessoas inteligentes acabe conseguindo passar mais tempo útil e de qualidade com você do que eu sou capaz de passar. Tenho medo do desencontro.
Ele demorou alguns segundos longos para formular a resposta, digerindo o peso daquela confissão. Então, estendeu o braço longo e cobriu a minha mão fria com a sua palma quente, apertando meus dedos com uma doçura imensa.
— Eu sinto exatamente o mesmo pânico todos os dias quando vejo você trancada naquele bloco cirúrgico, Camille. Exatamente o mesmo.
Olhei para ele, os olhos azuis surpresos. — Sério, Aidam? Você sente isso?
— Você é uma mulher absolutamente deslumbrante, Camille Davis. O pacote completo — ele soltou, a voz barítona saindo rústica e convicta no escuro da varanda.
Deixei uma risada curta escapar, balançando a cabeça. — Tá bom, Wright. Você definitivamente precisa agendar uma consulta urgente com o pessoal da oftalmologia do campus. Eu sou a garota de calça jeans gasta da fazenda.
Ele balançou a cabeça loira de forma firme, recusando-se a deixar eu diminuir o meu próprio valor. Ele se inclinou para a frente e espalmou a mão direita na minha bochecha, fazendo o carinho suave do polegar na minha pele.
— Estou falando com a maior seriedade do mundo, Cami. Você anda pelos corredores daquele laboratório concentrada, com os olhos brilhando por causa da ciência, e você não tem a menor dimensão do quanto as pessoas param para te assistir passar. Mas eu tenho. Eu percebo cada olhar dos veteranos.
Soltei um suspiro demorado, encostando a cabeça na palma da mão dele. — Acho que a minha mente de dezoito anos nunca foi a garota mais bonita do colégio, Aidam. É difícil mudar o registro.
— Talvez porque a sua cabeça teimosa ainda insista em tentar comparar a universitária brilhante de Stanford com a adolescente insegura que lidava com as fofocas da Ashley no Texas — ele sorriu com uma ternura gigante, aproximando o rosto do meu. — Mas deixa eu te lembrar de um detalhe estrutural da nossa história, Camille Davis: eu não me apaixonei por você porque você era esteticamente bonita ou porque usava o vestido certo no baile.
Meu coração deu aquele solavanco familiar contra as costelas, o calor subindo pelo estômago. — Então por qual motivo foi, Doutor Wright? Desembucha.
Ele pensou por alguns segundos, os olhos cor de mel esverdeados brilhando sob a luz difusa dos postes do campus. E então, ele abriu aquele sorriso de canto torto, o mesmo que ele usara no celeiro, no campo de futebol e na varanda de infância, desarmando cada barreira invisível que eu tentava construir.
— Porque, em meio a toda a imensidão desse país e de todas as metas malucas de colégio... você sempre foi, e sempre será, a única pessoa na face da Terra que tinha a capacidade exata de me fazer sentir em casa. Em qualquer coordenada geográfica.
Apoiei a minha cabeça no ombro largo e firme dele, fechando os olhos enquanto o cheiro amadeirado do seu casaco me envolvia por inteiro. A Califórnia ainda parecia um estado monumentalmente enorme e desconhecido do lado de fora daquela varanda. Stanford ainda exibia aquela faceta assustadora e competitiva de elite, e as cobranças da faculdade de Medicina continuavam consumindo quase noventa por cento de todo o nosso oxigênio e tempo útil diário.
Mas, naquele segundo exato sob as estrelas da Costa Oeste, uma certeza absoluta e pacífica se assentou no meu peito de forma definitiva: o amor verdadeiro e maduro que dividíamos não consistia na obrigação infantil de passar todas as vinte e quatro horas do dia colados no mesmo espaço físico. Consistia na segurança inabalável de saber que, mesmo quando as engrenagens brutas da vida nos puxavam para direções e laboratórios totalmente opostos, nós sempre, sem exceções, encontraríamos o mapa exato e o caminho de volta para os braços um do outro.
A sexta-feira à noite na Califórnia tinha um sabor totalmente diferente das noites texanas. O som do hip-hop alternativo batia contra as paredes de vidro da mansão alugada por uma das fraternidades de Medicina, misturando-se à luz neon roxa que transformava o ambiente em um cenário quase psicodélico. O ar carregava aquele cheiro de maresia e drinks cítricos, e o jardim dos fundos estava lotado de estudantes de todos os anos, todos tentando desesperadamente queimar o estresse de uma semana inteira de provas de anatomia.
Aidam estava a poucos metros de mim, encostado no balcão da cozinha americana. Ele vestia uma jaqueta bomber escura e exalava aquela pose de atleta que Stanford parecia inflamar. Estava completamente imerso em uma discussão tática e barulhenta com três veteranos da linha ofensiva sobre a equipe de basquete de Berkeley, o próximo adversário que eles iam enfrentar no torneio universitário. Os braços dele gesticulavam no ar, e os olhos cor de mel esverdeados brilhavam com aquela adrenalina competitiva que eu conhecia bem.
Eu, sentindo o cansaço das últimas quatro horas de laboratório pesar nas minhas costas, me afastei do tumulto. Peguei um copo de água com gelo e me encostei em uma das pilastras de concreto da varanda externa, observando o reflexo das luzes na piscina e deixando o vento fresco da noite limpar os meus pensamentos.
— Eu sabia que a monitoria de anatomia não ia conseguir apagar esse seu olhar focado, Davis.
Girei o rosto de leve, o copo parando no meio do caminho. Nathan Brooks estava parado a dois passos de mim, segurando uma garrafa de cerveja escura. Ele vestia uma camisa de linho claro com os primeiros botões abertos e exibia aquele sorriso descontraído e seguro de quem já dominava o campus há dois anos.
— Nathan — sorri de canto, ajeitando a postura. — Acho que os meus neurônios entraram em curto-circuito definitivo depois do simulado de hoje.
Ele soltou uma risada baixa, dando um passo a mais e se escorando na mureta bem ao meu lado, mantendo uma distância simpática. — A primeira prova com cadáveres tem esse efeito de ressaca mental. Mas se serve de consolo, o seu quadrante do nervo acessório estava impecável. Eu vi a sua lâmina na bancada do professor.
— Sério? — meus olhos azuis brilharam de legítimo alívio acadêmico. — Achei que tivesse confundido as ramificações vasculares no final.
— Não confundiu. Você tem uma precisão cirúrgica absurda para quem acabou de sair do Texas, Camille — ele elogiou, os olhos dele fixos nos meus com uma atenção concentrada, ignorando o movimento da festa ao redor. — Inclusive, se você quiser, na próxima quarta o meu grupo vai abrir um banco de cérebros no laboratório sul. É uma oportunidade foda para quem quer seguir neurologia. Você devia ir comigo.
— Um banco de cérebros? — inclinei a cabeça, genuinamente fascinada pela proposta. — Eu com certeza...
Eu não consegui terminar a frase.
Uma mão grande, canteira e pesada pousou com uma força desnecessária no centro da minha cintura, me puxando para trás com um solavanco que fez a água do meu copo transbordar de leve. Minhas costas bateram direto contra o peito rígido de Aidam. O cheiro de sabonete e do perfume amadeirado dele invadiu o meu oxigênio, mas o calor que emanava dele não era o de costume; era uma barreira de puro gelo e hostilidade.
Aidam eliminou qualquer milímetro de espaço entre nós. Ele colou o corpo dele ao meu por trás de um jeito agressivo, travando o braço esquerdo ao redor das minhas costelas em um abraço sufocante que parecia prender os meus movimentos, enquanto sustentava o copo na outra mão.
— Brooks — a voz barítona de Aidam saiu grossa, áspera e cortante, ecoando rente ao meu ouvido, mas mirando diretamente o veterano na nossa frente. Os olhos cor de mel dele estavam completamente escuros, duas pedras de fúria cega. — Achei que o pessoal do segundo ano estivesse ocupado demais organizando o simpósio para ficar zanzando na varanda dos calouros.
Nathan tencionou os ombros na mesma hora, os olhos dele descendo para o braço de Aidam travado ao redor do meu corpo como uma corda de fazenda, antes de subir para o rosto do quarterback. O sorriso descontraído do veterano desapareceu, substituído por uma linha dura de puro desagrado.
— A gente estava apenas debatendo sobre a monitoria de neurologia, Wright. Coisa acadêmica — Nathan respondeu, a voz saindo num tom frio e pausado, recusando-se a recuar diante da intimidação física.
— Ótimo. O debate acabou — Aidam disparou de pronto, o maxilar tão rígido que os músculos da bochecha tremeram. Ele apertou os dedos na minha cintura com ainda mais força, me colando ao seu peito de um jeito que beirava a posse bruta. — A minha namorada está exausta e nós estamos saindo da festa agora. Passar bem.
Nathan me encarou por um breve segundo, avaliando a minha expressão de puro choque e desconforto, antes de fazer um aceno de cabeça cortês apenas para mim. — Nos vemos na aula de quarta, Camille. Boa noite.
Ele girou nos calcanhares e sumiu em direção ao interior da casa, me deixando estática na varanda.
No segundo em que a silhueta de Nathan desapareceu na multidão, empurrei o braço de Aidam com toda a força que tinha no peito, me desencilhando do aperto dele com violência. Virei-me de frente para ele, os meus olhos azuis faiscando de uma indignação que subiu pela minha garganta como fogo.
— Você enlouqueceu de vez, Aidam?! — sibilei, a voz saindo num sussurro furioso para não chamar a atenção dos casais ao redor. — Que porra foi essa que você acabou de fazer?
Ele deu um passo na minha direção, o rosto ainda transformado pela carranca. — O que eu fiz? Eu tirei um cara que estava claramente dando em cima de você na minha cara enquanto eu estava distraído no balcão! Eu vi o jeito que ele estava te olhando, Camille!
— Ele não estava dando em cima de mim! Nós estávamos conversando sobre a droga de um banco de cérebros e sobre a minha nota de anatomia! — rebati, o peito subindo e descendo com força sob o casaco. — Mas mesmo se estivesse, isso não te dá o direito absoluto de chegar aqui por trás e me agarrar desse jeito na frente de todo mundo! Você parecia um bicho tentando marcar território no pasto! Foi invasivo, foi grosseiro e eu me senti extremamente desrespeitada por você!
O maxilar de Aidam travou com tanta força que uma linha branca desenhou-se ao redor dos lábios dele.
— Desrespeitada? Eu estava te protegendo, Camille! Aquele cara é um veterano babaca que está cercando o seu armário desde a semana passada!
— Eu não preciso que você me proteja de uma conversa civilizada, Wright! Eu tenho quase 20 anos e sei perfeitamente como dizer "não" se um cara passar do limite comigo! — dei um passo para trás, a mágoa e a raiva se misturando na minha voz. — No Texas você deu um soco no Luke e eu relevei porque era colégio, mas aqui é Stanford! Eu não vou ser a namorada troféu que o quarterback puxa pelo braço toda vez que sente uma pontada de insegurança! Eu odiei o que você fez. Odiei.
Aquela palavra pareceu atingir o peito de Aidam como um tiro físico. O brilho de fúria nos olhos dele vacilou por um milésimo de segundo, dando espaço para uma expressão de puro assombro e mágoa contida. Ele abriu a boca para rebater, os punhos cerrados ao lado do corpo, mas nenhuma palavra saiu.
— Eu vou para o apartamento — decretei, a minha voz saindo fria e linear, direto contra o peito dele. — E eu vou andando. Não ouse entrar naquela caminhonete atrás de mim.
Girei nos calcanhares antes que as lágrimas de frustração que começavam a queimar os meus olhos pudessem cair, cruzando o jardim em passos rápidos e duros. Cruzei o portão da fraternidade e ganhei a calçada escura do campus de Stanford, sendo atingida pelo vento gelado da noite da Califórnia.
Aquela foi oficialmente a nossa primeira briga séria de casal. Uma briga de verdade, com marcas de dentes e palavras que cortavam a pele. E enquanto eu caminhava sozinha sob a sombra das palmeiras, ouvindo apenas o eco das minhas próprias botas no asfalto, o peso da realidade me atingiu no estômago: o amor que nos fizera cruzar o país não era uma redoma de vidro imune ao orgulho. E as cercas que tínhamos deixado para trás no Texas pareciam estar tentando subir novamente, dessa vez, bem no meio do nosso apartamento.
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