Com Todo Amor - O começo
1 Algumas lembranças nunca vão embora
Existem lembranças que guardamos com a nitidez de uma fotografia revelada. O primeiro dia de aula com sapatos novos que machucavam os calcanhares, o cheiro reconfortante de torta de maçã com canela saindo do forno em uma tarde de outono, a sensação exata da grama do Texas, alta e ligeiramente seca pelo sol, espetando a sola dos pés descalços.
E existem aquelas que sobrevivem apenas em fragmentos, como pedaços de um espelho quebrado que tentamos colar de volta na memória.
As minhas pertencem ao segundo grupo. Algumas nasceram comigo; outras foram costuradas pelas histórias que meu pai, Amália e John repetiram tantas vezes ao redor da mesa da cozinha que acabei me apropriando delas. Mas, quando fecho os olhos, a varanda da casa onde passei meus primeiros anos ganha vida instantaneamente. O balanço de madeira rangendo sob a sombra da velha mangueira — uma raridade trazida de fora que desafiava o clima seco —, as galinhas ciscando no quintal da propriedade com a audácia de quem era dona do lugar, e meu pai, Otto, cruzando a cerca dos estábulos com o chapéu de caubói coberto de poeira e aquele sorriso largo que surgia em seu rosto cansado antes mesmo que ele pudesse tirar as botas de couro gastas.
Nossa casa era simples, mas acolhedora, situada a pouco mais de um quilômetro da imponente propriedade dos Wright. Naquela época, eu não entendia absolutamente nada sobre dinheiro, heranças ou a fortuna que o nome deles carregava por todo o Texas. Para mim, o mundo não era medido em dólares. Então, a única forma que minha mente de seis anos encontrava para processar os Wright era olhando para a casa deles: um lugar tão absurdamente enorme que, na minha cabeça, só podia pertencer a um rei.
Aquela construção de paredes brancas e portões gigantescos era o meu castelo de contos de fadas particular, e o fato de o meu pai, Otto, ser o capataz daquele lugar — o homem de confiança que resolvia tudo e cuidava de cada palmo de terra enquanto John viajava — só me fazia ter mais orgulho dele. Meu pai era o herói que mantinha o reino funcionando. Apesar da distância entre a nossa casinha e o palácio deles, o chão de terra nivelava a todos nós sob o mesmo sol escaldante.
E Aidam... bem, Aidam Wright tinha exatamente a minha idade, os mesmos olhos curiosos e uma energia que parecia inesgotável. Ele podia morar no castelo e ter o quarto cheio de brinquedos caros que vinham de Dallas, mas preferia passar os dias comigo, correndo descalço e caçando lagartixas. Se alguém me perguntasse quem era o centro do meu mundo além dos meus pais, a resposta seria imediata e sem hesitação: Aidam.
Nós brigávamos cinco vezes por dia por causa de bobagens — quem correria mais rápido até a cerca, quem pegaria o melhor galho para fingir que era uma espada — e fazíamos as pazes na sexta...
E minha mãe...
Dela, guardo mais sensações físicas do que diálogos estruturados. O aroma floral e fresco de lavanda que parecia segui-la por onde passava, as mãos suaves que pareciam emanar um calor constante e reconfortante, e os fios de cabelo castanho que me faziam cócegas no rosto sempre que ela me apertava contra o peito para me acalmar após um pesadelo.
Naquela época, ela esperava Florence. Eu tinha seis anos e a inocência absoluta de quem acreditava, com toda a pureza da infância, que minha irmãzinha sairia da barriga da minha mãe pronta para brincar de boneca no tapete da sala. Lembro-me perfeitamente de uma tarde em que o calor de Dallas dava uma trégua, e eu encostei a bochecha na curva saliente da barriga dela, sentindo um chutezinho tímido lá de dentro.
— Quando você nascer, eu vou te ensinar tudo — sussurrei para o ventre redondo.
Minha mãe soltou aquela risada suave e melodiosa que parecia afastar qualquer sinal de tempestade.
— Tudo, Camille?
— Tudo.
— Até a subir no teto do celeiro?
— Principalmente a subir no teto do celeiro. É o melhor lugar para ver as luzes de Dallas acendendo de longe.
Ela olhou para o vão da porta da cozinha, fingindo uma indignação que nunca conseguia sustentar de verdade ao encarar meu pai, que acabava de entrar.
— Otto, você escutou isso? Nossa filha quer transformar a caçula em uma criaturinha selvagem.
Meu pai apenas riu de volta, ajeitando o cinto de fivela larga. Era um riso limpo, tranquilo, sem o menor rastro de preocupação. Daqueles que só existem quando a felicidade é tão plena e rotineira que a gente nem sequer desconfia que o destino está prestes a mudar as regras do jogo.
Naqueles anos dourados, nosso universo se resumia aos limites da fazenda. Embora a mansão dos Wright fosse cercada por portões imponentes e carros luxuosos que vinham da cidade para reuniões de negócios, para mim e para Aidam, o mundo era apenas um grande playground de terra e plantações.
Vivíamos apostando corrida pelos pastos, inventando reinos impossíveis no topo dos fardos de feno, construindo fortes com galhos secos e voltando para casa ao entardecer com os joelhos ralados e a pele completamente coberta pela poeira vermelha do Texas.
— Esses dois parecem ter sido criados no meio dos bezerros — Amalia Wright reclamava sempre que nos via chegar daquela forma na varanda da mansão. Mas, apesar de suas roupas finas e de suas joias discretas, ela nunca nos afastava. Pelo contrário, esticava os braços e limpava nossos rostos suados com a barra de seu próprio avental de linho, tratando-me com o mesmo carinho que dedicava ao filho.
— Deixe os garotos, Lia. Pelo menos eles sempre voltam inteiros para casa — John rebatia da sua poltrona de couro, tirando os olhos dos relatórios de petróleo para piscar para nós, exibindo um sorriso cúmplice.
A gente acreditava, com a certeza ingênua e imbatível da infância, que o tempo esqueceria de passar e que seríamos aquelas crianças para sempre. Mas o tempo nunca esquece. E a terra do Texas, que dava tanta riqueza aos Wright, estava prestes a cobrar um preço alto demais da nossa família.
Na madrugada em que Florence decidiu nascer, o silêncio pesado da fazenda foi partido por vozes aflitas que atravessavam o corredor da nossa casa. Acordei assustada, com o coração batendo na garganta, vendo a luz amarelada e forte do corredor invadindo a fresta do meu quarto. O som do vento do lado de fora parecia acompanhar o caos interno. Meu pai corria de um lado para o outro, as mãos trêmulas e a voz embargada pelo pânico, enquanto os suspiros pesados e os gemidos de dor da minha mãe ecoavam pelas paredes de madeira, carregados de um sofrimento que minha mente de seis anos não conseguia processar.
Antes que o medo se transformasse em choro, a porta do meu quarto se abriu e os braços fortes de John Wright me ergueram do chão. Ele tinha vindo correndo da mansão assim que meu pai ligou pedindo ajuda. Tentei esticar o corpo por cima do ombro de John, buscando desesperadamente um vislumbre dela no quarto vizinho.
— Mamãe... — chamei, a voz sumindo em um sussurro sufocado.
Ela virou o rosto suado na minha direção e, mesmo exausta, lutando contra a dor que a consumia, sorriu. Um sorriso rápido, terno, profundamente protetor. O tipo de sorriso que uma mãe dá para dizer que vai ficar tudo bem, mesmo quando o mundo está desabando.
Foi a última vez que o vi.
As complicações no parto foram severas demais para o médico da cidadezinha vizinha resolver a tempo. Naquela noite fria e assustadora, enquanto as cigarras cantavam do lado de fora e os poços de petróleo dos Wright continuavam a bombear silenciosamente ao longe, eu não me despedi apenas da minha mãe. Sem ter a menor dimensão do tamanho do vazio que se instalaria no meu peito, eu me despedi também da menina inocente que eu costumava ser.
A partir dali, a fazenda nunca mais teve o mesmo cheiro de lavanda. E eu descobri, cedo demais, que algumas dores mudam o nosso rumo para sempre.
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