Havia um lugar específico dentro das cercas imensas da Fazenda Wright que sempre, não importava quantos anos passassem, pertenceria a nós dois. Um velho e imponente carvalho, com raízes tão grossas e profundas que rasgavam a terra vermelha, e galhos que se estendiam como braços protetores contra o céu do Texas. Ninguém sabia ao certo quem o havia plantado. John Wright costumava dizer, orgulhoso, que aquela árvore já vigiava o horizonte antes mesmo de seu avô nascer. Meu pai jurava de pés juntos que aquilo era puro exagero de patrão. Eu nunca soube em quem acreditar, mas a verdade é que não importava.

Depois das aulas na Trinity, quando o uniforme começava a sufocar e a agitação dos corredores se tornava demais, era para lá que Aidam e eu escapávamos quase todos os dias. Às vezes, passávamos no posto de conveniência e levávamos duas latas de refrigerante; outras vezes, apenas desbravávamos o caminho em silêncio, jogando nossas mochilas na grama alta e nos deixando cair ali, observando o formato mutável das nuvens enquanto o vento morno balançava a copa acima de nós. Era o único refúgio onde o tempo parecia andar devagar, esquecendo-se de correr.

Naquela tarde de outono, porém, minha cabeça estava a quilômetros de distância daquelas nuvens. Deitada de lado, meus dedos arrancavam pequenas folhas de grama com uma insistência nervosa, destruindo o verde sem sequer perceber o que estava fazendo.

E Aidam notou. Ele sempre notava.

— Você está fazendo aquela ruguinha de novo. A engrenagem vai travar — ele comentou, a voz barítona ecoando perto de mim.

Virei o rosto na direção dele, piscando meus olhos azuis. — Que ruguinha, Wright?

Ele ergueu o braço displicentemente, apontando o indicador para o espaço exato entre as minhas sobrancelhas. — Essa aí. Você está tentando cavar um buraco na testa de tanto pensar.

Revirei os olhos, jogando um punhado de grama amassada na direção do peito dele. — Você implica comigo por puro esporte. Deveria arrumar um hobby melhor.

— Mas funciona — ele rebateu, exibindo aquele maldito e perfeito sorriso de canto enquanto os fios loiro escuros de seu cabelo dançavam com a brisa. — Você sempre reclama, o que significa que eu ganho.

Bufei, virando o rosto para cima de novo. O silêncio se instalou entre nós por alguns segundos, quebrado apenas pelo farfalhar das folhas secas. Meu estômago deu um nó, lembrando-se da conversa no banheiro feminino e do ultimato do final de semana. Respirei fundo, o ar parecendo pesado nos meus pulmões.

— Posso te fazer uma pergunta? — soltei, a voz saindo um pouco mais séria do que eu pretendia.

Aidam mudou de posição, virando o corpo de lado e apoiando a cabeça na mão, deixando aqueles olhos cor de mel esverdeados fixos em mim. — Desde quando você pede permissão para falar alguma coisa, Camille?

Sorri de lado, sentindo um calor sutil subir pelo pescoço. Era verdade. Eu nunca tinha precisado de filtros com ele. Peguei uma folha seca entre os dedos, girando o caule com cuidado, fingindo uma concentração absurda naquele objeto só para não ter que encará-lo de frente.

— Você já... beijou alguém? — a pergunta flutuou no ar, quase sumindo com o vento.

Aidam arqueou as sobrancelhas tão rápido e com uma expressão tão genuinamente pega de surpresa que eu quase quebrei o clima tenso com uma risada. Ele pestanejou algumas vezes, limpando qualquer traço de piada do rosto.

— De onde, em nome do Texas, veio essa pergunta agora?

Encolhi os ombros, mantendo os olhos fixos na folha. — Só responde, Wright. Não foge.

— Não antes de você me dizer por que raios quer saber disso do nada — ele negociou, a voz descendo um tom, assumindo uma defensiva que aguçou minha curiosidade.

Soltei um suspiro longo e dramaticamente cansado, jogando a folha para o lado. — O Luke Carter me chamou para ir ao cinema em Dallas neste sábado.

O corpo de Aidam tencionou instantaneamente. Ele permaneceu completamente imóvel, a postura relaxada de antes sumindo em um piscar de olhos.

— O Luke? — ele repetiu.

— É. O Luke Carter. O quarterback — completei, achando que ele estava apenas tentando situar o nome na hierarquia da Trinity.

Aidam pareceu processar a informação, os olhos focados em um ponto invisível no meu rosto antes de desviarem. — Ah... — foi tudo o que ele disse. O tom era neutro. Neutro demais, sem nenhuma daquela provocação barulhenta que ele costumava usar para qualquer assunto.

— As meninas no banheiro disseram que, se ele está me levando até Dallas, provavelmente vai tentar me beijar no final da noite — continuei, sentindo o peso da confissão esmagar meus ombros. Olhei para as minhas próprias mãos, unindo os dedos no colo. — E eu... bem... a minha voz saiu quase um sussurro confessional. — Eu nunca beijei ninguém, Aidam.

O vento forte do final de tarde atravessou os galhos do carvalho, preenchendo o espaço entre nós. Por longos e tortuosos segundos, Aidam não se moveu e nem disse uma única palavra. Eu podia ouvir a batida do meu próprio coração de tanta ansiedade. Quando ele finalmente quebrou o silêncio, a rigidez de seus ombros tinha cedido ligeiramente, e sua voz soou calma, quase protetora.

— Então não beija.

Levantei os olhos rapidamente, encarando-o de frente. — Como assim "não beija"?

Ele deu de ombros, arrancando ele mesmo um pedaço de graveto da terra. — Se você não quiser, Camille, você simplesmente não precisa. É uma escolha sua, não dele.

— Mas todas as garotas da nossa idade já...

— Camille — ele me interrompeu, o tom ficando um pouco mais firme, capturando meus olhos azuis com a intensidade daqueles olhos mel que pareciam mais verdes sob a sombra da árvore. — Você não deve beijar um cara só porque as suas amigas acham que está na hora, ou porque o quarterback da escola espera isso de você. Faz quando você estiver pronta. Quando você sentir vontade de verdade. Não para preencher uma lista de expectativas de terceiros.

Um sorriso involuntário e relaxado brotou nos meus lábios. Aquela era uma resposta muito... Aidam. Sem rodeios, sempre simples e, de um jeito meio bruto, fazendo o mais perfeito sentido. O pânico que estava me consumindo desde o horário do almoço evaporou quase por completo.

— E como foi para você? — perguntei, a curiosidade adolescente beliscando minha língua antes que eu pudesse contê-la.

Ele soltou uma risada curta, meio sem graça, desviando o olhar. — O quê?

— O seu primeiro beijo, ué. Me dá um parâmetro.

Aidam coçou a nuca, visivelmente desconfortável com o rumo daquela conversa, os fios loiros escorrendo entre seus dedos. Ele pensou por um instante, fazendo uma careta engraçada antes de soltar a palavra: — Estranho.

— Estranho como? Detalha isso, por favor.

Ele torceu os lábios. — Molhado.

Arregalei os olhos, encarando-o com uma expressão de puro horror. — Molhado?!

— Muito molhado — ele confirmou, balançando a cabeça de um jeito sério que só tornou tudo pior.

Meu nariz enrugou automaticamente em uma careta de repulsa total. — Que nojo, Aidam! Meu Deus, então a teoria da Emma sobre morder a língua faz sentido. Que horror.

Ao ver o meu desespero, ele não aguentou. Soltou uma risada ruidosa e contagiante, o peito sacudindo enquanto deitava de costas na grama novamente.

— Estou falando sério! Não ri da minha desgraça — protestei, empurrando o ombro dele.

— Não pode ser tão ruim assim, você que é dramática — ele provocou entre os risos.

— Pode sim! Você acabou de dizer que é um troço nojento!

Comecei a rir junto com ele, uma gargalhada limpa que lavou toda a tensão daquela tarde. Rimos tanto que precisei apoiar a testa nos meus próprios joelhos dobrados para conseguir recuperar o fôlego que havia sumido.

Quando finalmente os espasmos de riso cessaram, um silêncio completamente diferente tomou conta do espaço sob o carvalho. Não era o silêncio pesado do luto de anos atrás, e nem o silêncio barulhento do nervosismo. Era apenas... novo. Denso. O vento fazia as folhas acima de nós dançarem, projetando sombras e feixes de luz dourada sobre a pele de Aidam. Ao longe, a silhueta de alguns cavalos cruzava o pasto lentamente, desenhando o cenário perfeito do nosso mundo.

Foi então que uma engrenagem estalou na minha mente. Uma dúvida tardia, mas absurdamente óbvia. Virei o rosto devagar, estreitando os olhos na direção dele.

— Espera aí.

Aidam continuou deitado, mas virou os olhos cor de mel na minha direção. — O que foi agora?

— Você já beijou alguém de verdade? Tipo... de verdade mesmo?

A resposta dele veio sem o menor milésimo de segundo de hesitação. Rápida. Cortante. — Claro que já.

Inclinei um pouco a cabeça, analisando cada milímetro do seu rosto. Eu conhecia Aidam Wright desde os nossos seis anos de idade. Sabia decifrar o tom exato de quando ele estava bravo, a postura de quando estava exausto das obrigações com o pai, e o olhar exato de quando estava tentando esconder uma travessura de Amalia. E naquele exato momento, com o sol batendo na lateral do seu maxilar rígido...

Ele estava mentindo descaradamente.

Um sorriso de canto, vitorioso e astuto, brotou nos meus lábios. — Você está mentindo, Wright.

Aidam piscou, desviando os olhos rapidamente para a linha do horizonte, fingindo um interesse repentino nos cavalos ao longe. — Não estou não. Ficou louca, Camille?

Cruzei os braços, sentando-me ereta na grama. — Está sim. Com certeza está.

Ele soltou uma risada baixa, uma defensiva meio derrotada, e aquele maldito sorrisinho discreto dele voltou a aparecer no canto da boca enquanto ele balançava a cabeça. — Certo, Sherlock Holmes da fazenda. Como é que você sabe?

Meu sorriso se alargou ainda mais, a sensação de triunfo aquecendo meu peito. — Porque toda vez que você mente para mim, você responde rápido demais. Como se estivesse com medo de eu descobrir antes de você terminar a palavra.

Aidam soltou um suspiro audível, cobrindo o rosto com uma das mãos em um sinal claro de rendição, embora eu pudesse ver os lábios dele sorrindo por entre os dedos. — Você é insuportável, sabia?

— Aprendi com o melhor — rebati, piscando para ele.

Nossos olhares se encontraram por um breve e suspenso instante. O riso morreu aos poucos, dando lugar àquela mesma eletricidade estranha que vinha nos rondando desde o início das aulas. Nenhum dos dois disse mais nada. Naquela tarde abafada, sob a proteção do carvalho antigo, eu só tinha certeza de uma única coisa: se o herdeiro dos Wright, o cara mais confiante da Trinity Christian Academy, ainda não tinha dado o seu primeiro beijo... então eu não era a única criatura completamente perdida naquele território desconhecido da adolescência.

E, inexplicavelmente, aquela descoberta fez meu coração bater em um ritmo totalmente descompassado.

O silêncio que se seguiu não era incômodo, mas tinha um peso novo, como se a revelação de que nós dois estávamos no mesmo barco mudasse as regras de um jogo que jogávamos há anos. Aidam tirou a mão do rosto, e seus olhos cor de mel esverdeados encontraram os meus. Não havia mais deboche ali. Havia aquela seriedade protetora que ele só usava comigo.

— Então... — comecei, tentando quebrar a intensidade do momento, limpando a grama que tinha grudada no meu jeans. — O que o grande e experiente Aidam Wright sugere que eu faça no sábado? Desmarque com o Luke e diga que prefiro ir caçar lagartixas no riacho?

Aidam sentou-se na grama, dobrando um dos joelhos e apoiando o braço nele. Ele olhou para os próprios sapatos por um instante antes de cravar aquele olhar firme em mim.

— Você quer ir a esse cinema, Camille? De verdade?

Pensei por um segundo. A ideia de ir a Dallas, comer pipoca e ter um garoto popular como Luke prestando atenção em mim era tentadora, tinha aquele frio na barriga típico dos quinze anos.

— Acho que sim — confessei, sincera. — Quero ver como é. Só... não quero passar vergonha. Ou ser pressionada a fazer algo que não sei se estou pronta.

Aidam soltou o ar pelo nariz, o maxilar travando de leve quando mencionei o nome de Luke indiretamente. Ele ficou em silêncio, calculando algo na mente, até que um sorriso arrogante, mas estranhamente reconfortante, cruzou seus lábios.

— Ótimo. Você vai.

— Vou? — pisquei, surpresa com a mudança repentina de atitude dele.

— Vai. Mas você não vai sozinha — ele decretou, pegando a mochila do chão e jogando-a por cima de um dos ombros, levantando-se em um movimento ágil e estendendo a mão para me puxar.

Segurei seus dedos calejados, sentindo aquele puxão firme que me colocou de pé num piscar de olhos. Mesmo de pé, eu ainda precisava inclinar a cabeça para encará-lo.

— Como assim não vou sozinha, Aidam? É um encontro. Você vai sentar na nossa fileira e segurar a terceira lata de refrigerante?

Ele soltou uma risada baixa, o som vibrando no peito largo.

— Claro que não, tampinha. Eu tenho mais o que fazer da minha vida — ele começou, caminhando de volta na direção da cerca, me forçando a apertar o passo para acompanhá-lo. — Mas eu vou estar em Dallas. No mesmo shopping. No mesmo cinema. Vou comprar um ingresso para a fileira de trás, algumas cadeiras para o lado. Vou observar de longe.

Parei de caminhar no mesmo segundo, de queixo caído. — Você enlouqueceu de vez? Isso é perseguição! Se o Luke te vir lá, vai achar que você é um psicopata.

Aidam parou também, virando-se para mim. Sob a luz dourada do fim de tarde do Texas, seus olhos pareciam quase completamente verdes, brilhando com uma determinação imbatível. Ele deu um passo na minha direção, invadindo meu espaço pessoal, até que eu pudesse sentir o calor que emanava dele.

— O Carter não vai me ver, porque ele vai estar ocupado demais tentando impressionar você. E eu conheço caras como ele, Camille. Se ele tentar passar dos limites, ou se você se sentir desconfortável por qualquer motivo que seja... — ele deu de ombros, a voz descendo para um tom calmo, quase perigoso. — Você só precisa fazer um sinal.

— Que sinal? — perguntei, com o coração batendo rápido, uma mistura de nervosismo e algo completamente novo acelerando meu peito.

— Qualquer um. Ajusta o seu chapéu. Mexe no cabelo. Olha para trás duas vezes — ele listou, aproximando-se mais um centímetro, o suficiente para que eu visse as pequenas ramificações douradas na íris dele. — Se algo sair do controle, você faz o sinal. E eu dou um jeito de tirar você dali antes que ele consiga entender o que aconteceu. Combinado?

Encarei Aidam, sentindo uma onda de alívio e uma estranha eletricidade me paralisar. Ele estava disposto a passar o sábado à noite escondido em um cinema em Dallas só para garantir que eu estaria segura. Era uma atitude completamente absurda, tipicamente Wright, e a coisa mais absurdamente doce que alguém já tinha feito por mim.

— Combinado, Wright — sussurrei, tentando manter a voz firme. — Mas se você derrubar a pipoca e estragar o meu disfarce, eu te janto vivo.

Ele soltou aquela risada de canto que fazia meu estômago dar voltas, bagunçando meus cabelos castanhos com um empurrão leve antes de voltar a caminhar.

— Justo. Agora vamos, antes que meu pai ache que fomos engolidos pelos coiotes.

Segui logo atrás dele, olhando para as suas costas largas que bloqueavam o vento do Texas. O sábado estava chegando, e com ele, o meu primeiro encontro oficial. Mas, por algum motivo, a minha mente não conseguia mais focar em Luke Carter. Todo o meu mundo, de repente, parecia girar em torno do garoto loiro escuro que caminhava alguns passos à minha frente, prometendo me vigiar na escuridão.