Colors

2 Chapter two: The mirror


Acordei com um zunido estranho, parecia vir de longe e mesmo assim me feria os ouvidos. Retirei o travesseiro debaixo de minha cabeça e o pus em cima de minha orelha direita, como se fosse – de algum modo – bloquear o som. Quando aquilo estava começando a me irritar profundamente, percebi que aquele som era apenas mental. Nada havia o produzido fora a minha mente. Pisquei lentamente, tentando abrir os olhos que insistiam em ficar longe da luz do sol que iluminava minhas cortinas com aquele branco do dia. Porém, meu estomago denunciou-me. Sentia fome.

Como meu aniversário já se fora, sabia que mais do que um "bom dia", ainda que fosse seco, não iria receber. E eu realmente não me importava com a recepção da família Franco, desde que não me escolhessem como o alvo da manhã. Como que já decidido, pulei da cama rapidamente, deslizando meus pés descalços pela madeira oca do chão em uma correria para me aprontar – ou quase isso. Apenas fui ao banheiro e penteei os cabelos, não havia muitas roupas em meu armário, tudo que havia eram minhas camisolas brancas. E agora o vestido que o Senhor Franco me dera. Por fim, acabei saindo do quarto do jeito que estava, já estavam acostumados comigo deste jeito – Mas não resisti e dei uma ultima olhada no espelho antes de sair.

Os corredores estavam bem iluminados, com sombras aqui e ali. Caminhei mais devagar desta vez, aproveitando o momento silencioso por um tempo considerável. Cheguei à sala de jantar quando todo mundo ainda estava por ali, comendo e bebericando seu chá – infelizmente. A Senhorita Amora estava sentada em uma das pontas da mesa, em uma cadeira alta e confortavelmente bela; Seu filho – Lucian – estava sentado na cadeira seguinte, que era menor e igual às outras do resto da enorme mesa. Sua noiva – Grace — Sentava à sua frente. Aproximei-me e arrastei uma das cadeiras que estavam em meio às vazias, sentei-me silenciosamente – embora um pouco sem jeito. Senti que me olhavam, mas não olhei de volta. Baixei minha cabeça e comecei a me servir.

Na mesa havia tudo do bom e do melhor, disto eu não poderia reclamar. Apesar de não estar sentada junto a eles, ainda sim podia me servir de coisas fresquinhas e quentes. Inúmeros bules de chá com flores desenhadas nos mesmos, pelos tons claros e escuros, pude notar qual era o sabor do chá que havia dentro. Servi-me em uma xícara com chá de maçã e apanhei alguns pães do tamanho de biscoitos e os comi lentamente, suspirando cada vez que engolia. Estava realmente muito delicioso. Em seguida puxei um guardanapo e limpei minha boca apenas por mania, pois não havia nada para limpar. E então cometi um erro.

Olhei para a família que me encarava no outro lado da mesa e engoli em seco. Pus o guardanapo de lado e os encarei pra valer, com o arrependimento ardendo em minha garganta. Deram-me bom dia, com exceção de Grace – que desde que conheceu Lucian me odiava com a mesma força que o próprio noivo sentia nojo de mim. Eu sorri, olhando principalmente para ela, pensando no que eu poderia ser na mente daquela mulher. Ela era mais jovem que Lucian e possuía a pele mais clara do que a dele, seu cabelo era apenas um pouco mais escuro que o meu. Eu a achava bela, mas nunca diria isso em voz alta nem que me obrigassem.

— Bom dia – respondi no tom mais sério possível, e então me calei. Fitei minha xícara já vazia por um bom tempo, tanto tempo que nem notei quando todos os três já haviam ido embora. Deixando apenas eu e a velha Annie, a empregada, no cômodo. – Onde foram? – perguntei a ela.

Ela parou o que estava fazendo para me encarar.

— Estão indo visitar amigos próximos – respondera ela, logo voltando ao trabalho.

Suspirei e voltei ao meu quarto.

...

Sentada em minha cama cheia de lençóis brancos, eu mirava o espelho tentando encontrar um defeito naquele presente tão perfeito. Não conseguia parar de olhá-lo, algo estaria errado com ele. Talvez uma parte de mim não aceitasse ter algo exclusivo e de boa qualidade, já que sempre ganhara sobras de Grace. Já estava aceitando que o espelho era minha recompensa por sobreviver sem chorar uma vez sequer em minha vida perfeita quando notei que havia uma pequena rachadura no canto dele. De um modo completamente estranho, eu me levantei e fui, atraída pela rachadura, até o espelho.

Levantei meu braço e toquei na rachadura, deslizando meu dedo por ela. Ao sentir aquela textura fina, algo dentro de mim sussurrou palavras de incentivo para que eu continuasse a rachá-lo. Com minha unha, arranhei o espelho no mesmo lugar onde ele estivera arranhado antes, sentindo um estranho prazer neste ato. Ia continuar, mas me contive, pensando no que o Senhor Franco diria se me visse destruindo o presente mais belo que ele me dera. Ignorei este pensamento, entrando em um transe impenetrável. Balançava meu corpo lentamente como se dançasse uma melodia suave, mas apenas me mantinha ali, com a unha roçando na rachadura que parecia estar cada vez mais aberta.

E um mínimo pedaço se quebrou e caiu no chão. Eu acompanhei sua queda, não deixando de olhá-lo até que atingisse a madeira fria. Voltei a fitar a rachadura, agora tentando arrancar outros pequeninos pedaços. Não que de fato eu queria fazê-lo, mas eu não conseguia pensar em mais nada. Eu precisava destruir aquele muro que me separava de... De onde? De quem? Do que? Parei e pisquei fortemente. Meus olhos queimavam, fazendo com que lagrimas brotassem e escorressem pelo meu pálido rosto. O que estava acontecendo? Era como se eu finalmente acordasse. Abri meus olhos.

Por trás da névoa que minhas lagrimas criaram havia um espaço oco com riscos distintos em um tom escuro, muito escuro. Cheguei mais perto e contive o grito que ficou preso em minha garganta. Olhei para baixo e vi que os cacos do antigo espelho estavam quebrados e perfurando os meus pés descalços que sangravam sem parar, me causando certo enjoo. Engoli em seco e passei a mão direita pelo oco que antes era o espelho e notei que minha mão também sangrava. Ergui a outra mão e vi o sangue escorrer pelo meu braço, manchando a manga de minha camisola branca e limpa. Minha boca se abriu em um grande "O". Não sabia o que fazer ou como agir, aquilo estava me ferindo, mas eu não conseguia me mover.

— Emília — uma voz feminina me chamou, vinha de trás de mim. Fiz menção que ia me virar e senti uma mão segurando na minha. Olhei para o lado e vi alguém, uma garota da minha altura, possuía o cabelo escuro e os olhos também. Vestia uma roupa estranha do tom de sua pele. Sua pele pálida como a minha. Na verdade, ela não era muito diferente de mim, os pequenos detalhes de nossos rostos nos faziam ser realmente parecidas. Senti meus nervos congelarem, minha cabeça doeu e pisquei os olhos várias vezes até que a ultima vez veio e tudo se tornou escuridão.

Meu nariz sentiu o cheiro de chuva antes que eu pudesse abrir os olhos e ouvir as gotas caírem do céu. Minha cabeça ainda latejava, e meu corpo parecia se recusar a se levantar. Então optei por ficar deitada, mas com os olhos abertos. Olhei ao redor umas três vezes antes de notar que nada estava como antes. A miúda rachadura ainda estava lá no espelho, que estava normal e perfeito. Olhei para o chão e o mesmo permanecia limpo, sem rastro algum de sangue. Franzi o cenho, não entendo se aquilo fora um sonho ou se realmente aconteceu.

Normalmente minha vida era tranquila e previsível. E então o espelho se quebra, uma garota aparece e eu acordo em minha cama com dores por todo o corpo como se nada tivesse acontecido. Foi então que a loucura começou a me assustar, pensei que era coisa da minha cabeça, tinha de ser. Imagine só! Quanta loucura! Fora apenas um sonho, eu dizia. Apenas um sonho ruim. Um pesadelo! Exatamente! Meus pensamentos se foram quando ouvi a porta de meu quarto abrir, era o Senhor Franco.

Arregalei os olhos em sinal de surpresa.

— O senhor não estava...? – comecei com a voz rouca.

— Não, apenas estava indisposto para acompanhar Amora em um de seus passeios – explicou ele, sorrindo fraternamente enquanto adentrava o quarto e se aproximava de mim. Ele sentou-se na cama ao meu lado e segurou em uma das minhas mãos como quem lamenta a morte de alguém. Ele deve ter notado o meu olhar, que ainda transpirava confusão, porque em seguida completou – Você está bem, acredite em mim. Sabia que isso fosse acontecer, mas não imaginei que seria tão rápido ou que te machucaria tanto.

Estremeci, apertando a mão dele como quem pede socorro.

— O que aconteceu, pai? – perguntei sem perceber o que havia falado, fazendo com que o choro queimasse em minha garganta.

Porém, ele não pareceu se importar, parecendo indiferente.

— Você se lembra de todos os cuidados que eu tomava com você quando era só uma menininha? – Balancei a cabeça positivamente – Era disto que eu a protegia – continuou ele – Você via pessoas com chifres por todo lugar quando ainda nem conseguia pensar direito, isso me fez prender-te aqui durante seu crescimento. Mas isso não pode ser controlado, deve se terminar de vez. E agora você pode fazer isso, minha querida. – seu tom era calmo e sereno.

— Eu não entendo – respondi – só lembro-me de um homem...

— Por isso lhe dei o espelho, é a unica forma de concertar tudo isso – interrompeu-me ele – Havia uma garota, certo?! Ela saberá o que fazer.

— Qual o nome dela? Por que isso aconteceu comigo? – meus lábios tremiam a cada palavra dita, isto me fazia ficar mais nervosa ainda.

— Não devo dizer – começou, logo se apressando em acrescentar – porque eu não sei, nunca me disse. Tem medo de revelar seu nome. – e então pensou um pouco antes de retomar a fala – E isto não é apenas sobre o que aconteceu, Emilia, é sobre o que vai acontecer. – o Senhor Franco levantou-se, largou minha mão e foi-se porta afora.

Nas próximas horas eu fiquei pensando no que faria, o que foi bom pra mim, pois o susto do momento estava passando. Eu poderia ser uma garota corajosa, mas não podia negar que havia um pavor guardado dentro de mim. Pensei também naquela garota que não sabia da minha mente, o seu toque ainda permanecia em minha mão. Não poderia explicar como era sentir aquele toque, acho que era como o passeio que tive com o Senhor Franco: Libertador.

Suspirei e olhei para porta apenas por puro costume, acho que o Senhor Franco havia se esquecido dela aberta, pois ela estava. E a garota sem nome também estava ali, escorada, me olhando com seus olhos misteriosos e brilhantes. Agora ela vestia uma camisola branca como a minha. Parecia um anjo.

Tentei me mover novamente, conseguindo apenas ficar sentada. Fitei a garota novamente e ela sorriu minimamente para mim.

— Qual seu nome? – arrisquei, arqueando uma das minhas sobrancelhas em parte por sentir dor a cada movimento meu.

Ela apenas me encarava, sorrindo. Esperei em silencio por uma resposta, a curiosidade me fazendo ficar nervosa novamente. Após alguns minutos, percebi que ela não iria me responder e então desviei o olhar dela para o teto pintado de branco, engolindo a decepção que ficara presa em minha garganta.