Colors

1 Chapter one: Birthday


O céu estava claro quando saí pela primeira vez. O sol, branco. A grama terrivelmente pálida e as arvores sem folhas. Nunca vi outra paisagem que fosse tão linda como aquela. Mas também nunca vi outra. Nasci em um lugar distante da cidade, minha mãe se foi por mim naquele dia, era uma empregada do casarão. Não deveria pensar em coisas assim, mas não consigo evitar. Por mais nada que eu era, precisava ser algo por dentro. Eu achava que era algo por dentro. Minha vida nunca foi para se reclamar. Dormia o quanto quisesse, comia quando quisesse, mas eu não podia sair quando quisesse. Esta regra foi imposta por Colin Joseph Franco, ele era muito rico e carismático. Sempre cuidou de mim, apesar de sempre estar negociando em outros horizontes. Não me lembrava do porque ele me mantinha lá dentro, acreditava que ele tinha medo. Porém, ao contrário da amiga que eu era para o Senhor Franco, havia a sua família que me tratava bem apenas porque seriam castigados caso me maltratassem – palavras do próprio Senhor Franco. Estes eram a sua mulher, Amora; seu filho mais velho, Lucian; e a noiva de Lucian; Grace. Eu os tratava bem apenas porque seria castigada pelo Senhor Franco se eu não o fizesse, também não gostava muito deles.

Não poderia descrever o casarão por fora, nunca o vi muito bem. Porém, por dentro ele é inteiramente preto e branco. Nada possuía cor, nem sequer a luz que nos aquecia na lareira. Isso me fazia sentir arrepios quando vagava pelos corredores, que normalmente estavam muito escuros. Quando Lucian era um adolescente mimado, me assustava sempre que podia, pois ele sabia que eu não o esperava ali. Mas eu não tinha medo do escuro. Eu sentia algo no escuro. Quando comentei isso com o Senhor Franco, ele me disse com todas as letras de que era apenas um bicho-papão tentando me apavorar e em seguida me perguntou do que eu tinha mais medo.

— Do homem de chifres brancos – respondi inocentemente, meus lábios tremiam ao lembrar – Ele vem me trazer doces.

Depois daquele momento, o Senhor Franco enlouquecera comigo. Obrigou-me a me banhar com uma água purificada todas as noites e me fizera prometer não provar o doce. Minha infância fora perturbada, mas o homem de chifres brancos nunca mais voltou. E eu nunca acreditei que ele pudesse realmente ser mau. Quando eu cresci, já era uma moça feita – palavras da Senhorita Amora –, afinal, era meu aniversário de dezesseis.

Foi um dos melhores e mais confusos dias da minha vida.

Acordei com batidas na porta, abri meus olhos devagar, não queria abri-los e encarar as mesmas pessoas naquele dia. Porém, as batidas insistiam. Esfreguei os olhos e movi minhas pernas para fora da cama, empurrando os lençóis que me cobriam para longe do meu corpo, fazendo impulso para me sentar no colchão. Não coloquei sapato e nem penteei meu cabelo – quem quer que fosse através da porta sabia bem que eu não iria acordar cedo -, fui até a porta ainda bocejando e a abri.

Era o Senhor Franco. Ele estava vestido de branco com um branco mais claro ainda, suas botas e cinto eram pretos e sua pele era apenas escura. Seus olhos, porém, era de um escuro mais claro. Era alto e possuía uma boa postura, sempre quis ser como ele, transmitir a mesma confiança. Eu o achava belo, mas do tipo belo apenas de se ver. Como uma pintura.

— Comprei uma coisa para você – disse ele, sorrindo. Olhei para baixo e vi que ele segurava uma caixa branca com um laço perfeito preto. Retribui o sorriso sem olhar para ele. O pacote foi estendido para mim e eu o peguei sem hesitar, correndo para a cama. Sentei e abri o pacote em meu colo, notando o que havia dentro. Olhei para o Senhor Franco com duvida no olhar – Pensei que fosse gostar de um vestido novo.

Eu já não sorria mais, mas estava feliz com a surpresa por mais que eu não a entendesse. Retirei o vestido da caixa e o observei com atenção. Ele era todo rico em detalhes, a costura era magnífica e o tecido muito macio. Possuía rendas aqui e ali e a saia era longa o suficiente para cobrir meus pés, coisa que não acontecia com minhas camisolas brancas. A cor do vestido era de um branco um pouco mais escuro. Eu gostava daquela cor.

— Obrigada, Senhor Franco – disse, voltando a olhar para ele, que estava impecável na entrada do meu quarto – Mas para que ele foi dado a mim? Logo a mim que não saio daqui. – Suspirei e acrescentei rapidamente – Não foi uma queixa, eu amo este lugar!

Ele soltou um riso frouxo e se aproximou mais da caixa do que de mim.

— Vamos sair hoje.

E então eu sorri.

...

Mais tarde, naquele mesmo dia, ouvi novamente batidas urgentes. Eu já estava arrumada, com o vestido no corpo e com os cabelos bem penteados e soltos. Meus pés estavam livres de qualquer sapato – agradeci o vestido por ter tampado os meus pés, o Senhor Franco não gostava muito de me ver descalça. Fui até a porta e a abri com a esperança de que seria o meu pai de mentira quando, para minha surpresa, quem estava lá era seu verdadeiro filho.

Revirei os olhos e empurrei a porta para fechá-la quando ele pôs o pé antes que eu o fizesse, parecia aborrecido com o meu ato. Fitei-o sem entender, ele nunca falava comigo e agora batia na minha porta para me atazanar. Suspirei e soltei a porta, pensando que o Senhor Franco o mandara ali.

— Fale logo – instrui.

— Meu pai não poderá levá-la para fora – seu tom era de empatia, mas eu duvidava que realmente fosse.

— Por quê? – questionei no meu tom mais duro que consegui – Ele me prometeu!

Ele sorriu abertamente, fazendo-o ficar belo como o pai, porém estúpido como a mãe. Não sei explicar como, mas senti o meu sangue ferver e meus punhos se apertaram involuntariamente. Normalmente eu me considerava uma pessoa tranquila, mas naquele momento eu só queria gritar. Mas eu não o fiz. Ao invés disso, fiz algo mais indelicado sair de mim. E quando ele se deu conta, já estava cuspido no rosto. Retirou um lenço do bolso e limpou o rosto rapidamente, sorrindo em seguida.

— Ah, sempre soube que era selvagem – ele esnobou, balançando o lenço até o atirar para mim. Deixei-o cair. – Eu estava mentindo, você deve sair agora, pois seu segundo presente chegou.

— Segundo presente? – franzi o cenho, confusa.

— Eu ganho mais, é claro. Grace também, ah, ela merece ainda mais – falava com um falso ar de sonhador, logo se virando para mim novamente – mas você só vai ganhar dois – ele riu por segundos – Ande! Ande logo! – e agitou as mãos até eu sair correndo do quarto.

Percorri os corredores levemente escuros, sentindo o tapete macio em meus pés enquanto eu caminhava, apressada, em direção a sala de recepção. Tentando aliviar minha expressão e não demonstrar o quão incomodada eu estava com aquele mesquinho do Lucian mexericando em meu quarto. Dois presentes? Merecer mais? Eu não merecia nem a cama em que eu dormia a noite.

Por fim, o Senhor Franco abriu a porta e estendeu sua mão. Eu me aproximei e segurei na mão dele e ele me guiou para além da porta. Finalmente eu veria lá fora. E eu estaria ali, não seria mais uma pintura e sim parte da minha vida.

O sol estava deitado na copa das arvores ao longe, branco no preto. Sorri ao observar os tons escuros que rondavam o céu. Voltei a olhar para o Senhor Franco e notei que ele sorria para mim. Descemos os pequenos degraus da entrada, uma carruagem preta nos esperava. Os cavalos já impacientes de estarem parados. Aquilo era tão lindo que eu queria tocá-los com minhas próprias mãos, sentir a textura.

O Senhor Franco abriu a porta da carruagem para mim e quando levantei meu pé, lembrei-me de um detalhe importante e olhei para trás. O casarão era magnífico por fora. Possuía muitos tons e sombras, e o branco que recebia destaque era o tom mais utilizado. Sorri e entrei na carruagem, sentando no estofado que havia por dentro e admirando o seu interior quando o Senhor Franco entrou e fechou a porta.

— Para onde vamos? – perguntei, extremamente curiosa.

— Você verá.

E eu realmente vi. Demorou algum tempo, mas mesmo assim pude ver o caminho traçado pela janela. Tudo era incrivelmente belo. O campo, a natureza era uma mescla de tons pretos e brancos que eu nunca vi. Quando chegamos, ambos descemos da carruagem e respiramos o ar puro. Estávamos em um campo fechado por um muro muito bem esculpido, havia arvores com folhagens bonitas e esvoaçantes. Pude sentir a brisa em meu rosto e rondando pelos meus cabelos soltos. Logo o Senhor Franco me conduziu até uma arvore enorme, onde havia uma mesa de madeira embaixo. Lá havia algumas frutas e salgados, mas nenhum doce. Ele pareceu notar meu desapontamento porque logo perguntou:

— O que houve? – ele parecia preocupado – Não está se divertindo?

— Não, isto é incrível – Sorri ao responder, olhando tudo ao redor antes de voltar a olhar para ele – Eu nunca vou poder retribuir este presente, Senhor.

— Quem sabe um dia, nunca sabemos o dia de amanhã.

— Desculpe-me, não entendi.

— Não importa – ele respondeu calmamente – Ande! Conte-me o que há de errado.

Suspirei, pensativa. Que mal teria contar-lhe a verdade? Então contei sobre a cena de Lucian lá no quarto e da história dos presentes, deixando claro que eu não queria mais nada. Ele já fizera muito por mim e nunca recebera nada em troca.

— Aquele Lucian – disse ele quando eu finalmente terminei de contar a ele – Ele não sabe guardar segredos muito bem... – ele pensou antes de continuar – Enfim, está na hora de você ter um presente sólido. – e sorriu. Eu não havia entendido, porém não quis perguntar.

Aproveitamos o momento e conversamos sobre os livros que ele andara lendo e suas inúmeras viagens. Eu não falara muito, mas escutara como ninguém. Adorava ouvir histórias, por mais estranhas que fossem. Porém, o céu estava ficando escuro e o Senhor Franco achou melhor voltarmos para o casarão. Quando chegamos, ele me pediu para que fosse em direção ao meu quarto. Por isso corri até o mesmo, pensando no que ganhara.

Abri a porta do quarto rapidamente e arqueei as sobrancelhas ao ver o que havia ganhado, era impossível não ver. Um espelho que quase ocupava a metade de uma das paredes de meu quarto, todo cheio de detalhes nas bordas, com flores e cristais branquíssimos. Lagrimas brotaram de meus olhos — mas não deslizaram pelo meu rosto, e eu não conseguia parar de sorrir, era simplesmente magnífico.

Passaram-se alguns segundos quando finalmente me dei conta de que era hora de dormir. Retirei o vestido e tomei um banho – meus pés estavam imundos – antes de por uma camisola cumprida e branca, limpei meus dentes e voltei para a cama, sentando na mesma, dando uma ultima olhada no meu espelho. Não tinha reparado como meus olhos eram escuros e meu cabelo muito claro, era branco. Pisquei algumas vezes e balancei a cabeça. Meu reflexo nunca seria belo de qualquer jeito.

Com esse pensamento, deitei-me e dormir em um sono sem sonhos.